Henry Cartier-​Bresson – con­si­de­ra­do qua­se una­ni­me­men­te o pai do foto­jor­na­lis­mo moder­no – andou por Portugal em 1955. Fotografou em Lisboa, Cascais, Estoril, Sintra, Óbidos, Nazaré, Coimbra, Porto, Amarante, Lamego, Tomar, Alpalhão, Castelo de Vide, Marvão e Estremoz.

Consta que não gos­tou mui­to. Que nos achou atra­sa­dos e pro­fun­da­men­te cató­li­cos.

Será ver­da­de? Duvido.

Em todas as refe­rên­ci­as na web sobre esta opi­nião nega­ti­va do fotó­gra­fo fran­cês não encon­trei uma só que espe­ci­fi­cas­se quan­do, como, onde e em que cir­cuns­tân­ci­as tais decla­ra­ções tinham sido pro­fe­ri­das. Li vári­as entre­vis­tas de Cartier-​Bresson e nun­ca lhe encon­trei uma refe­rên­cia nega­ti­va aos modos de vida de um povo.

O que encon­trei – e mui­to – foram crí­ti­cas arra­sa­do­ras à soci­e­da­de de con­su­mo, fei­tas sobre­tu­do a par­tir da déca­da de 60, e a recu­sa sis­te­má­ti­ca de tra­ba­lhar para agên­ci­as de Publicidade quan­do pode­ria, pelo pres­tí­gio que con­se­gui­ra, ter ganho for­tu­nas. A par­tir dos anos 70, aban­do­nou qua­se por com­ple­to a foto­gra­fia e dedicou-​se exclu­si­va­men­te à sua pri­mei­ra pai­xão, a pin­tu­ra.

Escolho por isso não acre­di­tar nes­sa visão – não por naci­o­na­lis­mo ou orgu­lho, mas por­que o per­cur­so e as fotos de Cartier-​Bresson a des­men­tem.

Cartier-​Bresson era filho de uma famí­lia de pequenos-​burgueses e esta­va des­ti­na­do a pros­se­guir o negó­cio do pai. Escolheu o cami­nho da foto­gra­fia, des­co­brin­do em Paris e nos fer­vi­lhan­tes anos 20 e 30 da Europa do pós-​guerra a com­pa­nhia de alguns sur­re­a­lis­tas – Max Ernst e Julien Levy, por exem­plo – que have­ri­am de ajudá-​lo a fugir aos pre­con­cei­tos da moral bur­gue­sa e a enca­rar todos os mun­dos e cul­tu­ras como equi­va­len­tes.

Henri Cartier-​Bresson, o fotó­gra­fo, é um homem que cami­nha como a famo­sa escul­tu­ra de Giacometti: se para, mor­re. Por isso, cor­reu mun­do.

Não se colo­cou à par­te, misturou-​se, integrou-​se, mos­trou sem­pre um enor­me res­pei­to pelas pes­so­as que foto­gra­fou.

Não vejo nas suas fotos dos pes­ca­do­res da Nazaré nenhu­ma inten­ção cari­ca­tu­ral. Bresson mostra-​nos um Portugal des­co­nhe­ci­do sobre­tu­do para nós, por­tu­gue­ses do sécu­lo XXI, cap­tan­do vivên­ci­as e cos­tu­mes com cen­te­nas de anos, como se a sua Leica fos­se um antro­pó­lo­go ou his­to­ri­a­dor - na ver­da­de, foi.

Ao incluir no seu péri­plo as zonas de Cascais e Estoril, deixa-​nos mais um tes­te­mu­nho de como, em Portugal, coe­xis­ti­am dois paí­ses anta­gó­ni­cos. Quem pode­rá dizer que estas dis­cre­pân­ci­as estão desa­tu­a­li­za­das?

Acredito que tais dife­ren­ças entre modos e níveis de vida tenham cho­ca­do Bresson, mas não acei­to a ideia de que a pobre­za e o atra­so que tes­te­mu­nhou lhe tenham des­po­le­ta­do des­dém em rela­ção a for­mas de vida soci­al­men­te infe­ri­o­res. Bresson era um huma­nis­ta.

Atualização: o lei­tor Francisco Godinho contactou-​me para acres­cen­tar uma cita­ção que leu numa expo­si­ção sobre o fotó­gra­fo na FNAC.

