Se aqui che­gou por que­rer assustar-​se com a Deep Web, então fica­rá dece­ci­o­na­do. A web das pro­fun­de­zas e dos ter­ro­res e das tre­vas só é assus­ta­do­ra quan­do a luz do conhe­ci­men­to não entra.

Em pri­mei­ro lugar, Deep Web refere-​se a isto. Nada mais do que gigan­tes­cas bases de dados que os moto­res de bus­ca tra­di­ci­o­nais não inde­xam por­que não foram con­ce­bi­dos para ras­tre­ar resul­ta­dos ser­vi­dos em tem­po real, em pági­nas dinâ­mi­cas, e ape­nas quan­do soli­ci­ta­dos. Segundo, o que as pes­so­as refe­rem erra­da­men­te como Deep Web é ape­nas o con­jun­to de sites da rede Tor.

Por vezes confunde-​se «conhe­cer» com «cor­res­pon­der às expec­ta­ti­vas» – nem sem­pre isso acon­te­ce. Se a sua inten­ção é encon­trar algo que com­pro­ve que a Deep Web é essa coi­sa assus­ta­do­ra que leu em blo­gues sen­sa­ci­o­na­lis­tas, então não leia este arti­go e pros­si­ga a pes­qui­sa no Google.

Se o fizer, o mais cer­to é des­co­brir mui­ta desin­for­ma­ção.

Excetuando o caso mais óbvio da por­no­gra­fia infan­til – livre­men­te par­ti­lha­da na rede Tor devi­do ao ano­ni­ma­to e à ausên­cia de qual­quer meca­nis­mo de cen­su­ra ou pro­te­ção – as ima­gens divul­ga­das como ten­do sido des­co­ber­tas na Deep Web não são exclu­si­vas des­se míti­co lugar das pro­fun­de­zas; na ver­da­de pos­su­em um sig­ni­fi­ca­do total­men­te dife­ren­te do que lhe que­rem dar e podem ser encon­tra­das com faci­li­da­de atra­vés do Google.

Sejam bem-​vindos à Tretosfera

Seguem-​se as «fotos assus­ta­do­ras» que nos são apre­sen­ta­das como exem­plos do que se pode encon­trar nes­se «quar­to escu­ro» da Internet. Dúzias de blo­gues e síti­os mostram-​nas sem qual­quer pudor, de for­ma sen­sa­ci­o­na­lis­ta e pou­co pen­sa­da, não for­ne­cen­do qual­quer tipo de expli­ca­ção ou con­tex­tu­a­li­za­ção.

Outra carac­te­rís­ti­ca des­ses síti­os é apre­sen­ta­rem sem­pre as mes­mas ima­gens. Experimentem pes­qui­sar no Google por «Deep Web ima­gens» e verão a quan­ti­da­de de fotos repe­ti­das, às vezes apre­sen­ta­das pela mes­ma ordem. Deixem, eu faço a pes­qui­sa por vocês.

Viram? Copiaram-​se uns aos outros ou afi­nal a Deep Web é mais monó­to­na do que pare­ce.

Nesta sele­ção não incluo as fotos gore de todo o tipo que por lá se encon­tram (mas essas tam­bém se des­co­brem no Google), fotos de meni­nas ado­les­cen­tes grá­vi­das (tam­bém no Google) e as ima­gens pedó­fi­las, mas as 20 que esco­lhi são sufi­ci­en­tes para come­çar a des­mon­tar a gigan­tes­ca tre­ta de desin­for­ma­ção que tenho vis­to em mui­tos posts.

O rapaz não quis dar a cara e ninguém tem nada a ver com o assunto. É entre ele e o Photoshop.

O rapaz não quis dar a cara e nin­guém tem nada a ver com o assun­to. É entre ele e o Photoshop.

A pri­mei­ra con­clu­são ao ver esta foto é que as patra­nhas que encon­tra­mos na Web tam­bém andam pela ver­são Deep.

