Ahoy!

Desde miú­do que tenho um enor­me fas­cí­nio por his­tó­ri­as de pira­tas. A rebel­dia dos homens de per­na de pau e pala no olho e os seus valo­res de liber­da­de e igual­da­de faziam-​me sonhar.

Eram maus como as cobras e mata­vam com a mes­ma faci­li­da­de com que acen­di­am o cachim­bo, mas foram eles que deram roman­tis­mo à iden­ti­da­de anar­quis­ta. Sim, os pira­tas foram os pri­mei­ros anar­cas, antes de os haver.

Entre os sécu­los XVI e XVIII, alguns esta­vam ain­da enre­da­dos nas lógi­cas do feu­da­lis­mo que defi­nha­va e do emer­gen­te capi­ta­lis­mo – pois, hou­ve pira­tas escla­va­gis­tas –, mas outros defi­ni­am já as bases de uma orga­ni­za­ção soci­al alter­na­ti­va, não-​autoritária e de par­ti­lha, tan­to no mar como em ter­ra, nas peque­nas cida­des que fun­da­ram.

Black Sails

Black Sails

Todo esse meu mara­vi­lha­men­to veio ao de cima quan­do, num canal da TV por cabo, come­cei a ver a série «Black Sails» («Velas Negras»), uma das melho­res atu­al­men­te em emis­são.

A his­tó­ria cri­a­da por Jon Steinberg e Robert Levine permitiu-​me «ver» o que antes tinha lido, sobre a pira­ta­ria, de pen­sa­do­res anar­quis­tas como Peter Lamborn Wilson, mais conhe­ci­do como Hakim Bey, em «Pirate Utopias: Moorish Corsairs & European Renegadoes», e Gabriel Kuhn, em «Life Under the Jolly Roger: Reflections on Golden Age Piracy».

Cidades da noite vermelha

O pri­mei­ro inci­diu a sua aten­ção sobre os pira­tas muçul­ma­nos do Mediterrâneo e a for­ma como con­se­gui­ram con­ver­ter para a sua cau­sa mui­tos euro­peus. Islamizados, con­si­de­ra­dos pelos seus paí­ses como trai­do­res, rene­ga­dos e após­ta­tas, estes tive­ram um impor­tan­te papel na cons­ti­tui­ção da República de Salé, onde hoje é Marrocos.

Porque a docu­men­ta­ção exis­ten­te é escas­sa, e tem uma pers­pe­ti­va par­ci­al dos fac­tos (foi escri­ta por aca­dé­mi­cos dos cen­tros de poder euro­peus), Bey permitiu-​se ima­gi­nar mui­tas das ocor­rên­ci­as.

Tudo bem: o uni­ver­so da pira­ta­ria é mais míti­co do que outra coi­sa, o que ain­da o tor­na mais atra­en­te. Ou seja, há no ensaís­mo des­te anar­quis­ta com, ele pró­prio, apa­rên­cia de pira­ta, algo de lite­rá­rio. Algo do roman­ce «Cities of the Red Night», rela­to deli­ran­te sobre a soci­e­da­de pira­ta do escri­tor William S. Burroughs.

Hakim Bey

Hakim Bey

Hakim Bey escre­veu tam­bém sobre outra urbe dos buc­ca­ne­ers, Libertália. O pri­mei­ro a falar dela, em 1724 («A General History of the Robberies and Murders of the Most Notorious Pyrates») foi um tal de Capitão Charles Johnson, que se pen­sa ser um pseu­dó­ni­mo de Daniel Defoe, o mes­mo autor de «Robinson Crusoe».

Como o livro mis­tu­ra fac­tos e fic­ção, duvida-​se que Libertália tenha real­men­te exis­ti­do. A mim agrada-​me par­tir do prin­cí­pio de que sim. Johnson localizou-​a em Madagáscar, no sécu­lo XVII, e a des­cri­ção que fez é a de uma qua­se anar­quia. Terá resis­ti­do duran­te 25 anos…

Lamborn “Hakim Bey” Wilson uti­li­za Libertália como um exem­plo de que é pos­sí­vel cons­truir «zonas autó­no­mas tem­po­rá­ri­as» num mun­do hie­rar­qui­za­do e repres­si­vo.