Segundo Cartier-​Bresson, «Portugal era o país com melhor luz para um fotó­gra­fo, as suas gen­tes das mais ver­da­dei­ras que jamais tinha encon­tra­do». «O úni­co comen­tá­rio des­fa­vo­rá­vel - recor­da o Francisco - «era mes­mo sobre a dis­cre­pân­cia soci­al»

Fotos de Portugal

Henri Cartier-​Bresson, o fotógrafo invisível

Com Cartier-​Bresson, foto­gra­far é um ato livre, espon­tâ­neo e dis­cre­to. Truman Capote, aos 22 anos um jovem jor­na­lis­ta que o acom­pa­nhou em repor­ta­gem, descreveu-​o como um soli­tá­rio que dis­pa­ra­va cli­ques com inten­sa ale­gria e uma con­cen­tra­ção reli­gi­o­sa.

Rua Mouffetard, Paris, 1954

Rua Mouffetard, Paris, 1954

Reunião de trabalhadores em Paris, 1958

Reunião de tra­ba­lha­do­res em Paris, 1958

Não era nada fácil entre­vis­tar o fotó­gra­fo Henri Cartier-​Bresson, mui­to menos fotografá-​lo:

O reco­nhe­ci­men­to é um far­do mui­to pesa­do para se car­re­gar. Não que­ro ser foto­gra­fa­do, iden­ti­fi­ca­do, que­ro ser anó­ni­mo. A cele­bri­da­de é hor­rí­vel. Eu sou liber­tá­rio. Tenho hor­ror ao poder. A noto­ri­e­da­de como fotó­gra­fo é uma for­ma de poder que recu­so.

À jor­na­lis­ta e crí­ti­ca de arte Sheila Leirner que o con­tac­tou em 1996 para uma entre­vis­ta ao jor­nal Estado de São Paulo, o fotó­gra­fo, «bem vivo, um pou­co mal-​humorado e com­ple­ta­men­te imer­so na sua pro­du­ção de dese­nhos», come­çou por dizer logo que não, não havia foto­gra­fia nem entre­vis­ta.

O pai do foto­jor­na­lis­mo, o mes­tre dos mes­tres, o co-​fundador da agên­cia Magnum em 1947, che­ga­ra então à res­pei­tá­vel ida­de de 87 anos. Desde os anos 70 que aban­do­na­ra a foto­gra­fia para se dedi­car à sua gran­de pai­xão artís­ti­ca: a pin­tu­ra.

Sobre a sua arte foto­grá­fi­ca, afir­mou vezes sem con­ta que já tinha dito tudo que tinha para dizer. «Pode fazer uma crí­ti­ca do meu tra­ba­lho, se qui­ser» – dis­se a Sheila Leirner. «Mas não estou inte­res­sa­do no lado ane­dó­ti­co das entre­vis­tas.»

Depois recon­si­de­rou. Lembrou-​se que Leirner era bra­si­lei­ra, não fran­ce­sa, que no Brasil tudo o que tinha para dizer e esta­va dito ain­da não fora escu­ta­do: «Bem, tal­vez este­ja de acor­do, vamos ver…»

Leirner apro­vei­ta a aber­tu­ra do fotó­gra­fo e ten­ta com­bi­nar de ime­di­a­to uma data. Como a entre­vis­ta não pode ser mar­ca­da para a sema­na seguin­te, Cartier-​Bresson suge­re que seja fei­ta no pró­prio dia: «Pronto, vamos encontrar-​nos hoje mes­mo».

Esta súbi­ta vira­gem nos acon­te­ci­men­tos não teria sur­pre­en­di­do a docu­men­ta­lis­ta e fotó­gra­fa Nádia Meucci, para quem Cartier-​Bresson é um artis­ta ina­to. «Pensa e vive como artis­ta, é genuí­no em tudo o que faz e em tudo o que diz, um poe­ta com a câma­ra foto­grá­fi­ca», escre­veu num peque­no ensaio sobre a obra e a vida do fotó­gra­fo.

Joinville-le-Pont, 1938

Joinville-​le-​Pont, 1938

Bougival, França, 1955

Bougival, França, 1955

Consta em todas as bio­gra­fi­as que Cartier-​Bresson nas­ceu a 22 de Agosto de 1908 em Chanteloupe, França, sem gran­des pro­ble­mas de saú­de ou dinhei­ro: os pais per­ten­ci­am a uma clas­se média fran­ce­sa razo­a­vel­men­te abas­ta­da.

