Ao obser­var o foto­jor­na­lis­ta Paulo Nunes dos Santos nes­ta foto tira­da por Pete Muller duran­te uma mani­fes­ta­ção da Irmandade Muçulmana, no Egito, é difí­cil não evo­car as pala­vras de Truman Capote, então um jor­na­lis­ta de 22 anos, quan­do acom­pa­nhou Henri Cartier-​Bresson em 1946 numa repor­ta­gem em New Orleans:

«Dançava na cal­ça­da como uma libé­lu­la inqui­e­ta, três gran­des Leica pen­du­ra­das ao pes­co­ço, a quar­ta cola­da ao olho, tac-​tac-​tac (a máqui­na pare­ce fazer par­te do seu cor­po), dis­pa­ran­do cli­ques com uma inten­sa ale­gria e uma con­cen­tra­ção reli­gi­o­sa de todo o seu ser.»

Não pos­so dizer se Paulo Nunes dos Santos tem dan­ça­do nas cal­ça­das do mun­do como uma libé­lu­la inqui­e­ta, à manei­ra do pai de todos os foto­jor­na­lis­tas, mas a dedi­ca­ção ao ofí­cio e a con­cen­tra­ção reli­gi­o­sa de que fala­va Capote tam­bém são visí­veis no fotó­gra­fo por­tu­guês: tal­vez não haja outra for­ma de se estar nes­ta pro­fis­são.

Paulo Nunes dos Santos

22 de novem­bro de 2011: con­fron­tos entre mani­fes­tan­tes e polí­cia no Cairo

Aos 37 anos, ao ser­vi­ço do sema­ná­rio Expresso ou de publi­ca­ções inter­na­ci­o­nais, já viveu o sufi­ci­en­te para vári­as vidas. Eis alguns exem­plos: acom­pa­nhou o Exército Popular de Libertação do Sudão duran­te a segun­da guer­ra civil no país, a luta pela sobre­vi­vên­cia dos povos Nuba, foto­gra­fou na Birmânia, tes­te­mu­nhou a luta dos rebel­des no Mali, este­ve no Saara Ocidental com os com­ba­ten­tes da Frente Polisário, docu­men­tou a revo­lu­ção egíp­cia, acom­pa­nhou a rebe­lião que der­ru­bou Khadafi na Líbia e as for­ças que ten­tam der­ru­bar Bashar al-​Assad na Síria.

E tam­bém este­ve na Ucrânia, em Kiev, no cen­tro de uma san­gren­ta bata­lha que pro­vo­cou 119 mor­tos entre mani­fes­tan­tes e polí­ci­as, e feriu 136 jor­na­lis­tas.

Paulo Nunes dos Santos

Acompanhando a eva­cu­a­ção de um rebel­de feri­do por um ati­ra­dor fur­ti­vo em Zawiyah, na Líbia

Paulo Nunes dos Santos é como aque­les caça­do­res de tem­pes­ta­des que vemos nos docu­men­tá­ri­os do National Geographic: via­ja de um lado para o outro do mun­do docu­men­tan­do os tro­vões da mul­ti­dão, os relâm­pa­gos nos canos das espin­gar­das, os fura­cões polí­ti­cos, soci­ais, eco­nó­mi­cos ou reli­gi­o­sos que podem virar um país de per­nas para o ar ou devas­tar o cen­tro de uma cida­de mile­ná­ria como Kiev. Ao mes­mo tem­po, ten­ta evi­tar ser apa­nha­do pela tor­men­ta, cami­nhan­do tan­to quan­to pos­sí­vel entre as gotas da chu­va.

