O blog­ger é uma for­mi­ga. É difí­cil à for­mi­ga comu­ni­car dire­ta­men­te com um ele­fan­te, mes­mo que este o per­mi­ta.

Uma for­mi­ga podia até achar que o ele­fan­te tinha um ros­to enor­me, bizar­ro e inex­pres­si­vo, não ten­do che­ga­do a per­ce­ber que esti­ve­ra a dirigir-​se a uma unha da pata.

São desen­ten­di­men­tos ine­vi­tá­veis entre espé­ci­es e tama­nhos dife­ren­tes. Nem que os ani­mais falas­sem aju­da­ria. Uma vez vi uma mon­ta­gem engra­ça­da no Facebook que ilus­tra­va bem o dile­ma: um ele­fan­te obser­va­va o John Holmes com­ple­ta­men­te nu enquan­to dizia, meio intri­ga­do, meio diver­ti­do, «tens uma trom­ba tão peque­ni­na».

É a mes­ma coi­sa com o Google, o ele­fan­te da ana­lo­gia. Faz o favor de nos reco­nhe­cer enquan­to seres vivos, mas não con­se­gue dei­xar de obser­var como são tão insig­ni­fi­can­tes as trom­bas de cada um de nós. Bem sei que os ele­fan­tes tam­bém pos­su­em umas ore­lhas enor­mes, mas estas são inú­teis quan­do são inca­pa­zes de escu­tar.

O Google é o motor de bus­ca que toda a gen­te uti­li­za.

O motor de bus­ca é tão intrín­se­co ao fun­ci­o­na­men­to da pró­pria Internet que já nem pare­ce um acres­cen­to pos­te­ri­or. As novas gera­ções olha­ri­am para uma Internet sem o Google da mes­ma for­ma que gera­ções ante­ri­o­res se recu­sam a ima­gi­nar salas de estar com tele­vi­sões a pre­to e bran­co.

O Google detém o poder da visi­bi­li­da­de e do link – sig­ni­fi­ca que detém o poder.

O Google tam­bém é uma empre­sa: a Google, empre­sa ame­ri­ca­na. E como empre­sa tipi­ca­men­te ame­ri­ca­na, ten­de a ter uma pos­tu­ra hipó­cri­ta em rela­ção à sexu­a­li­da­de e ao que con­si­de­ra ser mate­ri­al ina­pro­pri­a­do. Detendo o poder da visi­bi­li­da­de, da hiper­li­ga­ção, do flu­xo dos dados e do dinhei­ro, pode impor as suas regras a toda a gen­te – incluin­do a web­mas­ters e inter­nau­tas euro­peus, cul­tu­ral­men­te menos dados a ata­ques puri­ta­nos de bea­ta his­té­ri­ca.

Sim, a Google é hipó­cri­ta.

Porque o mes­mo zelo que colo­ca na apli­ca­ção das suas dire­tri­zes a blog­gers e web­mas­ters não tem cor­res­pon­dên­cia nos cri­té­ri­os de ava­li­a­ção do tipo de anún­ci­os que colo­ca à dis­po­si­ção no Adsense.

Porno de valor acrescentado

Mladen Penev

Mladen Penev

Anúncios do Club Movilisto e por­ca­ri­as por­no­grá­fi­cas do géne­ro, que levam as pes­so­as a for­ne­cer o seu núme­ro de tele­mó­vel para ganhar um iPhone, um iPad, um car­ro, para saber quem foram numa vida pas­sa­da ou des­co­brir o seu quo­ci­en­te de inte­li­gên­cia (que iró­ni­co!), para­si­tas da Internet e das cha­ma­das de valor acres­cen­ta­do – a Google não se impor­ta.

As cen­te­nas de quei­xas exis­ten­tes con­tra esse tipo de empre­sas e o dinhei­ro saca­do aos incau­tos, pobres dia­bos con­fun­di­dos por um pro­ces­so de can­ce­la­men­to da subs­cri­ção escri­to em letras mui­to peque­ni­nas e refun­di­das na pági­na, a for­ma como tais pes­so­as são ludi­bri­a­das e explo­ra­das – nada dis­so con­ta.

