Gosto de ver o meu Firefox outra vez na com­pa­nhia dos mais cres­ci­dos. Sempre fui fiel ao Firefox. Quando o Google Chrome tomou con­ta dos nave­ga­do­res e toda a gen­te lhe elo­gi­a­va a sim­pli­ci­da­de e rapi­dez, mantive-​me fiel.

Talvez por ser um boca­di­nho ide­a­lis­ta. Mesmo quan­do come­çou a tornar-​se cada vez mais len­to e pesa­do, con­su­min­do memó­ria como uma rapo­sa esfo­me­a­da, nun­ca dei­xou de ser o meu nave­ga­dor prin­ci­pal. Nem o Opera ou o recen­te Vivaldi con­se­gui­ram destroná-​lo, mui­to menos o Chrome.

Agora res­sus­ci­tou como Firefox Quantum. Manteve as qua­li­da­des. Perdeu os defei­tos. Experimentem-​no.

O meu nome é Raymond. Eric S. Raymond

Eric S. Raymond

O Firefox nas­ceu de um momen­to de ide­a­lis­mo - é por isso que gos­to tan­to dele. Surgiu numa altu­ra em que o medío­cre Internet Explorer nos era impin­gi­do pela Microsoft em todas as ins­ta­la­ções do Windows. A Netscape Communications Corp, deten­to­ra do úni­co nave­ga­dor rebel­de que lhe fazia fren­te, o Netscape Navigator, preparava-​se para des­con­ti­nu­ar o pro­je­to e render-​se ao impé­rio.

O Netscape Navigator não era gra­tui­to. O Internet Explorer era dis­tri­buí­do gra­tui­ta­men­te no Windows. A par­tir do Windows 98, o nave­ga­dor esta­va tão inte­gra­do no sis­te­ma ope­ra­ti­vo que não havia for­ma fácil de desinstalá-​lo, mes­mo que qui­sés­se­mos. Era uma bata­lha per­di­da.

A ren­di­ção total só não acon­te­ceu devi­do a um ensaio escri­to por um guru do soft­ware livre, Eric S. Raymond, cha­ma­do «A Catedral e o Bazar».

O ensaio foi apre­sen­ta­do a 27 de maio de 1997 no Congresso Linux em Würzburg, na Alemanha. De cer­ta for­ma, é uma data his­tó­ri­ca: aju­dou a mol­dar o que é hoje o mun­do do soft­ware livre e dos nave­ga­do­res. Sem o ensaio de Eric S. Raymond, o Firefox nun­ca teria exis­ti­do.

Raymond iden­ti­fi­cou no ensaio dois mode­los dife­ren­tes de desen­vol­vi­men­to do soft­ware livre: o mode­lo Catedral e o mode­lo Bazar.

No mode­lo Catedral, o código-​fonte está dis­po­ní­vel em cada lan­ça­men­to do soft­ware, mas só um gru­po res­tri­to de pro­gra­ma­do­res o desen­vol­ve. Este, em par­te, é tam­bém o mode­lo típi­co do soft­ware pro­pri­e­tá­rio de mui­tas apli­ca­ções do Windows, incluin­do o pró­prio Windows: gru­po res­tri­to a desen­vol­ver e, nes­te caso, códi­go fecha­do.

No mode­lo Bazar, o códi­go é desen­vol­vi­do de for­ma total­men­te aber­ta e públi­ca, aber­to à con­tri­bui­ção de todos, uti­li­zan­do o poder da Internet. É uma espé­cie de «We are the 99%» apli­ca­do ao desen­vol­vi­men­to de soft­ware. A defe­sa des­te últi­mo mode­lo con­ven­ceu mui­tas empre­sas de soft­ware livre a ado­tar o Bazar.

É bazar daqui, Internet Explorer

Internet Explorer

Os argu­men­tos a favor do mode­lo Bazar, livre e aber­to a todos, influ­en­ci­a­ram a deci­são de vári­os ele­men­tos da Netscape Communications de não se darem por ven­ci­dos na guer­ra con­tra o Internet Explorer. A 28 de janei­ro de 1998, tor­na­ram o Netscape Navigator gra­tui­to, anun­ci­a­ram o nas­ci­men­to da Mozilla e dis­po­ni­bi­li­za­ram o código-​fonte a toda a gen­te.

A 9 de novem­bro de 2004, foi lan­ça­da a ver­são 1.0 do Firefox. Na altu­ra chamava-​se Phoenix, um míti­co pás­sa­ro de fogo renas­ci­do das cin­zas do Netscape Navigator, o seu ante­ces­sor.

