A vida muda-​nos e muda-​nos tam­bém os gos­tos. Há alguns anos tal­vez não me dei­xas­se tocar tan­to pela músi­ca «Jesus Alone», reti­ra­da do últi­mo pro­je­to de Nick Cave, mas o meu fra­qui­nho por temas que falam de per­das irre­pa­rá­veis aumen­tou de for­ma expo­nen­ci­al. E Nick Cave é um poe­ta.

Com a série «The Leftovers», da HBO, passa-​se o mes­mo. É uma das mais tocan­tes que vi nos últi­mos tem­pos, mas não sei se há uns anos pas­sa­ria sequer dos pri­mei­ros epi­só­di­os.

Justin Theroux

Justin Theroux, um dos pro­ta­go­nis­tas de «The Leftovers»

«The Leftovers» tam­bém fala de per­das irre­pa­rá­veis, mas enquan­to a can­ção de Nick Cave par­te de uma tra­gé­dia real — a mor­te do filho —, a série tem como pre­mis­sa um fenó­me­no impos­sí­vel de acon­te­cer no mun­do físi­co em que vive­mos: num mili­o­né­si­mo de segun­do, dois por cen­to da popu­la­ção mun­di­al desa­pa­re­ce sem dei­xar ras­to.

Ninguém con­se­gue expli­car por que razão milhões de pes­so­as em todo o mun­do — homens, mulhe­res e cri­an­ças — se des­va­ne­cem como nun­ca tives­sem exis­ti­do. A Ciência não con­se­gue raci­o­na­li­zar a tra­gé­dia, mui­to menos descrevê-​la, e a Religião tem difi­cul­da­de em con­ci­li­ar o even­to com a visão de um deus bene­vo­len­te.

O cri­a­dor de «The Leftovers» é Damon Lindelof, mais conhe­ci­do por ter sido o «sho­wrun­ner» da série de cul­to «Lost», tam­bém envol­ta em mui­tos mis­té­ri­os. Nunca tive inte­res­se em vê-​la, mas sei que a reso­lu­ção pro­pos­ta pelos argu­men­tis­tas para o mis­té­rio prin­ci­pal este­ve lon­ge de ser con­sen­su­al. A ideia entre mui­tos fãs é a de que «Lost» se dei­xou aba­ter pelo peso dos seus mis­té­ri­os e nun­ca mais recu­pe­rou.

Lindelof não vol­tou a cair nes­sa arma­di­lha, até por­que adap­tou o livro de Tom Perrotta, com quem for­mou equi­pa a escre­ver e produzi-​la. O pon­to de par­ti­da é o mis­té­rio, tal­vez o mai­or mis­té­rio da his­tó­ria da Humanidade, mas logo se per­ce­be que o obje­ti­vo da his­tó­ria não é o de esclarecê-​lo. O que inte­res­sa em «The Leftovers» é mostrar-​nos como um acon­te­ci­men­to inex­pli­cá­vel e bru­tal­men­te trau­ma­ti­zan­te pode mudar as pes­so­as e a soci­e­da­de.

Como se pode viver em paz quan­do se des­co­nhe­ce a natu­re­za de um even­to que pode­rá vol­tar a ocor­rer da mes­ma manei­ra inex­pli­cá­vel? Como afe­ta­rá as rela­ções entre as pes­so­as? Haverá cora­gem para se rela­ci­o­na­rem ou vive­rão con­ge­la­das pelo medo? A que extre­mis­mos dará ori­gem? A que fal­sos pro­fe­tas?

Amy Brenneman

Amy Brenneman

Este é um acon­te­ci­men­to impro­vá­vel nes­te nos­so mun­do gover­na­do pelas leis da Física, mas ima­gi­nem: de um momen­to para o outro, sem expli­ca­ção, uma pes­soa que amam desa­pa­re­ce para sem­pre — não mor­re, sim­ples­men­te desa­pa­re­ce.

Podemos não acei­tar a mor­te, mas pelo menos con­se­gui­mos compreendê-​la, enquadrá-​la num qua­dro de refe­rên­cia, fazer­mos o luto, despedirmo-​nos ritu­al­men­te. Imaginem um even­to que não con­se­gui­mos acei­tar, com­pre­en­der ou atin­gir qual­quer tipo de reso­lu­ção.

Explorar o mun­do e a men­te des­tas pes­so­as trau­ma­ti­za­das é mui­to mais inte­res­san­te do que embar­car numa caça ao gam­bo­zi­no cós­mi­co res­pon­sá­vel pela «par­ti­da» de todas essas pes­so­as — e é por aí que a série vai, usan­do a Ficção Científica e o Fantástico como pre­tex­to para con­tar outra his­tó­ria.

«The Leftovers» é deli­ci­o­sa­men­te ambí­gua: à exce­ção do mis­té­rio ini­ci­al, todos os even­tos podem ser expli­ca­dos raci­o­nal­men­te ou de for­ma sobre­na­tu­ral, depen­de da posi­ção do teles­pec­ta­dor em rela­ção a esses assun­tos. A fron­tei­ra entre a men­te con­tur­ba­da dos per­so­na­gens e a rea­li­da­de que os rodeia não se encon­tra demar­ca­da ou, se esti­ver, usa David Lynch como guar­da fron­tei­ri­ço.

Carrie Coon

Carrie Coon

Acho-​a exce­len­te. Tal como acon­te­ceu com «Black Sails» — um ‘bicho’ com­ple­ta­men­te dife­ren­te, mas igual­men­te imper­dí­vel —, comecei-​a por não me ape­te­cer fazer mais nada a não ser vege­tar no sofá. Duas horas depois, já pas­sa­va de epi­só­dio em epi­só­dio com o fre­ne­sim com que folhe­a­mos as pági­nas de um livro que esta­mos a ado­rar.

Se os pri­mei­ros três, qua­tro epi­só­di­os con­se­gui­rem man­ter o vos­so inte­res­se e não esti­ve­rem mui­to pre­o­cu­pa­dos em ver o mis­té­rio pri­mor­di­al escla­re­ci­do, então fica­rão pre­sos até ao fim por cau­sa da rique­za psi­co­ló­gi­ca dos per­so­na­gens e da exce­lên­cia dos ato­res, sobre­tu­do Carrie Coon. A ter­cei­ra e últi­ma tem­po­ra­da estreia para o ano, ain­da sem data defi­ni­da, por isso há tem­po para apa­nhar as duas pri­mei­ras. Vale a pena.

Marco Santos

­Marco Santos

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