Existem fer­ra­men­tas atra­vés das quais o blog­ger ou web­mas­ter pode blo­que­ar esses anún­ci­os – mas estes são tan­tos e tão fre­quen­tes que é qua­se neces­sá­ria uma bri­ga­da de cen­so­res só para dar con­ta do reca­do. A isto eu cha­mo hipo­cri­sia: que­rer uma Web lim­pa, reple­ta de síti­os de famí­lia, enquan­to ao mes­mo tem­po con­tri­bui para a cons­pur­car em nome do lucro.

Ninguém é for­ça­do a cli­car nes­ses anún­ci­os e a for­ne­cer o tele­mó­vel. Também nin­guém é for­ça­do a abrir um exe­cu­tá­vel dis­far­ça­do de foto num ane­xo de cor­reio ele­tró­ni­co, mas não é a ausên­cia de extor­são ou chan­ta­gem que nos impe­de de con­de­nar moral­men­te os cri­a­do­res de vírus e tro­jans.

Maminhas da Google

A Google não se impor­ta com estas coi­sas, mas bas­ta uma mami­nha fora do sítio para entrar ime­di­a­ta­men­te em ação, em nome dos valo­res fami­li­a­res defen­di­dos pelos anun­ci­an­tes com que tra­ba­lha. Chega a ame­a­çar sus­pen­der a con­ta de quem escre­ve a pala­vra «por­no­gra­fia» ou «hard­co­re» dema­si­a­das vezes.

Tão estú­pi­do como acu­sar um apre­ci­a­dor de vinhos de ser alcoó­li­co.

Tudo o que se pos­sa escre­ver sobre sexo num blo­gue, mes­mo que nada tenha a ver com por­no­gra­fia, pode fazer com que o Google coce as bor­bu­lhas Disney no ros­to e colo­que a con­ta Adsense de um blog­ger em ris­co. Tudo em nome de valo­res fami­li­a­res – como se o sexo não fizes­se par­te da vida e não fos­se tam­bém atra­vés do sexo que as famí­li­as se fazem. Não, Google, não é só uma cego­nha mui­to amo­ro­sa.

E se lhe juntasses Adsensatez, Google?

Depois da mor­te de Michael Jackson, anún­ci­os a con­vi­dar à visu­a­li­za­ção de uma home­na­gem ao can­tor sur­gi­ram na rede, com o esque­ma frau­du­len­to do cos­tu­me. Gostava de conhe­cer os «valo­res fami­li­a­res» de quem apro­vei­ta a mor­te de uma figu­ra públi­ca para sacar dinhei­ro.

Este com­por­ta­men­to em rela­ção aos que usam Adsense lembra-​me uma cena de Family Guy: Stewie des­co­bre uma revis­ta Hustler e abre-​a, deli­ci­a­do, por­que vai saber como é uma vagi­na.

A des­co­ber­ta deixa-​o tão assus­ta­do que saca de uma metra­lha­do­ra, des­faz a revis­ta em mil peda­ços e asse­gu­ra, com a voz ain­da aos tre­me­li­ques: «Nunca mais vais poder fazer mal a alguém».

O Google Adsense tam­bém não sabe o que é uma vagi­na – só vê conas.

E algu­mas mor­dem.

Usa-​o quem quer, é ver­da­de. Existem alter­na­ti­vas váli­das, algu­mas por­tu­gue­sas. Para mui­tas pes­so­as, a ques­tão Adsense nun­ca se colo­ca­rá. Mas incomoda-​me que a par­tir de uma posi­ção divi­na no mer­ca­do das hiper­li­ga­ções uma empre­sa impo­nha a quem pro­duz con­teú­do da Web, atra­vés de robôs tão cegos como estú­pi­dos, uma visão pseudo-​moralista do que é ou não acei­tá­vel.

Marco Santos

­Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?