Apresentado nes­ta entre­vis­ta como «Professor, inves­ti­ga­dor, peda­go­go, filó­lo­go, estu­di­o­so da lite­ra­tu­ra e cro­nis­ta da América» – onde vive – Eduardo Mayone Dias, nas­ci­do e cri­a­do em Campo de Ourique, Lisboa, escre­veu uma cró­ni­ca deli­ci­o­sa sobre os segre­dos de alco­va da monar­quia por­tu­gue­sa.

E é esse tex­to, com ligei­ras adap­ta­ções – mais pará­gra­fos, ape­nas para faci­li­tar a lei­tu­ra num ecrã de com­pu­ta­dor – que pas­so a par­ti­lhar, sem mais delon­gas.

Sexo e realeza

Duarte Pio

Embora a História (mes­mo com H maiús­cu­lo) seja basi­ca­men­te uma bis­bi­lho­ti­ce aca­dé­mi­ca, há cer­tos aspe­tos deli­ca­dos, como por exem­plo ati­vi­da­des notur­nas, que mui­tos his­to­ri­a­do­res pre­fe­rem dei­xar numa cau­te­lo­sa escu­ri­dão – aspe­tos que podem ser inte­res­san­tes e reve­la­do­res das régi­as per­so­na­gens.

Para os explo­rar não nos pode­mos, na mai­o­ria dos casos, base­ar em docu­men­tos ofi­ci­ais, vis­to o Diário do Governo jamais publi­car a notí­cia de que Sua Majestade, o Rei, pas­sa­ra enle­va­da­men­te a noi­te ante­ri­or com uma can­to­ra ita­li­a­na de ópe­ra, por mui­to que o monar­ca amas­se a músi­ca.

Existem, con­tu­do, pis­tas e indí­ci­os que nos levam a ela­bo­rar con­clu­sões ou pelo menos espe­cu­la­ções sobre os pas­sa­tem­pos român­ti­cos dos nos­sos augus­tos sobe­ra­nos.

A par­ca his­to­ri­o­gra­fia medi­e­val não nos per­mi­te apro­fun­dar mui­to o tema das incli­na­ções afe­ti­vas reais. Sabemos con­tu­do, para come­çar, que D. Teresa, viú­va do Conde D. Henrique, a quem cha­ma­vam rai­nha embo­ra não hou­ves­se ain­da monar­quia em Portugal, se pren­deu de mui­tos ínti­mos amo­res com o Conde de Trava, a quem doou cas­te­los e senho­ri­os como recom­pen­sa pelos seus ser­vi­ços.

Sabemos tam­bém que qua­se todos os reis da pri­mei­ra dinas­tia tive­ram o seu bas­tar­do­zi­to. D. Dinis, por exem­plo, além de poe­tar sobre as flo­res do ver­de pino, de cri­ar os Estudos Gerais e de pen­sar a sério no pro­ble­ma agrí­co­la naci­o­nal, que já então exis­tia, ain­da encon­trou tem­po para dotar o país com uma mão-​cheia de filhos ile­gí­ti­mos.

O monar­ca medi­e­val que mais publi­ci­da­de obte­ve para os seus deva­nei­os foi natu­ral­men­te D. Pedro I, que nes­te aspe­to mere­ceu a aten­ção lite­rá­ria de Fernão Lopes, Luís de Camões, Garcia de Resende, Vélez de Guevara e Henri de Montherland.

O seu inte­res­se por Inês de Castro teve iní­cio ain­da no tem­po de D. Constança, sua mui­to legí­ti­ma espo­sa. Os cin­co anos duran­te os quais D. Pedro amo­ro­sa­men­te dia­lo­gou com D. Inês deram lugar à vin­da ao mun­do de qua­tro des­cen­den­tes.

E nou­tras deam­bu­la­ções, o rei ain­da teve opor­tu­ni­da­de de pre­sen­te­ar o país com um bas­tar­do que seria depois o Mestre de Avis, aque­le que as cor­tes de Coimbra esco­lhe­ram para rei, com o nome de D. João I.

Apesar des­tas libe­ra­li­da­des, o sobe­ra­no era impla­cá­vel com peca­di­lhos alhei­os e man­dou pri­var da sua viri­li­da­de um escu­dei­ro que tinha con­se­gui­do favo­res de uma dama casa­da, e quei­mar outra adúl­te­ra.

