Uma cer­ta noi­te, o fotó­gra­fo litu­a­no Albert Pocej teve um sonho. Não sei se foi um sonho molha­do, mas foi tão mar­can­te que ao levantar-​se da cama deci­diu que o leva­ria à prá­ti­ca. O sonho, ago­ra pro­je­to pro­fis­si­o­nal, era foto­gra­far mulhe­res no exa­to momen­to do orgas­mo.

Querer um orgas­mo é uma coi­sa, tê-​lo é outra. Sobretudo quan­do o dese­jo envol­ve orgas­mos de outras pes­so­as. Pocej esta­va deter­mi­na­do em fazer do orgas­mo femi­ni­no uma «expe­ri­ên­cia foto­grá­fi­ca» e não des­can­sou enquan­to não con­se­guiu.

Albert Pocej

O mai­or pro­ble­ma era encon­trar mulhe­res dis­pos­tas a expor-​se de for­ma tão ínti­ma. A mai­or par­te recu­sou por não ter cora­gem de o fazer dian­te da câma­ra. Quando final­men­te Pocej con­se­guiu jun­tar vin­te mulhe­res dis­pos­tas a par­ti­ci­par na expe­ri­ên­cia, explicou-​lhes que não era uma simu­la­ção.

Pojec que­ria mes­mo um orgas­mo real. O tipo de orgas­mo que levou o poe­ta bra­si­lei­ro Carlos Drummond de Andrade a escre­ver: «Para o sexo a expi­rar eu me vol­to, expi­ran­te, raiz de minha vida, em ti me enre­do e afun­do. Amor, amor, amor — o bra­sei­ro radi­an­te que me dá, pelo orgas­mo, a expli­ca­ção do mun­do».

Cinco das vin­te mulhe­res desis­ti­ram. Seriam capa­zes de repre­sen­tar um orgas­mo para a câma­ra, mas não de o ter real­men­te. Sobraram quin­ze. E foi com estas quin­ze mulhe­res que o pro­je­to foi fei­to.

Muitas não se sen­ti­am con­for­tá­veis com a pre­sen­ça do fotó­gra­fo duran­te a ses­são. Pojec socorreu-​se de uma téc­ni­ca cha­ma­da «time lap­se» e dei­xou a máqui­na foto­grá­fi­ca a «pis­car» de minu­to a minu­to, em modo auto­má­ti­co. Sem a pre­sen­ça dele, foi-​lhes pos­sí­vel rela­xar e meter mãos à obra.

Pojec garan­te que todas as mulhe­res foto­gra­fa­das tive­ram orgas­mos reais — mas Pojec é um homem, que sabe ele de orgas­mos femi­ni­nos? Por razões mera­men­te aca­dé­mi­cas, porém, vou acre­di­tar na seri­e­da­de orgás­mi­ca des­tas mulhe­res e apre­sen­tar à vos­sa con­si­de­ra­ção alguns exem­plos rele­van­tes.

Albert Pocej Albert Pocej Albert Pocej Albert Pocej Albert Pocej Albert Pocej Albert Pocej Albert Pocej Albert Pocej Albert Pocej Albert Pocej Albert Pocej

É fácil brin­car ou acu­sar o fotó­gra­fo de ser um per­ver­ti­do, mas o sim­bo­lis­mo des­tes ros­tos é dema­si­a­do pode­ro­so para se dei­xar esca­par. Eis um boca­di­nho de his­tó­ria para vos situ­ar.

Orgasmo feminino era histeria

O orgas­mo femi­ni­no era con­si­de­ra­do uma mani­fes­ta­ção his­té­ri­ca, não uma mani­fes­ta­ção de pra­zer. De doen­ça, não de pri­vi­lé­gio bio­ló­gi­co. De cas­ti­go, não de recom­pen­sa. Tal era a men­ta­li­da­de retró­gra­da dos tem­pos anti­gos. E se era vis­to como uma doen­ça, era pre­ci­so tratá-​la.

O pri­mei­ro vibra­dor ele­tro­me­câ­ni­co com uma for­ma fáli­ca foi inven­ta­do em 1880 pelo dou­tor Joseph Mortimer Granville.

O pobre Doutor Granville anda­va can­sa­do de mas­tur­bar manu­al­men­te as suas paci­en­tes e cri­ou o apa­re­lho para o ali­vi­ar des­ses dolo­ro­sos deve­res médi­cos. No sécu­lo XIX a mas­sa­gem no cli­tó­ris era con­si­de­ra­da o tra­ta­men­to mais ade­qua­do con­tra a his­te­ria. Hoje tam­bém é vis­to como um tra­ta­men­to ade­qua­do para mui­tas coi­sas, embo­ra a his­te­ria já não faça par­te da lis­ta.

Como con­sequên­cia dis­to, cen­te­nas de mulhe­res dirigiam-​se ao médi­co para que a zona fos­se mas­sa­ja­da e o «paro­xis­mo his­té­ri­co», como então se desig­na­va o orgas­mo, fos­se final­men­te atin­gi­do.

Lesões Por Esforço Repetitivo

Tal era a frequên­cia des­tes tra­ta­men­tos que os médi­cos come­ça­ram a sofrer as cha­ma­das Lesões Por Esforço Repetitivo. Talvez um dia a his­tó­ria da medi­ci­na venha a colo­car o vibra­dor na tri­bu­na de hon­ra dos ins­tru­men­tos que faci­li­ta­ram a vida aos médi­cos, mes­mo ao lado do este­tos­có­pio.

Esta «his­te­ria» já era conhe­ci­da há mui­to tem­po. Os gre­gos chamavam-​lhe a doen­ça do úte­ro arden­te e era vis­ta como um mal tão incon­ve­ni­en­te como uma pra­ga de gafa­nho­tos. Qualquer com­por­ta­men­to femi­ni­no con­si­de­ra­do estra­nho pela soci­e­da­de patri­ar­ca — ansi­e­da­des, irri­ta­bi­li­da­des, fan­ta­si­as sexu­ais — era con­si­de­ra­do um sin­to­ma de his­te­ris­mo e a úni­ca solu­ção médi­ca conhe­ci­da a mas­sa­gem rela­xan­te.

Os homens podi­am ter os orgas­mos que dese­jas­sem, pois obvi­a­men­te o pra­zer só tira­va o juí­zo às mulhe­res.

E é por isso que não faz mui­to sen­ti­do fazer uma série des­tas com homens. Para nós, é ape­nas uma punhe­ta; para elas, é uma con­quis­ta soci­al. Além das care­tas pou­co dig­ni­fi­can­tes que faría­mos no lugar delas, falta-​nos expe­ri­ên­cia de vida para lhe per­ce­ber­mos total­men­te o sig­ni­fi­ca­do.

E assim temos quin­ze mulhe­res e um fotó­gra­fo a ini­ci­a­rem, uma vez mais (a ideia não é ori­gi­nal), a meta­mor­fo­se liber­ta­do­ra. O his­te­ris­mo arcai­co do sécu­lo XIX é trans­for­ma­do num orgas­mo liber­ta­dor do sécu­lo XXI. Os cli­tó­ris, uni­dos, jamais serão ven­ci­dos. Bravo!

Marco Santos

­ Marco Santos

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