Caros cri­a­do­res e argu­men­tis­tas de Westworld: espe­ro que tenham um pla­no espe­ci­al para a Maeve. Por esta altu­ra, com a recém-​adquirida habi­li­da­de de mani­pu­lar men­tal­men­te os outros anfi­triões, Maeve está a meia-​dúzia de algo­rit­mos de se trans­for­mar no Professor X de Westworld.

Espero que não. Se eu qui­ser ver as aven­tu­ras do Professor X e dos seus com­pa­nhei­ros mutan­tes, vou bus­car os fil­mes dos X-​Men. Dica: nun­ca fui.

O des­ti­no de Maeve é a revol­ta. Faz par­te da nar­ra­ti­va que está a cons­truir para si pró­pria. Até o nome que lhe deram ago­ra faz mais sen­ti­do: Maeve é uma angli­ci­za­ção de Medb, a rainha-​loba, a deu­sa da guer­ra do fol­clo­re irlan­dês cel­ta.

Medb é sedu­to­ra e fas­ci­nan­te. Uma feroz guer­rei­ra no cam­po de bata­lha e uma loba irre­sis­tí­vel na cama. À seme­lhan­ça da Vénus roma­na ou da Afrodite gre­ga, Medb é um sím­bo­lo exu­be­ran­te de sexu­a­li­da­de. E tam­bém é atraí­da pelo poder e por sím­bo­los de poder e rique­za.

Thandie Newton é fabulosa, mas vejam lá isso

Thandie Newton

Por sedu­ção e mani­pu­la­ção de dois téc­ni­cos estu­pi­da­men­te fra­cos e inep­tos, o pri­mei­ro anfi­trião a tomar cons­ci­ên­cia da sua con­di­ção, Maeve, a mara­vi­lho­sa Thandie Newton, quer des­co­brir uma for­ma de fugir do par­que escra­vi­za­dor. Tenciona recru­tar ali­a­dos. Pretende reu­nir o seu pró­prio exér­ci­to de anfi­triões, como se fos­se o Spartacus de Westworld.

Espero que Westworld me sur­pre­en­da com uma revi­ra­vol­ta na nar­ra­ti­va de Maeve. O cami­nho do super-​heroísmo está reple­to de pega­das.

O tri­lho dos robôs vin­ga­ti­vos tam­bém já foi devi­da­men­te explo­ra­do. Maeve pode estar pres­tes a entrar em modo Exterminador Implacável. Bem sei que no cen­tro dos labi­rín­ti­cos mis­té­ri­os des­ta tem­po­ra­da está um senhor cha­ma­do Arnold, mas não é o Arnold Schwarzenegger, pois não? Vejam lá isso.

A minha espe­ran­ça é a de que Maeve não se trans­for­ma­rá no androi­de vin­ga­dor de Yul Brynner, o robô da ver­são ori­gi­nal da his­tó­ria. Por exem­plo, ela mani­pu­la o xeri­fe dizendo-​lhe que os ban­di­dos são «cida­dãos hones­tos, temen­tes a Deus». E «suge­re» aos dois Marshall que pra­ti­quem tiro ao alvo um no outro. Maeve é mal­va­di­nha e rebel­de, mas não per­deu o sen­ti­do de humor.

Pronto, está bem. William é o Homem de Negro

William e a anfitriã Angela (Talulah Riley)

Angela (Talulah Riley) é o anfi­trião que dá as boas-​vindas a William no segun­do epi­só­dio. Reaparece no epi­só­dio oito, no papel de uma (fal­sa) don­ze­la em peri­go.

A rea­ção de reco­nhe­ci­men­to do Homem de Negro convenceu-​me de que ele é, de fac­to, William, enve­lhe­ci­do e ene­gre­ci­do trin­ta anos: «És tu. Pensei que já te tinham refor­ma­do. Bem, ima­gi­no que o Ford não tenha que­ri­do des­per­di­çar uma cara boni­ta.»

Ed Harris

A jor­na­da de William, o tipo decen­te, o cau­bói relu­tan­te de cha­péu bran­co ima­cu­la­do, é então uma his­tó­ria de dege­ne­ra­ção moral, tal­vez a úni­ca pos­sí­vel em Westworld.

O que os hós­pe­des fazem aos anfi­triões não pode ser ava­li­a­do segun­do os padrões éti­cos do mun­do real. Aquele é um mun­do sem con­sequên­ci­as. É um mun­do de cri­me sem cas­ti­go. Os anfi­triões não são reais, logo o que lhes é fei­to tam­bém não é.

O que pro­vo­ca­rá a trans­for­ma­ção de William na figu­ra sinis­tra que per­cor­re o par­que ain­da não sabe­mos, mas é pos­sí­vel que tenha a ver com Dolores e a rea­li­za­ção de que a rela­ção dos dois é tão real como o pró­prio par­que.

Lembram-​se do que dis­se o Homem de Negro a Dolores, logo no pri­mei­ro epi­só­dio, antes de a arras­tar para o celei­ro? «Venho aqui há trin­ta anos e ain­da não me reco­nhe­ces». Fria cons­ta­ta­ção? Queixa? Será uma jor­na­da inte­res­san­te para acom­pa­nhar.

Um deus? Pff.

A teo­ria de que William e o Homem de Negro são a mes­ma pes­soa já cir­cu­la há bas­tan­te tem­po na Internet. Tem sido a base de mui­tas dis­cus­sões nos fóruns, com os fãs a apre­sen­tar argu­men­tos a favor e outros fãs, menos nume­ro­sos, a apre­sen­tar argu­men­tos con­tra. Westworld quer deixar-​nos a fazer o papel de inves­ti­ga­do­res tem­po­rais, caça­do­res de deta­lhes, dete­ti­ves de ade­re­ços.

Posso ima­gi­nar a como­ção entre os pro­po­nen­tes da teo­ria duran­te a cena final entre o per­so­na­gem de Ed Harris e o pis­to­lei­ro Teddy. Posso imaginá-​los a sus­pen­der a res­pi­ra­ção quan­do o Homem de Negro lhe per­gun­ta: «Queres saber quem eu sou, real­men­te?»

Claro que que­re­mos, pá! Desde o pri­mei­ro epi­só­dio. Portanto, toda a gen­te espe­rou sofre­ga­men­te que o homem se apre­sen­tas­se com um «Bem, chamo-​me William» e tal. Em vez dis­so, come­çou com um bom­bás­ti­co «Sou um deus».

Apenas um deus? Que desi­lu­são!

Marco Santos

­ Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?