O Instagram apa­gou há duas sema­nas um auto-​retrato da jovem poe­ti­sa femi­nis­ta Rupi Kaur por vio­lar as regras de uti­li­za­ção do ser­vi­ço. Esta foto­gra­fia aqui em cima.

A foto não a mos­tra­va nua nem pre­ten­dia mos­trar o rabo à manei­ra de uma Kardashian, cuja pei­da, de res­to, deve estar pres­tes a entrar no domí­nio públi­co, tan­tas são as vezes que a par­ti­lha. A foto retra­ta­va uma con­di­ção natu­ral femi­ni­na que qual­quer mulher adul­ta reco­nhe­ce e que mui­tas garan­tem ser extre­ma­men­te desa­gra­dá­vel.

O pro­ble­ma do Instagram não era o rabo da poe­ti­sa, mas aque­las duas peque­nas man­chas de san­gue, uma no pija­ma e outra nos len­çóis. O san­gue da mens­tru­a­ção. A foto faz par­te de uma série tira­da por Rupi e a irmã Prabh a que cha­ma­ram de «Period» e visa­va jus­ta­men­te des­mi­ti­fi­car uma con­di­ção natu­ral e perió­di­ca do cor­po femi­ni­no.

Period

Não se dei­xan­do ven­cer, Kaur vol­tou a publi­car a ima­gem – uma vez mais, «por vio­lar as regras de uti­li­za­ção do ser­vi­ço», o Instagram apagou-​a.

Nada des­ta rea­ção é novi­da­de, sobre­tu­do ten­do em con­ta a for­ma como outra rede soci­al cheia de sala­ma­le­ques puri­ta­nos, o Facebook, apa­ga fotos de mamas ao léu como se fos­sem armas de des­trui­ção mas­si­va ou os bichos-​papão da infân­cia.

Apesar de fami­li­ar, a ati­tu­de misó­gi­na gerou uma vaga de pro­tes­tos entre os uti­li­za­do­res do ser­vi­ço, sobre­tu­do das mulhe­res. Os pro­tes­tos foram cres­cen­do de dia para dia e a empre­sa come­çou a ser acu­sa­da de ter uma agen­da dis­cri­mi­na­tó­ria.

Com um pro­ble­ma de Relações Públicas entre mãos, o Instagram foi obri­ga­do a con­tro­lar os estra­gos, repor a foto e pedir des­cul­pa por «um dos seus fun­ci­o­ná­ri­os» tê-​la apa­ga­do «aci­den­tal­men­te».

A ati­tu­de do Instagram não só foi pro­po­si­ta­da como vem dire­ta­men­te do sécu­lo I. Foi por esta altu­ra que o pen­sa­dor roma­no Plínio, o Velho, publi­cou uma enci­clo­pé­dia de História Natural e dedi­cou algu­mas pala­vras ao ciclo mens­tru­al da mulher.

Plínio esta­va con­ven­ci­do de que a mens­tru­a­ção tor­na­va «o azei­te aze­do e as semen­tes esté­reis» e que o olhar das mulhe­res com o perío­do tor­na­va «os espe­lhos opa­cos, cega­va as lâmi­nas e remo­via o bri­lho ao mar­fim».

Talvez o fun­ci­o­ná­rio do Instagram tenha apa­ga­do a foto por ter lido a História Natural de Plínio, o Velho, e ter fica­do dema­si­a­do impres­si­o­na­do. Ou então apa­nhou um sus­to. Fotos de mulhe­res na cama são sem­pre agra­dá­veis de se ver, des­de que obvi­a­men­te a man­cha de san­gue de uma segunda-​feira não estra­gue o pra­zer de um sába­do à noi­te.

Instagram, estavas mesmo a pedi-​las

Rupi Kaur

Rupi Kaur

Kaur, cida­dã do Canadá de ori­gem indi­a­na, já tinha pre­vis­to este tipo de rea­ção quan­do ini­ci­ou a série dedi­ca­da ao perío­do:

«As mulhe­res mens­tru­am e vocês encaram-​na como algo sujo. Doentio. Um far­do. Uma for­ma gra­tui­ta de cha­mar a aten­ção. Como se a mens­tru­a­ção não fos­se tão natu­ral como res­pi­rar. Uma pon­te entre este uni­ver­so e outro ante­ri­or. Como se não fos­se amor. Labuta. Vida. Altruísta e impres­si­o­nan­te­men­te boni­to» – escre­ve­ra a pro­pó­si­to das fotos.

Quando foi cen­su­ra­da pela segun­da vez, a poe­ti­sa trans­for­ma­da em guer­ri­lhei­ra atirou-​se ao Instagram com todas as pala­vras que tinha à mão:

«Jamais pedi­rei des­cul­pa por não ali­men­tar o ego e o orgu­lho de uma soci­e­da­de misó­gi­na que tole­ra o meu cor­po em rou­pa inte­ri­or mas que não fica bem com uma peque­na man­cha de san­gue. Sobretudo quan­do as vos­sas pági­nas estão chei­as de inú­me­ras fotos e con­tas onde as mulhe­res – mui­tas meno­res – são obje­ti­fi­ca­das, por­no­gra­fa­das e tra­ta­das como menos-​que-​humanas».

Poetisa, mulher, inte­li­gen­te e femi­nis­ta – qua­se tenho pena do fun­ci­o­ná­rio do Instagram que apa­gou a foto «aci­den­tal­men­te» por duas vezes, envol­ven­do os seus pre­con­cei­tos numa luta tão desi­gual com a poe­sia. Quase! Acreditem ou não, estas peque­nas bata­lhas super­fi­ci­al­men­te inó­cu­as aca­ba­rão por con­tri­buir para mudar men­ta­li­da­des.

A não ser que alguém aqui seja fã de Plínio - o Velho com cagu­fa de mulhe­res mens­tru­a­das.

Marco Santos

­ Marco Santos

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