Entrevistei-​o por ter ado­ra­do o seu port­fó­lio e por que­rer saber mais sobre a natu­re­za e as cir­cuns­tân­ci­as do seu tra­ba­lho. A natu­ra­li­da­de com que men­ci­o­na epi­só­di­os que reben­ta­ri­am os ner­vos a qual­quer outra pes­soa já diz mui­to da expe­ri­ên­cia que ganhou ao lon­gos dos anos: Paulo Nunes dos Santos recor­da os momen­tos em que este­ve per­to de mor­rer, o que se pas­sa na cabe­ça de um foto­jor­na­lis­ta quan­do está a foto­gra­far situ­a­ções tão extre­mas, como lidar com a vio­lên­cia que o rodeia e de que for­ma pro­cu­ra con­ci­li­ar uma vida de nóma­da com a con­di­ção de pai de famí­lia.

Teria sido uma con­ver­sa mui­to ani­ma­da e reple­ta de dúzi­as de per­gun­tas se tivés­se­mos tido opor­tu­ni­da­de de nos encon­trar­mos pes­so­al­men­te – mas ele vive em Dublin, na Irlanda, pelo que a úni­ca for­ma de con­se­guir a entre­vis­ta era envi­an­do as per­gun­tas por email. Mas valeu a pena, por­que além de foto­gra­far ele tam­bém está à von­ta­de a escre­ver - de res­to, é um caso pou­co habi­tu­al entre foto­jor­na­lis­tas, pois tan­to foto­gra­fa como escre­ve as repor­ta­gens. Um dia, tal­vez, reu­ni­rá todas estas expe­ri­ên­ci­as em livro.

Segue-​se a entre­vis­ta. Todas as fotos - exce­to a que abre o arti­go - são da auto­ria de Paulo Nunes dos Santos.

Paulo Nunes dos Santos

24 de janei­ro: Um Apocalypse Now em Kiev, com os con­fron­tos per­to do está­dio da prin­ci­pal equi­pa da capi­tal.

Como con­se­gue con­ci­li­ar um tra­ba­lho que nor­mal­men­te é fei­to por duas pes­so­as? E sen­do você simul­ta­ne­a­men­te fotó­gra­fo e jor­na­lis­ta, qual é a sua posi­ção peran­te a expres­são ‘uma ima­gem vale mais do que 1000 pala­vras?’

Paulo Nunes dos Santos - Essa é uma per­gun­ta que me é fei­ta mui­tas vezes, prin­ci­pal­men­te por cole­gas e ami­gos fotó­gra­fos.

Levou-​me algum tem­po até con­se­guir con­ci­li­ar em har­mo­nia o tra­ba­lho de escri­ta com a foto­gra­fia. Por vezes con­ti­nua a ser um desa­fio. E em mui­tas oca­siões sou for­ça­do a tomar a deci­são se “hoje” tra­ba­lho na fun­ção de repór­ter ou fotó­gra­fo. Tudo depen­de das cir­cuns­tân­ci­as e da neces­si­da­de, cla­ro está. Por vezes é pos­sí­vel fazer os dois em simul­tâ­neo sem afe­tar a qua­li­da­de do tra­ba­lho. Outras isso não é pos­sí­vel. Nestes últi­mos casos, dis­po a capa de fotó­gra­fo e tra­ba­lho só como repór­ter, ou vice-​versa. Mas há oca­siões onde estou sim­ples­men­te de ser­vi­ço como fotó­gra­fo. Aí as coi­sas tornam-​se um pou­co mais fáceis.

O fac­to de o meu tra­ba­lho como escri­tor ser em 99 por cen­to dos casos um tra­ba­lho de repor­ta­gem dá-​me a pos­si­bi­li­da­de de con­ti­nu­ar a foto­gra­far enquan­to estou no ter­re­no a obser­var a his­tó­ria em que estou a tra­ba­lhar. Se tives­se de escre­ver noti­ci­as diá­ri­as seria mais com­pli­ca­do. Tenho a sor­te de cola­bo­rar, na mai­o­ria das vezes, com uma publi­ca­ção que me pede exclu­si­va­men­te repor­ta­gens. Falo do sema­ná­rio Expresso, com o qual tenho uma rela­ção mui­to boa, e para o qual me dá um pra­zer enor­me escre­ver em exclu­si­vo em Portugal. O Expresso, em par­ti­cu­lar o edi­tor Rui Cardoso, jun­ta­men­te com toda a equi­pa do Internacional, não só me tem aca­ri­nha­do imen­so ao lon­go dos anos, como me tem tam­bém pro­por­ci­o­na­do cres­cer pro­fis­si­o­nal­men­te. Estou-​lhes mui­to gra­tos pela con­fi­an­ça que têm depo­si­ta­do em mim.

