Muitos de vocês esta­rão a pla­ne­ar ver o últi­mo fil­me de Christopher Nolan, «Dunkirk». Como o fil­me nos con­ta um dos epi­só­di­os mais impor­tan­tes da II Guerra Mundial, achei que pode­ri­am estar inte­res­sa­dos em algu­ma infor­ma­ção de con­tex­to.

A eva­cu­a­ção de Dunquerque foi uma das der­ro­tas mais glo­ri­o­sas dos Aliados. O heroís­mo e cora­gem de bri­tâ­ni­cos e fran­ce­ses per­mi­tiu que a Grã-​Bretanha se man­ti­ves­se na guer­ra.

A Grã-​Bretanha fes­te­jou de for­ma tão efu­si­va o suces­so da ope­ra­ção que Winston Churchill foi obri­ga­do a comen­tar com sobri­e­da­de: «As guer­ras não se ganham com eva­cu­a­ções».

E a guer­ra esta­va, de fac­to, a ser ganha pela Alemanha. Quase 400 mil ingle­ses e fran­ce­ses esti­ve­ram à bei­ra da ani­qui­la­ção, enta­la­dos entre os ale­mães e o mar em Dunquerque.

A derrota francesa que ninguém esperava

Tanque alemão cruza o rio Aisne, em França

Tanque ale­mão cru­za o rio Aisne, em França, a 21 de junho de 1940, um dia antes da capi­tu­la­ção da França.

Dunquerque só se tor­nou pos­sí­vel devi­do à catás­tro­fe que foi, para os Aliados, a Batalha de França. Por que razão os fran­ce­ses foram tão facil­men­te der­ro­ta­dos quan­do tinham um exér­ci­to mais nume­ro­so e, excluin­do a Força Aérea, tão bem equi­pa­do como o dos ale­mães?

Os ofi­ci­ais fran­ce­ses eram qua­se todos vete­ra­nos da I Guerra Mundial. Possuíam uma visão exces­si­va­men­te defen­si­va. Era a velha men­ta­li­da­de de trin­chei­ra, à qual a Wehrmacht con­tra­pu­nha com uma nova for­ma de fazer a guer­ra.

Era uma guer­ra de movi­men­to, rápi­da e inci­si­va. Sustentava-​se em gran­des for­ma­ções de tan­ques e nos aviões da Luftwaffe, que devas­ta­vam alvos eco­nó­mi­cos, cida­des e tro­pas antes da che­ga­da da infan­ta­ria.

Esta estra­té­gia ficou conhe­ci­da como blitz­kri­eg, a guerra-​relâmpago. Funcionara na Polónia. Funcionou tam­bém na inva­são simul­tâ­nea de qua­tro paí­ses: Holanda, Bélgica, Luxemburgo e França.

Soldados de artilharia franceses abrem fogo contra as posições alemãs.

Soldados de arti­lha­ria fran­ce­ses abrem fogo con­tra as posi­ções ale­mãs.

A men­ta­li­da­de defen­si­va da França pre­ju­di­cou a sua orga­ni­za­ção mili­tar. Os seus tan­ques não eram tec­ni­ca­men­te infe­ri­o­res aos Panzers ale­mães, mas as tri­pu­la­ções não esta­vam bem trei­na­das.

Os ale­mães usa­vam divi­sões de tan­ques em ata­ques con­cen­tra­dos. Os fran­ce­ses dispersavam-​nos pelas for­ma­ções de infan­ta­ria, pois ain­da os viam como meras uni­da­des de supor­te.

Apenas o então coro­nel Charles De Gaulle defen­dia o uso dos tan­ques de for­ma inde­pen­den­te. Mas só lhe foi dada liber­da­de de ação quan­do a guer­ra esta­va pra­ti­ca­men­te per­di­da.