O filho legí­ti­mo de D. Pedro, o rei D. Fernando, cog­no­mi­na­do o Formoso, embo­ra noi­vo de uma prin­ce­sa cas­te­lha­na, teve artes para orna­men­tar a tes­ta de um dos seus súb­di­tos.

Deve-​se-​lhe con­tu­do a ele­gân­cia de obter do Papa a anu­la­ção do casa­men­to da sua bem-​querida, D. Leonor Teles, e aca­bar por dar o nó com ela. D. Leonor, ao enviu­var, não se con­ser­vou con­tu­do mui­to gra­ta à memó­ria do for­mo­so defun­to e ini­ci­ou logo a seguir uma «mea­ning­ful rela­ti­onship» com um nobre gale­go, o Conde Andeiro.

D. João I teve um filho de uma liga­ção com a filha de um sapa­tei­ro judeu, a que cha­ma­vam o Barbadão. Este filho, fei­to Conde de Barcelos, casou com a filha de D. Nuno Álvares Pereira e deu ori­gem à casa de Bragança.

D. João II fez o que pôde para, à mor­te do seu filho legí­ti­mo, o Infante D. Afonso, impor como her­dei­ro do tro­no um filho bas­tar­do, D. Jorge. Parece que a ideia não encan­tou pro­pri­a­men­te a rai­nha e o suces­sor aca­bou por ser D. Manuel, cunha­do e pri­mo do rei. Aliás, D. Manuel, além do tro­no, her­dou tam­bém a viú­va de D. Afonso, a pri­mei­ra das suas vári­as espo­sas.

«Volta para trás! Vem aí a puta!»

Rainha D. Carlota Joaquina e El Rei D. Sebastião

Rainha D. Carlota Joaquina e El Rei D. Sebastião

Consta que D. Sebastião nun­ca fez nada na cama senão dor­mir. (Na sua cur­ta vida de adul­to, entenda-​se, pois quan­do bebé, devia por cer­to tê-​la hume­de­ci­do como com­pe­te a qual­quer pim­po­lho que se pre­ze).

Diz-​se que o jovem rei sofria de um cor­ri­men­to cró­ni­co que o impe­di­ria de asse­gu­rar a con­ti­nu­a­ção da dinas­tia.

O Cardeal-​Rei D. Henrique devia ter idei­as algo estra­nhas sobre pro­ces­sos bio­ló­gi­cos. Instado pelos seus cor­te­sãos a asse­gu­rar uma des­cen­dên­cia que neu­tra­li­zas­se as pre­ten­sões ao tro­no por­tu­guês de Filipe II de Espanha, pen­sou pedir ao Papa dis­pen­sa dos seus votos sacer­do­tais e con­trair matri­mó­nio com a rainha-​mãe de França.

Um ligei­ro pro­ble­ma era que a boa senho­ra con­ta­va já 59 anos, uma eta­pa da vida não mui­to pro­pí­cia à fer­ti­li­da­de. E, por outro lado, o geriá­tri­co sobe­ra­no não faria tão pou­co um arden­te e pro­lí­fi­co aman­te.

De limi­ta­ções aná­lo­gas às de D. Sebastião pade­cia tam­bém D. Afonso VI, pois era voz cor­ren­te que o úni­co tra­to com a sua rai­nha tinha lugar quan­do a sau­da­va em atos públi­cos.

D. Maria Francisca regis­tou aliás o fac­to numa car­ta que diri­giu ao sobe­ra­no, na qual escre­via «Não se agra­dou V. Majestade de mim, não, meu mari­do, como V. Majestade bem sabe».

Esta incom­pa­ti­bi­li­da­de foi fra­ter­nal­men­te resol­vi­da pelo irmão do rei, o futu­ro D. Pedro II: depois de fazer anu­lar o casa­men­to de D. Afonso e de o encer­rar no Castelo de Angra e no Paço de Sintra, casou ele mes­mo com D. Maria Francisca, matri­mó­nio esse que des­ta vez resul­tou fru­tí­fe­ro, com o nas­ci­men­to de uma prin­ce­si­nha.