Kuhn estu­dou, pelo seu lado, a pira­ta­ria das Caraíbas. Já com uma pers­pe­ti­va bem dife­ren­te e uma meto­do­lo­gia «cien­tí­fi­ca», por­que é mais um his­to­ri­a­dor do que um teó­ri­co, mas em mui­tos aspe­tos com o mes­mo enqua­dra­men­to: «foi isto o que pro­va­vel­men­te acon­te­ceu».

Ian McShane

Ian McShane como Barba Negra

O retra­to que faz dos cor­sá­ri­os dos mares do Sul é mais por­me­no­ri­za­do do que o de Bey. Tratava-​se de anti­gos mari­nhei­ros com ori­gem na Inglaterra, na Irlanda e na Escócia que rom­pe­ram com a sua pró­pria iden­ti­da­de naci­o­nal, à mis­tu­ra com escra­vos afri­ca­nos fugi­dos e drop-​outs das coló­ni­as – agri­cul­to­res na misé­ria, cri­mi­no­sos depor­ta­dos, exi­la­dos por deli­to de con­vic­ção (Levellers, Ranters, Diggers), indí­ge­nas.

Esta diver­si­da­de étni­ca e cul­tu­ral con­du­ziu ao desen­vol­vi­men­to de um dia­le­to pró­prio. Aliás, julga-​se que a República de Salé e Libertália tinham as suas lín­guas exclu­si­vas.

Acrescente-​se, tam­bém, que o con­tac­to com os radi­cais expul­sos do Velho Continente deter­mi­nou a cons­ci­en­ci­a­li­za­ção polí­ti­ca da pira­ta­ria. O que na ori­gem era um ato pri­má­rio de rebe­lião tornou-​se num pro­gra­ma con­tra todos os Estados e con­tra a noção de Estado por si só. Hoje chamamos-​lhe «uto­pia pirá­ti­ca».

Príncipes livres

O alvo dos pira­tas eram os navi­os mer­can­tes ingle­ses e espa­nhóis e os saques obti­dos dividiam-​se por igual entre todos os mem­bros da tri­pu­la­ção. O capi­tão e o con­tra­mes­tre das embar­ca­ções eram elei­tos, e depos­tos se os seus desem­pe­nhos não satis­fi­zes­sem, pelo cole­ti­vo. A auto­ri­da­de que tinham era pura­men­te fun­ci­o­nal, restringindo-​se às ope­ra­ções navais e de bata­lha.

Os pro­vei­tos reti­ra­dos ser­vi­am exclu­si­va­men­te para com­prar man­ti­men­tos e garan­tir as neces­si­da­des bási­cas de cada um. Ao con­trá­rio do que se jul­ga, os pira­tas não acre­di­ta­vam na «acu­mu­la­ção de pro­pri­e­da­de mor­ta».

Aliás, e ao que pare­ce, nos por­tos escon­di­dos em que recu­pe­ra­vam for­ças e arran­ja­vam as suas naus não havia sis­te­ma mone­tá­rio. Logo, não havia for­tu­nas… Como veri­fi­ca­mos nos regis­tos que fica­ram, consideravam-​se «prín­ci­pes livres» e viam o ini­mi­go como «cães obe­di­en­tes às leis que os ricos impu­se­ram para seu bene­fí­cio».

Indicações há, tam­bém, que boa par­te dos tesou­ros «recu­pe­ra­dos» era depois par­ti­lha­da com as popu­la­ções pobres das ilhas cari­be­nhas.

Todas as deci­sões eram deba­ti­das. O que por vezes tinha como con­sequên­cia falhar um assal­to ou ser apri­si­o­na­do e aca­bar pen­du­ra­do numa for­ca, por­que exer­cer uma demo­cra­cia tem o que se lhe diga. Ou se demo­ra­va a tomar uma reso­lu­ção ou mudava-​se de idei­as.

Grace O'Malley

Ilustração de Grace O'Malley, rainha-​pirata

A vida a bor­do era regu­la­da por um con­jun­to de regras que esta­be­le­cia mais os direi­tos do que as obri­ga­ções. Estas tan­to defi­ni­am o aces­so ao álco­ol – mui­to libe­ral – como o rela­ci­o­na­men­to amo­ro­so. Com tan­tos meses sem pisar chão fir­me, natu­ral era que sur­gis­sem envol­vi­men­tos sexu­ais entre os pira­tas. Por exem­plo, se um con­sor­te mor­res­se, o outro rece­bia o seu qui­nhão…

Quando as mulhe­res come­ça­ram a mar­car pre­sen­ça nas embar­ca­ções, como com­ba­ten­tes ou com­pa­nhei­ras, não muda­ram os com­por­ta­men­tos homos­se­xu­ais. A úni­ca dife­ren­ça: a par­cei­ra de um era par­ti­lha­da com o aman­te que o mes­mo já tinha.

