Imaginem um paler­ma ocu­par meia-​hora de tem­po de ante­na para pro­mo­ver os seus dotes de sacer­do­te curan­dei­ro e espí­ri­ta peran­te uma pla­teia de car­pi­dei­ras do aplau­so. Uma meia-​hora vis­ta por milhões de pes­so­as e duran­te a qual a Ciência está ausen­te.

Vi-​o num pro­gra­ma apre­sen­ta­do pela Fátima Lopes, a Oprah dos malan­dros.

Porque qual­quer malan­dro capaz de expe­lir tre­ta­to­lo­gi­as cós­mi­cas pelo céu da boca e ener­gia de plas­ma eté­ri­co pelo olho do cu tem lugar garan­ti­do no pan­teão da par­vo­ei­ra que a Fátima ergueu para ini­ci­ar as donas de casa nos mis­té­ri­os do Universo.

O «sacer­do­te» pro­mo­vi­do pela Oprah dos malan­dros tinha vis­to Nossa Senhora de Fátima (a ver­são bíbli­ca, não a ver­são TVI) e tal visão mudara-​lhe a vida

e eu fiquei a pen­sar «mas qual terá sido a mar­ca de vinho que este gajo andou a beber? Será que se eu pro­var da mes­ma pin­ga con­si­go ver a Scarlett Johansson expe­ri­men­tan­do biquí­nis no meu sofá enquan­to sus­sur­ra uma can­ção do Tom Waits e tira mais umas fotos com o iPhone?»

Eis um absur­do con­tras­sen­so des­ta civi­li­za­ção tão moder­na: tec­no­lo­gi­as pos­si­bi­li­ta­das pelas des­co­ber­tas da Ciência são uti­li­za­das dia­ri­a­men­te por gen­te que nos pro­cu­ra con­ven­cer de que a Ciência não exis­te.

Não admi­ra por­tan­to que num mun­do onde a Ciência não exis­te – e, quan­do exis­te, cons­pi­ra con­tra nós – tan­tos men­te­cap­tos e para­noi­cos con­si­de­rem «pos­sí­vel» pres­su­por que o Homem nun­ca foi à Lua mas achem «impos­sí­vel» con­si­de­rar que extra­ter­res­tres não nos visi­tam todos os dias.

Só gos­ta­va que todas essas pes­so­as que seguem os gurus da igno­rân­cia espa­lha­dos pela Net pen­sas­sem um boca­di­nho. Não era pre­ci­so mui­to, só uns minu­ti­nhos para per­ce­ber o que é a Ciência, apren­der a sepa­rar os fac­tos da opi­nião, a fé da expe­ri­men­ta­ção.

A Ciência não se impõe pela fé, impõe-​se pelos fac­tos. Só pode ser vis­ta como um dog­ma por quem não se inte­res­sa por fac­tos e vive num mun­do fan­tas­ma­gó­ri­co de supo­si­ções. Isto é tão sim­ples para mim que me sur­pre­en­de, sobre­tu­do, haver gen­te inca­paz de per­ce­ber algo de tão bási­co.

Uma reli­gião não muda com os fac­tos, embo­ra se adap­te: por exem­plo, nin­guém no seu per­fei­to juí­zo acei­ta­rá hoje em dia que uma ser­pen­te esta­be­le­ceu umas con­ver­sas diplo­má­ti­cas com a Eva à som­bra de uma árvo­re do conhe­ci­men­to. Ou que Eva, a pobre des­gra­ça­da que cor­rom­peu o Homem, nas­ceu de uma cos­te­la de Adão.

Se pen­sar­mos bem no assun­to, aque­la é uma ima­gem ofen­si­va para as mulhe­res: por que razão não a fizes­te nas­cer do cére­bro de Adão, ó Deus, em vez de uma frá­gil e estú­pi­da cos­te­la? Tens ideia, ó Deus machis­ta, da quan­ti­da­de de equí­vo­cos que cri­as­te com essa deci­são? Aposto que se tinham pou­pa­do imen­sos sou­ti­ens quei­ma­dos.

