Embora a foto­gra­fia mais conhe­ci­da de Robert Doisneau (1912-​1994) seja Le Baiser de l’Hotel de Ville, Paris, 1950, trans­for­ma­da em ‘pos­ter’ român­ti­co, o que sobres­sai no por­te­fó­lio des­te mag­ní­fi­co fotó­gra­fo fran­cês é o sen­ti­do de humor e o amor incon­di­ci­o­nal por uma cida­de e pelos seus habi­tan­tes.

Robert Doisneau

Robert Doisneau

Morreu a 1 de Abril de 1994, a pou­cos dias de com­ple­tar 82 anos, e deixou-​nos um lega­do pre­ci­o­so, um acer­vo de 145 mil nega­ti­vos, a mai­or par­te dos quais foto­gra­fi­as de Paris e dos pari­si­en­ses.

Apesar do valor docu­men­tal do seu tra­ba­lho, Doisneau nun­ca per­mi­tiu que fizes­sem dele um his­to­ri­a­dor da capi­tal fran­ce­sa.

«Fui uma fal­sa tes­te­mu­nha da minha épo­ca», afir­mou uma vez. «Falsa» por­que acre­di­ta­va que «uma foto só deve­ria ser tira­da quan­do o cora­ção do fotó­gra­fo esti­ves­se reple­to de amor pelos seus seme­lhan­tes».

Doisneau fala­va a sério e fazia o que dizia: em 1932, depois de publi­car a sua pri­mei­ra repor­ta­gem foto­grá­fi­ca, foi con­tra­ta­do pela Renault como fotó­gra­fo indus­tri­al. Um empre­go cer­to e bem remu­ne­ra­do, mas aca­bou por ser demi­ti­do por fal­tar com frequên­cia ao tra­ba­lho, per­di­do em cons­tan­tes deam­bu­la­ções por Paris.

Robert Doisneau

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Robert Doisneau

Robert Doisneau

Doisneau não ama­va car­ros e fábri­cas e linhas de mon­ta­gem, era um artis­ta e ama­va as pes­so­as. Não con­se­guia foto­gra­far sem amar.

Mesmo nas suas foto­gra­fi­as mais humo­rís­ti­cas não exis­te dis­tan­ci­a­ção ou uma mudan­ça de pers­pec­ti­va: Doisneau não goza, brin­ca. Para ele,

o humor é uma for­ma de modés­tia, de não des­cre­ver­mos as coi­sas, de lhe tocar­mos com deli­ca­de­za, como um pis­car de olhos. Humor é, ao mes­mo tem­po, más­ca­ra e dis­cri­ção, um abri­go onde é pos­sí­vel esconder-​se.

Um beijo milionário

Robert Doisneau

É uma daque­las foto­gra­fi­as ico­no­grá­fi­cas: um casal de jovens aman­tes beijando-​se em ple­na rua da român­ti­ca Paris, indi­fe­ren­tes ao que os rodeia. Ou não.

Robert Doisneau tirou-​a em 1950, quan­do anda­va a fazer uma repor­ta­gem para a Life Magazine sobre jovens apai­xo­na­dos em Paris. A foto per­ma­ne­ceu esque­ci­da nos arqui­vos da revis­ta mais de 30 anos, até que uma empre­sa de comer­ci­a­li­za­ção de pos­ters, per­ce­ben­do o poten­ci­al comer­ci­al da ima­gem, adqui­riu os direi­tos de uti­li­za­ção. O suces­so foi estron­do­so.

Le Baiser de l’Hotel de Ville, Paris, 1950 come­çou por ser um sím­bo­lo da Paris român­ti­ca dos mea­dos do sécu­lo XX, mas aca­bou por tornar-​se o sím­bo­lo do pró­prio amor român­ti­co. O mun­do já vene­ra­ra outro bei­jo, o da céle­bre escul­tu­ra de Auguste Rodin, da déca­da de 80 do sécu­lo XIX, mas este bene­fi­ci­ou das mara­vi­lhas da impres­são grá­fi­ca, multiplicou-​se e cru­zou os mares.

Este sím­bo­lo român­ti­co do sécu­lo XX nada teve de espon­tâ­neo. Doisneau repa­ra­ra naque­les dois sen­ta­dos numa espla­na­da e abordara-​os, explicando-​lhes que tipo de repor­ta­gem anda­va a fazer e pedindo-​lhes que posas­sem a dar um bei­jo. Os jovens, que fre­quen­ta­vam uma esco­la de Teatro, con­cor­da­ram.

O pró­prio fotó­gra­fo con­tou a his­tó­ria da foto numa entre­vis­ta dada em 1992, con­fir­man­do a ence­na­ção: «Nunca me teria atre­vi­do a foto­gra­far pes­so­as assim, aman­tes beijando-​se em ple­na rua». Não por ver­go­nha, expli­ca, mas por­que «esses casais rara­men­te são legí­ti­mos».

Doisneau resol­veu falar do assun­to por­que, por essa altu­ra, o suces­so dos pos­te­res anda­va a fazer com que mui­tos «casais» se assu­mis­sem como os pro­ta­go­nis­tas da foto, pro­cu­ran­do ganhar dinhei­ro fácil. O fotó­gra­fo desmascarou-​os a todos nes­sa entre­vis­ta, reve­lan­do, mais de 50 anos depois, a ver­da­dei­ra iden­ti­da­de do casal: Françoise Bornet e Jacques Carteaud. Doisneau tam­bém con­tou que ofe­re­ce­ra o ori­gi­nal da foto à jovem pou­cos dias depois de ter sido publi­ca­da na revis­ta.

Há dois anos, ela deu a cara para anun­ci­ar que O Beijo ia ser colo­ca­do à ven­da. O lei­lão, orga­ni­za­do pela Artcurial Briest-​Poulain-​Le Fur, teve um pre­ço de lici­ta­ção ini­ci­al de 20 mil euros, mas aca­bou por ser ven­di­do por 155 mil.

Nessa oca­sião Françoise encarregou-​se de des­fa­zer ain­da mais a aura român­ti­ca da ima­gem quan­do afir­mou que aque­la «era uma foto que nun­ca devia ter exis­ti­do, tal­vez por isso se qui­ses­se livrar dela, mais do que pelo dinhei­ro» e reve­lan­do que, pou­cos meses depois do bei­jo apai­xo­na­do em Paris, ela e o namo­ra­do já tinham aca­ba­do.

Marco Santos

­ Marco Santos

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