Wolf 1061c — já ouvis­te falar? Um resu­mo: é uma Super-​Terra poten­ci­al­men­te habi­tá­vel que se encon­tra a uns meros 13.8 anos-​luz, o rocho­so gigan­te com poten­ci­a­li­da­de para sus­ten­tar vida mais per­to de nós que des­co­bri­mos até hoje.

Cientistas do Planetary Habitability Laboratory ana­li­sa­ram os dados dis­po­ní­veis sobre o exo­pla­ne­ta e ten­ta­ram ima­gi­nar como seria viver ali. A con­clu­são foi óbvia: seria mui­to, mui­to estra­nho.

Wolf 1061c orbi­ta uma anã ver­me­lha — Wolf 1061 — em uma região do Espaço onde os níveis de radi­a­ção emi­ti­da pela estre­la per­mi­tem, em teo­ria, a exis­tên­cia de água líqui­da à super­fí­cie. Esta região mais ame­na é conhe­ci­da como «Zona de Goldilocks» ou zona habi­tá­vel. Um auto-​link rele­van­te.

O sistema Wolf 1061

O sis­te­ma Wolf 1061: a anã ver­me­lha ao cen­tro; o pla­ne­ta b, o mais quen­te, na zona ver­me­lha; o c na região ver­de, a «zona habi­tá­vel»; e o pla­ne­ta d, o mais frio e dis­tan­te, na zona azul.

Para efei­tos do post, vamos par­tir do prin­cí­pio que peque­nos deta­lhes como, por exem­plo, uma atmos­fe­ra ami­gá­vel para res­pi­ra­res à von­ta­de são abso­lu­ta­men­te irre­le­van­tes para o teu bem-​estar.

Imagina tam­bém que pedes empres­ta­do o tele­por­ta­dor do Star Trek para visi­tar o pla­ne­ta e beber um copo na espla­na­da de Douglas Adams. Antes de apa­nha­res o tele­trans­por­te para o sis­te­ma Wolf 1061 e a Super-​Terra da nos­sa esco­lha, con­vém ter uma ideia do que vais encon­trar.

O sol quando nasce é para todos

A anã ver­me­lha Wolf 1061 é qua­tro vezes mais peque­na que o nos­so Sol, mais fria e mui­to menos lumi­no­sa. Assim que che­ga­res — se não fores tími­do e tive­res jei­to para soci­a­li­zar com ali­e­ní­ge­nas —, soli­ci­ta­rás à gerên­cia para ligar as luzes por­que não se con­se­gue ver nada naque­la sinis­tra penum­bra aver­me­lha­da que tudo envol­ve mas ali, naque­le mun­do estra­nho, pas­sa por tar­de soa­lhei­ra.

A fra­ca visi­bi­li­da­de é um dos pro­ble­mas de se viver sob os rai­os difu­sos de um sol aver­me­lha­do, mas se fores à espla­na­da do lado notur­no do pla­ne­ta é mui­to pior: não só levas com uma escu­ri­dão per­pé­tua como está um frio de rachar extre­mó­fi­los.

Wolf 1061c está tão per­to do sol que as for­ças de maré da estre­la tra­va­ram o movi­men­to de rota­ção do pla­ne­ta, trancando-​o com uma fecha­du­ra gra­vi­ta­ci­o­nal impos­sí­vel de esca­par.

É um pla­ne­ta com pro­ble­mas bipo­la­res. Num lado é sem­pre de noi­te, no outro é sem­pre de dia; num faz sem­pre frio, no outro faz sem­pre calor. As desi­gual­da­des soci­ais na Terra come­ça­ram por mui­to menos, pelo que um astro­nau­ta revo­lu­ci­o­ná­rio de esquer­da não teria mãos a medir no com­ba­te à vida pri­vi­le­gi­a­da dos exo­bur­gue­ses do lado diur­no.

Fernando Botero

Piquenique nas mon­ta­nhas, 1966, Fernando Botero

Se Wolf 1061c não tiver um oce­a­no decen­te para dis­tri­buir o calor pelo pla­ne­ta ou uma atmos­fe­ra den­sa como a nos­sa para fun­ci­o­nar como cober­tor duran­te as noi­tes, «a vida tal como a conhe­ce­mos» é pou­co pro­vá­vel.

