E quem sois vós, dis­se o orgu­lho­so senhor, para me obri­gar a vénia tão pro­fun­da? /​ Só um gato com um man­to dife­ren­te, essa é a ver­da­de que eu conhe­ço. /​ Manto de ouro ou man­to ver­me­lho, um leão man­tém as suas gar­ras. /​ E as minhas são lon­gas e afi­a­das, meu senhor, tão lon­gas e afi­a­das como as vos­sas.

E assim falou, e assim falou, esse senhor de Castamere. /​ Mas ago­ra a chu­va cho­ra no seu salão e nin­guém está lá para ouvir. Sim, ago­ra a chu­va cho­ra no seu salão e nem uma alma para ouvir.

Atenção: ago­ra que escu­ta­ram esta bela ver­são dos The National da can­ção ver­me­lha, tenham em con­ta o seguin­te

The night is dark and full of spoilers.

Entendido? Depois não se quei­xem. Segue o tex­to:

Inocentes teles­pec­ta­do­res, que ain­da não tinham per­ce­bi­do o sig­ni­fi­ca­do da can­ção «Rains of Castamere», a músi­ca que recor­da a oca­sião em que uma Casa foi mas­sa­cra­da na sequên­cia de uma revol­ta con­tra os Lannister. Agora tal­vez já per­ce­bam por que razão o patri­ar­ca dos Lannister escre­via tan­tas car­tas nos pri­mei­ros epi­só­di­os des­ta tem­po­ra­da – e a quem as envi­a­va.

Há três anos que aque­les que leram o ter­cei­ro livro da saga «As Crónicas de Gelo e Fogo» espe­ra­vam por este momen­to: con­tem­plar as rea­ções de pas­mo e hor­ror dos fãs da série de tele­vi­são peran­te o even­to que ficou para sem­pre conhe­ci­do como The Red Wedding.

Rei do Desnorte

Muitos para­ram de ler para recu­pe­rar âni­mo antes de reen­trar no mun­do cru­el de Game of Thrones; há quem tenha vol­ta­do ao prin­cí­pio do capí­tu­lo des­se casa­men­to ver­me­lho, na espe­ran­ça de que à segun­da lei­tu­ra os acon­te­ci­men­tos já fos­sem dife­ren­tes; outros, furi­o­sos e incré­du­los, ati­ra­ram o livro con­tra a pare­de; os mais emo­ti­vos lançaram-​no pela jane­la fora ou abandonaram-​no na rua amal­di­ço­an­do o sadis­mo do autor George R. R. Martin e juran­do, pela sua hon­ra como Starks, nun­ca mais vol­tar a pegar-​lhe. Algumas sema­nas depois, der­ro­ta­dos e roí­dos de curi­o­si­da­de, com­pra­vam o livro outra vez.

Até o George, esse gran­de troll da lite­ra­tu­ra fan­tás­ti­ca, ten­tou sal­var a face con­fes­san­do ter dei­xa­do o mal­fa­da­do capí­tu­lo para o fim por lhe ser «dema­si­a­do dolo­ro­so» escrevê-​lo. Bem podes arran­jar as des­cul­pas que qui­se­res, George, mas um fac­to per­ma­ne­ce: The North Remembers.

George Martin

Esta foto cir­cu­la na Web com a legen­da: «George Martin dian­te do seu lago arti­fi­ci­al fei­to com as lágri­mas dos lei­to­res.»

Com tan­tos anos a car­re­gar amar­gu­ras – e a des­te epi­só­dio não foi a últi­ma –, a pri­mei­ra opor­tu­ni­da­de de vin­gan­ça sur­giu quan­do foi para o ar o epi­só­dio 9 da pri­mei­ra tem­po­ra­da. Os lei­to­res pude­ram então a esfre­gar as mãos de con­ten­ta­men­to, ante­ci­pan­do o mare­mo­to de lágri­mas nas redes soci­ais.

