A nova série que a HBO estreia a 2 de outu­bro, «Westworld», par­te de uma ideia seme­lhan­te à de «Parque Jurássico»: uma empre­sa ven­de ao públi­co uma expe­ri­ên­cia úni­ca e trans­for­ma coi­sas séri­as em meras diver­sões lucra­ti­vas.

As idei­as são seme­lhan­tes por­que o autor é o mes­mo. O fil­me homó­ni­mo de 1973 em que «Westworld» se baseia foi escri­to e rea­li­za­do pelo fale­ci­do Michael Crichton, tam­bém autor do livro com o mes­mo nome que Spielberg adap­tou.

Em «Parque Jurássico», a gené­ti­ca cria um jar­dim zoo­ló­gi­co de dinos­sau­ros para o públi­co visi­tar e divertir-​se a ver as cri­a­tu­ras; em «Westworld», a robó­ti­ca pro­por­ci­o­na uma via­gem turís­ti­ca por um cená­rio do Velho Oeste ame­ri­ca­no onde todos os peca­dos são per­mi­ti­dos.

Anthony Hopkins

Anthony Hopkins é Robert Ford, o dire­tor cri­a­ti­vo do mun­do arti­fi­ci­al de «Westworld».

É nas dife­ren­ças entre um e outro que «Westworld» se tor­na mais pro­me­te­dor. No fil­me de Spielberg, os visi­tan­tes são ino­cen­tes como per­so­na­gens da Disney e fogem da impla­cá­vel per­se­gui­ção de mons­tros pré-​históricos. Nada de espe­ci­al­men­te ela­bo­ra­do, por­tan­to.

Em «Westworld», os mons­tros são os visi­tan­tes e as cri­a­tu­ras em expo­si­ção com quem inte­ra­gem — androi­des tão pare­ci­dos con­nos­co como os repli­can­tes de «Blade Runner» — as ver­da­dei­ras víti­mas.

Estes visi­tan­tes — sufi­ci­en­te­men­te ricos para pagar for­tu­nas por um úni­co dia de diver­são — são livres de dei­xar a sua cons­ci­ên­cia moral e os cons­tran­gi­men­tos soci­ais lá fora e fazer o que lhes der na gana.

Angela Sarafyan

Uma das prin­ci­pais atra­ções do par­que de diver­sões de «Westworld»: a androi­de Clementine Pennyfeather, inter­pre­ta­da por Angela Sarafyan.

Tendo em con­ta que a série é pro­du­zi­da pela HBO e reven­do a expe­ri­ên­cia que a mai­o­ria de nós teve em «Game of Thrones», é mais que garan­ti­do que este «der na gana» impli­ca­rá cenas explí­ci­tas de sexo, nudez e vio­lên­cia, à vez ou em simul­tâ­neo.

No que res­pei­ta ao que pre­ten­de ser o suces­sor de Westeros em suces­so de audi­ên­ci­as, tudo se man­tém assim no Oeste — um oes­te fic­tí­cio, tal como as ter­ras oci­den­tais de George R. R. Martin, mas igual­men­te sel­va­gem, peri­go­so e impla­cá­vel.

Mas estou a con­tar que «Westworld», tal como «Game of Thrones», seja mui­to mais do que uma saga de mamas e dra­gões (ou mamas e robôs, nes­te caso).

Ed Harris

Ed Harris é um pis­to­lei­ro com um gos­to requin­ta­do pelo assas­sí­nio dos habi­tan­tes de «Westworld».

Nem todos os visi­tan­tes são bes­tas odi­o­sas. A mai­o­ria dese­ja ape­nas viver a típi­ca aven­tu­ra do Velho Oeste que viram nos fil­mes: encon­trar ouro e tornar-​se num garim­pei­ro mili­o­ná­rio, matar em due­lo um pis­to­lei­ro mau e ser um John Wayne, embebedar-​se nos salo­ons sem receio de res­sa­cas ou subir aos quar­tos com pros­ti­tu­tas. Os res­tan­tes, con­tu­do, estão ali pela vio­lên­cia, pela devas­sa, pelo sadis­mo.

Os dinos­sau­ros da his­tó­ria não são mons­tros, mas víti­mas — cri­a­tu­ras huma­noi­des que habi­tam este Velho Oeste arti­fi­ci­al, androi­des pro­gra­ma­dos para satis­fa­zer todos os dese­jos dos visi­tan­tes e aguen­tar pas­si­va­men­te qual­quer atro­ci­da­de. «Westworld» con­duz a máxi­ma «o cli­en­te tem sem­pre razão» a níveis sem pre­ce­den­tes.

Evan Rachel Wood

Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood), uma autó­ma­ta em bus­ca da sua ver­da­dei­ra iden­ti­da­de.

