Tem-​me acon­te­ci­do pegar em livros sem saber bem naqui­lo em que me vou meter. Em alguns des­ses casos che­go à últi­ma pági­na e regres­so à pri­mei­ra, para uma relei­tu­ra já na pos­se da cons­ci­ên­cia da minha igno­rân­cia face ao tema que, não raras vezes sob a for­ma de fic­ção, neles é tra­ta­do.

Foi o que se pas­sou com «Viagens de Ijon Tichy», cole­ção de tex­tos de Stanislaw Lem que a defun­ta colec­ção azul da Caminho publi­cou há mais anos do que gos­ta­ria de admi­tir.

«Viagens de Ijon Tichy» come­ça com a imper­dí­vel car­ta aber­ta de Ijon Tichy «Salvemos o Universo», géne­ro de ape­ri­ti­vo satí­ri­co que desar­ma o lei­tor rela­ti­va­men­te ao que se segue.

Em «Salvemos o Universo», Lem escre­ve sobre um tem­po em que a pos­si­bi­li­da­de de via­jar em turis­mo para fora do pla­ne­ta Terra se reve­la des­trui­do­ra rela­ti­va­men­te a um Universo des­pre­ve­ni­do face ao peque­no imbe­cil que resi­de – pelo menos em potên­cia – não ape­nas den­tro de cada ser huma­no mas tam­bém no seio da pró­pria Humanidade, cole­ti­va­men­te con­si­de­ra­da.

Ijon Tichy: Raumpilot

«Ijon Tichy: Raumpilot», uma série satí­ri­ca ale­mã da ZDF base­a­da nas aven­tu­ras espa­ci­ais de Ijon Tichy.

As gar­ga­lha­das sucedem-​se e o livro enca­mi­nha o lei­tor para uma monu­men­tal ras­tei­ra meti­da à trai­ção na vigé­si­ma quin­ta pági­na da edi­ção por­tu­gue­sa, pre­ci­sa­men­te aque­la em que se ini­ci­am as «Novas memó­ri­as de Ijon Tichy».

O nerd mais ino­cen­te pen­sa que des­co­briu a obra cer­ta para apre­sen­tar Lem aos ami­gos; e os ami­gos do nerd pen­sam, depois de lida a car­ta de Ijon, que Lem não é ape­sar de tudo assim tão den­so. Enganam-​se.

A primeira nova memória de Ijon Tichy

As memó­ri­as de Ijon Tichy incluí­das no livri­nho de Stanislaw Lem que abor­do são cin­co: qua­tro, mais «A tra­gé­dia da máqui­na de lavar».

O lei­tor des­pa­cha a car­ta aber­ta e, ain­da com um ino­cen­te sor­ri­so arma­do, aventura-​se pelo pri­mei­ro encon­tro de Tichy com Corcoran, um dos cien­tis­tas lou­cos da obra.

Não são neces­sá­ri­as mui­tas pági­nas para que o sor­ri­so dê lugar à per­ple­xi­da­de e esta, logo depois, à estu­pe­fac­ção. Tento ima­gi­nar como terá sido ler a pri­mei­ra das novas memó­ri­as de Tichy em 1987, quan­do o livri­nho 45 da colec­ção azul da Caminho che­gou às livra­ri­as por­tu­gue­sas.

O fil­me «The Matrix» sur­giu ape­nas 12 anos depois e as reve­la­ções de Corcoran ao nos­so herói terão apa­re­ci­do peran­te as almas (spoi­lers da segun­da memó­ria, meus ami­gos…) de cada um dos lei­to­res como uma reve­la­ção assom­bro­sa.

Stanislaw Lem fotografado por Tomasz Tomaszewski

Stanislaw Lem foto­gra­fa­do por Tomasz Tomaszewski.

Eu vi «The Matrix» há 15 anos e mes­mo assim rece­bi a his­tó­ria das cai­xas de Corcoran como um ver­da­dei­ro soco nos den­tes da fren­te. Nesta fase, nerd e ami­gos já per­ce­be­ram que «Viagens de Ijon Tichy» é um géne­ro de cami­nho das pedras para a com­pre­en­são da essên­cia daqui­lo a que cha­ma­mos ficção-​científica — ou espe­cu­la­ti­va, como a pre­fi­ro desig­nar.