A Força Aérea Francesa esta­va num esta­do tão deplo­rá­vel que duran­te a cri­se che­cos­lo­va­ca, um ano antes, um rela­tó­rio mili­tar já avi­sa­ra que a Luftwaffe des­trui­ria rapi­da­men­te as esqua­dri­lhas fran­ce­sas.

Como nes­se espa­ço de tem­po pou­co foi fei­to para melho­rar, os fran­ce­ses con­ta­vam com os aviões da RAF (Royal Air Force) quan­do a guer­ra defla­grou.

Muitos ofi­ci­ais ingle­ses opunham-​se a envi­ar caças para França. Não só pre­ci­sa­vam deles para defen­der o pró­prio país como os aeró­dro­mos fran­ce­ses, dizi­am, não tinham pro­te­ção anti-​aérea efi­caz con­tra os ata­ques pre­ven­ti­vos da avi­a­ção ale­mã.

Mesmo assim, aca­ba­ram por envi­ar seis esqua­dri­lhas de caças. E depois mais qua­tro, por insis­tên­cia de Winston Churchill, para for­çar a França a per­ma­ne­cer na luta. Não foram sufi­ci­en­tes.

O avanço esperado e a surpresa fatal

Mulheres belgas despedem-se de filhos e maridos em marcha para a frente de combate, a 11 de maio, um dia depois do início da invasão alemã

Mulheres bel­gas despedem-​se de filhos e mari­dos em mar­cha para a fren­te de com­ba­te, a 11 de maio, um dia depois do iní­cio da inva­são ale­mã.

Os ofi­ci­ais fran­ce­ses — e a mai­o­ria dos ingle­ses — pare­ci­am estar con­ven­ci­dos de que a História se repe­ti­ria. Os ale­mães tinham avan­ça­do atra­vés da Bélgica na I Guerra Mundial. E era pela Bélgica que os Aliados espe­ra­vam que eles ata­cas­sem.

E foi por aí que eles ata­ca­ram, de fac­to, embo­ra não pelas razões que se pen­sa­va. Às qua­tro e meia da manhã de 10 de maio, 136 divi­sões ale­mãs irrom­pe­ram pela Bélgica, Luxemburgo e Holanda.

O Luxemburgo nem che­gou a com­ba­ter, ape­nas fez notar aos inva­so­res que a neu­tra­li­da­de luxem­bur­gue­sa esta­va a ser vio­la­da. Na ver­da­de, o peque­no país pou­co mais podia fazer.

Belgas e holan­de­ses deram mais luta, mas o que lhes sobra­va em bra­vu­ra faltava-​lhes em equi­pa­men­to. As armas eram obso­le­tas. Não con­se­gui­am fazer fren­te aos Panzers e aos temí­veis bom­bar­dei­ros de mer­gu­lho Stukas.

Paraquedistas alemães descendo sobre o Forte Eben Emael, na Bélgica.

Paraquedistas ale­mães des­cen­do sobre o Forte Eben Emael, na Bélgica.

O ata­que dei­xou os fran­ce­ses dupla­men­te ali­vi­a­dos. Primeiro, por­que pro­va­va que as suas supo­si­ções esta­vam cer­tas; segun­do, permitia-​lhes fazer a guer­ra fora do seu pró­prio ter­ri­tó­rio. A memó­ria cole­ti­va fran­ce­sa ain­da não esque­ce­ra a devas­ta­ção cau­sa­da no nor­te da França duran­te a I Guerra Mundial.

As nove divi­sões da Força Expedicionária Inglesa e 29 divi­sões de eli­te do exér­ci­to fran­cês avan­ça­ram para nor­te, rumo à Bélgica.

Já nes­sa altu­ra a desor­ga­ni­za­ção e as falhas de comu­ni­ca­ção entre os Aliados eram tan­tas que as tro­pas foram bar­ra­das por um zelo­so guar­da fron­tei­ri­ço bel­ga: «A mim nin­guém me infor­mou que vocês vinham», pro­tes­tou ele. Acabou por ser deli­ca­da­men­te empur­ra­do para fora do cami­nho.