Dado que os epi­só­di­os de vio­lên­cia e per­fí­dia são fre­quen­tes, a memó­ria dos autó­ma­tos é apa­ga­da ao fim de cada dia de tra­ba­lho. O pro­ble­ma para os seres huma­nos que gerem este par­que de diver­sões come­ça quan­do frag­men­tos de memó­ria de hor­ro­res pas­sa­dos vão rea­pa­re­cen­do, dan­do aos robôs uma cres­cen­te cons­ci­ên­cia da sua situ­a­ção.

No fil­me de 1973 de Michael Crichton, a nar­ra­ti­va era pão pão, quei­jo quei­jo: os androi­des eram os mons­tros que per­se­gui­am os sim­pá­ti­cos visi­tan­tes e mais nada, como os índi­os per­se­guin­do colo­nos ino­cen­tes nos wes­terns mais con­ser­va­do­res de Hollywood.

Na ver­são rei­ni­ci­a­da por Jonathan Nolan e Lisa Joy Nolan, os androi­des são psi­co­lo­gi­ca­men­te mais com­ple­xos, como os huma­noi­des Cylon no «rema­ke» de «Battlestar Galactica» ou os repli­can­tes de «Blade Runner.

O pon­to de vis­ta da nar­ra­ti­va pertence-​lhes e não tenho qual­quer dúvi­da de que a série nos con­vi­da­rá a estar do lado dos robôs. É uma inver­são moral  que a tor­na mais inte­res­san­te do que o ori­gi­nal em que se baseia. Seja como for, não estou a ver como seria pos­sí­vel sus­ten­tar uma série que pla­neia ter cin­co tem­po­ra­das usan­do ape­nas a his­tó­ria de Michael Crichton.

Rodrigo Santoro

Rodrigo Santoro é o fora-​da-​lei Hector Escaton.

Espero que «Westworld» não se afun­de com o peso da sua heran­ça. O que não fal­tam são his­tó­ri­as de inte­li­gên­ci­as arti­fi­ci­ais que se revol­tam con­tra os seus cri­a­do­res. A ideia é qua­se tão velha como a pró­pria noção de Inteligência Artificial. Do bom ao mau, de «2001: Odisseia no Espaço» ao «Exterminador Implacável», já vimos de tudo. E a ideia de uma cri­a­tu­ra em revol­ta con­tra o seu cri­a­dor está na base de um roman­ce escri­to por Mary Shelley há qua­se 200 anos.

A HBO apre­sen­ta os dez epi­só­di­os da pri­mei­ra tem­po­ra­da como uma fábu­la sobre o peca­do, o que me faz pen­sar que a influên­cia do roman­ce «Frankenstein» é bem capaz de ser mai­or do que qual­quer obra de fic­ção cien­tí­fi­ca, tiran­do o men­ci­o­na­do «Blade Runner» e as ambi­ên­ci­as alter­na­ti­vas do geni­al Philip K. Dick, autor do con­to em que se base­ou o fil­me de Ridley Scott.

No roman­ce de Mary Shelley, o pró­prio ato da cri­a­ção era o peca­do. Não sei se «Westworld» irá por aí, mas espe­ro que siga o cami­nho de «Blade Runner» e dê aos androi­des o mes­mo grau de sofis­ti­ca­ção que Shelley deu à sua cri­a­tu­ra e rete­nha a capa­ci­da­de de Philip K. Dick de cons­truir mun­dos base­a­dos no engo­do e na ilu­são.

O mons­tro de Mary Shelley era dado a epi­só­di­os de vio­lên­cia, mas tam­bém era sen­sí­vel e inte­li­gen­te — a série «Penny Dreadful» cap­tou como pou­cas a essên­cia des­ta per­so­na­gem. A cri­a­tu­ra sentia-​se per­ma­nen­te­men­te ator­men­ta­da pela cons­ci­ên­cia de que sen­do fisi­ca­men­te repug­nan­te, a sua posi­ção de pária da Humanidade nun­ca lhe per­mi­ti­ria viver em har­mo­nia con­nos­co, amar e ser ama­do.

Se «Westworld» for tão sofis­ti­ca­do e enge­nho­so como pro­me­te e focar-​se nos dile­mas dos androi­des e não em nós, então tere­mos aqui uma série que pode­rá estar para a Ficção Científica em tele­vi­são como «Game of Thrones» para a Fantasia: uma cri­a­ção capaz de trans­cen­der o géne­ro.

«Westworld» estreia mun­di­al­men­te a 2 de outu­bro. Em Portugal, é exi­bi­da na mes­ma data no canal por subs­cri­ção TV Cine & Séries. E nos canais do demo, será legen­da­da por mim.

Marco Santos

­Marco Santos

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