As assom­bro­sas cai­xas de Corcoran são dis­po­si­ti­vos desen­vol­vi­dos pelo pro­fes­sor, cada uma com carac­te­rís­ti­cas úni­cas e par­ti­cu­la­res (como nós), todas elas liga­das a uma uni­da­de cen­tral de pro­gra­ma­ção e repro­gra­ma­ção que lhes for­ne­ce os estí­mu­los neces­sá­ri­os para que vivam num cená­rio de rea­li­da­de simu­la­da sem que com­pre­en­dam a ilu­são que é a essên­cia das suas vidas. Um géne­ro de «The Truman Show» ao con­trá­rio.

Através das cai­xas de Corcoran Tichy, Lem abor­da de uma for­ma resu­mi­da con­cei­tos cien­tí­fi­cos e filo­só­fi­cos que foram pos­te­ri­or­men­te tra­ba­lha­dos por outros auto­res – como Philip K. Dick – e inves­ti­ga­do­res de dife­ren­tes áre­as do conhe­ci­men­to.

Nick Bostrom

Nick Bostrom | Foto: Andy Sansom

Muitos anos depois, na res­sa­ca de «The Matrix», sur­giu aliás um arti­go («Are you living in a com­pu­ter simu­la­ti­on?») publi­ca­do em 2003 na Philosophical Quaterly e assi­na­do pelo filó­so­fo sue­co Nick Bostron, no qual a cha­ma­da Teoria da Simulação apa­re­ce des­cri­ta de for­ma resu­mi­da atra­vés de três pro­po­si­ções, uma das quais deve­rá ser ver­da­dei­ra:

1 A espé­cie huma­na extinguir-​se-​á mui­to pro­va­vel­men­te antes de atin­gir uma esta­dio pós-​humano;

2 É extre­ma­men­te impro­vá­vel que quais­quer civi­li­za­ções pós-​humanas desen­vol­vam um núme­ro sig­ni­fi­ca­ti­vo de simu­la­ções da sua pró­pria his­tó­ria evo­lu­ti­va;

3 Vivemos qua­se de cer­te­za numa simu­la­ção com­pu­to­ri­za­da. Alguns – como Corcoran – acre­di­tam que a ter­cei­ra pro­po­si­ção é ver­da­dei­ra.

Déjà-​vu

Em «The Matrix», o fil­me de cul­to dos irmãos Wachowski, ficou céle­bre a cena em que Morpheus se aper­ce­be de uma per­tur­ba­ção na matrix depois de Neo ver por duas vezes con­se­cu­ti­vas o mes­mo gato pre­to em posi­ções seme­lhan­tes.

O sig­ni­fi­ca­do des­ta sen­sa­ção de «déjà-​vu» – uma cer­ta for­ma de pre­cog­ni­ção, con­cei­to explo­ra­do por Philip K. Dick no con­to «Minority Report», de 1956 –, quan­do ana­li­sa­da den­tro do con­tex­to da rea­li­da­de simu­la­da, encontra-​se igual­men­te expli­ci­ta­da na pri­mei­ra das novas memó­ri­as de Ijon Tichy.

The Matrix

O gato de «The Matrix», tal como a colher, não exis­te. Observá-​lo por duas vezes, con­cre­ti­zan­do na matrix a mes­ma ordem com­pu­to­ri­za­da, é como apa­nhar «o mun­do em fla­gran­te deli­to de impre­ci­são ou des­cui­do», des­ve­la­ção da sua fal­si­da­de ori­gi­nal.

Acontece que apa­nhar a matrix de cal­ças na mão pare­ce impli­car uma lou­cu­ra, um nível de iso­la­men­to, que o pró­prio Corcoran iden­ti­fi­ca no «homem malu­co» do seu mun­do, aque­le que bus­ca as suas imper­fei­ções e que nelas jul­ga poder iden­ti­fi­car o absur­do que con­fir­ma­rá as suas sus­pei­tas.