Os aviões da Luftwaffe dei­xa­ram o con­tin­gen­te ali­a­do mar­char em paz até à Bélgica. Era exa­ta­men­te aqui­lo que os ale­mães que­ri­am que eles fizes­sem.

Fecha-​se a armadilha

Formação de bombardeiros de mergulho Stuka sobrevoando a França.

Formação de bom­bar­dei­ros de mer­gu­lho Stuka sobre­vo­an­do a França.

Enquanto as melho­res tro­pas fran­ce­ses ruma­vam a nor­te, sol­da­dos reser­vis­tas, inex­pe­ri­en­tes e com pou­ca von­ta­de de com­ba­ter, encarregaram-​se da defe­sa do cen­tro da linha fran­ce­sa, jun­to à flo­res­ta das Ardenas. Um erro fatal.

Os fran­ce­ses não con­si­de­ra­vam que a fra­gi­li­da­de das suas defe­sas naque­la área fos­se pro­ble­má­ti­ca. Os gene­rais acha­vam impos­sí­vel que um exér­ci­to dig­no des­se nome con­se­guis­se pas­sar pela den­sa flo­res­ta. Outro erro fatal.

Enquanto os Aliados eram atraí­dos para nor­te, 134 mil sol­da­dos ale­mães, e 1600 veí­cu­los, incluin­do 1222 car­ros de com­ba­te, abri­ram cami­nho pela flo­res­ta das Ardenas. Mais de 1000 aviões da Luftwaffe ata­ca­ram as tro­pas reser­vis­tas, pro­vo­can­do o pâni­co e a deban­da­da geral.

Refugiados belgas abrigam-se durante um ataque aéreo alemão.

Refugiados bel­gas abrigam-​se duran­te um ata­que aéreo ale­mão.

E assim, de um só gol­pe, a Alemanha inva­di­ra o cora­ção da França e encur­ra­la­ra as tro­pas que se tinham des­lo­ca­do para a Bélgica. O dra­ma de Dunquerque come­ça­va a tomar for­ma. As 136 divi­sões que tinham irrom­pi­do pela Bélgica e Holanda der­ro­ta­ram os defen­so­res sem gran­des per­cal­ços.

Quando os ali­a­dos per­ce­be­ram que tinham caí­do numa arma­di­lha, ten­ta­ram dar meia vol­ta. Demasiado tar­de. Não podi­am deslocar-​se com rapi­dez devi­do ao flu­xo de refu­gi­a­dos que já come­ça­vam a fugir dos ale­mães. As estra­das esta­vam sobre­lo­ta­das. A con­fu­são era total. A Luftwaffe, des­ta vez, atacou-​os em for­ça. O cer­co come­ça­va a formar-​se. Era ape­nas uma ques­tão de tem­po.

A França de rastos

Soldados alemães passam por uma cidade francesa destruída pelos bombardeamentos.

Soldados ale­mães pas­sam por uma cida­de fran­ce­sa des­truí­da pelos bom­bar­de­a­men­tos.

A 20 de maio de 1940, dez dias depois do iní­cio do ata­que à França, mui­tos sol­da­dos ale­mães já se pas­se­a­vam pelo país.

«O ros­to da guer­ra é medo­nho» — escre­veu um sol­da­do de infan­ta­ria ale­mão. «Cidades e aldei­as ani­qui­la­das. Lojas saque­a­das por todo o lado. Objetos de valor espe­zi­nha­dos por botas da tro­pa. Gado a vague­ar, aban­do­na­do, cães que andam fur­ti­va­men­te e com ar aba­ti­do ao lon­go das casas.»

«Vivemos como deu­ses em França. Se pre­ci­sa­mos de car­ne, mata­mos uma vaca e só se apro­vei­tam os melho­res cor­tes. O res­to deita-​se fora. Existem em abun­dân­cia espar­gos, laran­jas, alfa­ce, nozes, cacau, café, man­tei­ga, pre­sun­to, cho­co­la­te, espu­man­te, vinho, bebi­das espi­ri­tu­o­sas, cer­ve­ja, taba­co, cha­ru­tos e cigar­ros, assim como ser­vi­ços de lavan­da­ria com­ple­tos.»

