Situada no local onde hoje conhe­ce­mos o Sudão, Núbia sou­be poten­ci­ar os seus recur­sos e dina­mi­zar o seu ter­ri­tó­rio, que se esten­deu pelo gran­di­o­so anti­go Egipto.

Já nos seus últi­mos momen­tos de gló­ria, o Baixo Egipto foi inva­di­do pelos nubi­a­nos, sob a lide­ran­ça de Piye. Como qual­quer deus pater­na­lis­ta e pie­do­so, achou que, melhor do que ten­tar sal­var o impé­rio mori­bun­do com pala­vras, era mes­mo tomá-​lo à for­ça e com a bên­ção de Amón.

O sal­do da cam­pa­nha foi posi­ti­vo – gran­je­ou ter­ras, hon­ras, admi­ra­ção e medo, numa altu­ra em que a retó­ri­ca não tinha a capa­ci­da­de de abar­ca­men­to tão glo­bal como o que se con­se­gue no nos­so mun­do tec­no­ló­gi­co. Brutalidade era poder puro, san­gue era moe­da e o gigan­tis­mo (ou não) de um país não se via em núme­ros num ecrã de uma pra­ça bol­sis­ta qual­quer.

Avancemos uns séculos

No mes­mo séc. XX em que se come­ça­ram a esca­var as mara­vi­lhas arque­o­ló­gi­cas ali esque­ci­das, a men­ta­li­da­de era tal que se che­gou a suge­rir não poder ter sido pos­sí­vel que pes­so­as de pele escu­ra pudes­sem cons­truir tais por­ten­tos de emprei­ta­da.

A História pro­vou o erro, como se sabe. Não só os nubi­a­nos, como tam­bém os egíp­ci­os, tinham a pele de uma tez o bas­tan­te afas­ta­da do copi­nho de lei­te para se poder negar qual­quer teo­ria de supre­ma­cia bran­ca, con­tra argu­men­tos que até Hitler ten­tou usar.

Gebel Barkal, por exemplo, é considerada uma área de valor universal pela UNESCO.

Gebel Barkal, por exem­plo, é con­si­de­ra­da uma área de valor uni­ver­sal pela UNESCO.

Entretanto, a nar­ra­ti­va é cons­ti­tuí­da pela saí­da for­ça­da dos nubi­a­nos, devi­do à cons­tru­ção de uma bar­ra­gem pelas auto­ri­da­des egíp­ci­as, con­fli­tos cul­tu­rais e naci­o­nais e uma civi­li­za­ção divi­di­da geo­grá­fi­ca e reli­gi­o­sa­men­te, mas que dei­xa um lega­do imen­so.

Hoje, aque­la zona é mar­ca­da por pirâ­mi­des esque­ci­das e afas­ta­das de toda e qual­quer civi­li­za­ção, man­ten­do ain­da a aura de mis­té­rio e do sagra­do pela qual se pro­cu­rou carac­te­ri­zar.

Belas, impo­nen­tes e inin­te­li­gí­veis aos olhos actu­ais, como é tudo o que fica para sem­pre, nem que seja só na memó­ria, mes­mo face a fana­tis­mos de toda e qual­quer espé­cie. Os impé­ri­os reciclam-​se; a Terra rea­ge e sobre­vi­ve.

Ana Costa

­Ana Costa

Cientista da informação. Escritora. Futura pobre e campista.