Petyr Baelish, Littlefinger, Mindinho em por­tu­guês, já mor­reu. Ele ain­da não sabe, cla­ro. É como o per­so­na­gem de Bruce Willis no fil­me «O Sexto Sentido», vague­an­do como uma som­bra sem saber que aque­le mun­do já aca­bou.

Não se tra­ta de um spoi­ler, mas de sim­ples con­je­tu­ras. Não faço ideia do que acon­te­ce­rá ao Mindinho. Mas sei que a nar­ra­ti­va o empur­rou para o Norte, onde o inver­no che­gou pri­mei­ro. E sei reco­nhe­cer quan­do um per­so­na­gem se tor­na num estra­nho numa nar­ra­ti­va estra­nha.

O caos é uma escada

Lorde Petyr "Mindinho" Baelish

Lorde Petyr "Mindinho" Baelish, inter­pre­ta­do por Aidan Gillen, que foi um «mayor» na série «The Wire».

Mindinho, mes­tre da mani­pu­la­ção e da tra­moia, está lon­ge das intri­gas pala­ci­a­nas de Porto Real, a capi­tal de Westeros. Estes jogos de poder, impró­pri­os para o hon­ro­so e ingé­nuo Ned Stark, o herói clás­si­co da his­tó­ria, são vio­len­tos e impla­cá­veis como uma «guer­ra das rosas».

Game of Thrones sem­pre se ins­pi­rou nes­sa guer­ra. A Guerra das Rosas, como ficou conhe­ci­da, foi uma série de lutas dinás­ti­cas pelo tro­no de Inglaterra. A dis­pu­ta atra­ves­sou três rei­na­dos — os de Henrique VI, Eduardo IV e Ricardo III — e duas Casas, as de York e as de Lancaster.

Mindinho e Varys

Mindinho não se impor­ta­ria de lan­çar fogo ao pró­prio mun­do, se a con­sequên­cia fos­se a de se tor­nar o rei das cin­zas, como é carac­te­ri­za­do por um dos seus prin­ci­pais rivais. Num dos monó­lo­gos da série, Aiden Gillen, o ator irlan­dês que faz de Mindinho, usa a sua voz de Batman para expli­car a natu­re­za do caos:

«O caos não é um bura­co. É uma esca­da. Muitos dos que ten­tam subi-​la não con­se­guem e não vol­tam a ten­tar. A que­da destrói-​os. E é dada a alguns a opor­tu­ni­da­de de subir, mas recusam-​na. Agarram-​se ao Domínio, aos deu­ses ou ao amor. São ilu­sões. Só a esca­da é real. Nada mais exis­te para além da subi­da.»

Um estranho numa história estranha

Mindinho e mui­tos outros per­so­na­gens que se ocu­pam em jogos de poder foram lan­ça­dos para uma his­tó­ria de Fantasia. Estão ocu­pa­dos num Westeros medi­e­val e sola­ren­go onde a magia não exis­te. Não ante­ci­pam as som­bras que virão com o inver­no. Desconhecem que as regras do mun­do muda­rão.

Um dos erros de ava­li­a­ção habi­tu­ais em rela­ção a Game of Thrones é pen­sar que é uma espé­cie de «Senhor dos Anéis». Não é. O que sem­pre me fas­ci­nou em Game of Thrones é o fac­to de con­tar uma his­tó­ria em que os seus dois ele­men­tos dís­pa­res — o rea­lis­mo da intri­ga pala­ci­a­na e a lon­gín­qua ame­a­ça sobre­na­tu­ral — se encon­tram qua­se total­men­te sepa­ra­dos, mas des­ti­na­dos a unir-​se.

Littlefinger

A sepa­ra­ção não é ape­nas psi­co­ló­gi­ca, mas tam­bém geo­grá­fi­ca. O Norte de Westeros e o con­ti­nen­te no Leste, Essos, estão mais pró­xi­mos dos acon­te­ci­men­tos sobre­na­tu­rais. O Sul e o Centro, mais pala­ci­a­nos, menos «bár­ba­ros», pou­co conhe­cem do que se pas­sa além das suas fron­tei­ras.

A Fantasia reclama a sua grande vítima

Game of Thrones ape­la, em simul­tâ­neo, a duas meta­des do meu cére­bro: a que ado­ra­va séri­es his­tó­ri­cas da BBC como «Eu, Cláudio» e a que con­so­me roman­ces de Ficção Científica e Fantástico des­de a ado­les­cên­cia.

Saber que a his­tó­ria cami­nha de for­ma len­ta, mas ine­xo­rá­vel, a um pon­to em que esses ele­men­tos se aca­ba­rão por se tocar e fun­dir é uma das prin­ci­pais razões para ver Game of Thrones. Existem mag­ní­fi­cas per­so­na­gens de um lado e de outro des­ta mura­lha que sepa­ra as duas nar­ra­ti­vas e eu que­ro saber como esta fusão as afe­ta — e àque­le mun­do.

Mindinho, o mes­tre da intri­ga e do caos, foi arras­ta­do para o lado sobre­na­tu­ral da his­tó­ria. O adver­sá­rio ago­ra é tão impes­so­al como uma tem­pes­ta­de de neve. Não se con­se­gue com­prar, mani­pu­lar ou nego­ci­ar com tem­pes­ta­des. E assim per­deu qua­se todo o seu sen­ti­do na his­tó­ria.

É uma som­bra do que foi. E vive ago­ra nas som­bras. De ele­men­to impul­si­o­na­dor da nar­ra­ti­va, é ago­ra pou­co mais do que um ele­men­to deco­ra­ti­vo. Talvez ain­da dê um ar de sua des­gra­ça por­que não há his­tó­ria sem con­fli­tos e Mindinho é um gera­dor de con­fli­tos. Ainda vamos no segun­do epi­só­dio. Mas o defi­nha­men­to de Mindinho é o pre­ço a pagar para liber­tar a nar­ra­ti­va e dar iní­cio ao subli­me con­fli­to final com que qual­quer fã do géne­ro Fantasia sonha.

Mindinho é des­car­tá­vel, mas ain­da não sabe. Condena-​se a jogar a velha par­ti­da do caos, a tre­par uma esca­da que já não exis­te, a acre­di­tar numa subi­da que dei­xou de fazer sen­ti­do.

Quem já conhe­cia os livros sabia que a Fantasia iria aca­bar por ven­cer esta guer­ra de nar­ra­ti­vas. Para lhes per­do­ar tan­tas per­das e des­gos­tos, terão de compensar-​me dando-​me a bata­lha mais épi­ca jamais vis­ta em tele­vi­são.

Marco Santos

­Marco Santos

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