Esta mal­ta que se ater­ro­ri­za com uma mis­te­ri­o­sa pes­soa sem ros­to não deve conhe­cer o gol­pe publi­ci­tá­rio da Lotus em julho de 2008. Para pro­mo­ver o novo mode­lo Eagle, a mar­ca colo­cou pes­so­as com más­ca­ras em even­tos públi­cos, de fato e gra­va­ta, logó­ti­po da Lotus ao pei­to, cap­tan­do a aten­ção dos fotó­gra­fos, como de res­to era espe­ra­do.

As más­ca­ras de pele pro­té­ti­ca cri­a­vam a ilu­são de que os mode­los não pos­suíam ros­to – o que vinha mes­mo a calhar, uma vez que o mote da cam­pa­nha para pro­mo­ver o novo bóli­de era «True cha­rac­ter in a face­less World»

Quer dizer que uma cam­pa­nha viral anda nes­te momen­to em cur­so na Deep Web? Não, sig­ni­fi­ca ape­nas que os bene­fí­ci­os do Photoshop para cri­ar mis­té­ri­os do sobre­na­tu­ral são tão efe­ti­vos lá como cá.

«Clown and Circus Tent», 1958 | Foto: Bruce Davidson

«Clown and Circus Tent», 1958 | Foto: Bruce Davidson

Imagino que um anão ain­da pos­sa ser assus­ta­dor ou bizar­ro para algu­mas pes­so­as.

O sen­ti­do de opor­tu­ni­da­de e a sen­si­bi­li­da­de do vete­ra­no da Agência Magnum autor des­ta foto, Bruce Davidson, mostra-​nos mui­to mais: conta-​nos a his­tó­ria de um palha­ço enve­lhe­ci­do pelos anos, flo­res na mão, não sabe­mos se ofe­re­ci­das ou se as vai ofe­re­cer;

fuma um cigar­ro, tal­vez por estar ner­vo­so enquan­to espe­ra alguém impor­tan­te na sua vida; um homem can­sa­do, um homem sem nome, um palha­ço e a sua ten­da de cir­co.

E ele ali ficou para sem­pre nes­ta ima­gem, um ‘fan­tas­ma’ à entra­da de uma ten­da de cir­co mon­ta­da num ter­re­no enla­me­a­do numa manhã tris­te e ene­vo­a­da.

«Clown and Circus Tent», tira­da em 1958, é aci­ma de tudo uma gran­de foto. Lembra o tra­ba­lho de Diane Arbus, pois peran­te esta «cri­a­tu­ra bizar­ra da Deep Web» não há dis­tân­cia ou repul­sa na sua câma­ra.

Pobres manequins: uns perderam a cabeça, outros não chegaram a perder as ceroulas.

Pobres mane­quins: uns per­de­ram a cabe­ça, outros não che­ga­ram a per­der as cerou­las.

A 19 de mar­ço de 1925, o jor­nal Manchester Guardian noti­ci­ou que as ins­ta­la­ções do Museu de Cera de Madame Tussaud, loca­li­za­das em Marylebone Road, Londres, tinham fica­do seri­a­men­te dani­fi­ca­das por um incên­dio.

O fogo foi des­co­ber­to pou­co depois das dez e meia da noi­te, pros­se­guiu o Manchester Guardian, e uma hora depois o inte­ri­or do arma­zém era já um «for­no em fúria».

O incên­dio não atraiu ape­nas vári­as cor­po­ra­ções de bom­bei­ros, mas tam­bém cer­ca de dez mil pes­so­as, curi­o­sas por ver a catás­tro­fe – afi­nal não havia tele­jor­nais nem trans­mis­sões em dire­to des­tes even­tos. O fogo só ficou extin­to por vol­ta da meia-​noite. Ninguém mor­reu, mas os pre­juí­zos foram enor­mes.