É esta a data do seu nas­ci­men­to ofi­ci­al, a que fica regis­ta­da no bilhe­te de iden­ti­da­de, mas pode-​se apon­tar como igual­men­te impor­tan­te uma data não espe­ci­fi­ca­da da sua infân­cia, quan­do lhe é ofe­re­ci­da uma câma­ra foto­grá­fi­ca Box Brownie e pas­sa o tem­po a foto­gra­far. Vitais terão sido tam­bém os anos em que se encon­tra em Paris a estu­dar pin­tu­ra sob a ori­en­ta­ção de Cotenet (1922-​23) e André Lhote (1927-​28).

Outros fac­tos rele­van­tes na sua vida inclu­em o perío­do da Segunda Guerra Mundial, quan­do com­ba­teu a inva­são ale­mã no exér­ci­to fran­cês, foi cap­tu­ra­do em 1940 e aca­bou num cam­po de pri­si­o­nei­ros de guer­ra. Por duas vezes ten­tou fugir e falhou – à ter­cei­ra, con­se­guiu esca­par. Passara três anos em reclu­são e as botas nazis con­ti­nu­a­vam a mar­char pelas estra­das de França.

Não fugiu à guer­ra, à misé­ria e ao hor­ror, fugiu para pros­se­guir o com­ba­te pela liber­da­de. Junta-​se a um gru­po liga­do à Resistência Francesa e só vol­ta a foto­gra­far dois lon­gos anos depois, quan­do a Alemanha capi­tu­la e a guer­ra ter­mi­na na Europa.

Como escre­veu Nádia Meucci, «ele é um apai­xo­na­do pela vida, pela Natureza, pelas pes­so­as, mas prin­ci­pal­men­te pela liber­da­de, liber­da­de de ser, de estar, de pen­sar, de foto­gra­far», em suma, «a liber­da­de é a sua reli­gião.»

Paris, 1932

Paris, 1932

Vendo o mun­do como uma core­o­gra­fia que per­mi­te tan­to ao obje­to da foto­gra­fia como ao pró­prio fotó­gra­fo par­ti­ci­par na dan­ça: é assim Cartier-​Bresson, fotó­gra­fo invi­sí­vel, sem tri­pé ou qual­quer arte­fac­to tec­no­ló­gi­co, pro­cu­ran­do os momen­tos deci­si­vos da vida ape­nas com uma Leica nas mãos e ten­tan­do pas­sar des­per­ce­bi­do. Nunca usa­rá flash: «Considero-​o uma fal­ta de edu­ca­ção».

E assim via­ja pelo mun­do ao ser­vi­ço de revis­tas como a Life ou a Vogue. É o pri­mei­ro fotó­gra­fo da Europa Ocidental a foto­gra­far livre­men­te o quo­ti­di­a­no da União Soviética. É ele quem foto­gra­fa os últi­mos dias de Ghandi e os eunu­cos impe­ri­ais chi­ne­ses depois da Revolução Cultural. A fun­da­ção, em 1947, da Agência de Fotografia Magnum, em con­jun­to com Robert Capa, David ‘Chim’ Seamour e George Rodger, levam-​no a empre­en­der via­gens à Indonésia, Cuba, México, Canadá, Japão.

Truman Capote, então um jor­na­lis­ta de 22 anos, acompanhou-​o em 1946 numa repor­ta­gem em New Orleans e descreveu-​o assim:

Dançava na cal­ça­da como uma libé­lu­la inqui­e­ta, três gran­des Leica pen­du­ra­das ao pes­co­ço, a quar­ta cola­da ao olho, tac-​tac-​tac (a máqui­na pare­ce fazer par­te do seu cor­po), dis­pa­ran­do cli­ques com uma inten­sa ale­gria e uma con­cen­tra­ção reli­gi­o­sa de todo o seu ser. Nervoso e ale­gre, dedi­ca­do ao seu ofí­cio, Cartier-​Bresson é um homem soli­tá­rio no pla­no da arte, uma espé­cie de faná­ti­co.