Já entra­do o sécu­lo XVIII, foi notó­rio o inte­res­se de D. João V pela Madre Paula, que fre­quen­te­men­te visi­ta­va no con­ven­to de Odivelas. Dessas devo­tas visi­tas nas­ce­ram os cha­ma­dos «meni­nos da Palhavã», para quem man­dou cons­truir o pala­ce­te de Lisboa onde hoje está ins­ta­la­da a Embaixada de Espanha. Aliás, dizia-​se de D. João V que era tão reli­gi­o­so que todas as suas aman­tes eram frei­ras.

D. José sofreu um aten­ta­do que o dei­xou feri­do num bra­ço quan­do regres­sa­va ao palá­cio depois de um ame­no coló­quio notur­no.

O seu neto, D. João VI, não se podia orgu­lhar de uma impe­cá­vel fide­li­da­de de sua espo­sa, D. Carlota Joaquina. A rai­nha teve vári­os filhos. Segundo todas as pro­ba­bi­li­da­des o mais velho, o que viria a ser D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, era mes­mo do seu legí­ti­mo espo­so.

Quanto aos outros, qua­se cer­to que um deles devia a sua pater­ni­da­de aos pres­tá­veis ser­vi­ços do almo­xa­ri­fe do paço. Dos res­tan­tes, diz-​se que apre­sen­ta­vam notó­ri­as seme­lhan­ças fisi­o­nó­mi­cas com vári­os ofi­ci­ais da guar­da.

E isto ape­sar de a sobe­ra­na ser mais feia que uma noi­te de tro­vões.

Eram tais as suas ape­tên­ci­as que quan­do o seu coche se apro­xi­ma­va do coche do seu paci­en­te mari­do nas estra­das de Queluz o rei gri­ta­va, indig­na­do, ao cochei­ro: «Volta para trás! Vem aí a puta!».

Depois de ter fei­to das suas no Brasil com a Marquesa de Santos, que o pre­sen­te­ou com vári­os nenés, sabe-​se que duran­te a sua esta­dia na Terceira, D. Pedro I se peni­ten­ci­a­va dos seus des­va­ri­os por meio de pro­lon­ga­das visi­tas a con­ven­tos. Mas só de frei­ras, entenda-​se.

Por outro lado, o seu neto, D. Pedro V, tal como outros ante­ces­so­res seus, pare­cia ser aves­so a inti­mi­da­des matri­mo­ni­ais. A espo­sa, D. Estefânia, queixava-​se numa car­ta da «extre­ma fri­al­da­de» do seu Pedro. E quan­do a rai­nha mor­reu, o médi­co que fez a autóp­sia, segun­do cons­ta, opi­nou que a rai­nha fos­se enter­ra­da num cai­xão bran­co e com uma coroa de flo­res de laran­jei­ra.

Entretanto, o pai de D. Pedro V, D. Fernando de Coburgo, ao enviu­var de D. Maria II, lega­li­zou uma anti­ga rela­ção que man­ti­nha com a can­to­ra Elisa Hensler, fazendo-​a Condessa de Edla.

O ante­pe­núl­ti­mo e o penúl­ti­mo dos reis de Portugal fize­ram o que pude­ram pela vida, nem sem­pre mui­to dis­cre­ta­men­te. D. Luís, por exem­plo, teve um notó­rio caso com a atriz Rosa Damasceno e, voz públi­ca, D. Carlos não foi um abso­lu­to exem­plo de fide­li­da­de con­ju­gal.

E para rema­tar a cró­ni­ca há que assi­na­lar que o atu­al repre­sen­tan­te da monar­quia por­tu­gue­sa, D. Duarte Pio, casou quan­do já ron­da­va os 50 anos.

O seu ante­ri­or celi­ba­to afli­gia os monár­qui­cos, mui­tos dos quais lamen­ta­vam a ale­ga­da total igno­rân­cia do Duque de Bragança em ques­tões de bio­lo­gia apli­ca­da.

Mas enfim, as apa­rên­ci­as indi­cam que cum­priu as suas obri­ga­ções suces­só­ri­as e a duque­sa entrou no seu esta­do inte­res­san­te. Dizem, con­tu­do, as más lín­guas (mes­mo algu­mas inde­fe­ti­vel­men­te monár­qui­cas) que quan­do per­gun­ta­vam ao duque como se cha­ma­ria a filha que espe­ra­va, ele res­pon­dia

«Noeminha».

Marco Santos

­Marco Santos

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