Só na manhã seguin­te o fotó­gra­fo foi auto­ri­za­do a entrar e a cap­tar uma ima­gem dos pobres mane­quins do Museu de Cera, alguns sem cabe­ça, outros sem bra­ços e a mai­o­ria visi­vel­men­te cons­ter­na­da com os trá­gi­cos acon­te­ci­men­tos – ai, estes dete­ti­ves cegue­tas da Deep Web…

Na Deep Web as meninas também partilham segredos.

Na Deep Web as meni­nas tam­bém par­ti­lham segre­dos.

São real­men­te assus­ta­do­ras estas meni­nas: tão esver­de­a­das, sem pupi­las, como se tives­sem saí­do de um fil­me de ter­ror japo­nês… sobre­tu­do se as com­pa­rar­mos com o ori­gi­nal de 1950 «Twin sis­ters sha­ring secrets…», de George Marks, fotó­gra­fo da Getty Images.

Cuidado com as abomináveis caveiras-monge, podem converter-te ao Caveirismo.

Cuidado com as abo­mi­ná­veis caveiras-​monge, podem converter-​te ao Caveirismo.

São cri­a­tu­ras bizar­ras, estas. Habitarão algum bos­que ter­res­tre, escapando-​se fur­ti­va­men­te à con­vi­vên­cia dos huma­nos como faz o famo­so Abominável Homem das Neves?

Nada de tão exci­tan­te. Trata-​se ape­nas do resul­ta­do da ima­gi­na­ção da artis­ta e fotó­gra­fa Olia Pishchanska. Olia tem 30 anos, vive em Odesa, na Ucrânia, e tem uma pági­na no DeviantArt onde mos­tra este e outros tra­ba­lhos do géne­ro.

Quem tem medo de brincar com bonecas?

Quem tem medo de brin­car com bone­cas?

O autor des­ta foto-​manipulação chamou-​lhe «Evil Doll» e che­gou a dizer que só depois de a ter­mi­nar se aper­ce­beu de como era «arre­pi­an­te». Chama-​se Ciaran Brennan, é um irlan­dês resi­den­te em Dublin e tem uma pági­na pes­so­al onde nos mos­tra que é uma pes­soa… nor­mal.

Brennam não é um habi­tan­te obs­cu­ro da míti­ca Deep Web, tem uma pági­na no DevianArt onde mos­tra regu­lar­men­te as suas cri­a­ções.

Esta em par­ti­cu­lar, fei­ta em 2004, impres­si­o­nou tan­to que a Smashing Magazine incluiu o irlan­dês numa lis­ta de «20 talen­to­sos e impres­si­o­nan­tes ilus­tra­do­res».

A Smashing Magazine faz par­te da Deep Web?

É só uma ninhada do Cronenberg, crianças...

É só uma ninha­da do Cronenberg, cri­an­ças…

Que coi­sas assus­ta­do­ras nos reve­lam os mean­dros des­ta web das pro­fun­de­zas. Quem pode­ria ima­gi­nar que esta ima­gem é na rea­li­da­de um ban­do de cri­an­ças assas­si­nas de aspe­to sinis­tro? E pen­sa­va eu que se tra­ta­va de uma foto pro­mo­ci­o­nal de um fil­me de ter­ror – The Brood – rea­li­za­do em 1979 por David Cronenberg. Estamos sem­pre a apren­der.

Tem sangue e rabo de gajo, só pode ser Deep Web, certo?

Tem san­gue e rabo de gajo, só pode ser Deep Web, cer­to?

Que a ima­gem é invul­gar e per­tur­ba­do­ra não tenho qual­quer dúvi­da: a arte pode ter esse efei­to nas pes­so­as, mes­mo que nos seja este­ti­ca­men­te repul­si­va. Trata-​se de uma foto­gra­fia para a série Colective Red, de 1998, ide­a­li­za­da pelo artis­ta e pin­tor ucra­ni­a­no Arsen Savadov.

