Perguntaram-​me se eu que­ria ir ao Wordcamp Lisboa 2015. Para quem não sabe: é uma série de con­fe­rên­ci­as dedi­ca­das ao WordPress. WordPress é a apli­ca­ção gra­tui­ta Open Source que cria e gere milha­res de blo­gues como este.

Quem me con­vi­dou via Twitter conhe­ce bem o Bitaites e as minhas refe­rên­ci­as musi­cais por­que envi­ou esta liga­ção com a fra­se «Make a jazz noi­se here» – refe­rên­cia ao jazz e ao títu­lo de um duplo CD ao vivo de mes­tre Zappa. Obrigado pela lem­bran­ça.

Não pos­so acei­tar a suges­tão por­que tenho cagu­fa de falar para pla­tei­as e pre­fi­ro expressar-​me atra­vés da escri­ta. Além dis­so, a minha visão do WordPress é tão tec­ni­ca­men­te rudi­men­tar que não teria nada de inte­res­san­te ou reve­la­dor a dizer.

WordPress e o ato de blo­gar tornaram-​se inse­pa­rá­veis – não sei falar de um sem evo­car o outro. Para alguns o WordPress é um pro­gra­ma escri­to em PHP. Para mim é uma expe­ri­ên­cia de vida onli­ne. Até o nome faz sen­ti­do: word de pala­vra, press por­que estou sem­pre cheio de pres­sa para publi­car.

O WordPress é fle­xí­vel, isso pelo menos pos­so dizer. É sua mai­or qua­li­da­de: adapta-​se à pes­soa que o usa. É como usar fato-​de-​treino.

Se que­res man­ter um blo­gue de for­ma sim­ples, o WordPress publica-​te os posts. Se man­téns um sítio mais com­ple­xo, transforma-​se numa pla­ta­for­ma de publi­ca­ção de con­teú­dos igual­men­te com­ple­xa. Mas seja qual for a face que te mos­tra, é sem­pre fácil de usar.

A sim­pá­ti­ca fle­xi­bi­li­da­de fragiliza-​o: se és gulo­so e enches o ban­du­lho do WordPress com plu­gins tão neces­sá­ri­os ao blo­gue como os rebu­ça­dos a uma ali­men­ta­ção equi­li­bra­da, a base de dados engor­da e ele vai fican­do cada vez mais len­to. A moral da his­tó­ria pode ser a seguin­te: o WordPress é por­rei­ro, mas não abu­ses da con­fi­an­ça. Existem qui­los de web­si­tes a aler­tar para estas coi­sas, por isso nem vale a pena falar nis­to.

Eu gosto de azul, mas não é preciso exagerar

Azul

Eu era um noob, por isso só tenho a agra­de­cer todos estes anos de apren­di­za­gem. Tão noob que nem sabia o que sig­ni­fi­ca­va a pala­vra noob. Estamos a falar de alguém que quan­do deci­diu cri­ar um blo­gue se ins­cre­veu numa pla­ta­for­ma gra­tui­ta sem domí­nio pró­prio. Só que­ria um tema onde repou­sar as pala­vras e pou­co mais.

O tema tinha um boni­to fun­do azul-​celeste blogs­pot. Só fal­ta­vam os anji­nhos e as nuvens de algo­dão doce. A fon­te era uma Times New Roman cor de neve. Os olhos des­li­za­vam pelos pará­gra­fos como esqui­a­do­res nova­tos, aos tro­pe­ções e cain­do com frequên­cia. Os pará­gra­fos eram tão altos como mon­ta­nhas. Ler um post na ver­são Pacheco Pereira do Bitaites deve ter sido mais can­sa­ti­vo do que esca­par a uma ava­lan­che.

Ainda bem que não guar­dei uma ima­gem des­ses tem­pos: seria como ver fotos minhas anti­gas a posar com cal­ças de fla­ne­la à boca de sino. Ou um par de cerou­las azuis a fin­gir que era o Super-​Homem.