Não somos máqui­nas. A teo­ria de que o jor­na­lis­ta não deve nun­ca deixar-​se afe­tar emo­ci­o­nal­men­te pelo sujei­to que está a docu­men­tar é total­men­te des­ca­bi­da.

Quanto à ques­tão da ima­gem valer mais do que mil pala­vras, pen­so ser uma expres­são cli­ché que nem sem­pre cor­res­pon­de à rea­li­da­de. Veja-​se, por exem­plo, a ima­gem do John Stanmeyer, ven­ce­do­ra da edi­ção des­te ano do World Press Photo. É uma foto fan­tás­ti­ca, mas se não esti­ver con­tex­tu­a­li­za­da mui­to difi­cil­men­te será pos­sí­vel inter­pre­tar o seu con­teú­do.

No entan­to, não se pode negar o valor da foto­gra­fia em geral. São docu­men­tos que ficam para a his­tó­ria. Daqui a 10, 20 ou 30 anos pou­cos serão os que se irão lem­brar de qual­quer repor­ta­gem fabu­lo­sa publi­ca­da sobre a guer­ra na Síria. Ou mes­mo algum dos imen­sos víde­os que mos­tra­ram a devas­ta­ção cau­sa­da pelo sis­mo no Haiti ou as chei­as no Paquistão. No entan­to, have­rá sem­pre alguém que se recor­da­rá de fotos que se tor­na­ram íco­nes des­ses mes­mos even­tos.

Momentos decisivos, momentos intensos

Paulo Nunes dos Santos

23 de agos­to de 2011: rebel­des cele­bram a toma­da da for­ti­fi­ca­ção de Bab Al Azizia em Trípoli.

Cobriu a bata­lha de Aleppo na Síria, a mar­cha para Trípoli dos rebel­des na Líbia, os pro­tes­tos na cha­ma­da revo­lu­ção egíp­cia e ago­ra os acon­te­ci­men­tos em Kiev, entre mui­tos outros. Qual des­tes ser­vi­ços sen­tiu como o mais arris­ca­do, e porquê?

P. N. S. - Cobrir a guer­ra na Líbia foi bas­tan­te arris­ca­do. Foi algo de novo que a mai­o­ria dos jor­na­lis­tas nun­ca tinha tido a pos­si­bi­li­da­de de expe­ri­men­tar. Não havia limi­tes. O aces­so à fren­te de com­ba­te era algo que qual­quer um podia ter. Até dada altu­ra do con­fli­to os rebel­des per­mi­ti­am tudo.

Muitos - prin­ci­pal­men­te jor­na­lis­tas em iní­cio de car­rei­ra - fica­ram mal habi­tu­a­dos com a expe­ri­ên­cia na Líbia. Consequentemente, um ano depois come­çou a ocor­rer na Síria o que nun­ca antes acon­te­ce­ra em tão gran­de núme­ro: jor­na­lis­tas mor­tos ou rap­ta­dos, alguns des­tes ami­gos meus, bas­tan­te expe­ri­en­tes na cober­tu­ra de con­fli­to, e por quem eu tenho mui­ta esti­ma.

Certas situ­a­ções não me afe­tam do mes­mo modo que me afe­ta­vam há uns anos. Pensei bas­tan­te nis­so na últi­ma sema­na em Kiev quan­do vi vári­as pes­so­as bale­a­das e cor­pos trans­por­ta­dos pelas ruas.