Savadov é um con­cep­tu­a­lis­ta: ima­gi­na as ima­gens, com­põe o qua­dro men­tal­men­te e depois tra­ba­lha com um fotó­gra­fo para con­cre­ti­zar os seus sonhos (ou pesa­de­los). Não é obje­ti­vo des­te post escre­ver uma rese­nha sobre os méri­tos artís­ti­cos de Savadov, mas de uma coi­sa pode­mos estar cer­tos: ele não é um pro­du­to da Deep Web.

Surpresa! Os antigos também gostavam de mascarar-se.

Surpresa! Os anti­gos tam­bém gos­ta­vam de mascarar-​se.

Sabem como as pes­so­as se mas­ca­ra­vam para o Halloween nos Estados Unidos, entre 1875 e 1955?

Ossian Brown, músi­co mem­bro dos extin­tos Coil e ago­ra efe­ti­vo dos Cyclobe, entu­si­as­ta de lon­ga data de tudo o que é bizar­ria, fez um lon­go tra­ba­lho de pes­qui­sa em arqui­vos foto­grá­fi­cos e coli­giu esta e mui­tas outras fotos para um livro cha­ma­do Hounted Air. O pre­fá­cio foi escri­to pelo cine­as­ta David Lynch – um homem da Deep Web (embo­ra ele não sai­ba).

Deep Web, a rainha da fotochanchada.

Deep Web, a rai­nha da foto­chan­cha­da.

Parece impos­sí­vel que alguém leve a ima­gem à esquer­da a sério, mas a ver­da­de é que tem sido uma das rai­nhas da cre­epy­pas­ta liga­da aos mitos da Deep Web.

É pre­ci­so dizer que esta­mos ape­nas peran­te uma pho­tosho­pa­da medío­cre a par­tir de uma cri­a­ção artís­ti­ca (à direi­ta) que nada tem a ver com rea­li­da­des ocul­tas ou ver­da­dei­ros voyers malé­fi­cos?

É uma foto­gra­fia da talen­to­sa Joi Carey, uma ame­ri­ca­na do Arizona que pos­sui per­fil no DeviantArt e uma pági­na pes­so­al reple­ta de boas fotos para gen­te adul­ta. Que pen­sa­ria ela do uso idi­o­ta que se tem dado a este seu tra­ba­lho?

A artista chinesa Zhu Ming, outra misteriosa criatura das profundezas.

A artis­ta chi­ne­sa Zhu Ming, outra mis­te­ri­o­sa cri­a­tu­ra das pro­fun­de­zas.

Nem ima­gi­nam a quan­ti­da­de de fotos assus­ta­do­ras da Deep Web que não são mais do que tra­ba­lhos artís­ti­cos des­co­nhe­ci­dos da mai­o­ria das pes­so­as ou fotos pro­mo­ci­o­nais de fil­mes obs­cu­ros igual­men­te pou­co conhe­ci­dos. Esta foto­gra­fia é bizar­ra, sim, mas ape­nas o pro­du­to da ima­gi­na­ção de Zhu Ming, artis­ta chi­nês.

Wild Child, 2003

Wild Child, 2003

Eis mais um exem­plo de tra­ba­lho sério des­vir­tu­a­do pelo des­lei­xo dos igno­ran­tes. Esta ima­gem faz par­te de uma série – Shadow Chamber– que aca­bou por dar ori­gem ao segun­do livro do fotó­gra­fo Roger Ballen.

Ballen nas­ceu em Nova Iorque em 1950, mas mudou-​se para Joanesburgo aos 20 anos e de lá não mais saiu. Desde que come­çou a foto­gra­far tem usa­do sem­pre pelí­cu­la a pre­to e bran­co:

Ao con­trá­rio da foto­gra­fia a cor, o pre­to e bran­co não pro­cu­ra mime­ti­zar o mun­do de uma for­ma simi­lar ao que o olho huma­no per­ce­ci­o­na. Essencialmente, é uma for­ma abs­trac­ta de inter­pre­tar e trans­for­mar o que pode ser refe­ri­do como rea­li­da­de.

