Bebi um café ao bal­cão enquan­to esprei­ta­va uma con­ver­sa ani­ma­da numa das mesas. Velhotes dis­cu­ti­am a II Guerra Mundial, Hitler, a Alemanha e a neu­tra­li­da­de por­tu­gue­sa.

Quando alguém se mos­trou ali­vi­a­do por Portugal não ter entra­do na guer­ra, por­que de qual­quer modo tería­mos leva­do por­ra­da, um dos velho­tes, até então silen­ci­o­so, pare­ceu cho­ca­do. Inspirou uma gran­de quan­ti­da­de de ar e mer­gu­lhou a fun­do na con­ver­sa.

Pois sabe você o que dis­se Hitler sobre nós?» — Perguntou o orgu­lho­so des­cen­den­te de Viriato, com as nari­nas dila­ta­das pelo patri­o­tis­mo. — «Se tives­se tido sol­da­dos por­tu­gue­ses, dis­se ele, a Alemanha nun­ca teria per­di­do a guer­ra!»

Ninguém o con­tra­ri­ou, mas a cita­ção atri­buí­da ao Führer pareceu-​me pro­ble­má­ti­ca.

A guerra de Hitler que os outros perderam

Hitler com a sua cadela Blondi em 1939

Hitler com a sua cade­la Blondi em 1939.

Hitler só admi­tiu que a guer­ra esta­va per­di­da quan­do o Exército Vermelho se encon­tra­va a pou­cos qui­ló­me­tros do cen­tro de uma Berlim em ruí­nas. Só admi­tiu que a Alemanha fora der­ro­ta­da quan­do os sovié­ti­cos esta­vam a um dia de alcan­çar a Chancelaria e o bun­ker onde se refu­gi­a­ra.

Não sei se che­gou a ter tem­po de pen­sar em Portugal.

Cada vez mais his­té­ri­co e ins­tá­vel, Hitler tinha pas­sa­do os meses ante­ri­o­res a con­sul­tar mapas e a man­dar avan­çar divi­sões de tro­pas que, na rea­li­da­de, já não exis­ti­am.

Manteve a espe­ran­ça de uma revi­ra­vol­ta ope­rá­ti­ca até ao fim. Nas ruas, milha­res con­ti­nu­a­vam a mor­rer, ale­mães e rus­sos, civis e mili­ta­res, víti­mas das fic­ções deli­ran­tes de um homem que se via como o herói de uma ópe­ra de Wagner.

A 29 de abril de 1945, ren­di­do às evi­dên­ci­as, acei­tou que a guer­ra esta­va per­di­da e cul­pou toda a gen­te. Rodeara-​se de incom­pe­ten­tes, trai­do­res e cobar­des, era a jus­ti­fi­ca­ção. Só ele per­ma­ne­ce­ra ino­cen­te.

Adeus, mundo cruel

Heinrich Hoffmann

Hitler pas­sa pelas bra­sas ao lado da aman­te Eva Braun | Foto: Heinrich Hoffmann

Por fim, deci­diu suicidar-​se. Não que­ria cair nas mãos dos rus­sos. «Não vou ser apa­nha­do de sur­pre­sa por um tan­que rus­so a entrar-​me no quar­to!» — Era o que cos­tu­ma­va dizer com frequên­cia, nos últi­mos tem­pos. Ser exi­bi­do em Moscovo numa para­da humi­lhan­te sob o olhar triun­fal de bol­che­vi­ques e judeus perturbava-​o mais do que mor­rer.

Mandou vir um médi­co para tes­tar a cáp­su­la de áci­do prús­si­co na sua cade­la Blondi. Hitler não foi capaz de ver, só vol­tou quan­do o ani­mal já esta­va mor­to. Sempre mos­tra­ra mais afe­to pela cade­la do que por qual­quer outro ser huma­no com quem con­vi­via, incluin­do a aman­te de lon­ga data Eva Braun.

Eva Braun, igual­men­te fiel, deci­di­ra mor­rer com ele. No dia seguin­te, a 30 de abril, com os rus­sos qua­se a che­gar ao bun­ker, entra­ram no gabi­ne­te de Hitler para desem­pe­nha­rem os seus papéis no ato final des­ta tra­gé­dia. A por­ta fechou-​se e, duran­te dez minu­tos, nin­guém se atre­veu a entrar.

Ninguém sabe o que dis­se Hitler antes de pegar numa Walther de 7,65 mm e dis­pa­rar sobre a têm­po­ra direi­ta. Talvez tenha mur­mu­ra­do umas pala­vras de des­pe­di­da à aman­te. Talvez tenha cul­pa­do os judeus pelo seu infor­tú­nio.

O que não con­si­go é imaginá-​lo no sofá pres­tes a trin­car a cáp­su­la de vene­no, com uma arma apon­ta­da à cabe­ça, a dedicar-​nos as suas últi­mas pala­vras: «Sabes, Eva, se eu tives­se sol­da­dos por­tu­gue­ses nun­ca teria per­di­do a guer­ra».

Portugal esteve na mira de Hitler

Hitler refe­riu Portugal duran­te um dis­cur­so de duas horas e vin­te minu­tos a 28 de abril de 1939 no Reichtag, um par­la­men­to onde os nazis eram a úni­ca for­ça polí­ti­ca. Foi uma refe­rên­cia de pas­sa­gem.

