É pena que a melhor série de ficção científica na televisão tenha sido comparada a «Game of Thrones». Os livros em que se baseia também já tinham sido equiparados aos livros de George R. R. Martin.
Não é nada de novo. Um crítico da NPR — a norte-americana National Public Radio — disse que era o equivalente na ficção científica às «As Crónicas de Gelo e Fogo».
Há gelo, há fogo, mas não é bem o mesmo
A 1 de julho de 2013, a SyFyWire publicou um artigo contendo uma lista de 12 livros que também eram «o equivalente da ficção científica a «Game of Thrones» — e essa lista não incluía o primeiro livro da saga «The Expanse», vencedora do prémio Hugo no ano anterior.

Thomas Jane é o detective Miller
Se nunca viste «The Expanse» ou não ligas muito a ficção científica, mas és fã de «Game of Thrones» e a comparação despertou-te o interesse, é melhor leres primeiro este post. Desconfio que a série não tem o sucesso que merece simplesmente por causa destas comparações — parece-me injusto.
«Game of Thrones» safou-se bem entre os pouco entusiastas do género Fantasia porque é um «Senhor dos Anéis» mascarado de «Eu, Cláudio». A série começa com a aparição de uns seres sobrenaturais de gélidos olhos azuis, mas depressa desvia a nossa atenção para os jogos de tronos nas cortes dos Calígulas.
Não há nada melhor para alguém que não liga nenhuma a fantasia do que começar a ver uma série de fantasia que parece esquecer os seus elementos fantásticos. Quando estes são referenciados, apresentam-nos como lendas de um passado longínquo, histórias para assustar crianças.
Quando finalmente os fãs que não ligam ao género se apercebem que dragões, zombies e magias existem mesmo naquele mundo, é tarde demais. Quando percebem que o enorme investimento realista da história se destinava a disfarçar o inevitável caminho em direção à pura fantasia, já não se sentem enganados. Estão demasiado apanhados pela história e investidos no destino dos personagens para desistir.
«The Expanse» não tem esse tipo de truques na manga, embora também explore a sensação de uma ameaça tão longínqua como inevitável. É ficção científica, pura e dura, e nunca finge ser outra coisa.
Uma ameaça para acabar com todas as ameaças

Wes Chatham é Amos, talvez o mais complexo e bem conseguido personagem da série.
Mas percebo as razões que levaram alguns a dizer que esta série era «um Game of Thrones no Espaço».
Há pelo menos uma semelhança: tal como em «Game of Thrones», acompanhamos nações embrenhadas em jogos de poder, em lutas pelo domínio e controlo do Sistema Solar, enquanto ignoram uma misteriosa e potencialmente letal ameaça exterior.
«Game of Thrones» inicia a história mostrando-nos logo essa ameaça. Depois, os conflitos humanos fazem-nos esquecê-la temporariamente. Em «The Expanse» acontece o mesmo.
E terminam aqui as comparações.
«Game of Thrones» transforma-se num «Eu, Cláudio» da Terra Média sem elfos, orcs ou hobbits. «The Expanse» transforma-se, em parte, num «Chinatown» do Polanski sem Jack Nicholson e Faye Dunaway mas com Thomas Jane como um detective cínico e amargo, Shohreh Aghdashloo como uma implacável executiva da Nações Unidas, Jared Harris como um rebelde sem escrúpulos do Cinturão, planetas e naves espaciais. Muitas naves espaciais.

Ty Franck e Daniel Abraham
Mas a ligação com «Game of Thrones» é inegável. Um dos dois autores dos livros em que «The Expanse» se baseia — Ty Franck, assinando com Daniel Abraham sob o pseudónimo de James S. A. Corey — começou a sua carreira como assistente pessoal de George R.R. Martin.
«The Expanse» nem era para ser um livro. Ty Franck começou a escrever a história para um jogo multiplayer online que tencionava desenvolver. Mais tarde, a ideia mudou. Já não seria um jogo de computador, mas um cenário elaborado e complexo para um jogo de mesa.
Quando Daniel Abraham leu as notas de Franck, achou que aquele mundo futurista estava muito bem delineado e a pesquisa admirável e exaustiva. O melhor — propôs ele — era juntarem esforços e escreverem uma série de novelas de ficção científica a partir desse trabalho de base. E foi o que aconteceu, com enorme sucesso.
George R. R. Martin deu um bom contributo para a promoção do primeiro livro da saga ao elogiá-lo publicamente: «Há muito tempo que não tínhamos uma space-opera a sério», escreveu ele, entusiasmado. E tem repetido no Twitter e no blogue os elogios à série, produzida e escrita pelos próprios autores dos livros (o que é raro).

Frankie Adams como Roberta “Bobbie” Draper
«The Expanse» passa-se duzentos anos no futuro. O Sistema Solar foi colonizado e existem duas grandes potências colonizadoras: a Terra e Marte. Os habitantes de Ceres, no Cinturão de Asteroides, são os elementos essenciais na colonização do Sistema Solar mas, tal como acontece hoje em dia, são eternamente explorados e desprezados.
Enquanto os dramas políticos se desenrolam nos corredores do poder e a possibilidade de uma guerra entre Terra e Marte aumenta a cada dia que passa, um detetive nascido no Cinturão tenta desvendar o mistério do desaparecimento de uma jovem mulher.
E enquanto o detetive investiga, a tripulação de um transportador de gelo é envolvida num acidente mortal que terá como principal consequência a hipótese de despoletar um estado de guerra total entre os dois planetas desavindos. E mais não posso contar.
É a melhor série de ficção científica atual. As duas primeiras temporadas estão na Netflix ou nos sítios do demo, se não tiverem Netflix.
Hoje estreia o primeiro episódio da terceira. E gosto tanto de «The Expanse» que me dei ao trabalho de legendar toda a segunda temporada e preparo-me para fazer o mesmo com a terceira. Para fãs de ficção científica, vale mesmo a pena. Para os fãs de «Game of Thrones» também, desde que não caiam em comparações forçadas. Para os pobres mortais que não apreciam o género, nem por isso.
