O exo­pla­ne­ta «poten­ci­al­men­te habi­tá­vel» mais pró­xi­mo que conhe­cía­mos era Gliese 667Cc, a 22 anos-​luz. Agora des­co­bri­mos um ain­da mais per­to: Wolf 1061c, a 13.8 anos-​luz.

13.8 anos-​luz é uma dis­tân­cia impos­sí­vel para a nos­sa civi­li­za­ção, sobre­tu­do se tiver­mos em con­ta que a dis­tân­cia média de Marte ao Sol é de 228 milhões de qui­ló­me­tros, ou seja, 0.0000241 anos-​luz — em ter­mos cós­mi­cos, porém, daqui até Wolf 1061c é um puli­nho.

Wolf 1061c orbi­ta uma anã ver­me­lha — Wolf 1061 — em uma região do Espaço onde os níveis de radi­a­ção emi­ti­da pela estre­la per­mi­tem a exis­tên­cia de água líqui­da à super­fí­cie. Esta região teo­ri­ca­men­te mais ame­na é conhe­ci­da como «Zona de Goldilocks» ou zona habi­tá­vel.

Não metas o nariz onde não és chamado

A desig­na­ção «Goldilocks» é reti­ra­da de uma fábu­la anti­ga dos prin­cí­pi­os do sécu­lo XVII, «Goldilocks and the Three Bears» — em por­tu­guês, «Cachinhos Dourados e os três ursos». Embora exis­tam vári­as ver­sões, a mais conhe­ci­da conta-​nos a his­tó­ria de uma meni­na mui­to curi­o­sa que duran­te um pas­seio num bos­que encon­trou uma casa vazia.

A meni­na entrou e sentiu-​se logo recon­for­ta­da pelo calor da larei­ra. Cheia de fome, repa­rou na mesa com três tige­las de papa ser­vi­das. Uma tige­la era gran­de, a outra de tama­nho médio e a ter­cei­ra peque­na. Começou pela tige­la mai­or, mas a papa queimou-​lhe os lábi­os. Experimentou a tige­la média, mas esta deixou-​a enre­ge­la­da.

Só a mais peque­na era ide­al. Estava uma delí­cia — nem dema­si­a­do quen­te nem dema­si­a­do fria, como a região do Espaço onde nave­ga o exo­pla­ne­ta Wolf 1061c.

Representação teatral do conto «Goldilocks and the Three Bears»

Representação tea­tral do con­to «Goldilocks and the Three Bears»

A meni­na expe­ri­men­tou depois três cadei­ras: as duas mai­o­res eram des­con­for­tá­veis e dema­si­a­do gran­des para ela e a ter­cei­ra, mais peque­na, partiu-​se quan­do se sen­tou. Esgotada pelo pas­seio e de bar­ri­gui­nha cheia, a meni­na entrou no quar­to e des­co­briu três camas: as duas mai­o­res eram duras e des­con­for­tá­veis, mas a ter­cei­ra, a mais peque­na, era per­fei­ta — deitou-​se e ador­me­ceu.

Só acor­dou quan­do os três ursos que habi­ta­vam a casa — o pai, a mãe e o filho — a des­co­bri­ram dei­ta­da na cama e fica­ram mui­to zan­ga­dos com a inva­são. A meni­na sal­tou da cama e fugiu, pro­me­ten­do nun­ca mais entrar na casa dos outros sem ser con­vi­da­da.

O res­to do con­to só fará sen­ti­do nes­te con­tex­to cós­mi­co se um dia, em um futu­ro mui­to, mui­to dis­tan­te, as nos­sas naves inte­res­te­la­res che­ga­rem ao sis­te­ma Wolf 1061 e impu­se­rem a pre­sen­ça huma­na a uma qual­quer hipo­té­ti­ca civi­li­za­ção extra­ter­res­tre que exis­tir no pla­ne­ta c — até lá, obser­va­mos as tige­las de papa do lado de fora da casa, sem hipó­te­ses de lá entrar.