Como sur­gi­ram pro­ble­mas com a mar­ca regis­ta­da Phoenix Technologies, a Mozilla mudou para o nome Firebird. Mas Firebird era já o nome do ser­vi­dor Open Source de base de dados da Fundação FirebirdSQL e a bron­ca esta­lou. Depois de mui­tos pro­tes­tos e «fla­me wars», a Mozilla cedeu, dei­xou cair o pás­sa­ro, ado­tou a rapo­sa e man­te­ve o fogo: Firefox.

Num perío­do de nove meses, o Firefox foi des­car­re­ga­do 60 milhões de vezes. Era mais rápi­do e segu­ro que o con­cor­ren­te da Microsoft. Ao con­trá­rio des­te, res­pei­ta­va os «web stan­dards» — uma bên­ção para web desig­ners que já esta­vam pelos cabe­los com os capri­chos do Internet Explorer. Foi o Firefox o prin­ci­pal res­pon­sá­vel pelo der­ru­be do impé­rio do Internet Explorer. Google Chrome, o novo Opera e o Vivaldi são todos base­a­dos no pro­jec­to Chromium, tam­bém Open Source.

Foi com ele que come­çou a liber­ta­ção. E é por isso que me man­ti­ve sem­pre fiel.

Surpresa! O Facebook faz dinheiro com a nossa privacidade

Facebook

Tantos anos depois e encos­ta­do a um can­to pelo Google Chrome, gos­to de ver este meu Firefox a regres­sar à pri­mei­ra divi­são e a desa­fi­ar o cam­peão com uma gol­pa­da de mar­ke­ting opor­tu­na.

O anún­cio da exten­são «Facebook Containers» foi fei­to no auge da dis­cus­são do escân­da­lo envol­ven­do o uso inde­vi­do de dados dos uti­li­za­do­res pela Cambridge Analytica. Vocês conhe­cem a his­tó­ria: os dados pri­va­dos dos uti­li­za­do­res foram uti­li­za­dos pela con­sul­to­ra enquan­to o Facebook enco­lhia os ombros como, de res­to, fez sem­pre. O seu negó­cio é pre­ci­sa­men­te vender-​nos.

A par­tir do momen­to em que regis­ta­mos uma con­ta no Facebook, damos auto­ri­za­ção à empre­sa do Mark Zuckerberg para se tor­nar a nos­sa pro­xe­ne­ta.

Não é o cor­po que é ven­di­do às empre­sas de publi­ci­da­de, mas dados que aju­dam a defi­nir a nos­sa iden­ti­da­de: o que gos­ta­mos e detes­ta­mos, inte­res­ses e desin­te­res­ses, o que mexe con­nos­co e o que nos dei­xa indi­fe­ren­tes. O Facebook não é, nun­ca foi e nun­ca será gra­tui­to.

O que a Mozilla fez foi anun­ci­ar a mul­ti­dões subi­ta­men­te pre­o­cu­pa­das com a pri­va­ci­da­de na rede soci­al que o seu nave­ga­dor Firefox era o úni­co que con­ti­nha uma fer­ra­men­ta capaz de impe­dir o Facebook de espiar-​nos: o «Facebook Container».

Li então no Twitter mais refe­rên­ci­as, elo­gi­os e juras de fide­li­da­de eter­na ao Firefox em uma úni­ca sema­na do que nos últi­mos oito anos. Muitos já anda­vam a dizer que era des­ta que iam tro­car o Chrome, tão pre­o­cu­pa­do com a nos­sa pri­va­ci­da­de como o Facebook, pelo «velhi­nho» Firefox.

A ideia de cri­ar a exten­são «Facebook Container» e apresentá-​la ao mun­do como se fos­se uma res­pos­ta dire­ta do Firefox aos abu­sos do Facebook mos­trou o sen­ti­do de opor­tu­ni­da­de de uma rapo­sa, como é mes­mo apro­pri­a­do. Gostei bas­tan­te.

A carga pronta e metida nos contentores

Firefox Multi-Account Containers

Claro que o con­cei­to de «iden­ti­da­des con­tex­tu­ais» em que se baseia a exten­são anun­ci­a­da já exis­te pelo menos des­de junho de 2016, quan­do o Firefox a intro­du­ziu como um teste-​piloto para as ver­sões «nigh­tly» do brow­ser.

Em setem­bro de 2017, a exten­são foi dis­po­ni­bi­li­za­da ofi­ci­al­men­te a todos os uti­li­za­do­res com o nome «Firefox Multi-​Account Containers».