«Fotografar é colo­car, na mes­ma linha de mira, a cabe­ça, o olho e o cora­ção», afir­ma o fotó­gra­fo. Detesta fotos reto­ca­das e cená­ri­os arti­fi­ci­ais. Suspeita-​se que nun­ca terá acha­do pia­da às foto­gra­fi­as artís­ti­cas, mas for­te­men­te ence­na­das, de alguns dos atu­ais gran­des nomes da foto­gra­fia liga­dos à publi­ci­da­de, mui­to menos às mara­vi­lhas dos com­pu­ta­do­res.

«Se um artis­ta con­cep­tu­al me con­vi­da para jan­tar, ser­vi­rá ape­nas as espi­nhas do pei­xe! Eu pre­fi­ro a car­ne do pei­xe» – brin­ca ele, jovi­al aos 87 anos, na entre­vis­ta dada à jor­na­lis­ta e crí­ti­ca de arte Sheila Leirner. – «O con­cep­tu­a­lis­mo é pura mas­tur­ba­ção men­tal, na qual não entra a sen­si­bi­li­da­de.»

Os últi­mos trin­ta anos da vida dedica-​os exclu­si­va­men­te à pin­tu­ra e ao dese­nho. Fotografia, só retra­tos, e ape­nas para os ami­gos. Nada de novo, pois famo­sos são os retra­tos que cap­tou de artis­tas como Pablo Picasso, Braque, Alberto Giacometti, Pierre Bonnard e Henri Matisse e de escri­to­res como Paul Claudel, Louis Aragon, Paul Valéry, Elsa Triolet, Jean-​Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus e Paul Éluard.

A máqui­na foto­grá­fi­ca é um blo­co de notas, o dese­nho ime­di­a­to, com a sen­si­bi­li­da­de, a sur­pre­sa, o sub­cons­ci­en­te, o gos­to pela for­ma. Eu faço pin­tu­ra, estu­dei pin­tu­ra des­de os 15 anos.

A foto­gra­fia é o pro­ble­ma do tem­po. Tudo desa­pa­re­ce. Com a foto­gra­fia, exis­te uma angús­tia que não há com o dese­nho. O pre­sen­te con­cre­to ocor­re numa frac­ção de segun­dos, o que é desa­gra­dá­vel e, ao mes­mo tem­po, mara­vi­lho­so. É uma luta con­tra o tem­po o qual, por sua vez, é uma inven­ção do homem. A pin­tu­ra e o dese­nho obrigam-​me a pen­sar no aqui e ago­ra e no ama­nhã. Para mim, só há duas coi­sas que con­tam: o ins­tan­te e a eter­ni­da­de.

Finalmente, o princípio

Martin Munkasci

Esta é a ima­gem que des­per­tou em Henri Cartier-​Bresson o dese­jo de se tor­nar fotó­gra­fo. Outro tipo de nas­ci­men­to, tal­vez, e qua­se tão impor­tan­te e sig­ni­fi­ca­ti­vo como a data que cons­ta no BI.

Foi tira­da em 1929 por Martin Munkasci e publi­ca­da na revis­ta Photographies em 1931. Cartier-​Bresson tinha 23 anos quan­do a viu: três miú­dos do Congo cor­ren­do, nus e livres, em direc­ção ao mar. De tal modo o impres­si­o­nou que esta foi a úni­ca foto que algu­ma vez pen­du­rou na pare­de de casa.

Com esta ima­gem apren­deu o que era a foto­gra­fia. Como o pró­prio diz, «duran­te mui­to tem­po andei a foto­gra­far mas não sabia mui­to bem o que anda­va a fazer».

Depois encon­trou o seu foco:

A foto­gra­fia é um reco­nhe­ci­men­to simul­tâ­neo, numa fra­ção de segun­do, do sig­ni­fi­ca­do do acon­te­ci­men­to, bem como da pre­ci­sa orga­ni­za­ção das for­mas que dá ao acon­te­ci­men­to a sua exa­ta expres­são.

Saiu então para as ruas com a sua inse­pa­rá­vel Leica, obce­ca­do em con­se­guir cap­tar o «momen­to deci­si­vo» da repor­ta­gem foto­grá­fi­ca, quan­do se esta­be­le­ce uma comu­ni­ca­ção per­fei­ta entre o mun­do e o obser­va­dor. «A gran­de foto­gra­fia é um pre­sen­te do aca­so e deve­mos tirar pro­vei­to do aca­so», afir­mou.

Marco Santos

­Marco Santos

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