O Facebook vai dar cabo do negó­cio dos likes: a par­tir de 5 de novem­bro des­te ano, será proi­bi­do for­çar as pes­so­as a cli­car no botão­zi­nho ‘gos­to’ como con­di­ção para se ver con­teú­do. Há mui­tos blo­gues des­ses.

Acaba-​se assim com uma sub­ver­são da fun­ção ori­gi­nal des­se botão: as pes­so­as gos­tam do que tive­ram opor­tu­ni­da­de de ver.

Dar um like para ace­der a con­teú­do que não se ava­li­ou é uma for­ma de se dei­xar cor­rom­per pelos tra­fu­lhas.

É como ouvir-​se alguém: «se que­res conhe­cer a minha opi­nião sobre este assun­to, pri­mei­ro tens de con­cor­dar comi­go.» Numa con­ver­sa no mun­do real, rea­gi­ría­mos como se o outro esti­ves­se a brin­car ou a bater mal da cabe­ça; no onli­ne, con­cor­da­mos.

Bem-​feita. Esfumou-​se o estra­ta­ge­ma dos mari­qui­nhas que tinham medo de se sujei­tar a uma ava­li­a­ção dos visi­tan­tes.

Agora vão ter pro­ble­mas para man­ter um rit­mo tão ele­va­do de likes por­que a con­cor­rên­cia é mui­ta, o con­teú­do copi­a­do aca­ba por repetir-​se e outro sítio pode rece­ber um like pri­mei­ro.

Nos casos em que usei o Social Unlocker para tor­ne­ar essa limi­ta­ção deso­nes­ta, des­co­bri que o con­teú­do escon­di­do não tinha qual­quer méri­to: víde­os saca­dos do YouTube, memes ini­ci­a­dos por outros e pia­das copi­a­das de vári­as síti­os. Forçar o like ser­via para escon­der pseudo-​bloggers inca­pa­zes de escre­ver uma linha ou pro­du­zir con­teú­do ori­gi­nal.

Pois, a Internet é tra­ma­da. Uma hiper­li­ga­ção man­tém o mes­mo valor que sem­pre teve, mas ten­do em con­ta a con­cor­rên­cia e a faci­li­da­de de nave­ga­ção, tornou-​se tam­bém um equi­va­len­te do tele­co­man­do.

Seguir uma hiper­li­ga­ção é tão rápi­do e cor­ri­quei­ro como fazer zap­ping. Guardar nos Favoritos é como memo­ri­zar um canal, mas na Internet pode­mos con­ti­nu­ar no zap­ping de for­ma qua­se infi­ni­ta, des­co­brin­do milha­res de canais para os igno­rar logo a seguir. Se o tele­vi­sor fos­se um ser cons­ci­en­te, pen­sa­ria que a tec­no­lo­gia que sus­ten­ta a rede é indis­tin­guí­vel da magia, para usar uma fra­se de Arthur C. Clarke.

A não ser que se tenha uma voz úni­ca e se tra­ba­lhe no duro para pro­du­zir con­teú­do, um copião é facil­men­te subs­ti­tuí­do por outro.

Um milhão de malmequeres, dois milhões de malmequeres...

Justin Sullivan

Zuckerberg numa con­fe­rên­cia em São Francisco, abril de 2010 | Foto: Justin Sullivan

Mas esta satis­fa­ção pela que­da dos mamões dos likes é sus­pei­ta, por­que sem­pre embir­rei com esse botão­zi­nho. É-​me irre­le­van­te que exis­tam nas redes soci­ais, mas não gos­to de os ver nes­te blo­gue.

Tenho ali em bai­xo uma Like Box da pági­na do Bitaites no Facebook  e uns botões para faci­li­tar a par­ti­lha de con­teú­do espe­cí­fi­co, mas não gos­to de me sujei­tar, post a post, à tira­nia des­tas apro­va­ções ins­tan­tâ­ne­as.

Esses botões con­tri­bu­em para tor­nar o visi­tan­te pre­gui­ço­so e o blog­ger um cão­zi­nho que só publi­ca para a recom­pen­sa. Não estou a dizer que todos os que têm um botão like se com­por­tam assim, mas o ris­co de minar a visão do blog­ger exis­te. Agradar aos outros é dema­si­a­do fácil e ten­ta­dor; seguir o nos­so rumo sem ligar à maré dos gos­tos é mui­to mais com­pli­ca­do.

Já sei, sou um picui­nhas e um cha­to. Talvez até este­ja a ser dema­si­a­do anti­qua­do e tenha difi­cul­da­des em per­ce­ber as enor­mes dife­ren­ças no ato de blo­gar. O exem­plo dos blo­gues copiões que for­çam likes já me devia ter ensi­na­do sobre essas dife­ren­ças.

Que se pode dizer sobre o vídeo de uma Bernardina qual­quer a man­dar um pala­vrão às trom­bas de um Zé Camarinha? Que con­tri­bui­ção se pode­rá dar na cai­xa de comen­tá­ri­os de um post do Cristiano Ronaldo a partir-​se a rir duran­te uma con­fe­rên­cia de impren­sa? Que have­rá para comen­tar sobre o vídeo de um ado­rá­vel cão­zi­nho capaz de mijar enquan­to faz o pino? Ou se lai­ca ou não se lai­ca.

Em blo­gues cuja exis­tên­cia se deve à rela­ção sim­bió­ti­ca com as redes soci­ais, um botão des­ses faz todo o sen­ti­do: o Facebook alimenta-​os com likes, os blo­gues ali­men­tam o Facebook com con­teú­do pron­to a con­su­mir. Leitores e visi­tan­tes têm a satis­fa­ção ins­tan­tâ­nea que pro­cu­ram e o Facebook uma riquís­si­ma base de dados de milhões de uti­li­za­do­res com gos­tos e reco­men­da­ções que os anun­ci­an­tes podem con­sul­tar.

Em blo­gues fei­tos por seres huma­nos e não por for­ne­ce­do­res de likes da quin­ta do senhor Zuckerberg, essa depen­dên­cia não deve exis­tir.

Imaginem uma con­ver­sa à mesa de um café fei­ta à manei­ra das redes soci­ais: um fala, os outros ouvem, dão um like se apro­vam, levantam-​se e pas­sam para outra mesa – uma situ­a­ção ide­al para dis­cus­sões sobre fute­bol, mas não mui­to pro­du­ti­va nou­tras con­ver­sas.

Imaginam-​se a dizer à namo­ra­da: «Sempre que pen­so em ti, come­ço a car­re­gar no botão like repe­ti­das vezes, e sem­pre com mais for­ça»? Não? Claro que não. Para cada situ­a­ção, há uma fer­ra­men­ta ide­al.

Eu sou um blog­ger; logo, exa­ge­ro. É assim, não há nada a fazer. A blo­gos­fe­ra con­ti­nu­a­rá sem­pre a ser a gran­de con­ver­sa­ção; o botão like, uma silen­ci­o­sa apro­va­ção que não desa­fia, só vicia.

Marco Santos

­ Marco Santos

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