As per­gun­tas que se seguem foram-​me envi­a­das por alguém que reco­nhe­ceu o meu nome nas legen­das do Game of Thrones. A inten­ção era fazer um vídeo sobre os volun­tá­ri­os que fazem as legen­das e falar des­te mun­do da tra­du­ção ama­do­ra de séri­es e fil­mes. Desejo-​lhe boa sor­te e bom tra­ba­lho.

Como o mate­ri­al em ques­tão não é segre­do de Estado, o que eu digo não é nada de espe­ci­al e ele pro­va­vel­men­te irá entre­vis­tar mui­tas mais pes­so­as, fica aqui a minha peque­na con­tri­bui­ção.

Já outras pes­so­as me fize­ram algu­mas des­tas per­gun­tas. De futu­ro, em vez de estar sem­pre a repe­tir as mes­mas coi­sas, bas­ta­rá mostrar-​lhes esta pági­na.

Quando é que come­ças­te a cri­ar legen­das?

Durante a ter­cei­ra tem­po­ra­da do Game of Thrones. Fazia-​o só para con­su­mo fami­li­ar. Não me pas­sa­va pela cabe­ça partilhá-​las onli­ne. A pai­sa­gem lunar era-​me mais fami­li­ar do que o mun­do das legen­das.

E ain­da bem que não par­ti­lhei, por­que nes­sa altu­ra não sabia nada sobre o que é legen­dar: tem­pos, núme­ro máxi­mo de cara­te­res, por aí fora. Tal como qual­quer outro nova­to, acha­va que legen­dar era ape­nas tra­du­zir. Legendar é mui­to mais do que isso.

À medi­da que fui ganhan­do con­fi­an­ça, pen­sei: «Bem, já que estou a fazê-​las, mais vale partilhá-​las». Comecei a fazê-​lo atra­vés do Facebook. Inevitavelmente, a legen­da aca­ba­va por apa­re­cer em todos os síti­os de legen­das. Nunca vi nenhum comen­tá­rio a dizer que esta­vam uma boa mer­da, por isso senti-​me enco­ra­ja­do. Criei con­ta em dois ou três sites e come­cei a partilhá-​las eu.

Crias legen­das para outras pla­ta­for­mas?

Para o YouTube, mas só mui­to oca­si­o­nal­men­te. E é sem­pre para ilus­trar arti­gos do blo­gue.

Que tipo de fer­ra­men­tas usas para cri­ar legen­das?

Subtitle Edit

O pro­gra­ma Subtitle Edit. Muita gen­te acon­se­lha o Subtitle Workshop, mas eu pre­fi­ro este.

Existe soft­ware pro­fis­si­o­nal de cri­a­ção de legen­das, mas eu não sou pro­fis­si­o­nal nem esta­ria dis­pos­to a gas­tar uma for­tu­na em apli­ca­ções só para par­ti­lhar legen­das de for­ma ama­do­ra. O Subtitle Edit é gra­tui­to, é Open Source e as suas fun­ci­o­na­li­da­des podem ser enri­que­ci­das com plu­gins, tam­bém gra­tui­tos. Serve-​me per­fei­ta­men­te.

As res­tan­tes fer­ra­men­tas são as habi­tu­ais: um bom dici­o­ná­rio e um cére­bro.

É um tra­ba­lho fei­to a solo ou em equi­pa?

Prefiro tra­ba­lhar sozi­nho mas, com as pes­so­as cer­tas, tra­ba­lhar em equi­pa é um pra­zer e ace­le­ra o pro­ces­so. Divide-​se a legen­da e cada um fica com uma par­te. Junta-​se a legen­da com a con­tri­bui­ção de todos. Por fim, um dos ele­men­tos da equi­pa pre­vi­a­men­te desig­na­do encarrega-​se da revi­são final, que inclui cor­ri­gir gra­lhas e incon­sis­tên­ci­as.

Dracarys, Camões

Dracarys

Quais foram as mai­o­res difi­cul­da­des que encon­tras­te a cri­ar legen­das?

Achar que legen­dar era tra­du­zir. E que tra­du­zir era pas­sar o que se diz de um idi­o­ma para outro de for­ma qua­se lite­ral.

