Juro que não tinha inten­ção de abor­re­cer os lei­to­res do Bitaites com um post sobre extra­ter­res­tres e memó­ri­as de infân­cia, mas rece­bi um email de um cava­lhei­ro que se mos­trou mui­to indig­na­do com a for­ma gozo­na e depre­ci­a­ti­va com que abor­dei o fenó­me­no OVNI.

Que eu devia ter um boca­di­nho mais res­pei­to.

Que devia achar-​me mais inte­li­gen­te que os outros.

Que devia ser uma data de coi­sas que já não che­guei a ler.

Os dois posts que o enfu­re­ce­ram foram, res­pec­ti­va­men­te, «O ET, o aldra­bão e a gira­ça que o vai pro­ces­sar», publi­ca­do a 23 de Outubro de 2008; e outro, ain­da mais anti­go, escri­to em Março de 2006, «Como come­çou o mito dos dis­cos voa­do­res».

Desejo escla­re­cer o indig­na­do visi­tan­te que eu ado­ro os ET.

Não tenho nada con­tra homen­zi­nhos ver­des. E sou do Glorioso SLB des­de peque­ni­no, por­tan­to está a ver até onde pode che­gar a minha tole­rân­cia para com mal­ta de outras cores.

A minha costela Espaço 1999

Espaço 1999

O elen­co de «Espaço 1999»

Quando era puto qua­se dei­xa­va cair uma lágri­ma quan­do o ali­e­ní­ge­na do Spielberg esten­deu a pati­nha e pediu, com aque­la ado­rá­vel voz de baga­ço, «ET Phone Home».

Quando estou sem nada para fazer e vejo um fil­me na tele­vi­são com extra­ter­res­tres não mudo de canal. Pode ser um fil­me de mer­da, mas mes­mo assim con­si­go resis­tir alguns minu­tos. É a minha cos­te­la «ET Phone Home», que guar­do com mui­to cari­nho por­que as ida­des não se repe­tem.

Os ET fazem par­te da minha infân­cia, como o Pai Natal, mas são ain­da mais inte­res­san­tes à medi­da que avan­ça­mos na pré-​adolescência: o Pai Natal vem de tre­nó do Pólo Norte e des­ce por uma cha­mi­né; um méto­do ori­gi­nal, mas pou­co asse­a­do e tec­no­lo­gi­ca­men­te rudi­men­tar.

Os ET che­gam em naves espa­ci­ais e vêm do Espaço Sideral! Do Espaço, meu!

O Pluto era o meu per­so­na­gem Disney pre­fe­ri­do por­que tinha um nome pare­ci­do com Plutão.

E Plutão era o meu pla­ne­ta pre­fe­ri­do por ser o mais lon­gín­quo.

O Espaço era a minha Terra do Nunca, o meu País das Maravilhas, o Lugar do Início da Ursula K. Le Guin, as fan­ta­si­as do Clifford D. Simak, por­tan­to quan­do a Lua se liber­tou do pla­ne­ta Terra no epi­só­dio de estreia do «Espaço 1999», eu achei que aqui­lo era a coi­sa mais fixe que podia acon­te­cer a uma pes­soa.

Esta é a minha cos­te­la «Espaço 1999», que guar­do com mui­to cari­nho por­que as ida­des não se repe­tem (espe­ro não estar a ser mui­to repe­ti­ti­vo).

O cari­nho é tão gran­de que até hoje me recu­so a rever esses epi­só­di­os em DVD.

Para quê des­truir a doce ilu­são de que «Espaço 1999» foi a melhor série de Ficção Científica de todos os tem­pos? São ilu­sões como estas que nos man­tém liga­dos à infân­cia e ao que esta nos fez sen­tir.

Há dias tão tra­ma­dos de per­cor­rer que o mais sau­dá­vel é man­ter um can­ti­nho do cére­bro com uma larei­ra e um sofá con­for­tá­vel para que os neu­ró­ni­os adul­tos se pos­sam sen­tar e rever um epi­só­dio do «Espaço 1999» sem ter a mania de que são crí­ti­cos de tele­vi­são.

Como vê, caro anó­ni­mo, sou capaz de ser tão român­ti­co e sonha­dor como você.

O pro­ble­ma dos OVNI come­ça a tornar-​se mais sério quan­do em 99 por cen­to dos casos a per­gun­ta é fei­ta nos seguin­tes ter­mos: «Tu acre­di­tas em…»

Está a ver o dile­ma? Já se pas­sa­ram mui­tos anos des­de que o ET com voz de baga­ço pediu para tele­fo­nar para casa e a Lua se des­pren­deu da Terra em 1999. Plutão já nem sequer é um pla­ne­ta.

Tenho alguns pro­ble­mas em apli­car o ver­bo «acre­di­tar» no caso dos OVNI por­que a exis­tên­cia de vida extra­ter­res­tre é uma ques­tão cien­tí­fi­ca, não é uma ques­tão de fé.

Resolveremos o mis­té­rio se nun­ca desis­tir­mos de fazer a per­gun­ta essen­ci­al: «Eles exis­tem?» Você acha essa exis­tên­cia inques­ti­o­ná­vel e nun­ca acei­ta­rá uma res­pos­ta nega­ti­va. Eu que­ro saber; você acre­di­ta.

Sendo assim, esta­mos com pro­ble­mas de comu­ni­ca­ção.

Não se inco­mo­de mais com o assun­to! Pense nis­to: se nos tivés­se­mos conhe­ci­do aos 12 anos, tería­mos fica­do a ver o «Espaço 1999» como dois bons ami­gos.

Teríamos acre­di­ta­do que aque­la era a melhor série de Ficção Científica de todos os tem­pos – e ai de quem nos dis­ses­se o con­trá­rio!

Marco Santos

­ Marco Santos

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