Estavam lon­ge de ser per­so­na­gens secun­dá­ri­as: algu­mas che­ga­ram ao pos­to de capi­tãs, assim como hou­ve coman­dan­tes tão pre­tos quan­to as noi­tes sem lua. Os secu­la­res sexis­mo e racis­mo do Ocidente foram depos­tos da men­ta­li­da­de pira­ta, jun­ta­men­te com os seus outros prin­cí­pi­os e nor­ma­ti­vos.

Tudo isto, mais até do que o rou­bo e a car­ni­fi­ci­na, assus­ta­va as cabe­ças coro­a­das da Europa, a bur­gue­sia nas­cen­te e as igre­jas cató­li­ca e angli­ca­na. Os pira­tas eram vis­tos como bêba­dos sodo­mi­tas que esta­vam a implan­tar uma eco­no­mia de soli­da­ri­e­da­de, cri­an­do – pelo que reza um escri­to da épo­ca – «uma Commonwealth nas regiões desa­bi­ta­das que nenhum Poder pode­rá dis­pu­tar».

Louise Michel, a Rebelde

A rela­ção da pira­ta­ria com o anar­quis­mo sur­gi­do um sécu­lo depois está bem repre­sen­ta­da pela ban­dei­ra negra. A dos guer­ri­lhei­ros de água sal­ga­da osten­ta­va uma cavei­ra e duas tíbi­as cru­za­das. Segundo o tam­bém his­to­ri­a­dor George Woodcock, foi com esse estan­dar­te que Louise Michel, uma des­ta­ca­da mili­tan­te da Comuna de Paris, sur­giu numa mani­fes­ta­ção.

Pouco depois, Louise foi vis­ta com uma outra ban­dei­ra em que o Rei Morte já não figu­ra­va. O recur­so ter-​se-​á devi­do à fal­ta de opor­tu­ni­da­de para dese­nhar o sím­bo­lo pira­ta: na hora de erguer uma bar­ri­ca­da é mais fácil e rápi­do pegar sim­ples­men­te num pano pre­to e levantá-​lo com um pau. O ‘A’ com cír­cu­lo à vol­ta foi acres­cen­ta­do mais tar­de.

Sylvie Testud

Sylvie Testud como Louise Michel no fil­me de Solveig Anspach «Louise, a Rebelde».

Curiosamente, a pri­mei­ra ban­dei­ra dos pira­tas e a pri­mei­ra dos anar­quis­tas eram ver­me­lhas, sím­bo­lo do san­gue e da revol­ta. A «jolly roger» refe­ri­da por Gabriel Kuhn tinha essa cor, de res­to. Acabou por per­du­rar o negro, se bem que anarco-​comunistas e anarco-​sindicalistas uti­li­zem uma ban­dei­ra meta­de ver­me­lha, meta­de negra.

Faz todo o sen­ti­do. Como afir­mou Howard Ehrling em «Reinventing Anarchy», a ban­dei­ra negra é a ban­dei­ra da nega­ção e, desig­na­da­men­te, da nega­ção de todas as ban­dei­ras. «O negro é a cor da rai­va e do ultra­je pro­vo­ca­dos pelos hor­ren­dos cri­mes con­tra a huma­ni­da­de em nome da sub­mis­são a um ou a outro Estado. É a cor do luto pelos incon­tá­veis milhões que foram assas­si­na­dos em guer­ras, exter­nas e inter­nas, para gló­ria das nações».

Os pira­tas fize­ram mais uma guer­ra, mas era uma guer­ra con­tra o «busi­ness as usu­al» das guer­ras como for­ma de gover­nar. Perderam, mas dei­xa­ram her­dei­ros.

E sabem que mais? Para um afi­ci­o­na­do da músi­ca como eu, é bom saber que, duran­te as con­ten­das, os pira­tas tinham sem­pre músi­cos a tocar.

Deixo-​vos, pois, um gran­de ARRGH e estas ima­gens de uma ban­da de rock dos anos 1970 que ganhou fama no cir­cui­to dos pubs, fazen­do cor­rer mui­to rum, The Pirates. O tema tem men­sa­gem, cla­ro: «You Don’t Own Me».

Rui Eduardo Paes

­Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?