«Junto às estra­das, há tan­ques e veí­cu­los fran­ce­ses des­truí­dos e quei­ma­dos em filas inco­men­su­rá­veis» — escre­veu um cabo de arti­lha­ria ale­mão.

«Há aqui mui­tas, mas mui­tas divi­sões que não dis­pa­ra­ram um úni­co tiro» — escre­veu um cabo de infan­ta­ria. — «E, na fren­te, o ini­mi­go está a fugir. Franceses e ingle­ses, adver­sá­ri­os idên­ti­cos na guer­ra mun­di­al, recu­sam enfrentar-​nos ago­ra. Os nos­sos aviões têm o domí­nio dos céus. Não vimos um úni­co avião ini­mi­go, ape­nas os nos­sos.»

O primeiro erro de avaliação de Hitler

Hitler posa em Paris diante da Torre Eiffel, a 23 de junho de 1940

Hitler posa em Paris dian­te da Torre Eiffel, a 23 de junho de 1940, depois da capi­tu­la­ção for­mal fran­ce­sa. À esquer­da, está Albert Speer, o seu arqui­te­to favo­ri­to; à direi­ta, Arno Breker, pro­fes­sor de Artes Visuais em Berlim e o escul­tor pre­fe­ri­do do dita­dor nazi.

Encurralados pelos ale­mães, os sol­da­dos ingle­ses e fran­ce­ses foram for­ça­dos a recu­ar em dire­ção a nor­te, para Dunquerque, per­to da fron­tei­ra bel­ga.

A his­tó­ria da eva­cu­a­ção que o fil­me de Christopher Nolan con­ta come­çou logo a 19 de maio, com a reti­ra­da de feri­dos e tro­pas de reta­guar­da. O esfor­ço prin­ci­pal, aque­le que ficou para a História, come­çou na noi­te de 26 de maio.

Depois de um ape­lo da BBC, o Almirantado con­tac­tou os pro­pri­e­tá­ri­os de peque­nas embar­ca­ções, como iates, lan­chas flu­vi­ais e bar­cos cabi­na­dos.

Ao todo, no decur­so da «Operação Dínamo» — nome de códi­go do res­ga­te em Dunquerque —, foram usa­das seis­cen­tas embar­ca­ções. Eram tri­pu­la­das por «mari­nhei­ros de fim-​de-​semana». Juntaram-​se aos mais de duzen­tos navi­os que a Royal Navy usou para sal­var os sol­da­dos.

Enquanto milha­res de sol­da­dos se amon­to­a­vam nas prai­as à espe­ra de embar­car, Hitler tomou uma deci­são que muda­ria, em par­te, o rumo da História da II Guerra Mundial.

Mandou parar as divi­sões Panzer que se apro­xi­ma­vam do perí­me­tro de Dunquerque.

Dunquerque, um alvo secundário

Milhares de soldados ingleses e franceses à espera das embarcações que os salvarão do cerco alemão.

Milhares de sol­da­dos ingle­ses e fran­ce­ses à espe­ra das embar­ca­ções que os sal­va­rão do cer­co ale­mão.

Há quem diga que a deci­são de Hitler foi um ges­to de boa von­ta­de para com os ingle­ses. A França esta­va à bei­ra da der­ro­ta e o dita­dor ale­mão não esta­va inte­res­sa­do em pro­lon­gar a guer­ra no Ocidente.

A ver­da­de é outra: quan­do não anda­va eufó­ri­co com as vitó­ri­as, Hitler anda­va cheio de ner­vos por ima­gi­nar contra-​ataques.