A minha rela­ção com o WordPress – suge­ri­do pelo meu ami­go Miguel Silva Costa quan­do pas­sei a saber que havia uma coi­sa cha­ma­da «ser­vi­dor e domí­nio pró­pri­os» – mar­ca o iní­cio da con­fli­tu­o­sa mas enri­que­ce­do­ra rela­ção com o web design, os blo­gues e a for­ma como se deve escre­ver na Web.

Ao des­co­brir o WordPress, aca­bei por descobrir-​me como blog­ger.

Isso pode­ria ter acon­te­ci­do com outra pla­ta­for­ma? Possivelmente. Mas acon­te­ceu com esta e estou-​lhe eter­na­men­te gra­to.

Ser blog­ger é como gerir a esta­ção de trân­si­to do roman­ce de fic­ção cien­tí­fi­ca de Clifford D. Simak. O per­so­na­gem prin­ci­pal vive numa quin­ta iso­la­da nos Estados Unidos, trans­for­ma­da em esta­ção de trân­si­to secre­ta de uma rede ali­e­ní­ge­na de tele­trans­por­tes. Tem de lidar com todo o tipo de seres.

Blogar é mui­to dife­ren­te de escre­ver e esco­lher uma foto para ilus­trar. É pre­ci­so ima­gi­nar os visi­tan­tes como ali­e­ní­ge­nas. Acabaram de che­gar ao teu pla­ne­ta e pre­ci­sam de saber – numa ques­tão de segun­dos – que raio de mun­do estão a visi­tar. Que coi­sas tem para ofe­re­cer. De que falam os seus habi­tan­tes. Se é fácil des­co­brir os melho­res luga­res para visi­tar.

Também é bom par­tir do prin­cí­pio de que os tais visi­tan­tes não que­rem saber de ti para nada – estão mais inte­res­sa­dos no que tens para ofe­re­cer. És ape­nas uma entre as milha­res de esta­ções de trân­si­to que exis­tem. A tua esplen­do­ro­sa exis­tên­cia não é sufi­ci­en­te e se não acei­tas facil­men­te a tua insig­ni­fi­cân­cia nes­te vas­to uni­ver­so, então os blo­gues não são para ti.

«Vi coisas que vocês nem acreditariam»

Rutger Hauer

Espero que o WordPress se man­te­nha eter­na­men­te jovem. Se che­gar a enve­lhe­cer e for subs­ti­tuí­do por san­gue novo, gos­to de imaginá-​lo como o repli­can­te Batty do fil­me Blade Runner, quan­do recor­da expe­ri­ên­ci­as do pas­sa­do com o mer­ce­ná­rio caça­dor de robôs e ter­mi­na os seus dias com uma men­sa­gem de espe­ran­ça:

«Vi coi­sas que vocês nem acre­di­ta­ri­am» – diria este nos­so WordPress de cabe­los esbran­qui­ça­dos. – «Sites que acon­se­lha­vam o visi­tan­te a usar o Internet Explorer. GIFs com estre­li­nhas a pis­car con­ti­nu­a­men­te sob tex­tos ama­re­los. Animações flash inter­mi­ná­veis em que o botão «igno­rar esta ani­ma­ção flash inter­mi­ná­vel» não fun­ci­o­na­va.

Pop-​ups tão irri­tan­tes como o ven­to que te des­pen­teia a gade­lha. Fontes de esti­los e cores dife­ren­tes no mes­mo blo­co de tex­to jus­ti­fi­ca­do. Blogues que pare­ci­am calei­dos­có­pi­os. Barras late­rais com reló­gi­os (por­que é sabi­do que os com­pu­ta­do­res não os têm). Barras late­rais mais altas que um joga­dor de bas­que­te­bol quan­do afun­da uma bola no ces­to. Blogues com músi­ca a tocar em altos ber­ros sem­pre que um visi­tan­te abria a pági­na.

Mas eu con­se­gui sobre­vi­ver a tudo isto e tu tam­bém con­se­gues.»

Marco Santos

­ Marco Santos

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