Legendar impli­ca não só tra­du­zir, mas ter em con­ta o tem­po de expo­si­ção das linhas, o núme­ro de cara­te­res e o tem­po de lei­tu­ra. O obje­ti­vo é fazer com que as pes­so­as pas­sem o menor tem­po pos­sí­vel a olhar para a legen­da sem per­der nada do que está a ser dito. É mais difí­cil do que pare­ce.

Nesse pro­ces­so aju­da bas­tan­te a rede­fi­ni­ção do que é tra­du­zir. Ter-​se, pelo menos, a noção de que tra­du­ções lite­rais rara­men­te fun­ci­o­nam. Isto é algo bási­co para qual­quer tra­du­tor pro­fis­si­o­nal, mas não para um ama­dor como eu.

Tão impor­tan­te como tra­du­zir, é saber inter­pre­tar. Os pro­fis­si­o­nais que acom­pa­nham os polí­ti­cos em visi­tas ao estran­gei­ro tra­du­zem o que os che­fes de Estado dizem, mas não são cha­ma­dos tra­du­to­res. São intér­pre­tes.

O legen­da­dor é, de cer­ta for­ma, um intér­pre­te. Os per­so­na­gens e os teles­pec­ta­do­res são che­fes de Estado de paí­ses dife­ren­tes. O obje­ti­vo é que o essen­ci­al da men­sa­gem de um para outro seja entre­gue sem detur­pa­ções. Idealmente, é uma pre­sen­ça invi­sí­vel. E, tal como acon­te­ce com os árbi­tros de fute­bol, quan­to menos o teles­pec­ta­dor der por ele, melhor.

Também é impor­tan­te res­pei­tar a lín­gua Portuguesa. Alguns cri­a­do­res de legen­das fazem ao Português aqui­lo que a Daenerys Targaryen cos­tu­ma fazer aos ini­mi­gos.

Em que dis­po­si­ti­vo cri­as legen­das?

Num PC. Uso Windows, infe­liz­men­te, por­que o meu sis­te­ma ope­ra­ti­vo pre­fe­ri­do, o Ubuntu, não é capaz de reco­nhe­cer a minha pla­ca de som. Sem som, não há legen­das. Ou, mais impor­tan­te ain­da, músi­ca!

Conheces mais pes­so­as que o façam?

Somos pou­cos, mas bons. E dedi­ca­dos.

Também somos cri­a­tu­ras mui­to sen­sí­veis. Muito cons­ci­en­tes do carác­ter filan­tró­pi­co do que faze­mos e das horas de tra­ba­lho que per­de­mos por dedi­ca­ção à cau­sa. Também somos pou­co tole­ran­tes para quem saca as legen­das e nem uma men­sa­gem de agra­de­ci­men­to envia, enfim, ingra­tos, san­gues­su­gas, que vão todos para o raio que os par­ta.

De uma for­ma geral, temos con­se­gui­do ultra­pas­sar esses trau­mas... embo­ra às vezes não pare­ça.

Que pro­ces­so segues quan­do come­ças a cri­ar legen­das?

Cada um tem o seu pro­ces­so. O meu é um boca­do tor­tu­o­so. Vejo todo o epi­só­dio ou fil­me em inglês. Se já exis­ti­rem legen­das escri­tas em inglês, tan­to melhor. Se não exis­ti­rem, o pro­ces­so é mais demo­ra­do. Eu só tra­du­zo em inglês. Posso tra­du­zir peque­nas par­tes em fran­cês, espa­nhol ou ita­li­a­no, mas não me sin­to qua­li­fi­ca­do para o fazer com víde­os mais exten­sos.

Trabalho a conta-​gotas. Ou, nes­te caso, a conta-​cenas. Traduzo uma cena, paro e revejo-​a já com as legen­das em Português, é uma pri­mei­ra fase da revi­são. Quando aca­bo todas as cenas, reve­jo o epi­só­dio de uma pon­ta à outra. É a segun­da, e últi­ma, fase de revi­são. Pelo meio, é sem­pre neces­sá­rio fazer algu­mas «sin­cro­ni­za­ções finas» para que a legen­da fique com a melhor sin­cro­ni­za­ção pos­sí­vel.

Para sin­cro­ni­zar é pre­ci­so uma paci­ên­cia de san­to. Nem sem­pre a tenho. Mas como este mun­do das legen­das tem uma comu­ni­da­de cola­bo­ra­ti­va, há sem­pre alguém que faz sin­cro­ni­za­ções para as diver­sas ver­sões de fichei­ros que exis­tem.