O meu pro­pó­si­to ao tirar foto­gra­fi­as é definir-​me a mim pró­prio. Tem sido, basi­ca­men­te, uma via­gem psi­co­ló­gi­ca e exis­ten­ci­al.

Céus, o homem é mes­mo assus­ta­dor.

Ao que parece, os detetives da Deep Web acabaram de tropeçar na Segunda Guerra Mundial, mais de 70 anos depois - tropeçaram, mas não a reconheceram.

Ao que pare­ce, os dete­ti­ves da Deep Web aca­ba­ram de tro­pe­çar na Segunda Guerra Mundial, mais de 70 anos depois – tro­pe­ça­ram, mas não a reco­nhe­ce­ram.

Esta foto foi divul­ga­da pelo Imperial War Museum, em Londres, e mostra-​nos enfer­mei­ras tes­tan­do más­ca­ras anti-​gás, em 1940.

O medo de que os nazis recor­res­sem ao gás para ata­car as cida­des ingle­sas era bem fun­da­men­ta­do: duran­te a Primeira Guerra Mundial, as gran­des potên­ci­as em con­fli­to tinham usa­do todo o tipo de armas quí­mi­cas, do gás lacri­mo­gé­neo a agen­tes mor­tais como o clo­ro ou o fos­gé­nio.

A 13 de agos­to de 1940, ten­do der­ro­ta­do a Polónia e a França, entre outros paí­ses, Hitler dava iní­cio à sua quar­ta cam­pa­nha mili­tar: o «Dia da Águia», como ficou conhe­ci­do, era o pri­mei­ro de uma série de bom­bar­de­a­men­tos mas­si­vos des­ti­na­dos a colo­car a Grã-​Bretanha de joe­lhos.

A Batalha de Inglaterra tinha como obje­ti­vo fun­da­men­tal redu­zir a Força Aérea ingle­sa a cin­zas, pre­pa­ran­do o ter­re­no para uma futu­ra inva­são ter­res­tre. Milhares de bar­ca­ças já se encon­tra­vam pres­tes a rece­ber os sol­da­dos e a atra­ves­sar o Canal da Mancha, mas a resis­tên­cia ingle­sa foi deter­mi­nan­te. Em Setembro des­se ano, as per­das mate­ri­ais e huma­nas da Luftwaffe eram de tal ordem que Hitler deci­diu adi­ar os pla­nos de inva­dir a Grã-​Bretanha e virou as suas ambi­ções para o ini­mi­go bol­che­vis­ta: a União Soviética.

Esta foto é um docu­men­to impres­si­o­nan­te des­ses tem­pos de luta e resis­tên­cia, e não o resul­ta­do de algu­ma ação dia­bó­li­ca…

História? O que é? Aquela disciplina chata que tínhamos na escola, certo?

História? O que é? Aquela dis­ci­pli­na cha­ta que tínha­mos na esco­la, cer­to?

E eis que uma das fotos mais conhe­ci­das da Segunda Guerra Mundial, tira­da em Estalinegrado depois da der­ro­ta dos nazis, afi­nal se tor­na pre­tex­to para modi­fi­ca­ções ranho­sas na cor ori­gi­nal e arti­gos sobre ima­gens assus­ta­do­ras.

Mais de 850 mil sol­da­dos do exér­ci­to das for­ças do Eixo mor­re­ram na sequên­cia de uma bata­lha que durou 199 dias. Pelo menos um milhão e 100 mil sol­da­dos rus­sos foram mor­tos. Ao todo, entre tro­pas e civis, calcula-​se que terão mor­ri­do mais de dois milhões de seres huma­nos – isto é o ver­da­dei­ro hor­ror.