Enfim, é comum dizer-​se em rela­ção a tais his­tó­ri­as que se tra­ta de uma ale­go­ria. A ale­go­ria é a melhor ami­ga da reli­gião. É incon­ce­bí­vel? Nunca pode­ria ter acon­te­ci­do? É absur­do? Deixa, não te pre­o­cu­pes, era só uma ale­go­ria…

O que me pare­ce comum no raci­o­cí­nio de pes­so­as que acre­di­tam no fim do mun­do em 2012 e tre­tas estu­pi­di­fi­can­tes do géne­ro é par­ti­rem do prin­cí­pio de que pos­su­em men­tes menos «pre­con­cei­tu­o­sas», mais dadas às ale­go­ri­as, do que a dos cien­tis­tas, mais dados à arro­gân­cia, e que essa «qua­li­da­de» é sufi­ci­en­te para «verem» o que aque­les são inca­pa­zes ou se negam a acei­tar – ener­gi­as treto-​plásmicas ema­na­das do rego da galá­xia, por exem­plo.

Claro que isto é ape­nas uma vari­a­ção da velha expres­são: «Quando a Ciência aca­bar de subir a mon­ta­nha, a Religião esta­rá no topo sen­ta­da à espe­ra».

Esta fra­se só é pos­sí­vel se par­tir­mos do dog­ma – ago­ra, sim, é um dog­ma – de que no conhe­ci­men­to só exis­te uma mon­ta­nha para esca­lar, aque­la onde a Religião se sen­ta.

A mon­ta­nha que a Ciência esca­la é outra, é uma mon­ta­nha fei­ta de fac­tos – tal como nas ver­da­dei­ras mon­ta­nhas, há fac­tos que pare­cem sóli­dos mas depois se sol­tam e cai­em e há outros que jurá­va­mos está­veis mas, para nos­sa dece­ção, aca­bam por se sol­tar tam­bém.

A for­ma como a Ciência se aper­ce­be dis­to não é falan­do em ener­gi­as des­co­nhe­ci­das, cons­ci­ên­ci­as uni­ver­sais e outras boce­jo­lo­gi­as cós­mi­cas, é meten­do o pezi­nho na rea­li­da­de, inde­pen­den­te­men­te das con­vic­ções de cada um, ou seja, atra­vés da expe­ri­men­ta­ção.

Na base de todas estas patra­nhas que polu­em a Internet, para além da inca­pa­ci­da­de de sepa­rar a for­ça das con­vic­ções da for­ça dos dados, é o fac­to de estes Napoleões não serem capa­zes de per­ce­ber a lin­gua­gem de base. E esco­lhe­rem pés­si­mos «tra­du­to­res».

Reconheço que às vezes os cien­tis­tas são uns cha­tos do cara­ças. Ou então não têm pachor­ra para atu­rar lei­gos, o que ain­da é pior.

Não têm pachor­ra por­que mui­tas vezes a base da sua lin­gua­gem é a mate­má­ti­ca e, na esco­la, pre­fe­ri­ram admi­rar o rabo da Joana do que ler o cha­to do Eça. Eu fui ao con­trá­rio: rabo da Joana nas aulas de Matemática, olhos per­di­dos no Eça. Por isso é que escre­vo estes tes­ta­men­tos, mas con­tas tá qui­e­to.

Depois quan­do é pre­ci­so «tra­du­zir» a lin­gua­gem da mate­má­ti­ca para a «nos­sa» lin­gua­gem há mui­ta coi­sa que se per­de pelo cami­nho.

Há cien­tis­tas que se tor­na­ram mara­vi­lho­sos comu­ni­ca­do­res por domi­na­rem as duas lin­gua­gens e não terem medo da Poesia e da Literatura para des­cre­ver o mun­do e, de cer­ta for­ma, nos com­pen­sar por não con­se­guir­mos enten­der a bele­za da lin­gua­gem mate­má­ti­ca: Carl Sagan é o exem­plo mais elo­quen­te que conhe­ço.

Uma fra­se do Carl Sagan vale mais do que uma enci­clo­pé­dia escri­ta pelos visi­o­ná­ri­os esco­lhi­dos a dedo pelas Fátima Lopes des­te mun­do. Precisamente por ser sonha­dor, ide­a­lis­ta, «espi­ri­tu­al», mas sem nun­ca per­der a noção da rea­li­da­de e de como se faz e ensi­na Ciência.

Querem sonhar, deslumbrar-​se, des­co­brir coi­sas mara­vi­lho­sas no mun­do? Comecem pelo Sagan!

Marco Santos

­ Marco Santos

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