No pátio do anti­go Templo de Apolo, em Delfos, os visi­tan­tes eram rece­bi­dos com uma ins­cri­ção que dizia «Conhece-​te a ti mes­mo». No par­que temá­ti­co de Westworld não exis­tem ins­cri­ções como no tem­plo dos anti­gos gre­gos, mas o con­vi­te mantém-​se, de for­ma implí­ci­ta.

O afo­ris­mo tan­tas vezes usa­do por filó­so­fos como Sócrates já não con­vi­da à auto-​reflexão crí­ti­ca. Westworld dese­ja que os visi­tan­tes se conhe­çam a si pró­pri­os enquan­to exer­cem um poder qua­se abso­lu­to sobre outras cri­a­tu­ras.

Para os res­pon­sá­veis pelo parque-​mundo de Westworld, os visi­tan­tes huma­nos sabo­rei­am deli­ci­o­sos fru­tos proi­bi­dos num Éden onde não exis­te peca­do ori­gi­nal nem deu­ses recri­mi­na­do­res. E as cri­a­tu­ras que eles matam ou vio­lam não são pes­so­as, mas répli­cas arti­fi­ci­ais — nem sequer estão vivas.

Os «hós­pe­des» apresentam-​se em Westworld exci­ta­dos como o Harry Potter ao che­gar pela pri­mei­ra vez à esco­la de magia e bru­xa­ria de Hogwarts e, tal como aque­le, de com­boio a vapor.

O comboio de Westworld

É óbvio des­de os pri­mei­ros minu­tos do epi­só­dio de estreia que o pon­to de vis­ta nar­ra­ti­vo é o das cri­a­tu­ras arti­fi­ci­ais. E que Westworld não será — feliz­men­te — a his­tó­ria de uma rebe­lião de androi­des trans­for­ma­dos em Exterminadores Implacáveis, como no fil­me em que se baseia.

As con­sequên­ci­as das reve­la­ções que se ini­ci­am nes­te epi­só­dio e se desen­vol­ve­rão duran­te toda a tem­po­ra­da serão, sobre­tu­do, psi­co­ló­gi­cas. Sabemos que as cri­a­tu­ras são arti­fi­ci­ais, mas o tes­te Voight-​Kampff que come­ça­mos a fazer logo ao iní­cio mostra-​os mais huma­nos que os pró­pri­os huma­nos, como anun­ci­a­va a Tyrell Corporation no fil­me Blade Runner. Criaturas mais trá­gi­cas que a pró­pria tra­gé­dia.

As cri­a­tu­ras são os «anfi­triões» des­te mun­do, uma recri­a­ção do Velho Oeste ame­ri­ca­no. São cli­chés ambu­lan­tes, embo­ra não o sai­bam. Existem xeri­fes, foras da lei, bêba­dos, pis­to­lei­ros, garim­pei­ros, fazen­dei­ros, o bar­man arro­gan­te do salo­on e, cla­ro, pros­ti­tu­tas.

São repli­can­tes no sen­ti­do mais Blade Runner do ter­mo e exis­tem ape­nas para satis­fa­zer as neces­si­da­des dos «hós­pe­des» que pagam for­tu­nas para lá pas­sar uma tem­po­ra­da.

O pri­mei­ro epi­só­dio pou­co nos diz sobre qual o tipo de soci­e­da­de e futu­ro fora do mun­do arti­fi­ci­al de Westworld, mas está implí­ci­to que os triun­fos da Ciência e da Tecnologia sobre a Evolução — erra­di­cá­mos todas as doen­ças, sal­vá­mos os mais fra­cos, ven­ce­mos todas as ame­a­ças e, um belo dia, sere­mos até capa­zes de res­sus­ci­tar os mor­tos —, tor­na­ram a vida dema­si­a­do pre­vi­sí­vel, abor­re­ci­da e pou­co exci­tan­te.

Os repli­can­tes de Westworld obe­de­cem a nar­ra­ti­vas e ciclos pré-​determinados pelos seus cri­a­do­res, sem terem cons­ci­ên­cia de que as suas ações, rela­ções, ins­tin­tos, amo­res, ódi­os e tra­ços de cará­ter são resul­ta­do da pro­gra­ma­ção — pro­gra­ma­ção no sen­ti­do infor­má­ti­co do ter­mo, mas tam­bém tele­vi­si­vo. Há nar­ra­ti­vas de ter­ror. Narrativas de índi­os e cobóis. Sexo e pros­ti­tu­tas. Assassínios. Massacres. Tudo está con­tro­la­do, ape­nas são per­mi­ti­das peque­nas impro­vi­sa­ções.

O mun­do de Westworld faz lem­brar o fil­me «The Truman Show», na medi­da em que o espe­tá­cu­lo exis­te em nome do negó­cio, o negó­cio está aci­ma de qual­quer outra con­si­de­ra­ção e os pro­ta­go­nis­tas ino­cen­tes des­co­nhe­cem que a sua exis­tên­cia é uma men­ti­ra, um equí­vo­co.

