A asso­ci­a­ção que repre­sen­ta os inte­res­ses comer­ci­ais dos clu­bes de vídeo apre­sen­ta hoje um con­jun­to de denún­ci­as à Procuradoria-​Geral da República. Diz que é a «mai­or colec­tâ­nea de queixas-​crime apre­sen­ta­das em simul­tâ­neo na História da Justiça Portuguesa.»

Colectânea? Quem esti­ver dis­traí­do ain­da pen­sa que a ACAPOR vai lan­çar um dis­co. Será uma colec­tâ­nea do Festival RTP da Canção? Não foi uma rapa­ri­ga cha­ma­da Manuela Bravo que can­tou aque­le suces­so, Sobe, sobe, Netcabo, sobe/​ vai pedir ao Demonoid/​Que me dei­xe lá entrar e sonhar/​Levo o meu PC comigo/​Pois eu sei que encontrei/​O lugar ide­al para sacar.

Bem, pare­ce que não.

A ACAPOR vai denun­ci­ar IP’s. 1000 IP’s, 970 dos quais são IP’s nas­ci­dos em Portugal.

Os IP’s que a ACAPOR vai denun­ci­ar são mal­fei­to­res. Acho mui­to bem. Espero que sejam tor­na­dos públi­cos. Tenho de dizer à minha filha que por mais libe­ral que eu pos­sa ser, jamais a dei­xa­rei namo­rar com um IP que come­ta ile­ga­li­da­des. Não me inte­res­sa que o IP seja loi­ro ou more­no, sim­pá­ti­co ou pres­tá­vel. Os IP’s que a ACAPOR vai denun­ci­ar são os que rou­bam fil­mes na Internet. Chegará o dia em que terei mes­mo de lhe dizer «Filhota, quem vê IP’s não vê cora­ções».

Nem todos os IP’s são meli­an­tes. Valha-​nos isso, por­ra.

Eu conhe­ço IP’s que andam na Net só para rever anti­gos IP’s cujo des­ti­no des­co­nhe­ci­am des­de os tem­pos do liceu. A mai­o­ria usa o Facebook, mui­tos tro­cam núme­ros de tele­fo­ne, com­bi­nam almo­ços.

Quantas vezes já não ouvi­mos esta con­ver­sa «Ó 85.138.192.57, meu gran­de saca­na, há quan­to tem­po não te via! Como é que tens pas­sa­do?»

«Lembras-​te da 216.163.137.68? Que é fei­to des­se bor­ra­chi­nho, casou-​se?»

«Casou-​se com o totó do 195.22.8.66, vê lá tu». «Porra, que des­per­dí­cio. Da rede 216, ela era a mais boni­ta de todas». «Pois é. Agora é a senho­ra 195, ima­gi­na».

Eu conhe­ço IP’s que são gajos mui­to por­rei­ros e outros que nem fazem nada de espe­ci­al quan­do che­gam a casa e des­pem o casa­co.

Alguns sentam-​se no sofá a ver tele­vi­são. Há quem pre­fi­ra ver tele­no­ve­las – são os IP’s mais velhos. Os mais novos pre­fe­rem a SIC Radical. Outros alu­gam fil­mes à Zon. Outros à MEO. Há IP’s que gos­tam de ouvir os guin­chos da Júlia Pinheiro. Há IP’s para tudo.

O que eu não conhe­ço – e nis­to dou razão à ACAPOR – é um IP que se tenha dig­na­do a levan­tar o rabo do sofá e pagar 3 euros para alu­gar um DVD cheio de ris­cos e deda­das.

Há igno­ran­tes que afir­mam que o IP é um pro­to­co­lo da Internet que iden­ti­fi­ca um equi­pa­men­to numa rede local ou públi­ca atra­vés de um ende­re­ço com­pos­to por um núme­ro de 32 bits.

Não se dei­xem enga­nar pelo que diz a Wikipédia. Atrás de cada IP não há uma máqui­na, há uma pes­soa. E por cada down­lo­ad que se faz, há uma ile­ga­li­da­de à esprei­ta. Se eu fos­se a ACAPOR man­da­va fechar a Internet, a ZON e a MEO. Não sei do que está à espe­ra. 1000 IP’s, só? Cambada de mari­cas.

Contudo, um IP não dei­xa de ser um núme­ro. Estranho, não acham?

Esta asso­ci­a­ção que a ACAPOR esta­be­le­ce entre núme­ros e pes­so­as che­ga a ser arre­pi­an­te. Até pare­ce que a Internet é um gigan­tes­co cam­po de con­cen­tra­ção onde os seus pri­si­o­nei­ros não têm nome mas núme­ros, como num roman­ce do Erich Maria Remarque.

Não estou a dizer que a ACAPOR é o nazi e o IP o judeu, mas não há dúvi­da de que o acto de não alu­gar fil­mes nos clu­bes de vídeo nos trans­for­ma ime­di­a­ta­men­te em cul­pa­dos de qual­quer coi­sa.

Marco Santos

­ Marco Santos

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