Pela per­da de cole­gas e ami­gos, difi­cul­da­de de aces­so e des­con­fi­an­ça por par­te das for­ças rebel­des, a Síria tem sido a his­tó­ria mais arris­ca­da que algu­ma vez cobri. Não neces­sa­ri­a­men­te Aleppo, onde pas­sei por mui­tas difi­cul­da­des, tes­te­mu­nhei um nível de vio­lên­cia bru­tal e onde qua­se per­di a vida em vári­as oca­siões.

O momen­to mais difí­cil foi mes­mo quan­do entrei no país pela pri­mei­ra vez em Janeiro de 2012, com aju­da de tra­fi­can­tes de armas nas mon­ta­nhas da Turquia. Foi inten­so a nível físi­co e psi­co­ló­gi­co. Especialmente por­que nes­sa altu­ra tinham sido mui­to pou­cos os jor­na­lis­tas estran­gei­ros a ter aces­so à for­ças rebel­des. Havia mui­ta des­con­fi­an­ça e os rebel­des qua­se não tinham armas. Controlavam ape­nas meia dúzia de vilas na pro­vín­cia de Idlib.

Foi com­pli­ca­do entrar no país. Os dez dias que pas­sei nes­sa zona foram mui­to inten­sos. E a saí­da foi ain­da pior com a poli­cia tur­ca a dis­pa­rar sobre mim e os tra­fi­can­tes duran­te a noi­te enquan­to esta­va pre­so em ara­me far­pa­do no meio de um lama­çal. Foi inten­so!

Quando a frieza é assustadora

, perto da Praça da Independência. | Foto:

24 de janei­ro: Manifestantes ata­cam a polí­cia anti-​motim às por­tas do está­dio do Dínamo de Kiev, per­to da Praça da Independência.

O sui­cí­dio de Kevin Carter pode ser­vir como um «avi­so» aos nova­tos, um exem­plo dos peri­gos de se foto­gra­far dema­si­a­do per­to as misé­ri­as huma­nas? Até que pon­to se dei­xa afe­tar pes­so­al­men­te pelo que foto­gra­fa?

P. N. S. - Obviamente que tes­te­mu­nhar cer­tas atro­ci­da­des e misé­ria huma­na nos afe­ta. Algo esta­ria de mui­to erra­do se assim não fos­se. Não somos maqui­nas. Somos seres huma­nos com emo­ções. Aquela teo­ria de que o jor­na­lis­ta não deve em momen­to algum deixar-​se afe­tar emo­ci­o­nal­men­te pelo sujei­to que está a docu­men­tar é total­men­te des­ca­bi­da. Ser obje­ti­vo, sim; despirmo-​nos por com­ple­to do nos­so lado raci­o­nal e emo­ci­o­nal, não faz sen­ti­do.

Claro está que nem toda a gen­te lida ou rea­ge do mes­mo modo peran­te cená­ri­os menos agra­dá­veis. Mas não tenho dúvi­das de que a câme­ra ser­ve de escu­do ou fil­tro emo­ci­o­nal quan­do nos depa­ra­mos com situ­a­ções que não nos são neces­sa­ri­a­men­te fami­li­a­res ou que não fazem par­te do nos­so dia-​a-​dia.

Noto que cer­tas situ­a­ções não me afe­tam do mes­mo modo que me afe­ta­vam há uns anos. Pensei nis­so bas­tan­te na últi­ma sema­na em Kiev quan­do vi vári­as pes­so­as sen­do bale­a­das à minha fren­te e cor­pos trans­por­ta­dos pelas ruas. A minha pre­o­cu­pa­ção ime­di­a­ta, para além de garan­tir a minha segu­ran­ça, foi mes­mo a de fazer os melhor enqua­dra­men­tos pos­sí­veis.

Estive vári­as vezes debai­xo da mira de ati­ra­do­res fur­ti­vos, com balas a pas­sar a cen­tí­me­tros da minha cabe­ça. Vi mui­ta gen­te a ser mor­ta à minha fren­te.