O pla­ne­ta Wolf 1061c é um gigan­te qua­tro vezes mais mas­si­vo que a Terra e cer­ca de 60 por cen­to mai­or. Isto sig­ni­fi­ca que a área de super­fí­cie de Wolf 1061c equi­va­le a duas Terras e meia. Não dei­xa de ser um peque­no pon­to no Cosmos, como diria o sau­do­so Carl Sagan, mas do nos­so pon­to de vis­ta é um pon­to de excla­ma­ção.

Tanto tama­nho e mas­sa tem con­sequên­ci­as que sen­ti­rás ime­di­a­ta­men­te assim que lá che­ga­res: fica­ri­as 70 por cen­to mais pesa­do em Wolf 1061c. Se tive­res 68 qui­los — para­béns, já ago­ra — sentir-​te-​ias ali como se pesas­ses mais de 110. Os ter­res­tres pas­sa­ri­am por momen­tos de dolo­ro­sa adap­ta­ção duran­te os quais jul­ga­ri­am ter fica­do apri­si­o­na­dos num qua­dro de Fernando Botero.

É uma estrela vermelha - mas não é de raiva, vá lá

Nem tudo é mau: mes­mo se esta Super-​Terra fos­se um São-​Bernardo pachor­ren­to e pací­fi­co, a estre­la que orbi­ta podia revelar-​se como a mai­o­ria das anãs ver­me­lhas, mais iras­cí­vel que um chihu­ahua.

Felizmente a Wolf 1061 é uma estre­la está­vel, não se veri­fi­can­do as titâ­ni­cas e letais erup­ções sola­res de outras estre­las do mes­mo tipo. Estas dei­tam fre­quen­te­men­te cá para fora as suas entra­nhas ele­tro­mag­né­ti­cas, des­pe­jan­do tudo sobre os pla­ne­tas, de ondas rádio a rai­os X. A ati­vi­da­de mag­né­ti­ca que impul­si­o­na estas erup­ções é tão for­te que o apa­re­ci­men­to de uma man­cha solar che­ga para dimi­nuir a lumi­no­si­da­de des­tas estre­las em 40 por cen­to.

É pre­fe­rí­vel evi­tar cená­ri­os catas­tro­fis­tas e deixar-​te sos­se­ga­di­nho na espla­na­da a gozar a vis­ta do esplên­di­do, som­brio e hipo­té­ti­co oce­a­no que cobre vas­tas super­fí­ci­es do pla­ne­ta. De qual­quer modo, tens mais com que te pre­o­cu­par: mes­mo quan­do se encon­tra mais lon­ge da estre­la hos­pe­dei­ra, a dis­tân­cia de Wolf 1061c à anã ver­me­lha é um déci­mo da que exis­te entre a Terra e o Sol. Se pegás­se­mos no pla­ne­ta e o colo­cás­se­mos no nos­so Sistema Solar, fica­ria mais per­to do Sol do que Mercúrio — e seria glo­ri­o­sa­men­te estor­ri­ca­do.

Planeta «Globo Ocular»

Planeta «Globo Ocular»

Não te levan­tes ain­da — um sol encar­na­do pode ser impres­si­o­nan­te mas é ape­nas um sol anão, mui­to mais frio do que o nos­so. Deve ser uma sen­sa­ção estra­nha, real­men­te, viver sob um céu aver­me­lha­do e não sen­tir na cara os bafos do infer­no. Na pior das hipó­te­ses, é um mun­do bizar­ro onde a vida é impro­vá­vel, com um deser­to seco e esté­ril no lado per­pe­tu­a­men­te vira­do para a estre­la e um deser­to gela­do e esté­ril no lado que lhe virou as cos­tas para sem­pre.

Com sor­te, exis­ti­rá uma fai­xa de penum­bra com tem­pe­ra­tu­ras mode­ra­das cir­cun­dan­do esses cen­tros desér­ti­cos onde a vida — tal­vez não como a conhe­ce­mos, mas viva como nós — pode­rá flo­res­cer. É esta a feza­da dos cien­tis­tas.

Como às vezes acon­te­ce quan­do se ten­ta estu­dar um obje­to a mais de 13 anos-​luz de dis­tân­cia, há vári­os tipos de feza­das. Os astro­bió­lo­gos cha­mam a mun­dos como este — gra­vi­ta­ci­o­nal­men­te tra­va­dos pela estrela-​mãe — «pla­ne­tas glo­bos ocu­la­res», com o lado notur­no cober­to de gelo e o diur­no por um gigan­tes­co deser­to, com uma estrei­ta fai­xa tem­pe­ra­da e com água em esta­do líqui­do a ser­vir de fron­tei­ra entre os dois ambi­en­tes.

