Ao menos uma vez na vida as mul­ti­dões do Facebook podi­am cri­ar um even­to de rela­xa­men­to cole­ti­vo.

Todos ao mes­mo tem­po, dian­te dos com­pu­ta­do­res, reli­am a exal­ta­ção da sema­na enquan­to pro­cu­ra­vam redu­zir o rit­mo res­pi­ra­tó­rio, ins­pi­ran­do pro­fun­da­men­te o ar pelo nariz, reten­do e exa­lan­do, reten­do e exa­lan­do, e repe­tin­do estes movi­men­tos res­pi­ra­tó­ri­os até o Facebook ficar mais pare­ci­do com o Google+.

Talvez assim se evi­tas­sem alguns exces­sos como, por exem­plo, o que a his­tó­ria do gato lan­ça­do pela varan­da pro­vo­cou.

Já pas­sou nas tele­vi­sões, jor­nais, blo­gues, redes soci­ais, por­tan­to estou cer­to que conhe­cem o caso.

Um resu­mo para os mais dis­traí­dos: António José Silva, Cláudia Simões, Fernanda Resende e Manuela Ribeiro escre­ve­ram mais um manu­al de Físico-​Química para a Areal Editores des­ti­na­do a alu­nos do 9º ano. Num dos exer­cí­ci­os, cri­a­ram uma situ­a­ção hipo­té­ti­ca em que um gato é lan­ça­do pelos miú­dos de uma varan­da com cin­co metros de altu­ra para «cal­cu­lar a inten­si­da­de da for­ça apli­ca­da» ao ani­mal «duran­te a que­da».

O erro é tão evi­den­te e o exem­plo tão infe­liz que nem per­ce­bo por que razão ain­da há quem o defen­da com o argu­men­to de que o gato sobre­vi­ve nas cal­mas à que­da. A ques­tão, nes­te con­tex­to, não é cien­tí­fi­ca, é mera­men­te peda­gó­gi­ca.

E ain­da bem que esta­mos mais aten­tos a estas coi­sas. Longe estão os tem­pos em que as cri­an­ças can­ta­vam o «Atirei o pau ao gato» sem que ocor­res­se a alguém pen­sar que cele­brar ale­gre­men­te o lan­ça­men­to do pau ao gato, se calhar, não é coi­sa que se deva fazer seja qual for a nos­sa ida­de.

Mas, como refe­ri, Facebook Zen precisa-​se: par­tir de um erro didá­ti­co des­tes auto­res para os ima­gi­nar como tor­tu­ra­do­res ou ins­ti­ga­do­res de maus tra­tos a ani­mais é tão exa­ge­ra­do como aque­les que defen­dem a tor­tu­ra dos toi­ros como mero fenó­me­no cul­tu­ral.

E todos os exal­ta­di­nhos que dese­ja­ram no Facebook e em alguns blo­gues que os auto­res fos­sem lan­ça­dos de uma varan­da com cin­co metros de altu­ra – como reta­li­a­ção pela ofen­sa à inte­gri­da­de físi­ca de um gato fic­tí­cio – pre­ci­sam com urgên­cia de uns quan­tos exer­cí­ci­os de res­pi­ra­ção. Ao con­trá­rio do gato do manu­al, os auto­res exis­tem e têm per­nas que se par­tem.

Por expe­ri­ên­cia pes­so­al, pos­so refe­rir que o úni­co tor­tu­ra­dor de ani­mais que conhe­ci na vida nun­ca pre­ci­sou de um manu­al esco­lar para se ins­pi­rar: pega­va em gati­nhos recém-​nascidos, o gran­de cabrão, e lançava-​os con­tra a pare­de como se fos­sem bolas. Nunca tes­te­mu­nhei os cri­mes, eram his­tó­ri­as que se con­ta­vam por quem tinha pre­sen­ci­a­do o pas­sa­tem­po do bru­ta­mon­tes, mas ain­da hoje sin­to a pul­sa­ção ace­le­ra­da só de pen­sar que alguém é capaz de uma tal cru­el­da­de.

Que o Facebook se ergues­se em peso a pro­me­ter uma car­ga de por­ra­da a um cri­mi­no­so des­te cali­bre ain­da com­pre­en­dia; que os mais faná­ti­cos entre os defen­so­res dos direi­tos dos ani­mais pare­çam que­rer colo­car o erro daque­les auto­res ao mes­mo nível de filha da puti­ce, é sufi­ci­en­te para me sen­tir mais soli­dá­rio com quem come­teu o erro do que com quem o denun­ci­ou.

Não que­ro que os miú­dos pen­sem que o exer­cí­cio de ati­rar um gato de uma varan­da é igual­men­te abs­tra­to na vida real e por­tan­to pode ser repe­ti­do de outras altu­ras, mas tam­bém não vejo qual­quer valor peda­gó­gi­co em que­rer fazer-​se o mes­mo a pes­so­as reais.

O Facebook saído da caixa

A sor­te do Schrödinger é que pou­cos no Facebook estão fami­li­a­ri­za­dos com a expe­ri­ên­cia men­tal que ima­gi­nou para demons­trar quão bizar­ra era a inter­pre­ta­ção da mecâ­ni­ca quân­ti­ca dos físi­cos Niels Bohr e Werner Heisenberg, caso a apli­cás­se­mos em rea­li­da­des do nos­so dia-​a-​dia.

Schrödinger ima­gi­nou encer­rar um gato den­tro de uma cai­xa: devi­do a even­tos quân­ti­cos ale­a­tó­ri­os dema­si­a­do com­pli­ca­dos para o meu cére­bro de Humanísticas, o gato não está vivo nem mor­to, está simul­ta­ne­a­men­te vivo e mor­to, ambos os esta­dos coe­xis­tem. Só quan­do se olha para den­tro da cai­xa o pode­re­mos ver mor­to ou vivo.

Se um dia o Facebook des­co­bre que o pobre gato con­ti­nua encer­ra­do den­tro da cai­xa, o que acon­te­ce­rá? E se par­te dos uti­li­za­do­res do Facebook esprei­tar para den­tro da cai­xa e des­co­brir que o gato está mor­to, pon­tos de excla­ma­ção vão reben­tar como relâm­pa­gos sobre as cabe­ças de todos os estu­dan­tes de Física Quântica que se atre­ve­rem a meter mais um gato den­tro da cai­xa, sujeitando-​o à tor­tu­ra psi­co­ló­gi­ca de uma pri­são abs­tra­ta e eter­na.

E então come­ça­rão os memes: «Nem mais um gato para o cri­mi­no­so do Schrödinger!» ou «Exigimos saber se o gato de Schrödinger está vivo ou mor­to!»

Como refe­ri, a mal­ta exal­ta­da tem razão e o exem­plo do gato está peda­go­gi­ca­men­te erra­do. Mas, caram­ba, mais Facebook Zen, pes­so­al, mais Facebook Zen, a vida está mais difí­cil para os huma­nos do que para aque­le gato.

Marco Santos

­ Marco Santos

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