Só mais tar­de quan­do esta­va a edi­tar é que come­cei a pen­sar que real­men­te toda aque­la vio­lên­cia a que tive expos­to umas horas antes come­ça a ser tão habi­tu­al que já não me afe­ta como me afe­ta­va no iní­cio da minha car­rei­ra. Por um lado, é bom con­se­guir man­ter con­tro­lo da situ­a­ção sob tal cená­rio; por outro, depararmo-​nos com tan­ta fri­e­za da nos­sa par­te que pode ser um pou­co assus­ta­dor.

Quando estou de vol­ta a casa ten­to não pen­sar no que tes­te­mu­nhei quan­do esti­ve em tra­ba­lho. Tenho con­se­gui­do dei­xar para trás essa baga­gem emo­ci­o­nal e faço ques­tão de não dei­xar que me afe­te no dia-​a-​dia quan­do estou em ambi­en­te de famí­lia. Até ago­ra tem fun­ci­o­na­do. Espero que con­ti­nue por mui­tos mais anos. No dia em que sen­tir que me afe­ta dema­si­a­do, tal­vez seja o dia em que dei­xe de me expor a situ­a­ções des­tas.

Penso que Kevin Carter seria uma pes­soa com outros pro­ble­mas, para além de estar afe­ta­do pelos hor­ro­res da guer­ra. Duvido que tenha sido o que tes­te­mu­nhou no Sudão do Sul a levá-​lo ao sui­cí­dio. É fácil cul­par a pro­fis­são pelo suce­di­do, mas acho que essa teo­ria foi lan­ça­da cá para fora por gen­te que mal o conhe­cia.

Paulo Nunes dos Santos

Paulo Nunes dos Santos

26 de janei­ro: cho­ran­do Mikhail Zhiznevsky, mani­fes­tan­te de 25 anos mor­to duran­te os con­fron­tos com a polí­cia em Kiev.

De Robert Capa a Chris Hondros, o foto­jor­na­lis­mo está cheio de exem­plos de gran­des foto­jor­na­lis­tas que per­de­ram a vida a foto­gra­far. Pensou nis­so quan­do este­ve na Síria, na Líbia ou em Kiev?

P. N. S. - Sim, sem duvi­da. Estou sem­pre cons­ci­en­te dos ris­cos que tomo. E pen­so que o fac­to de estar sem­pre cons­ci­en­te des­ses ris­cos me tem ’sal­vo’ de situ­a­ções mais gra­ves. Estive vári­as vezes debai­xo da mira de ati­ra­do­res fur­ti­vos, com balas a pas­sar a cen­tí­me­tros da minha cabe­ça. Vi mui­ta gen­te a ser mor­ta à minha fren­te. Tive um avião de com­ba­te a dis­pa­rar mís­seis direc­ta­men­te con­tra o car­ro em que seguia. Tive tam­bém mor­tei­ros a cair a pou­cos metros do meu abri­go. Atravessei inú­me­ras vezes fron­tei­ras ile­gal­men­te na com­pa­nhia de tra­fi­can­tes de armas e rebel­des. Fui pre­so, inter­ro­ga­do, agre­di­do e acu­sa­do de espi­o­na­gem pelos ser­vi­ços secre­tos no Yemen.

Mas pos­so garan­tir que esta­ria a men­tir se dis­ses­se que nun­ca me pas­sou pela cabe­ça que a minha hora tinha che­ga­do. Não há heróis quan­do se faz um tra­ba­lho des­tes. Muitas vezes passa-​se mui­to medo. Se alguém algu­ma vez dis­ser que não tem medo de estar em situ­a­ções des­tas, das duas uma: está a men­tir ou há algo de mui­to erra­do na cabe­ça des­sa pes­soa.

Pornografia para fotojornalistas

Paulo Nunes dos Santos

24 de janei­ro: pro­tes­tos per­to do está­dio do Dínamo de Kiev.