Achava que a guer­ra esta­va a cor­rer dema­si­a­do bem. Temia um contra-​ataque anglo-​francês vin­do do sul. E embo­ra o colap­so da França tenha sido sur­pre­en­den­te, mui­tos sol­da­dos ali­a­dos com­ba­te­ram com bra­vu­ra e ven­de­ram cara a der­ro­ta.

Quando Hitler man­dou parar os Panzer nas ime­di­a­ções de Dunquerque, cer­ca de um sex­to da for­ça moto­ri­za­da ale­mã já tinha sido pos­ta fora de com­ba­te. As tri­pu­la­ções esta­vam exaus­tas e os veí­cu­los pre­ci­sa­vam de manu­ten­ção e repa­ra­ções.

Hitler tam­bém não tinha noção do núme­ro de sol­da­dos ali­a­dos encur­ra­la­dos. A sua pre­o­cu­pa­ção esta­va a sul. Queria ani­qui­lar o exér­ci­to que ain­da defen­dia a França. Vencer o país em cuja capi­tal se assi­na­ra o «ver­go­nho­so» Tratado de Versalhes era a pri­o­ri­da­de. Aqueles que esta­vam encur­ra­la­dos em Dunquerque eram um alvo secun­dá­rio.

Hitler decidiu-​se em defi­ni­ti­vo pela para­gem quan­do o comandante-​chefe da Luftwaffe, Hermann Göring, o con­ven­ceu de que os aviões ale­mães che­ga­vam para ani­qui­lar as tro­pas encur­ra­la­das.

Göring não teve em con­ta que uma bom­ba a explo­dir em areia não pro­duz a mes­ma devas­ta­ção que em solos mais con­sis­ten­tes. Os bom­bar­de­a­men­tos, afi­nal, não tinha che­ga­do para ani­qui­lar a ope­ra­ção.

E assim deram os nazis uma vali­o­sa con­tri­bui­ção para o suces­so do épi­co sal­va­men­to em Dunquerque.

Winston Churchill, o beligerante implacável

O Primeiro-Ministro inglês inspecionando as tropas em julho de 1940.

O Primeiro-​Ministro inglês ins­pe­ci­o­nan­do as tro­pas em julho de 1940.

A impor­tân­cia do res­ga­te em Dunquerque não foi ape­nas mili­tar, mas polí­ti­ca. Perante a der­ro­ta cer­ta da França e a pro­ba­bi­li­da­de de a Grã-​Bretanha ficar a com­ba­ter sozi­nha a Alemanha, alguns polí­ti­cos defen­di­am a aber­tu­ra de con­ver­sa­ções com Hitler.

Winston Churchill, infle­xí­vel na sua beli­ge­rân­cia, opunha-​se a quais­quer con­tac­tos. Os ingle­ses devi­am com­ba­ter até ao fim.

Se os milha­res de sol­da­dos da Força Expedicionária Inglesa tives­sem sido ani­qui­la­dos ou fei­to pri­si­o­nei­ros, é mui­to pos­sí­vel que os defen­so­res da paz com a Alemanha tives­sem con­se­gui­do iso­lar Churchill. Com o êxi­to da ope­ra­ção, a dis­pu­ta ficou deci­di­da a favor de quem pre­ten­dia con­ti­nu­ar a com­ba­ter.

Heróis do mar, da terra e dos céus

À meia-​noite do dia 2 de junho, os últi­mos três mil sol­da­dos ingle­ses e fran­ce­ses foram eva­cu­a­dos de Dunquerque. Ao todo, tinham sido sal­vos mais de 338 mil homens.

O êxi­to des­ta ope­ra­ção não se deveu ape­nas à cora­gem em ter­ra e mar, mas tam­bém à RAF. Longe da vis­ta dos sol­da­dos nas prai­as, a avi­a­ção ingle­sa tra­vou um com­ba­te épi­co nos céus de Dunquerque. E impe­diu a Luftwaffe de afun­dar um mai­or núme­ro de navi­os de res­ga­te.

