Sempre que há notí­ci­as de máqui­nas ino­va­do­ras e robots a rea­li­za­rem as tare­fas mais impen­sá­veis, os geeks afi­ci­o­na­dos da saga «Terminator», como eu, sonham com o aí anun­ci­a­do Judgment Day: o dia em que o com­pu­ta­dor Skynet se tor­na auto cons­ci­en­te e ini­cia uma guer­ra de dimen­são mun­di­al.

Não no sen­ti­do de dese­jar uma guer­ra, mas antes no sen­ti­do de dese­jar que os huma­nos con­si­gam desen­vol­ver máqui­nas à sua seme­lhan­ça.

A eter­na von­ta­de do Homem brin­car em ser Deus.

Pois bem, esse dia pode­rá estar ago­ra um pou­co mais per­to.

Quem nunca jogou que atire a primeira pedra

Ed Jones

Peças são posi­ci­o­na­das na sala de impren­sa para uma repro­du­ção do jogo entre Lee Sedol e o super-​computador da Google. | Foto: Ed Jones

O desa­fio era anti­go: con­se­guir desen­vol­ver um pro­gra­ma de com­pu­ta­dor que con­se­guis­se der­ro­tar um joga­dor pro­fis­si­o­nal de Go.

Em 1997, ano em que o com­pu­ta­dor Deep Blue da IBM con­se­guiu der­ro­tar, à segun­da ten­ta­ti­va, o então cam­peão mun­di­al de Xadrez Garry Kasparov, os melho­res pro­gra­mas de Go dis­po­ní­veis não ven­ci­am sequer um joga­dor ama­dor medi­a­no.

Em Outubro de 2015 sur­giu o pri­mei­ro indí­cio de que uma empre­sa sub­si­diá­ria da Google, a DeepMind, tinha con­se­gui­do encon­trar os algo­rit­mos cer­tos: o seu soft­ware, o AlphaGo, ven­ceu o tri-​campeão euro­peu, Fan Hui, por 5-​0, numa série de jogos rea­li­za­dos à por­ta fecha­da na sede da empre­sa.

REUTERS/Google/Yonhap

O joga­dor pro­fis­si­o­nal de Go, Lee Sedol, colo­ca a pri­mei­ra pedra con­tra o pro­gra­ma de inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al AlphaGo, da Google, ini­ci­an­do a ter­cei­ra e poten­ci­al deci­si­va par­ti­da da Google DeepMind Challenge Match, em Seoul, Coreia do Sul. | REUTERS/​Google/​Yonhap

Faltava o desa­fio final: pôr à pro­va o AlphaGo, defrontando-​o com o joga­dor pro­fis­si­o­nal e atu­al cam­peão mun­di­al de Go, Lee Sedol, sul core­a­no de 33 anos e deten­tor de 18 títu­los inter­na­ci­o­nais.

Este vídeo ilus­tra a pose de galo ven­ce­dor da Google - levan­to o véu para quem já está cheio de curi­o­si­da­de, em pul­gas para saber o final e não aguen­ta tama­nho sus­pen­se.

Que os jogos comecem!, já diziam os romanos

As pedras no tabulleiro de Go

O Go é um jogo mile­nar, inven­ta­do há cer­ca de 2500 anos na China, mui­to popu­lar em vári­os outros paí­ses como, por exem­plo, Japão ou Coreia do Sul.

As regras são sim­plis­tas.

Dois joga­do­res defrontam-​se, colo­can­do, à vez, uma peça da res­pe­ti­va cor - bran­ca ou pre­ta - num espa­ço livre de um tabu­lei­ro de 19x19.

O jogo come­ça com o tabu­lei­ro vazio e os joga­do­res ten­tam ganhar ter­ri­tó­rio, enquan­to evi­tam ser «cap­tu­ra­dos» pelo adver­sá­rio.

As pedras têm de ser colo­ca­das numa inter­sec­ção das qua­drí­cu­las que com­põe o tabu­lei­ro, com um espa­ço livre adja­cen­te ou como par­te de um gru­po de pedras da mes­ma cor com, pelo menos, um espa­ço livre.

Se forem cap­tu­ra­das são reti­ra­das do tabu­lei­ro.

Ganha o joga­dor que tiver con­quis­ta­do mais ter­ri­tó­rio.

Demis Hassabis

Demis Hassabis, super­vi­sor da equi­pa que cons­truiu o AlphaGo, e Lee Sedol - acom­pa­nha­do pela filha - antes do pri­mei­ro jogo com o com­pu­ta­dor.