Fala-​se mui­to no momen­to deci­si­vo na foto­gra­fia. Qual foi o seu «momen­to deci­si­vo» a par­tir do qual deci­diu: ‘pron­to, é isto que eu que­ro fazer na vida, ser foto­jor­na­lis­ta’?

P. N. S. - É difí­cil defi­nir um “momen­to deci­si­vo” que me tenha leva­do a que­rer ser foto­jor­na­lis­ta.

Sempre me lem­bro de ter algum inte­res­se por foto­gra­fia, par­ti­cu­lar­men­te por foto­gra­fia de repor­ta­gem, mas sem nun­ca ter foto­gra­fa­do. Sempre gos­tei imen­so de ver fil­mes e séri­es tele­vi­si­vas sobre jor­na­lis­tas e fotó­gra­fos de guer­ra. Delirei quan­do, ain­da ado­les­cen­te, vi «Salvador» do Oliver Stone, «Under Fire» com o Nick Nolte, e «The Killing Fields», um fil­me base­a­do numa repor­ta­gem escri­ta por Sidney Schanberg para o The New York Times, sobre a reti­ra­da do exér­ci­to norte-​americano do Vietname. Pornografia para foto­jor­na­lis­tas, como eu lhe gos­to de cha­mar.

Mas terá sido duran­te o tem­po de Universidade que o inte­res­se pelo foto­jor­na­lis­mo cres­ceu e se tor­nou em algo mais impor­tan­te na minha vida. Foi aí que come­cei a ver a foto­gra­fia como uma fer­ra­men­ta de tra­ba­lho ide­al para ilus­trar as repor­ta­gens que ia escre­ven­do. Quando deci­di tornar-​me fre­e­lan­cer, ape­nas um ano após ter con­cluí­do o cur­so uni­ver­si­tá­rio, dei­xei o país e come­cei a via­jar pelo mun­do fora, na mai­o­ria das vezes sozi­nho mas sem­pre acom­pa­nha­do por uma câme­ra foto­grá­fi­ca.

Com as via­gens, a pai­xão pela foto­gra­fia cres­ceu ain­da mais e de repen­te vi-​me numa posi­ção em que o meu tra­ba­lho esta­va repar­ti­do entre a escri­ta e a ima­gem. Um com­ple­men­tan­do sem­pre o outro.

Tenho um filho de qua­tro anos e meio de ida­de. É a mai­or pre­ci­o­si­da­de que tenho na vida. Ainda mal sabia falar, pediu-​me um atlas enor­me na pare­de do quar­to, para saber onde eu vou quan­do via­jo.

Quem me conhe­ce des­de cri­an­ça sabe que sem­pre quis via­jar, conhe­cer o mun­do. Cresci numa zona rural em Trás-​os-​Montes, numa altu­ra em que aque­la zona do país ain­da esta­va mui­to iso­la­da. Sou filho de gen­te que veio de África. Apesar de gos­tar mui­to de Trás-​os-​Montes e Portugal, nun­ca me sen­ti em casa. Talvez pelo fac­to de ter rece­bi­do uma edu­ca­ção em casa mui­to dife­ren­te da gen­te lá da ter­ra.

Sempre sou­be que assim que pudes­se iria ver o mun­do, e a pro­fis­são de jornalista/​fotojornalista fre­e­lan­ce foi a pla­ta­for­ma ide­al para per­se­guir esse sonho.

Não foi nem é fácil. Sobreviver nes­ta pro­fis­são é com­pli­ca­do. Principalmente quan­do se tem uma famí­lia e casa para sus­ten­tar. Vivo na Irlanda há cer­ca de 12 anos, onde a vida não é nada bara­ta. Nunca me pas­sou pela cabe­ça que um dia me esta­be­le­ce­ria aqui, mas a minha mulher é de Dublin e isso é razão sufi­ci­en­te para aqui con­ti­nu­ar. Conhecia-​a na Grécia há mui­tos anos e resol­vi vir cá visitá-​la, mas com bilhe­te de vin­da ape­nas. Gostei imen­so da vida por aqui e resol­vi ficar. Agora sin­to que a minha casa é aqui mes­mo.

