Campanha em Londres

Provavelmente ain­da se recor­dam – fotos iguais a esta cir­cu­la­ram mui­to na Web – de uma cam­pa­nha publi­ci­tá­ria em auto­car­ros de Londres, nos quais um car­taz, afi­xa­do no exte­ri­or, mos­tra­va a men­sa­gem: «There’s pro­bla­bly no God.  Now stop wor­rying and enjoy your life», em por­tu­guês, «Provavelmente Deus não exis­te. Então, dei­xe de preocupar-​se e des­fru­te a vida.»

O prin­ci­pal res­pon­sá­vel pela cam­pa­nha foi a British Humanist Association (Associação Humanista Britânica), apoi­a­da por um vice-​presidente hono­rá­rio da asso­ci­a­ção,  o céle­bre e polé­mi­co bió­lo­go darwi­nis­ta Richard Dawkins.

Dawkins é um ateu mili­tan­te. Um acti­vis­ta. Há quem o acu­se de negar a exis­tên­cia de Deus com um fer­vor fun­da­men­ta­lis­ta.

A últi­ma acção de Dawkins faz juz à sua fama de que­rer pro­vo­car um «mili­tan­tis­mo cris­tão adver­so», como escre­veu, em arti­go no DN, o teó­lo­go, filó­so­fo e docen­te da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Anselmo Borges.

Juntamente com o jor­na­lis­ta e escri­tor anglo-​americano Christopher Hitchens, outro ateu mili­tan­te e autor de um livro onde arra­sa Deus e as reli­giões, Dawkins mani­fes­tou a inten­ção de recor­rer à Justiça bri­tâ­ni­ca e ao Tribunal Penal Internacional com o objec­ti­vo de pren­der o Papa Bento XVI por «cri­mes con­tra a Humanidade», quan­do este visi­tar o Reino Unido, entre 16 e 19 de Setembro des­te ano.

Dawkins e Hitchens defen­dem que o Papa terá enco­ber­to padres pedó­fi­los. Assumindo como mano­bra de mar­ke­ting pedir a pri­são do Papa, supõe-​se que a ver­da­dei­ra inten­ção dos dois acti­vis­tas seja a de, pelo menos, forçá-​lo a expli­car por que razão «optou pela repu­ta­ção da Igreja cató­li­ca em detri­men­to do bem-​estar das cri­an­ças».

O idiota e o justo

Cartoon

A pres­são exer­ci­da sobre a Igreja e o Papa por cau­sa dos abu­sos sexu­ais tem aju­da­do a reve­lar o que real­men­te pen­sam alguns padres e sacer­do­tes.

O secre­tá­rio de Estado do Vaticano, o car­de­al Tarcisio Bertone, o núme­ro 2 do Estado, é uma das razões que me levam a pen­sar que qual­quer pes­soa men­tal­men­te sau­dá­vel se deve afas­tar des­ta Igreja e, no caso de ser cren­te, dis­pen­sar qual­quer inter­me­diá­rio na comu­ni­ca­ção entre Céu e Terra, Deus e cons­ci­ên­cia.

Acossado pelos escân­da­los de pedo­fi­lia, Bertone con­cluiu que afi­nal o peca­do é ser-​se mari­cas, esta­be­le­cen­do uma rela­ção entre pedo­fi­lia e homos­se­xu­a­li­da­de.

Disse ante­on­tem, aos jor­na­lis­tas, o seguin­te:

Demonstraram mui­tos soció­lo­gos, mui­tos psi­qui­a­tras, que não há uma rela­ção entre celi­ba­to e pedo­fi­lia, mas mui­tos outros demons­tra­ram, e disseram-​mo recen­te­men­te, que há uma rela­ção entre homos­se­xu­a­li­da­de e pedo­fi­lia.