Quem esta­rá dis­pos­to a ques­ti­o­nar o mun­do e devo­tar a sua vida à pro­cu­ra dos seus «bugs», aque­les que denun­ci­am a sua even­tu­al natu­re­za ilu­só­ria? Quem se pre­dis­põe a apa­re­cer peran­te os outros como o «homem malu­co» de Corcoran, isolando-​se de fac­to daque­les que por des­co­nhe­ci­men­to ou ren­di­ção vivem tran­qui­la­men­te o seu papel na matrix? Qual a uti­li­da­de de, viven­do numa rea­li­da­de simu­la­da, pas­sar a estar cons­ci­ên­cia da simu­la­ção e, por essa via, da far­sa a que dá cor­po?

Ficção-​especulativa, território da problematização

Estou cada vez mais con­ven­ci­do de que a ficção-​especulativa é o ter­ri­tó­rio da pro­ble­ma­ti­za­ção por exce­lên­cia. Nenhum outro esti­lo lite­rá­rio – tal­vez com a excep­ção da poe­sia – usou a for­ma (e o con­tex­to) de manei­ra tão efi­caz no sen­ti­do de plan­tar nos lei­to­res a dúvi­da como méto­do – e len­te – na espon­tâ­nea ou sis­te­ma­ti­za­da aná­li­se do mun­do e das suas infi­ni­tas variá­veis. Lem, Philip K. Dick e Asimov fizeram-​no com mes­tria.

Parece-​me por isso redu­tor apre­sen­tar a ficção-​científica, na sua dimen­são espe­cu­la­ti­va, como uma ten­ta­ti­va de pre­vi­são de acon­te­ci­men­tos futu­ros, como se o seu ape­lo à refle­xão sobre pos­si­bi­li­da­des de desen­vol­vi­men­to tec­no­ló­gi­co e soci­e­tal fos­se na ver­da­de um géne­ro de adi­vi­nha­ção em desa­fio a um futu­ro apa­ren­te­men­te incer­to.

Quando leio Lem ou Dick não lhes encon­tro nas pala­vras, nos per­so­na­gens, nos enre­dos e nas idei­as ori­gi­nais ten­ta­ti­vas de pre­vi­são. Sobretudo por­que é no pre­sen­te em que se encon­tra­vam que as obras estão ver­da­dei­ra­men­te anco­ra­das.

Lem e Dick foram ver­da­dei­ra­men­te homens – ímpa­res, sem dúvi­da – do seu tem­po. Não creio que «O Congresso Futurológico», de 1971, ou «O Homem do Castelo Alto», de 1962, pudes­sem ter sido escri­tos nou­tro tem­po, nou­tro con­tex­to. Da mes­ma for­ma, «As via­gens de Ijon Tichy» são refle­xões sobre os seres que somos (ain­da hoje) e aque­les que o rumo evo­lu­ti­vo que toma­mos pode­rá vir a gerar.

Que a ficção-​especulativa, de raiz cien­tí­fi­ca, tenha per­di­do as suas duas prin­ci­pais cole­ções em Portugal é coi­sa que não pode dei­xar de ser lida como uma cir­cuns­tân­cia de um tem­po em que a refle­xão filo­só­fi­ca é tida como ati­vi­da­de qua­se ali­e­nan­te e abor­re­ci­da no mun­do da rapi­dez impul­si­va e com­pul­si­va.

Que nas livra­ri­as naci­o­nais as obras de Lem, Dick, Asimov, Harrison, Efremov ou Arthur C. Clarke tenham sido var­ri­das para o can­to infe­ri­or da estan­te dos livros do géne­ro «Fantástico», domi­na­do por cópi­as de má qua­li­da­de da Terra Média tol­ki­a­na e por nove­las erótico-​vampirescas, é tam­bém ele­men­to de refle­xão que não pode dei­xar de ser igno­ra­do.

Rui Vasco Silva

­Rui Vasco Silva

Psicólogo não praticante, pai apaixonado, namorado descarado, belenense nas horas vagas.