Paulo Nunes dos Santos

25 de janei­ro: momen­tos de ora­ção em Kiev.

Se um dia, num futu­ro mui­to dis­tan­te, qui­ser con­tar uma his­tó­ria aos seus netos rela­ci­o­na­da com o seu tra­ba­lho como foto­jor­na­lis­ta, que his­tó­ria con­ta­rá?

P. N. S. - Tenho um filho de qua­tro anos e meio de ida­de. É a mai­or pre­ci­o­si­da­de que tenho na vida e alguém com quem par­ti­lho imen­sa cum­pli­ci­da­de. Apesar de ser ain­da mui­to peque­no, está sem­pre inte­res­sa­do em saber onde vou e o que faço. Ainda mal sabia falar, pediu-​me para colo­car um atlas enor­me na pare­de do quar­to, para saber onde eu vou quan­do via­jo. Memoriza sem­pre o nome do país e cida­des onde tra­ba­lho. Fica super orgu­lho­so de ver as minhas foto­gra­fi­as em revis­tas e jor­nais e faz ques­tão de mos­trar a toda a gen­te que vem cá a casa.

Sou mui­to sin­ce­ro com ele e explico-​lhe que por vezes estou em situ­a­ções de peri­go, onde há gen­te má e com armas. Mas as his­to­ri­as que faço ques­tão de lhe con­tar, são his­to­ri­as de ami­za­de e cama­ra­da­gem que se vive ao fazer este tra­ba­lho.

O meu filho conhe­ce de nome mui­tos dos meus cole­gas de pro­fis­são. Alguns falam fre­quen­te­men­te com ele por Skype e têm acom­pa­nha­do o seu cres­ci­men­to. Nomeadamente alguns que esti­ve­ram mui­to pró­xi­mos de per­der a vida jun­ta­men­te comi­go, em vári­as oca­siões. Amigos que são par­te mui­to impor­tan­te da minha vida e que faço ques­tão de que façam tam­bém par­te da vida da minha famí­lia. Quero que ele cres­ça a ouvir his­to­ri­as de boa gen­te e de bons momen­tos que fazem par­te des­ta pro­fis­são. Mas o que não que­ro é que ele cres­ça a ouvir his­tó­ri­as de maus momen­tos tam­bém asso­ci­a­dos a este tra­ba­lho.

Nunca me vi como um indi­ví­duo valen­te ou cheio de cora­gem. Na ver­da­de não gos­to que outras pes­so­as me vejam com esses olhos, sim­ples­men­te por­que não o sou. Os ris­cos e más deci­sões que por vezes tomo, ape­sar de faze­rem par­te do meu tra­ba­lho, não devem ser lou­va­dos ou sequer ser­vir para ali­men­tar fal­sos ide­ais de bra­vu­ra.

Não tenho abso­lu­ta­men­te pro­ble­ma nenhum em falar sobre maus momen­tos que pas­so, as lou­cu­ras em que envol­vo ou as bar­bá­ri­es que tes­te­mu­nho, mas tem de ser fei­to no momen­to e con­tex­to cer­to. Talvez o tal livro que há mui­to aguar­da ser ter­mi­na­do seja o meio cer­to para essas his­tó­ri­as.

Nem sempre a foto se torna preferida por ser tecnicamente melhor

Paulo Nunes dos Santos

Monge budis­ta cami­nhan­do no jar­dim de um mos­tei­ro em Mandalay, na Birmânia.

Quando vemos uma gale­ria de ima­gens de um fotó­gra­fo, esco­lhe­mos uma ou vári­as foto­gra­fi­as pre­fe­ri­das. Existem fotos do seu port­fó­lio tira­das em cir­cuns­tân­ci­as tão espe­ci­ais ou difí­ceis que se tor­na­ram as suas pre­fe­ri­das?

