A reportagem da SICVi repor­ta­gens na TV que me fize­ram cor­rer a veri­fi­car se o calen­dá­rio já mar­ca­va o dia 1 de abril – mas esta fabu­lo­sa peça da SIC obrigou-​me a cor­rer de for­ma mais rápi­da.

Ufa! Estou sem fôle­go! Descobriram-​se bac­té­ri­as em Marte e não se sou­be de nada? Por que razão envi­ou a NASA o rover Curiosity para tão lon­ge, se pode­ria tê-​lo fei­to ater­rar no Alentejo ou na reda­ção da SIC? Talvez a Curiosity ande por lá à pro­cu­ra de bac­té­ri­as alen­te­ja­nas.

A repor­ta­gem anun­cia: os cien­tis­tas da NASA admi­tem que a vida na Terra pode ter come­ça­do numa peque­na vila alen­te­ja­na e deci­di­ram vir a Portugal estu­dar uma bac­té­ria que só foi dete­ta­da nas águas ter­mais de Cabeço de Vide e em Marte.

Verdades terapêuticas

Será pos­sí­vel que se con­si­ga falar na exis­tên­cia de bac­té­ri­as mar­ci­a­nas sem per­ce­ber que é o mes­mo que anun­ci­ar que já des­co­bri­mos vida extra­ter­res­tre?

A minha feza­da é a de que have­re­mos de iden­ti­fi­car vida extra­ter­res­tre, em Marte ou nou­tro local, pas­sa­da ou pre­sen­te, mas não será um calhau de duas per­nas com um micro­fo­ne na mão a consegui-​lo. Tão-​pouco a encon­tra­re­mos nas Termas da Sulfurea de Cabeço de Vide!

Nunca foi des­co­ber­ta uma bac­té­ria em Marte. Nunca. Nem uma bac­té­ria ou a som­bra de uma bac­té­ria ou a som­bra de uma som­bra de uma bac­té­ria.

Alguns cien­tis­tas jul­ga­ram ter vis­to indí­ci­os de orga­nis­mos fos­si­li­za­dos de Marte – o caso mais famo­so ocor­reu em 1996 com o mete­o­ri­to ALH84001 e aca­bou por ser uma fon­te de emba­ra­ços para a NASA, que daque­la vez se dei­xou levar pelo entu­si­as­mo e colo­cou o car­ro à fren­te dos bois.

Todas as his­tó­ri­as sub­se­quen­tes envol­ven­do micro-​organismos em Marte têm sido tão refu­tá­veis como as que deram ori­gem ao caso do AL84001.

A mais recen­te ocor­reu no ano pas­sa­do: Richard Hoover, do Marshall Space Flight Center, da NASA, veio a públi­co dizer que des­co­bri­ra micro-​fósseis seme­lhan­tes às cia­no­bac­té­ri­as ter­res­tres (e outros de ori­gem des­co­nhe­ci­da) num tipo mui­to raro de mete­o­ri­to car­bo­ná­ceo – o cha­ma­do CI1.

As suas con­clu­sões foram rejei­ta­das pela comu­ni­da­de cien­tí­fi­ca. (Ver Cientista diz que des­co­briu Extraterrestres)

Foi acolá, meu filho

Piscina de águas termais de Cabeço de Vide

Piscina de águas ter­mais de Cabeço de Vide.

As águas ter­mais de ele­va­do pH exis­ten­tes em Cabeço de Vide tam­bém podem ser mui­to impor­tan­tes no estu­do dos cha­ma­dos extre­mó­fi­los.

Extremófilos são orga­nis­mos capa­zes de sobre­vi­ver (ou até apre­ci­ar bas­tan­te!) con­di­ções geoquí­mi­cas extre­mas que a mai­o­ria dos seres vivos rejei­ta – a pre­sen­ça de um alto teor de com­pos­tos de enxo­fre, por exem­plo, como acon­te­cia nos pri­mór­di­os da vida na Terra.

Deve ser pre­ci­sa­men­te isso que os cien­tis­tas da NASA lá estão a fazer. É impor­tan­te estu­dar este tipo de orga­nis­mos por­que se a vida tiver ocor­ri­do nal­gum local extra­ter­res­tre do Sistema Solar, tê-​lo-​á con­se­gui­do sob con­di­ções extre­mas.

As carac­te­rís­ti­cas geo­ló­gi­cas do ter­re­no são seme­lhan­tes às que con­si­de­ra­mos ser as con­di­ções exis­ten­tes nos pri­mór­di­os da vida na Terra. O astro­bió­lo­go Steve Vance está a usar a geo­lo­gia daque­la zona do Alentejo como cam­po de trei­no para iden­ti­fi­car for­mas de vida nes­sas con­di­ções pri­mor­di­ais. O obje­ti­vo é trans­mi­tir o que apren­deu à equi­pa do rover Curiosity, que anda por Marte a fazer a mes­ma coi­sa.

Mas pos­so garantir-​vos que o Alentejo não foi a úni­ca região do pla­ne­ta com con­di­ções adver­sas nos pri­mór­di­os da vida na Terra. Era mes­mo no pla­ne­ta todo.

Por esta altu­ra a repor­ta­gem da SIC já anda a ser par­ti­lha­da no Facebook e a loca­li­da­de arrisca-​se a ser uma espé­cie de Roswell dos peque­ni­nos. Em Roswell espatifaram-​se uns extra­ter­res­tres em naves espa­ci­ais; no Alentejo caí­ram bac­té­ri­as mar­ci­a­nas do céu.

E um dia pode­re­mos visi­tar as ter­mas de Cabeço de Vide com os nos­sos filhos e apon­tar um dedo mui­to sole­ne: «Miúdos, vejam: a vida na Terra come­çou mes­mo ali, ao lado daque­la senho­ra com pro­ble­mas de reu­ma­tis­mo».

A inclu­são na mon­ta­gem de ima­gens da equi­pa do Curiosity fes­te­jan­do uma amar­ta­gem de suces­so ou até de pla­nos do fil­me 2001 (como se uma odis­seia ou outra tives­sem algo a ver com a palha­ça­da bac­te­ri­a­na da SIC), só aju­da a refor­çar a ideia de que esta é a repor­ta­gem mais sur­re­a­lis­ta do ano. Nesta peça coe­xis­tem duas rea­li­da­des anta­gó­ni­cas: a dos entre­vis­ta­dos e a do entre­vis­ta­dor.

Pelo sim pelo não, ain­da vou con­fir­mar o calen­dá­rio outra vez.

Não, esta­mos mes­mo a 18 de outu­bro, não é Dia das Mentiras.

Marco Santos

­ Marco Santos

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