Após déca­das de inves­ti­ga­ção e ten­ta­ti­vas de desen­vol­ver um com­pu­ta­dor à altu­ra do desa­fio, a DeepMind apli­cou vári­as téc­ni­cas de inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al ao lon­go dos últi­mos 18 meses, incluin­do o que a empre­sa cha­ma de «deep lear­ning» (apren­di­za­gem em pro­fun­di­da­de), tec­no­lo­gia esta que per­mi­te que os com­pu­ta­do­res apren­dam gran­de par­te das tare­fas de for­ma autó­no­ma, cons­truin­do assim o seu pró­prio enten­di­men­to do jogo.

O com­pu­ta­dor pode, então, esco­lher as joga­das com mais pro­ba­bi­li­da­de de con­du­zir à vitó­ria.

Uma for­ma sim­ples de «ensi­nar» um com­pu­ta­dor a jogar cer­to jogo, é instruí-​lo a orde­nar todas as joga­das pos­sí­veis da melhor para a pior.

Mas esta téc­ni­ca não é viá­vel de ser apli­ca­da no Xadrez e mui­to menos no Go.

Cada joga­da de Go tem cer­ca de 250 movi­men­tos váli­dos pos­sí­veis - em com­pa­ra­ção, o Xadrez tem cer­ca de 35 - e 361 posi­ções ini­ci­ais váli­das.

Uma par­ti­da de Xadrez dura cer­ca de 80 joga­das, enquan­to um jogo de Go dura cer­ca de 150.

Para se con­se­guir deter­mi­nar todas as joga­das pos­sí­veis seri­am neces­sá­ri­as ana­li­sar cer­ca de

[ima­gi­nar um rio fei­to de zeros aqui]

(10 ele­va­do a 171, id est, um núme­ro gor­di­nho come­ça­do em 1 e ter­mi­na­do em 171 zeros) com­bi­na­ções pos­sí­veis.

A fra­se que a Google gos­ta de usar para des­cre­ver a com­ple­xi­da­de do Go: «Existem mais posi­ções pos­sí­veis no tabu­lei­ro do que áto­mos no uni­ver­so».

Vejam o vídeo que expli­ca de for­ma bas­tan­te sim­ples a tec­no­lo­gia base do AlphaGo.

O Skynet também aprendeu a jogar Go?

Jornalistas acom­pa­nham o ter­cei­ro jogo entre o com­pu­ta­dor e o mes­tre huma­no Lee Sedol. | Foto: Jung Yeon-​Je/​AFP

O desa­fio de cin­co par­ti­das, onde a vitó­ria é asse­gu­ra­da com três par­ti­das ven­ce­do­ras, come­çou no dia 9 de Março, às 13h (locais), no Hotel Four Seasons da capi­tal sul core­a­na, Seoul.

Estava em jogo o pré­mio de 1 milhão de dóla­res, lan­ça­do pela pró­pria Google.

Mas este con­fron­to repre­sen­ta­va mui­to mais do que isso: a hege­mo­nia dos huma­nos sobre pro­gra­mas de com­pu­ta­dor que con­se­guem jogar Go esta­va a ser pos­ta à pro­va.

Para a DeepMind era a pro­va dos nove: depois do AlphaGo der­ro­tar o tri-​campeão euro­peu em Outubro de 2015, a con­fir­ma­ção do seu poten­ci­al depen­dia des­ta vitó­ria.

Lee Sedol ante­ci­pa­va uma vitó­ria, mui­to embo­ra admi­tis­se per­der um dos cin­co jogos.

O suces­so do AlphaGo logo na pri­mei­ra par­ti­da dei­xou a comu­ni­da­de de Go em cho­que, fazen­do as man­che­tes na Coreia do Sul, onde se esti­mam haver 8 milhões de joga­do­res de Go e Lee Sedol é uma reco­nhe­ci­da figu­ra públi­ca, mes­mo entre quem não é adep­to do jogo.

Após a der­ro­ta por 3-​0, o cam­peão huma­no con­se­guiu o jogo de hon­ra na quar­ta par­ti­da, gra­ças a um erro come­ti­do e tar­di­a­men­te cor­ri­gi­do pelo AlphaGo, segun­do admi­tiu o pró­prio Demis Hassabis, super­vi­sor da equi­pa que cons­truiu o AlphaGo, na rede Twitter.