Os pri­mei­ros a rea­gir con­tra esta inter­pre­ta­ção foram os pró­pri­os psi­có­lo­gos. Eis um exem­plo por­tu­guês: Marta Crawford, licen­ci­a­da em Psicologia Clínica e espe­ci­a­li­za­da em Sexologia Clínica, res­pon­deu da seguin­te for­ma:

Não vejo qual­quer rela­ção entre pedo­fi­lia e homos­se­xu­a­li­da­de. A pedo­fi­lia não é só rela­ci­o­na­da com com­por­ta­men­tos com pes­so­as do mes­mo sexo. Logo aí a rela­ção nem sequer se colo­ca», afir­mou. «Ser pedó­fi­lo não sig­ni­fi­ca ter rela­ções com pes­so­as do mes­mo sexo, sig­ni­fi­ca ter rela­ções for­ça­das com pes­so­as de outra ida­de. A pedo­fi­lia é uma situ­a­ção clí­ni­ca diag­nos­ti­ca­da, enquan­to a homos­se­xu­a­li­da­de não é uma doen­ça e nada tem a ver com situ­a­ções de abu­so sexu­al sobre outros.

O que Bertone fez foi sacu­dir a água do capo­te – no seu caso, da sotai­na. Quando  os jor­na­lis­tas lhe per­gun­ta­ram se a sus­pen­são do celi­ba­to aju­da­ria a aca­bar com os casos de abu­sos sexu­ais a meno­res come­ti­dos por sacer­do­tes, o car­de­al já não quis esta­be­le­cer rela­ções e rea­fir­mou: «Isto [a rela­ção entre pedo­fi­lia e homos­se­xu­a­li­da­de] é ver­da­de, este é o pro­ble­ma».

Esta amos­tra é sufi­ci­en­te para nos dar uma ideia da men­ta­li­da­de cre­ti­na que man­da no Vaticano e de como algu­mas carac­te­rís­ti­cas posi­ti­vas da Igreja – as acções soci­ais em bair­ros caren­ci­a­dos, por exem­plo – podem ser eclip­sa­das por idi­o­tas des­te cali­bre.

Nem tudo é mau, con­tu­do. Enquanto Bertone voci­fe­ra­va dis­pa­ra­tes, o bis­po das Forças Armadas, Januário Torgal Ferreira, reve­la­va no DN uma opi­nião con­trá­ria:

Relativamente ao celi­ba­to, está pro­va­do que a mai­o­ria des­tes ata­ques a meno­res vêm de hete­ros­se­xu­ais. E lamen­ta­vel­men­te hou­ve mui­ta gen­te na Europa e além Europa que quis ligar isto a sur­tos de homos­se­xu­a­li­da­de. Os hete­ros­se­xu­ais é que são, do pon­to de vis­ta mai­o­ri­tá­rio, os res­pon­sá­veis des­tes cri­mes. Isto acon­te­ce no âmbi­to das pró­pri­as famí­li­as!

Mas, senhor bis­po, inter­pe­lou o jor­na­lis­ta do DN, reco­nhe­ce que a pedo­fi­lia não tem nada a ver com a homos­se­xu­a­li­da­de, é isso que está a dizer? «Nada, nada!», res­pon­deu o bis­po.

Pode haver homos­se­xu­ais, mas o que hou­ve foi a ten­ta­ti­va lamen­tá­vel – até do pon­to de vis­ta cien­tí­fi­co – de ligar a homos­se­xu­a­li­da­de a esta cri­mi­no­lo­gia. Ou seja, é homos­se­xu­al, gos­ta do mes­mo sexo, o homem gos­ta da cri­an­ça…

Dawkins e a cruzada contra a religião

Richard Dawkins

Richard Dawkins

Regresso a Richard Dawkins, o ateu intran­si­gen­te, o darwi­nis­ta fer­vo­ro­so, para citar um livro mui­to inte­res­san­te sobre Darwin, a Evolução e a Criação, divi­di­do ao meio entre a escri­ta de um padre (Carreira das Neves) e uma bió­lo­ga não-​crente (Teresa Avelar). Já ago­ra, por curi­o­si­da­de, Carreira das Neves é o padre que acei­tou deba­ter com José Saramago na SIC Notícias o polé­mi­co Caim e que, a meio do deba­te, foi sur­pre­en­di­do pelo toque do seu tele­mó­vel.