Todos temos as nos­sas foto­gra­fi­as favo­ri­tas. Muitas vezes a liga­ção emo­ci­o­nal à his­tó­ria ou ao sujei­to na ima­gem fazem-​nos pre­fe­rir uma ou outra ima­gem. Mas esco­lher uma em par­ti­cu­lar no meio de tan­tas é com­pli­ca­do. Penso nis­so, mas nun­ca con­se­gui che­gar a nenhu­ma con­clu­são espe­ci­fi­ca. Obviamente que em todos os tra­ba­lhos que se fazem, há sem­pre fotos que se pre­fe­rem. Mesmo no final de um dia de tra­ba­lho, quan­do se está a edi­tar, exis­te sem­pre uma ou duas que se pre­fe­re. Mas após mais de dez anos a foto­gra­far, é com­pli­ca­do esco­lher aque­la foto favo­ri­ta.

Paulo Nunes dos Santos

Georgia, 2008

Tenho vári­as que gos­to mui­to e por vári­as razões. Podem até tec­ni­ca­men­te não ser as melho­res, mas pelas cir­cuns­tân­ci­as ou o momen­to em que foram fei­tas, têm sem­pre lugar no meu port­fó­lio. Lembro-​me, por exem­plo, da foto de uma mulher, num hos­pi­tal par­ci­al­men­te des­truí­do, a cui­dar da mãe feri­da pelos bom­bar­de­a­men­tos das tro­pas rus­sas duran­te a guer­ra na Georgia em 2008. É um momen­to de cal­ma e cari­nho que me deu pra­zer de pre­sen­ci­ar depois de mais de duas sema­nas a foto­gra­far des­trui­ção.

Paulo Nunes dos Santos

Sul da Argélia

Outra que gos­to é a de uma jovem Saharaui numa sala de uma casa fei­ta de lama num cam­po de refu­gi­a­dos no deser­to a sul da Argélia. Passei cer­ca de um mês nes­tes cam­pos e com os com­ba­ten­tes da Frente Polisário. Esta gen­te vive em con­di­ções mui­to pre­cá­ri­as há mais de 30 anos e a comu­ni­da­de inter­na­ci­o­nal ignora-​os total­men­te.

Paulo Nunes dos Santos

Aleppo, Síria

Tenho tam­bém outra de refu­gi­a­dos na Síria, em que uma mãe tem ao colo um bebé que tinha nas­ci­do horas antes enquan­to fugi­am aos com­ba­tes em Aleppo.

Paulo Nunes dos Santos

Afeganistão

Finalmente, uma foto dos recru­tas da poli­cia naci­o­nal do Afeganistão em exer­cí­ci­os em Kabul. Adoro o ‘movi­men­to’ na ima­gem.

O meu equipamento

Paulo Nunes dos Santos«Não gos­to de tra­ba­lhar com len­tes zoom e ando sem­pre com as duas câme­ras com as quais vou alter­nan­do as úni­cas qua­tro len­tes que pos­suo. Devido às con­di­ções em que tra­ba­lho, não vejo jus­ti­fi­ca­ção para inves­tir em len­tes ou câme­ras que cus­tam uma for­tu­na. Muitas vezes par­to mate­ri­al no meio de con­fu­são ou agres­sões. E tam­bém já me acon­te­ceu ser assal­ta­do à mão arma­da.»

Câmeras
2 x Nikon D700
1 x Nikon D200 (fica sem­pre em casa como bac­kup)
1 x Nikon F80 (quan­do foto­gra­fo em fil­me)
1 x Polaroid SX-​70 (ape­nas para cer­tos pro­je­tos)

Lentes
Nikon 24mm F/2.8 D
Nikon 35mm F/​2 D
Nikon 50mm F/1.4 G
Nikon 85mm F/1.8 D

Marco Santos

­ Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?