Duas sema­nas antes, o pre­si­den­te dos EUA, Roosevelt, enviara-​lhe uma men­sa­gem na sequên­cia da toma­da pela Alemanha nazi da então Checoslováquia.

A car­ta de Roosevelt ape­la­va a Hitler para que garan­tis­se que não leva­ria a cabo qual­quer ata­que nos 25 anos seguin­tes con­tra uma lis­ta de trin­ta paí­ses, incluin­do Portugal.

Em tom joco­so, Hitler repe­tiu, um a um, os paí­ses que Roosevelt pedi­ra para que não ata­cas­se, arran­can­do gar­ga­lha­das de gozo e escár­nio à audi­ên­cia.

Verdade seja dita, Portugal este­ve por um fio um ano depois daque­le dis­cur­so.

Em prin­cí­pio de setem­bro de 1940, o che­fe supre­mo da mari­nha nazi defen­dia como pri­o­ri­da­de a des­trui­ção do poder da Grã-​Bretanha no Mediterrânio e no Próximo Oriente. Hitler con­cor­da­va.

A con­quis­ta de Gibraltar e do Canal de Suez, com a aju­da da Espanha, foi então seri­a­men­te con­si­de­ra­da.

Hitler encontrou-​se com o «Generalíssimo» Franco per­to da fron­tei­ra espa­nho­la. Queria dis­cu­tir a entra­da da Espanha na guer­ra ao lado da Alemanha. O ali­nha­men­to espa­nhol com as for­ças do Eixo impli­ca­ria a inva­são de Portugal, para impe­dir que os bri­tâ­ni­cos usas­sem os nos­sos por­tos.

O pla­no con­sis­tia em usar uma divi­são blin­da­da ale­mã para tomar os por­tos de Setúbal e Lisboa, enquan­to uma divi­são espa­nho­la avan­ça­ria pela cos­ta nor­te e uma divi­são ale­mã de infan­ta­ria moto­ri­za­da segui­ria para o sul do país.

Adelante, adelante, mi Führer

Hitler com Franco

Hitler com Franco

O pro­ble­ma des­te pla­no é que Franco pedia mui­to à Alemanha para entrar na guer­ra.

O cau­di­lho espa­nhol que­ria Gibraltar, o Marrocos fran­cês e par­te da Argélia. Também pre­ten­dia ampli­ar a Guiné espa­nho­la com a ilha de Fernando Pó, atu­al Bioco, na Guiné Equatorial. E exi­gia quan­ti­da­des exor­bi­tan­tes de arma­men­to e comi­da.

Hitler não tinha nada de subs­tan­ci­al a ofe­re­cer a Franco. As pre­ten­sões colo­ni­a­lis­tas espa­nho­las esbar­ra­vam com os inte­res­ses da França cola­bo­ra­ci­o­nis­ta do mare­chal Pétain. Espanha não valia tan­ta cha­ti­ce.

Hitler não esta­va acos­tu­ma­do a lidar com uma pes­soa como Franco. Baixo, gor­do, tri­guei­ro, o espa­nhol fala­va pelos coto­ve­los. Hitler gos­ta­va de monó­lo­gos que nin­guém podia inter­rom­per, des­de que fos­sem os dele. E come­çou a ficar cada vez mais impa­ci­en­te.

Quando Franco expôs as exi­gên­ci­as espa­nho­las, Hitler ficou tão irri­ta­do que deu um pulo da cadei­ra e se afas­tou da mesa. Não valia a pena pros­se­guir a con­ver­sa, dis­se. Acabaria por se acal­mar e vol­tar a sentar-​se. A lon­ga reu­nião, con­tu­do, não leva­ria a nenhu­ma con­clu­são prá­ti­ca.

«Não se con­se­gue nada com este sujei­to», res­mun­gou Hitler à saí­da.

O assun­to da Espanha e da inva­são de Portugal fica­ra encer­ra­do. Alguns dias mais tar­de, Hitler encontrou-​se com Mussolini em Florença. «Preferia que me arran­cas­sem três ou qua­tro den­tes a ter de me sujei­tar a mais nove horas de con­ver­sa­ções com aque­le sujei­to», con­fes­sou.

O chanceler tagarela

Hitler pre­fe­ria ser tor­tu­ra­do pelo den­tis­ta do que tor­tu­ra­do por um taga­re­la espa­nhol. E assim se safou Portugal de ser inva­di­do.

Hitler pro­va­ra do seu pró­prio vene­no. Os mais pró­xi­mos já sabi­am como eram as noi­tes com o Führer: épi­cas bata­lhas con­tra o boce­jo. Alguns até dor­mi­am uma ses­ta à tar­de para se pre­pa­rem.

Hitler gos­ta­va de falar. Fazia-​o duran­te horas e horas, enquan­to os con­vi­da­dos resis­ti­am estoi­ca­men­te em sofás cada vez menos con­for­tá­veis. A úni­ca for­ma de fazê-​lo calar era propor-​lhe ouvir músi­cas de com­po­si­to­res que ele gos­tas­se, sobre­tu­do Wagner. Aí, fecha­va os olhos e entra­va em tran­se.

Temos assim a agra­de­cer ao «Generalíssimo» Franco. Conseguiu ser mais cha­to do que o pró­prio Hitler. E esta era uma pro­e­za que nin­guém naque­le tem­po jul­ga­ria pos­sí­vel.

Marco Santos

­ Marco Santos

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