Foi um pro­nún­cio do que viria a acon­te­cer entre agos­to e setem­bro de 1940 duran­te a Batalha de Inglaterra, quan­do os aviões da RAF con­se­gui­ram defen­der a Grã-​Bretanha dos bom­bar­de­a­men­tos da Luftwaffe.

Em Dunquerque, tal como nos céus do sul de Inglaterra, a RAF infli­giu mui­tas bai­xas aos ale­mães. Entre 25 de maio e 5 de junho, destruiu-​lhes 394 aviões. Os ingle­ses per­de­ram 114.

Chegada em segurança de soldados da Força Expedicionária Inglesa, resgatados de Dunquerque

Chegada em segu­ran­ça aos por­tos ingle­ses de sol­da­dos da Força Expedicionária Inglesa

Não obs­tan­te o êxi­to do res­ga­te em Dunquerque, a Inglaterra era uma car­ta fora do bara­lho. Hitler pre­via, mais tar­de ou mais cedo, que os ingle­ses qui­ses­sem fazer a paz. Permitir-​lhes-​ia, até, man­ter o impé­rio colo­ni­al, des­de que se man­ti­ves­sem fora da Europa con­ti­nen­tal.

Hitler já esta­va de olho no Leste. O des­ti­no da Alemanha já fora pre­vis­to no seu livro auto­bi­o­grá­fi­co «A Minha Luta». Hitler que­ria con­quis­tar «espa­ço vital» a les­te. Pretendia ani­qui­lar a União Soviética e o bol­che­vis­mo. Resolvido este pro­ble­ma, sem espe­ran­ças de rece­ber auxí­lio dos rus­sos, já dema­si­a­do tar­de para os EUA se envol­ve­rem, a Grã-​Bretanha seria for­ça­da a acei­tar a paz.

Sem chamas nem fumo, só a brisa do mar

Mas foi ao con­trá­rio. O suces­so em Dunquerque man­te­ve os ingle­ses na guer­ra. Os sol­da­dos que regres­sa­vam a casa foram rece­bi­dos como heróis, não como der­ro­ta­dos.

«Quando desem­bar­cá­mos, pen­sei que toda a gen­te nos ia fuzi­lar, espe­ci­al­men­te por­que éra­mos sol­da­dos regu­la­res e tínha­mos fugi­do» — escre­veu o sol­da­do Walter Gilding. — «Mas as pes­so­as ovacionaram-​nos e bateram-​nos pal­mas como se fôs­se­mos heróis. Deram-​nos cane­cas de chá e san­duí­ches. Acho que está­va­mos com um aspe­to mise­rá­vel.»

John Horsfall, outro sol­da­do res­ga­ta­do: «Ali esta­va a Britânia, acolhendo-​nos com uma vari­nha de con­dão e o seu man­to de magia. E ali esta­va tam­bém um bre­ve momen­to de his­tó­ria. Vagamente cons­ci­en­tes dele, ficá­mos mui­to como­vi­dos. Apercebemo-​nos de ime­di­a­to da pos­tu­ra naci­o­nal de desa­fio que der­ru­ba­ra Napoleão e iria des­truir Hitler.»

O sol­da­do Arthur Gwynn-​Browne depois de esca­par ao infer­no de Dunquerque: «Era tão mara­vi­lho­so. Eu esta­va a bor­do de um navio e qual­quer navio, ali, era a Inglaterra. Estava qui­e­to e engo­lia a bri­sa marí­ti­ma, sem fumo, nem incên­di­os, nem fogo, nem as bru­mas espes­sas e cin­zen­tas do petró­leo em cha­mas. Só a bri­sa do mar.»

Fontes

Londres
«Inferno – O Mundo em Guerra: 1939-​1945», de Max Hastings; «A Segunda Guerra Mundial», Martin Gilbert; «A Segunda Guerra Mundial», Antony Beevor; «A Batalha de França», Philp Warner

Marco Santos

­Marco Santos

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