Acrescentou ain­da que a der­ro­ta aju­da­ria a DeepMind a tes­tar os limi­tes da sua AI (inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al): «Para nós, esta per­da é mui­to vali­o­sa. Nós ain­da não temos a cer­te­za do que acon­te­ceu».

Eis a reac­ção à vitó­ria de Lee sobre o AlphaGo no jogo núme­ro 4 - a vitó­ria de con­so­la­ção - em defe­sa da hon­ra dos milhões de joga­do­res de Go ain­da aba­na­na­dos com o resul­ta­do de 3-​1.

E agora?

Lee Sedol

«Lee Sedol foi quem per­deu hoje, não a Humanidade», decla­rou o cam­peão mun­di­al no final da ter­cei­ra par­ti­da, a 12 de Março, que ditou a sua der­ro­ta. | Foto: AP

O resul­ta­do final, apu­ra­do hoje, há umas horas, ficou nuns cla­rís­si­mos 4-​1 a favor da máqui­na.

O sem­blan­te der­ro­ta­do de Lee Sedol antes da con­fe­rên­cia de impren­sa, no fim da quin­ta e últi­ma par­ti­da, em que saiu uma vez mais der­ro­ta­do, che­ga a ser emo­ci­o­nan­te, trans­pa­re­cen­do a enor­me res­pon­sa­bi­li­da­de que lhe pesa­va nos ombros: car­re­ga­va o peso de defen­der um jogo mile­nar ain­da não con­quis­ta­do pelas máqui­nas.

Demasiado peso para um úni­co jovem de 33 anos: a sua nação e a intei­ra comu­ni­da­de mun­di­al de joga­do­res de Go, de olhos pos­tos sobre ele.

A comu­ni­ca­ção à impren­sa abriu com Demis Hassabis, que decla­rou estar sem pala­vras, afir­man­do ter sido a par­ti­da mais sur­pre­en­den­te até ago­ra, com erros do AlphaGo no iní­cio, recu­pe­ra­dos mais tar­de para ter­mi­nar numa bata­lha bas­tan­te renhi­da.

Quando ques­ti­o­na­do acer­ca de ter gos­ta­do de jogar con­tra o AlphaGo e se as cin­co par­ti­das teri­am muda­do o seu enten­di­men­to do Go, Lee con­fes­sou que não con­si­de­ra neces­sa­ri­a­men­te o AlphaGo supe­ri­or, acre­di­tan­do que um ser huma­no pode­rá fazer mais jogan­do con­tra um adver­sá­rio de inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al e lamen­tan­do não ter fei­to mais e melhor.

Para ele, o Go é um jogo de entre­te­ni­men­to que se joga com pra­zer, quer se seja um ama­dor ou um joga­dor pro­fis­si­o­nal.

E é por essa razão que a satis­fa­ção de se jogar Go é a essên­cia do jogo. Admitiu, con­tu­do, que gos­tou de jogar con­tra o rival não huma­no.

O dia depois do 12 de Março de 2016

E ago­ra? Teremos de ir a cor­rer fazer filas nas lojas de caça para armarmo-​nos até aos den­tes e afluir aos cam­pos de tiro, por­que o tem­po dos robots che­gou e o anun­ci­a­do «Dia do Julgamento» está aí ao virar da esqui­na?

Não. Podemos con­ti­nu­ar rela­xa­dos, de cer­ve­ja na mão a ver a bola, por­que isto é só um jogo de tabu­lei­ro.

Mas é segu­ra­men­te o iní­cio de uma nova era. A era DAG: Depois de AlphaGo.

A bar­rei­ra ago­ra defi­ni­ti­va­men­te ultra­pas­sa­da é um mar­co his­tó­ri­co: os com­pu­ta­do­res estão capa­zes de rea­li­zar tare­fas que vão além da for­ça bru­ta.

Ou seja, se até aqui gran­de par­te do tra­ba­lho dos com­pu­ta­do­res se base­a­va essen­ci­al­men­te em algo­rit­mos que exi­gi­am capa­ci­da­de de pro­ces­sa­men­to, ago­ra está pro­va­do que tam­bém é pos­sí­vel cri­ar com­pu­ta­do­res que «apren­dem» e têm «intui­ção» em quan­ti­da­de sufi­ci­en­te para con­se­gui­rem rea­li­zar tare­fas de ele­va­do grau de com­ple­xi­da­de.

Resta-​nos, então, sonhar com coi­si­nhas fofas como esta.

Coisinha fofa

S. Carvalho

­S. Carvalho

Matemático por paixão. Engenheiro de profissão. Progenitor dedicado de duas princesas.