Cientistas pla­ne­tá­ri­os da Universidade de Pequim — Yongyun Hu e Jun Yang — acham que pode­rá mes­mo exis­tir um oce­a­no e este, vis­to do espa­ço, não será regu­lar mas lem­bra­rá uma lagos­ta. Sim, eu avi­sei — é uma noia, este mun­do.

Yongyun Hu e Jun Yang con­si­de­ram que inves­ti­ga­ções ante­ri­o­res não tive­ram em con­ta a for­ma como o calor pode­ria cir­cu­lar no oce­a­no de um mun­do assim.

Ao com­bi­nar fato­res nos mode­los com­pu­ta­ci­o­nais como cir­cu­la­ção atmos­fé­ri­ca, cir­cu­la­ção oceâ­ni­ca e influên­cia recí­pro­ca, con­cluí­ram que esse tipo de mun­dos não se pare­ce em nada com um glo­bo ocu­lar e que o hipo­té­ti­co oce­a­no no seu lado diur­no lem­bra uma lagos­ta, com duas «gar­ras» de cada lado do equa­dor e uma «lon­ga cau­da» ao lon­go des­te.

Os dois cien­tis­tas são oti­mis­tas ao con­si­de­rar que num pla­ne­ta com carac­te­rís­ti­cas assim bas­ta que a estre­la tenha bri­lho sufi­ci­en­te e exis­tam níveis sufi­ci­en­tes de dió­xi­do de car­bo­no a estu­far o pla­ne­ta para que as cor­ren­tes quen­tes des­te oce­a­no pos­sam até fazer desa­pa­re­cer o gelo na zona notur­na.

Já são copos a mais

Se a ideia é pas­sar uma tem­po­ra­da em Wolf 1061c vais repa­rar em fenó­me­nos invul­ga­res: esta­ções que apa­re­cem e desa­pa­re­cem com a brus­qui­dão com que os dan­ça­ri­nos mexem os pes­co­ços num tan­go.

Barack Obama

Obama acha mui­to bem, embo­ra não tenha per­ce­bi­do nada.

A órbi­ta mui­to elíp­ti­ca do pla­ne­ta impli­ca uma apro­xi­ma­ção e afas­ta­men­to mais sig­ni­fi­ca­ti­vos do sol. Não é um pla­ne­ta ioiô, mas anda lá per­to. Para teres uma ideia, a dis­tân­cia da Terra ao Sol entre o seu perié­lio (o pon­to na órbi­ta em que se encon­tra mais per­to do Sol) e afé­lio (quan­do está mais lon­ge) varia cer­ca de três por cen­to.

Em Wolf 1061c, a vari­a­ção é de 30 por cen­to — é como se o pró­prio São Pedro tives­se bebi­do um boca­di­nho de mais e se dei­tas­se na cama obser­van­do a rota­ção do teto e inde­ci­so entre levantar-​se para vomi­tar ou fazer xixi.

Isto sig­ni­fi­ca que vais pas­sar por mudan­ças sazo­nais brus­cas: dois verões, dois outo­nos, dois inver­nos e duas pri­ma­ve­ras no espa­ço de um mês. Uma atmos­fe­ra den­sa podia mode­rar estas vari­a­ções, mas mes­mo assim um hipo­té­ti­co habi­tan­te teria de se habi­tu­ar a vari­a­ções cli­má­ti­cas com­ple­ta­men­te malu­cas: tem­pes­ta­des de neve numa sema­na, calor de praia nou­tra, chu­vas tor­ren­ci­ais e relâm­pa­gos pou­cos dias depois.

O melhor dis­to tudo é estar tão per­to da Terra. Em bre­ve já não pre­ci­sa­re­mos da espla­na­da de Douglas Adams para espe­cu­lar­mos sobre as ver­da­dei­ras con­di­ções em Wolf 1061c, pois tere­mos ana­li­sa­do a sua atmos­fe­ra e come­ça­do a reve­lar os seus pre­ci­o­sos segre­dos — vida, tal­vez? Boa sor­te, e boa via­gem!

Marco Santos

­Marco Santos

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