Quando Emmanuil Evzerikhin foto­gra­fou a fon­te Barmaley, tinha des­co­ber­to uma cida­de com­ple­ta­men­te arra­sa­da pelos com­ba­tes. Ao fotografá-​la, cri­ou uma ima­gem que mos­tra­va os hor­ro­res da guer­ra e a con­vic­ção de que a União Soviética sobre­vi­ve­ra, com as está­tu­as das cri­an­ças ain­da intac­tas a sim­bo­li­zar as novas gera­ções que have­ri­am de recons­truir o país.

E com esta versão mecânica ainda rudimentar - mas impressionante - de um homem das cavernas, a Disney conquista um lugar no panteão das criaturas da Deep Web.

E com esta ver­são mecâ­ni­ca ain­da rudi­men­tar – mas impres­si­o­nan­te – de um homem das caver­nas, a Disney con­quis­ta um lugar no pan­teão das cri­a­tu­ras da Deep Web.

Androide cons­truí­do por extra­ter­res­tres sen­do ins­pe­ci­o­na­do num labo­ra­tó­rio secre­to da Área 51? A des­co­ber­ta de que o Abominável Homem das Neves é um androi­de cons­truí­do por extra­ter­res­tres que está a ser ins­pe­ci­o­na­do na Área 51?

Nas men­tes dos mis­ti­fi­ca­do­res da Web, a res­pos­ta é sim; no mun­do real, a res­pos­ta é dife­ren­te: trata-​se de um homem das caver­nas com um meca­nis­mo inter­no que per­mi­tia movi­men­tar os olhos, a cabe­ça, os lábi­os, os mem­bros e o pró­prio cor­po. E veio dos estú­di­os da Walt Disney, onde a cri­a­tu­ra foi fabri­ca­da, para ser exi­bi­do na Feira Mundial de Nova Iorque, rea­li­za­da em 1964.

A foto foi publi­ca­da no mes­mo ano pela revis­ta Popular Science, jun­ta­men­te com uma repor­ta­gem sobre o meca­nis­mo da «cri­a­tu­ra» e as mara­vi­lhas que a fei­ra se pre­pa­ra­va para exi­bir.

Liga os faróis do carro, Manel, vamos tirar uma foto!

Liga os faróis do car­ro, Manel, vamos tirar uma foto!

Mais uma foto mos­tran­do gam­bo­zi­nos assus­ta­do­res. Ou bichos-​papões. Na ver­da­de, é uma cri­a­ção do artis­ta e desig­ner grá­fi­co aus­tría­co Moritz Resl.

A família Buckley

A famí­lia Buckley

Eis uma nova e ter­rí­vel his­tó­ria da Deep Web que em dois minu­tos de pes­qui­sa se des­ven­da. Apresento-​vos então a famí­lia Buckley. As tene­bro­sas cri­an­ças são o David e a Susan.

As mães cos­tu­mam per­der a cabe­ça quan­do os filhos se por­tam mal, mas aqui pare­ce ter sido um acon­te­ci­men­to lite­ral. Que se terá pas­sa­do?

Como pia­di­nha de Halloween, os miú­dos das redon­de­zas acha­ram que seria uma exce­len­te ideia arran­jar um bone­co e cortar-​lhe a cabe­ça. As tene­bro­sas cri­an­ças David e Susan, con­tu­do, pre­fe­ri­ram outra abor­da­gem: em vez do bone­co, opta­ram por cor­tar a cabe­ça à mãe e deixar-​se foto­gra­far.

Quando o cri­me foi des­co­ber­to e a polí­cia che­gou a casa, as cri­an­ças há mui­to tinham desa­pa­re­ci­do: ape­nas res­ta­va esta foto e o cor­po em decom­po­si­ção da senho­ra.

Ah! Mas feliz­men­te os pro­gra­mas de edi­ção de ima­gem têm pode­res mira­cu­lo­sos e a cabe­ça da pobre mãe pôde ser colo­ca­da de novo no seu devi­do lugar. Ufa!

Serão umas experiências do governador tarado de The Walking Dead?

Serão umas expe­ri­ên­ci­as do gover­na­dor tara­do de The Walking Dead?

