Celebro inti­ma­men­te o suces­so de Game of Thrones. Porque tenho um lado nerd incu­rá­vel. Porque não seria pos­sí­vel fazer jus­ti­ça a esta his­tó­ria sem dinhei­ro. E como se tor­nou o fenó­me­no que todos reco­nhe­cem, mes­mo os que nun­ca viram, há dinhei­ro para recri­ar os acon­te­ci­men­tos mais fan­tás­ti­cos.

Este suces­so estron­do­so deve exas­pe­rar os fãs do livro em que a série se baseia. Para eles, os «sho­wrun­ners» David Benioff e D.B. Weiss devi­am ter segui­do o livro como se este fos­se uma Bíblia sagra­da.

Game of Thrones

Se o tives­sem fei­to, Game of Thrones teria sido pro­va­vel­men­te can­ce­la­do depois da quin­ta tem­po­ra­da. Ainda bem que toma­ram a sábia deci­são de se focar na his­tó­ria e nos per­so­na­gens que já tinham. Assim não se per­deu o con­tro­lo da nar­ra­ti­va, como acon­te­ceu ao autor George R.R. Martin.

George R. R. Martin cri­ou uma his­tó­ria e um mun­do impa­rá­veis sobre os quais se sus­ten­tou o suces­so ini­ci­al da série, mas deu um nó tão for­te na nar­ra­ti­va que até ago­ra não foi capaz de desa­tar. E nem sei se algu­ma vez o será. Estamos à espe­ra dos livros há anos e tere­mos de espe­rar sen­ta­dos.

Se a série tives­se segui­do os livros, como exi­gem os puris­tas, Tyrion Lannister ain­da não se tinha encon­tra­do com Daenerys Targaryen e esta con­ti­nu­a­ria em Essos.

Teríamos sido apre­sen­ta­dos a uma miría­de de novos per­so­na­gens cri­a­dos para desa­tar esse nó nar­ra­ti­vo de George R. R. Martin. Aqueles pelos quais nos inte­res­sa­mos teri­am de ser pos­tos de par­te.

Os puris­tas fica­ri­am deli­ci­a­dos com a per­da de foco da his­tó­ria em nome da supre­ma fide­li­da­de às pági­nas escri­tas. As audi­ên­ci­as mor­re­ri­am de abor­re­ci­men­to. E nun­ca tería­mos um epi­só­dio como este últi­mo: um espec­tá­cu­lo tele­vi­si­vo que mui­tos só jul­ga­ri­am pos­sí­vel em cine­ma.

Os que me conhe­cem sabem que nem sou gran­de fã de fil­mes de ação. E sabem que me irri­ta que se cri­ti­que um fil­me ou uma série por ser «dema­si­a­do para­da». Existe ação nas pala­vras. Existe ação nos diá­lo­gos. Existe ação no desen­vol­vi­men­to psi­co­ló­gi­co das per­so­na­gens.

Game of Thrones tem essa ação psi­co­ló­gi­ca. E quan­do gran­des cenas de ação tra­di­ci­o­nais acon­te­cem, como nes­te epi­só­dio e em pos­te­ri­o­res, não está em jogo ape­nas o espec­tá­cu­lo visu­al ou a qua­li­da­de dos efei­tos espe­ci­ais.

Está em jogo o des­ti­no de per­so­na­gens cujo per­cur­so foi meti­cu­lo­sa­men­te cons­truí­do ao lon­go das tem­po­ra­das ante­ri­o­res. Um lon­go per­cur­so que não é pos­sí­vel cons­truir em duas horas e meia.

As cenas de ação em Game of Thrones não estão lá para pre­en­cher uma «quo­ta» míni­ma indis­pen­sá­vel para acor­dar o teles­pec­ta­dor. Estão lá por serem abso­lu­ta­men­te cru­ci­ais à his­tó­ria. E aos per­so­na­gens.

Um antes e um depois de Game of Thrones

Game of Thrones

Quem viu o epi­só­dio des­ta sema­na sabe que Game of Thrones sem­pre brin­cou com o fogo mes­mo antes da exis­tên­cia de dra­gões.

Lembrará, com cer­te­za, a revol­ta gera­da quan­do aque­le que se jul­ga­va ser o herói clás­si­co de uma his­tó­ria des­tas foi des­pa­cha­do. E recor­da­rá o cho­que pro­vo­ca­do pelo desa­pa­re­ci­men­to daque­le que se pen­sa­va ser o suces­sor do herói. Muitos jura­ram não ver mais a série.

Game of Thrones pare­ce uma série típi­ca dos roman­ces de Fantasia, tiran­do todos os momen­tos em que se deli­cia a sub­ver­ter os cli­chés asso­ci­a­dos ao géne­ro — o prin­ci­pal méri­to de George R. R. Martin e a carac­te­rís­ti­ca que era mais impor­tan­te trans­por dos livros.

O Game of Thrones brinca com o fogo como ninguém

E assim che­gá­mos ao epi­só­dio de ontem. À luta épi­ca e incen­diá­ria entre os ele­men­tos mais «rea­lis­tas» da his­tó­ria e os mais «fan­ta­sis­tas». Ao com­ba­te entre um exér­ci­to Lannister decal­ca­do das legiões roma­nas e uma rai­nha mon­ta­da num dra­gão. E com per­so­na­gens que ado­ra­mos em ambos os lados da bar­ri­ca­da, para tor­nar a expe­ri­ên­cia ain­da mais inten­sa.

Game of Thrones não será lem­bra­do como a melhor série de todos os tem­pos, mas é recon­for­tan­te que os efei­tos espe­ci­ais este­jam sem­pre ao ser­vi­ço da his­tó­ria e das idei­as, não o con­trá­rio. Raramente vemos isto, sobre­tu­do a esta esca­la. Com tan­to dinhei­ro envol­vi­do.

A luxu­o­sa pro­du­ção e o sur­pre­en­den­te suces­so que está a ter, aju­da­rão a tra­çar uma fron­tei­ra entre o que é pos­sí­vel conseguir-​se em tele­vi­são. Depois de Game of Thrones, nada vol­ta­rá a ser o mes­mo.

Quando se ava­li­ar a pos­si­bi­li­da­de de adap­tar gran­des roman­ces de Fantasia e Ficção Científica ao ecrã, ter-​se-​á sem­pre em con­ta este exem­plo de suces­so. Para um nerd como eu, já é uma vitó­ria his­tó­ri­ca.

Marco Santos

­Marco Santos

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