O que esta exten­são faz é cri­ar «con­ten­to­res» defi­ni­dos por nós. Por exem­plo, pode­mos cri­ar um «con­ten­tor» para com­pras onli­ne, outro para o Facebook e outro para os sites por­no que nun­ca visi­tá­mos na vida nem ten­ci­o­na­mos visi­tar.

A nos­sa «iden­ti­da­de» e o que faze­mos na Net ficam iso­la­dos den­tro des­ses «con­ten­to­res».

Os coo­ki­es e os dados gra­va­dos por um sítio podem ser com­ple­ta­men­te iso­la­dos de outro. Podemos defi­nir um «con­ten­tor» para com­pras na net e os dados que o nave­ga­dor gra­va – coo­ki­es, por exem­plo — ficam iso­la­dos nes­se «con­ten­tor». É pos­sí­vel fazer-​se o mes­mo ao Facebook, restringindo-​o ao seu pró­prio domí­nio e impedindo-​o de ras­tre­ar o nos­so per­cur­so na Web.

A dife­ren­ça é que o «Facebook Containers» iso­la o Facebook de for­ma auto­má­ti­ca. É ins­ta­lar e já está. Como can­tam os Xutos, «a car­ga pron­ta e meti­da nos con­ten­to­res, adeus ó meus amo­res que me vou para outro mun­do». No caso da exten­são do Firefox, a prin­ci­pal «car­ga» iso­la­da no con­ten­tor é um fichei­ro cha­ma­do «coo­kie».

Em prin­cí­pio, o «coo­kie» é envi­a­do para os nos­sos brow­sers com inten­ções benig­nas. Contém infor­ma­ção sobre a nos­sa ati­vi­da­de num deter­mi­na­do sítio web. Quando o visi­ta­mos outra vez, a infor­ma­ção arma­ze­na­da no coo­kie per­mi­te ao sítio identificar-​nos e lembrar-​se das nos­sas pre­fe­rên­ci­as.

A ideia é facilitar-​nos a vida e tor­nar auto­má­ti­cos pro­ces­sos de iní­cio de ses­são em sites onde esta­mos regis­ta­dos, por exem­plo.

Mas os coo­ki­es tam­bém são usa­dos com inten­ções menos bene­vo­len­tes. Podem ras­tre­ar os nos­sos movi­men­tos na Internet, apren­den­do sobre os nos­sos gos­tos e pre­fe­rên­ci­as de for­ma a impingir-​nos publi­ci­da­de mais per­so­na­li­za­da.

O Facebook faz isto, cla­ro, e nem sequer é pre­ci­so visitar-​lhes a pági­na: bas­ta visi­tar­mos um sítio com um daque­les botões de «Gosto» para que leve­mos com o coo­kie cos­cu­vi­lhei­ro sem sequer dar­mos por isso.

80 mil milhões de perdões

Mark Zuckerberg

Mark Zuckerberg desdobra-​se ago­ra em entre­vis­tas e depoi­men­tos a pedir o nos­so per­dão. Está em ple­na fase de peni­tên­cia públi­ca dos peca­dos. Só lhe fal­ta gos­tar de andar para fazer uma pere­gri­na­ção a Fátima.

Mas o que lhe dói mes­mo é o fac­to de a empre­sa ter per­di­do em bol­sa cer­ca de 18 por cen­to do seu valor des­te que o escân­da­lo reben­tou na comu­ni­ca­ção soci­al: esta­mos a falar de per­das esti­ma­das em 80 mil milhões de euros.

Já esti­ve para lar­gar o Facebook de vez por cau­sa des­ta e de outras razões, mas o melhor é mes­mo usar os «con­ten­to­res» do Firefox e uma com­bi­na­ção dos plu­gins uBlock Origin e uMatrix para blo­que­ar publi­ci­da­de, coo­ki­es e ras­tre­a­do­res (Adguard, se qui­se­rem uma solu­ção mais pronta-​a-​usar).

Não aban­do­nar o Facebook e, em vez dis­so, estar­mos mais cons­ci­en­tes do valor da nos­sa pri­va­ci­da­de: eis a melhor deci­são para mim, de momen­to. Talvez este epi­só­dio con­tri­bua para que os uti­li­za­do­res se mudem para aque­le que, duran­te mui­tos anos, foi con­si­de­ra­do o melhor nave­ga­dor de todos.

E acre­di­tem: estas últi­mas ver­sões farão com que um dia recu­pe­re a lide­ran­ça e aju­de a des­tro­nar o segun­do mai­or cos­cu­vi­lhei­ro a seguir ao Facebook: o Chrome. O Mozilla Firefox vol­tou a ser o melhor, mais rápi­do, segu­ro e está­vel brow­ser do mun­do e arre­do­res.

Marco Santos

­ Marco Santos

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