Experiências gené­ti­cas secre­tas que cor­re­ram mal e foram reve­la­das numa pági­na ultra-​secreta na cama­da mais ultra-​secreta da Deep Web? Monstrinhos que vie­ram do outer spa­ce? Nada de tão fan­tás­ti­co: ape­nas a cri­a­ção de um jovem artis­ta cha­ma­do Carim Nahaboo.

Se existir uma Santa Padroeira da Suprema Paciência, qualquer fã de Pina Bausch deve tornar-se imediatamente um devoto e acender uma velinha.

Se exis­tir uma Santa Padroeira da Suprema Paciência, qual­quer fã de Pina Bausch deve tornar-​se ime­di­a­ta­men­te um devo­to e acen­der uma veli­nha.

Isto é uma foto de uma per­for­man­ce diri­gi­da pela bai­la­ri­na e coreó­gra­fa Pina Bausch. Mas anda esta mal­ta a des­ven­dar segre­dos da Web e nem o Google usa para des­co­brir de onde veio a ima­gem? Que tem isto de assus­ta­dor ou mis­te­ri­o­so, ó libe­li­nhas da Deep Web?

(Ainda bem que só me desa­fi­ei a pro­cu­rar 20 ima­gens, ima­gi­nem se tives­se ima­gi­na­do pro­cu­rar 40 – esta era a fase em que desis­tia da emprei­ta­da). A pro­pó­si­to, aqui vai a últi­ma da série:

É uma das fotos tira­das a 9 de setem­bro de 1950 para a repor­ta­gem da revis­ta Life.

O que a senho­ra tem a seu lado é uma múmia – uma das famo­sas múmi­as de Venzone, em Itália.

Durante mui­tos anos, a região ficou conhe­ci­da por um mis­té­rio inde­ci­frá­vel: por que razão os cor­pos enter­ra­dos nos sar­có­fa­gos da cate­dral da cida­de se encon­tram tão bem con­ser­va­dos, ten­do em con­ta que o pri­mei­ro foi des­co­ber­to em 1647?

Muita espe­cu­la­ção foi fei­ta, algu­ma até de natu­re­za reli­gi­o­sa. Finalmente, a Ciência pôde for­ne­cer uma expli­ca­ção ao estu­dar o pro­ces­so de mumi­fi­ca­ção natu­ral aí ocor­ri­do.

Existe uma razoá­vel vari­e­da­de de meca­nis­mos envol­vi­dos que já eram conhe­ci­dos – ação enzi­má­ti­ca, tér­mi­ca, ausên­cia de oxi­gé­nio, alte­ra­ção do pH ou desi­dra­ta­ção, por exem­plo; no caso da cate­dral de Venzone, a notá­vel con­ser­va­ção foi atri­buí­da à ação de um fun­go, o Hipha Bombicina Pers.

Num ambi­en­te sem cir­cu­la­ção de ar, a uma tem­pe­ra­tu­ra mui­to fria e cons­tan­te, o fun­go absor­ve a humi­da­de e seca os cadá­ve­res, pre­ser­van­do a pele. E é uma des­sas múmi­as «natu­rais» que vemos na foto­gra­fia.

Ignorância

A mai­o­ria des­tas ima­gens são más inter­pre­ta­ções dos dete­ti­ves da Deep Web, pelo que só pos­so tirar estas con­clu­sões:

1. Não que­rem saber da ver­da­de, que­rem é visi­tas;
2. são miú­dos sem gran­des hábi­tos de estu­do;
3. têm a cabe­ça tão for­ma­ta­da pelo lixo que lhe é ser­vi­do pelas tele­vi­sões, edi­to­ras dis­co­grá­fi­cas e estú­di­os de Hollywood que se tor­na­ram inca­pa­zes de reco­nhe­cer mani­fes­ta­ções artís­ti­cas e cul­tu­rais fora do mains­tre­am.

Marco Santos

­ Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?