Um sistema muito próximo de nós

A casa des­ta his­tó­ria tem a sua larei­ra — uma estre­la anã ver­me­lha de clas­se M, do mais comum no Universo — e, tal como a fábu­la, uma casa com três habi­tan­tes: os três exo­pla­ne­tas que a orbi­tam. Um é dema­si­a­do frio (Wolf 1061d), outro dema­si­a­do quen­te (Wolf 1061b) e o ter­cei­ro, Wolf 1061c, a tal «delí­cia» onde a vida se pode desen­vol­ver.

O sistema Wolf 1061

O sis­te­ma Wolf 1061: a anã ver­me­lha ao cen­tro; o pla­ne­ta b, o mais quen­te, na zona ver­me­lha; o c na região ver­de, a «zona habi­tá­vel»; e o pla­ne­ta d, o mais frio e dis­tan­te, na zona azul.

Wolf 1061c é uma Super-​Terra — um São-​Bernardo dos pla­ne­tas rocho­sos, com uma mas­sa 4.3 vezes supe­ri­or à do hos­pi­ta­lei­ro e baru­lhen­to chihu­ahua onde vive­mos. Um ano em Wolf 1061c equi­va­le a 17.9 dias ter­res­tres, o tem­po que o pla­ne­ta demo­ra a dar uma vol­ta com­ple­ta a Wolf 1061. Está mui­to mais per­to da sua estre­la do que a Terra do Sol, mas uma anã ver­me­lha é mui­to mais fria.

Wolf 1061b, outra Super-​Terra mas mais peque­na, com uma mas­sa 1.36 vezes supe­ri­or à nos­sa, tem um perío­do orbi­tal de 4.8 dias e está dema­si­a­do pró­xi­mo da estre­la: o calor fer­ve­ria o nos­so oce­a­no em segun­dos.

O mais dis­tan­te e mai­or dos três é Wolf 1061d, uma Super-​Terra com uma mas­sa 5.21 vezes supe­ri­or à do nos­so pla­ne­ta. Demora 67.2 dias a dar uma vol­ta com­ple­ta à estre­la e uma tem­pe­ra­tu­ra capaz de con­ge­lar oce­a­nos intei­ros.

O sis­te­ma está tão pró­xi­mo de nós que a vida dos inves­ti­ga­do­res da University of New South Wales, na Austrália, será faci­li­ta­da: quan­do pas­sa­rem dian­te da estre­la, vai ser pos­sí­vel estudar-​lhes as atmos­fe­ras e deter­mi­nar se «a vida tal como a conhe­ce­mos» é ali pos­sí­vel, pelo menos em rela­ção ao úni­co can­di­da­to pro­vá­vel, o super-​planeta rocho­so Wolf 1061c.

Claro que a per­ce­ção de «vida tal como a conhe­ce­mos» está limi­ta­da pela nos­sa expe­ri­ên­cia — e a úni­ca que temos é a do nos­so pla­ne­ta. Temos ten­dên­cia para ima­gi­nar a vida base­a­da uni­ca­men­te no car­bo­no e água líqui­da como uma neces­si­da­de impe­ri­o­sa.

Na ver­da­de, não faze­mos ideia, embo­ra a Química nos tenha ensi­na­do que o car­bo­no é o mais abun­dan­te e fle­xí­vel ele­men­to na Natureza. A exis­tên­cia de água e molé­cu­las com­ple­xas de car­bo­no, con­tu­do, não impli­ca for­ço­sa­men­te a exis­tên­cia de vida, tal como a sua ine­xis­tên­cia não deter­mi­na que a vida está ausen­te. Descobrir vida extra­ter­res­tre é como um lon­go e árduo pas­seio no bos­que, sem a garan­tia de encon­trar­mos, como a meni­na da fábu­la, uma casa habi­ta­da.

Marco Santos

­Marco Santos

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