O livro, edi­ta­do pela Bertrand no ano pas­sa­do a pro­pó­si­to das come­mo­ra­ções do bicen­te­ná­rio do nas­ci­men­to de Darwin, chama-​se Evolução a Duas Vozes e está divi­di­do ao meio, lite­ral­men­te, ou seja, a capa para a par­te do padre fun­ci­o­na como con­tra­ca­pa da par­te do livro escri­ta pela bió­lo­ga – e vice-​versa. Estou a expli­car o design do livro de for­ma con­fu­sa, tal­vez, mas se o com­pra­rem vão ver que faz todo o sen­ti­do e é uma boa solu­ção.

O excer­to que se segue do livro é uma cita­ção de Richard Dawkins invo­ca­da pelo padre Carreira das Neves e que nos aju­da a per­ce­ber o que vai na cabe­ça do homem que ago­ra dese­ja pren­der o Papa.

«Parece sub­sis­tir o con­fli­to arma­do entre ciên­cia e fé nal­guns auto­res recen­tes. Entre eles sobres­sai a pes­soa de Richard Dawkins (…)», escre­ve o padre.

Na sua obra A Desilusão de Deus (Casa das Letras, Lisboa 2007), que ocu­pou o top de ven­das na Grã-​Bretanha e nos Estados Unidos, ten­ta pro­var que Deus não exis­te e que as reli­giões são as cau­sa­do­ras de todos os males da Humanidade. É um darwi­nis­ta con­vic­to e uni­la­te­ral, polé­mi­co e mili­tan­te, que obri­ga os cien­tis­tas e não cren­tes a deba­te­rem as suas teses, vis­tas por mui­tos como super­fi­ci­ais e eiva­das de pre­con­cei­tos.

No pre­fá­cio defen­de a tese de que só é reli­gi­o­so quem per­ma­ne­ce numa ati­tu­de infan­til de cren­ça, defen­den­do as velhas teses psi­co­ló­gi­cas de Freud para quem a reli­gião é uma inven­ção huma­na como meio de fuga à rea­li­da­de, com os seus medos, ansei­os e ter­ro­res.

Segundo Dawkins, um ver­da­dei­ro cien­tis­ta não pode ser pes­soa de fé em Deus. Escreve com iro­nia: “Se este livro tiver o resul­ta­do que pre­ten­do, os lei­to­res reli­gi­o­sos que o abri­rem serão ateus na altu­ra em que o pou­sa­rem. Que opti­mis­mo pre­su­mi­do! É cla­ro que os cren­tes empe­der­ni­dos são imu­nes aos argu­men­tos, tal é a resis­tên­cia acu­mu­la­da ao lon­go de anos de dou­tri­na­ção duran­te a infân­cia, com méto­dos que leva­ram sécu­los a ama­du­re­cer (seja por via da evo­lu­ção ou de desíg­nio). Entre os dis­po­si­ti­vos imu­no­ló­gi­cos mais efi­ca­zes conta-​se o avi­so ins­tan­te no sen­ti­do de que se evi­te abrir um livro como este, cer­ta­men­te uma obra de Satanás. Mas acre­di­to que há por aí mui­tas pes­so­as para quem a dou­tri­na­ção da infân­cia ou não foi dema­si­a­do insi­di­o­sa, ou por qual­quer outra razão não pegou, ou cuja inte­li­gên­cia ina­ta é sufi­ci­en­te­men­te for­te para a con­se­guir ultra­pas­sar. Tais espí­ri­tos livres não pre­ci­sam senão de um pou­co de incen­ti­vo para se liber­ta­rem com­ple­ta­men­te do vício da reli­gião. No míni­mo, espe­ro que nin­guém que leia este livro pos­sa dizer: Eu não sabia que podia.”

Este é um livro que, na sua iro­nia, não agra­da nem a Deus nem ao Diabo por­que par­te de um pre­con­cei­to: só é ver­da­de o que nos vem pela Ciência, tudo o mais não tem fun­da­men­to epis­te­mo­ló­gi­co.

Marco Santos

­ Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?