Agora sim, os «ima­cu­la­dos» que nun­ca leram uma pági­na dos livros e só conhe­ci­am a his­tó­ria pela adap­ta­ção da HBO have­ri­am de saber o que é cho­rar que nem uma Madalena por cau­sa das des­ven­tu­ras de um pobre D. Quixote per­se­guin­do moi­nhos de hon­ra.

Vingança pelo Red Wedding, vingança!

Os mais pre­ve­ni­dos con­vi­da­ram os ami­gos «ima­cu­la­dos» para uma gran­de ses­são de visi­o­na­men­to do epi­só­dio, colo­can­do estra­te­gi­ca­men­te câma­ras e tele­mó­veis para fil­mar à soca­pa as rea­ções e colocá-​las no YouTube. Procurem por Ned Stark’s death reac­ti­ons e des­co­bri­rão o sofri­men­to dos ino­cen­tes, a incre­du­li­da­de de quem nun­ca jul­ga­ra ser pos­sí­vel um herói mor­rer e a fúria de quem jurou que nun­ca mais na vida assis­ti­ria a um epi­só­dio de Game of Thrones.

Mas os vete­ra­nos do tro­no de fer­ro sabi­am que aque­le fora ape­nas o pri­mei­ro cho­que: o pior esta­va para vir, quan­do o filho de Ned, Robb Stark – des­ti­na­do por anos e anos de cli­chés a ser um jus­ti­cei­ro triun­fan­te, em nome do fale­ci­do pai e da infle­xí­vel e ingé­nua hon­ra dos Stark – se apre­sen­tas­se a um cer­to casa­men­to para expi­ar os seus erros…

Finalmente acon­te­ceu – epi­só­dio 9, ter­cei­ra tem­po­ra­da, 2 de Junho, a noi­te em que o Twitter explo­diu de indig­na­ção e de ame­a­ças de boi­co­te à série ao rea­gir ao mas­sa­cre dos heróis e dos ino­cen­tes, tão bru­tal e vio­len­to como impre­vi­sí­vel.

E o cir­co das rea­ções veio logo a seguir, no YouTube – algu­mas cre­dí­veis, outras…

As nos­sas esco­lhas e ações têm con­sequên­ci­as – o que é uma óbvia ver­da­de nes­te mun­do tam­bém o é naque­las ter­ras. E ali tam­bém triun­fam os polí­ti­cos e os estra­te­gas e os ambi­ci­o­sos sem escrú­pu­los. «Se achas que isto tem um final feliz, então não tens anda­do a pres­tar mui­ta aten­ção», diz o tor­tu­ra­dor à sua víti­ma em outro epi­só­dio des­ta tem­po­ra­da.

Em Game of Thrones – e ao con­trá­rio de qual­quer roman­ce ou série do géne­ro que já li – são os «maus» que têm algo para nos ensi­nar, mes­mo que no fim use­mos esses ensi­na­men­tos para os com­ba­ter, como faz Daenerys Targaryen, outra pre­ten­den­te ao tro­no, mãe de dra­gões e liber­ta­do­ra de escra­vos.

«O caos é uma esca­da», expli­ca o cons­pi­ra­dor Petyr Baelish, um dos melho­res pra­ti­can­tes des­te jogo de poder. «A alguns é dada a opor­tu­ni­da­de de tre­par, mas recu­sam. Agarram-​se ao rei­no, aos deu­ses, ao amor. Ilusões. Só a esca­da é real. Trepá-​la é tudo o que exis­te.»

É fácil deixarmo-​nos ilu­dir dian­te da TV. Até que uma fan­ta­sia de cava­lei­ros e dra­gões, reis e magia, nos devol­va à rea­li­da­de.

Adeus, até para o ano

Adenda: «The Song of Ice and Fire» toca­do pela pia­nis­ta rus­sa Sonya Belousova para o vídeo rea­li­za­do por Tom Grey, par­te da já mui­to famo­sa «Cosplay Piano Series». Um pre­sen­te para os geeks de «Game of Thrones»… que terão de espe­rar qua­se um ano pela quar­ta tem­po­ra­da.

Marco Santos

­Marco Santos

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