As suas vidas repetem-​se em ciclos infi­ni­tos, sem que rete­nham memó­ri­as do ciclo ante­ri­or. Um «hós­pe­de» que mata ou vio­la um «anfi­trião» vol­ta a encontrá-​lo no dia seguin­te, em novo «loop», com a víti­ma a recebê-​lo de for­ma ami­gá­vel, como sem­pre fará por não se lem­brar do que lhe foi fei­to.

Mas nós lembramo-​nos.

Anthony Hopkins, o deus criador

Anthony Hopkins, o deus cri­a­dor

Em nar­ra­ti­vas que envol­vem inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al e androi­des, o cen­tro moral da his­tó­ria cos­tu­ma fixar-​se no nos­so com­por­ta­men­to. Que tipo de deu­ses sería­mos com cri­a­tu­ras fei­tas à nos­sa ima­gem e seme­lhan­ça? Benevolentes? Implacáveis? Indiferentes?

Em «Westworld», o deus cri­a­dor é inter­pre­ta­do por Anthony Hopkins — o que me pare­ce ade­qua­do, dado que Hopkins é, ele pró­prio, um deus da repre­sen­ta­ção.

Hopkins é o dou­tor Robert Ford, dire­tor cri­a­ti­vo do par­que temá­ti­co onde as cri­a­tu­ras são colo­ca­das à dis­po­si­ção dos visi­tan­tes, um homem con­fi­na­do à «pri­são dos seus pró­pri­os peca­dos», como lhe diz uma das suas cri­a­ções na melhor cena des­te epi­só­dio.

Robert Ford deci­de imple­men­tar uma peque­na atu­a­li­za­ção atra­vés da qual é per­mi­ti­da às cri­a­tu­ras ace­der a peda­ços espe­cí­fi­cos de memó­ri­as apa­ga­das, mas ain­da não rees­cri­tas, de for­ma a torná-​las mais «reais», «espon­tâ­ne­as».

Entre os res­pon­sá­veis do par­que há quem con­si­de­re que este é o cami­nho erra­do, pois se as pes­so­as dei­xa­rem de enca­rar as cri­a­tu­ras como brin­que­dos, pode­rão per­der a capa­ci­da­de de se diver­ti­rem de cons­ci­ên­cia leve.

Mas Ford é o cri­a­dor, o dire­tor cri­a­ti­vo, o che­fe do pro­je­to. A atu­a­li­za­ção é imple­men­ta­da sem que dê satis­fa­ções a nin­guém. Qualquer uti­li­za­dor de Windows sabe que atu­a­li­za­ções podem cri­ar mais pro­ble­mas do que solucioná-​los — e é pre­ci­sa­men­te isso que acon­te­ce às cri­a­tu­ras em «Westworld». A cai­xa de Pandora entreabre-​se.

Evan Rachel Wood

Evan Rachel Wood

O nos­so anfi­trião e prin­ci­pal per­so­na­gem é uma rapa­ri­ga cha­ma­da Dolores, a ino­cen­te e afá­vel filha de um típi­co fazen­dei­ro do Oeste. Dolores é inter­pre­ta­da por Evan Rachel Wood e esta atriz é a esco­lha ide­al: Evan Rachel Wood é talen­to­sa, lou­ra e ange­li­cal, faz lem­brar uma prin­ce­sa da Disney, mas quem na vida real namo­rou com um tipo como o Marilyn Manson tem na alma rique­zas mais pro­fun­das e som­bri­as que a série vai explo­rar.

Por enquan­to, Dolores passeia-​se pelo cená­rio de Westworld com a leve­za e ino­cên­cia de uma Dorothy Gale do Feiticeiro de Oz, esco­lhen­do todos os dias, dias que se repe­tem sem que ela o sai­ba, obser­var a bele­za do mun­do que a rodeia.

No Feiticeiro do Oz, Dorothy faz ami­za­de com um espan­ta­lho que dese­ja ter um cére­bro, um homem de lata que quer ter um cora­ção e um leão que ambi­ci­o­na ser cora­jo­so. Em Westworld todos os anfi­triões são espan­ta­lhos, homens de lata ou leões. Que acon­te­ce­rá se come­ça­rem a dese­jar?

Este pri­mei­ro epi­só­dio foi bas­tan­te bom. Se os cri­a­do­res não tive­rem pres­sa em contar-​nos a his­tó­ria des­ta meta­mor­fo­se e não se espa­lha­rem ao com­pri­do com solu­ções meta­par­vas do géne­ro «Battlestar Galactica», que come­çou bem e aca­bou pes­si­ma­men­te, então tere­mos aqui uma das gran­des séri­es de Ficção Cientifica da atu­a­li­da­de.

Marco Santos

­ Marco Santos

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