Há 20 anos, o núme­ro de 6 de Outubro da revis­ta Nature anun­ci­a­va a des­co­ber­ta do pri­mei­ro pla­ne­ta orbi­tan­do uma estre­la seme­lhan­te ao Sol.

Os auto­res da des­co­ber­ta, Michel Mayor e Didier Queloz, do Observatório de Genebra, detec­ta­ram o pla­ne­ta medin­do cui­da­do­sa­men­te o seu efei­to gra­vi­ta­ci­o­nal na estre­la hos­pe­dei­ra, a estre­la 51 do Pégaso, com um espec­tró­gra­fo mui­to pre­ci­so, o ELODIE.

Didier Queloz (à esquerda) e Michel Mayor (direita) descobriram o primeiro exoplaneta em 1995.

Didier Queloz (à esquer­da) e Michel Mayor (direi­ta) des­co­bri­ram o pri­mei­ro exo­pla­ne­ta em 1995.

O 51 Peg b, como foi desig­na­do, não era nada do que se espe­ra­va. Era um gigan­te de gás seme­lhan­te a Júpiter orbi­tan­do a estre­la em ape­nas 4.23 dias!

Menos de uma sema­na depois, Geoffrey Marcy e Paul Butler — de uma outra equi­pa nos Estados Unidos — con­fir­ma­ram a des­co­ber­ta com a dete­ção do sinal nos seus pró­pri­os dados.

Para além de ter sido o pri­mei­ro exo­pla­ne­ta des­co­ber­to, foi tam­bém o pri­mei­ro de uma clas­se desig­na­da por «Júpiteres Quentes» .

«Júpiteres Quentes» são  gigan­tes de gás seme­lhan­tes a Júpiter ou Saturno, mas que orbi­tam as estre­las hos­pe­dei­ras em órbi­tas de ape­nas alguns dias.

Uma estrela chamada Helvetios

A 24 de Novembro des­te ano, o «Grupo de Trabalho sobre Nomes de Estrelas» da União Astronómica Internacional publi­cou uma lis­ta de nomes ofi­ci­ais para par­te das 9 mil estre­las visí­veis a olho nu.

Algumas des­tas estre­las, as mais bri­lhan­tes, têm nomes com raí­zes ances­trais na cul­tu­ra euro­peia e do médio ori­en­te. Para estes casos, tratou-​se de con­su­mar essa desig­na­ção. Eventualmente, resol­ver alguns pro­ble­mas rela­ci­o­na­dos com as res­pe­ti­vas gra­fi­as.

Outras estre­las, no entan­to, pas­sa­ram de ilus­tres des­co­nhe­ci­das para a eli­te das estre­las com nome pró­prio. É o caso da 51 do Pégaso.

A 51 de Pégaso é uma estre­la seme­lhan­te ao Sol visí­vel debil­men­te na cons­te­la­ção homó­ni­ma. O nome ago­ra ado­ta­do — Helvetios — é o de uma anti­ga tri­bo que viveu onde é hoje a Suíça.

A esco­lha des­te nome é uma mere­ci­da home­na­gem aos dois astró­no­mos suí­ços. Michel Mayor e Didier Queloz são, afi­nal, os res­pon­sá­veis por uma das mai­o­res des­co­ber­tas astro­nó­mi­cas do sécu­lo XX: a dete­ção do pri­mei­ro pla­ne­ta em tor­no de uma estre­la seme­lhan­te ao Sol.

Um planeta com nuvens de rocha

Ron Miller

Representação artís­ti­ca da atmos­fe­ra exó­ti­ca de um Júpiter Quente como o 51 Peg b. As nuvens são for­ma­das de mate­ri­ais refrac­tá­ri­os como sili­ca­tos (rocha) e a atmos­fe­ra con­tém espé­ci­es quí­mi­cas com pon­tos de subli­ma­ção ele­va­dos como o sódio, potás­sio e óxi­dos de titâ­nio e vaná­dio. | Crédito: Ron Miller

Situada a ape­nas 51 anos-​luz, a 51 do Pégaso é uma estre­la de tipo espec­tral G2IV, seme­lhan­te ao Sol, mas mais evo­luí­da.

A sua tem­pe­ra­tu­ra fotos­fé­ri­ca é de 5790 Kelvin (5516 graus cel­sius). É 26% mai­or e 4% mais maci­ça do que o Sol. É tam­bém mais rica em ele­men­tos mais pesa­dos do que o hidro­gé­nio e hélio, que os astró­no­mos cha­mam de «metais». As esti­ma­ti­vas da sua ida­de, difí­ceis de obter, vari­am entre os 6.1 e os 8.1 mil milhões de anos, com­pa­ra­dos com os 4.6 mil milhões de anos do Sol.

A mas­sa esti­ma­da para o 51 Peg b pela obser­va­ção da vari­a­ção da velo­ci­da­de radi­al da estre­la é de, no míni­mo, 0.45 vezes a mas­sa de Júpiter.

Com um perío­do orbi­tal de ape­nas 4.23 dias, o pla­ne­ta orbi­ta a estre­la hos­pe­dei­ra a uma dis­tân­cia de ape­nas 7.8 milhões de qui­ló­me­tros. É mais de 7 vezes mais pró­xi­mo do que Mercúrio em rela­ção ao Sol.

As for­ças de maré pro­vo­ca­das pela 51 do Pégaso forçaram-​no, ao fim de mui­tos milhões de anos, a apre­sen­tar sem­pre a mes­ma face vol­ta­da para a estre­la.

Devido à for­te irra­di­a­ção a que está sub­me­ti­do, a sua atmos­fe­ra é extre­ma­men­te quen­te, na ordem dos 1250 Kelvin (976 graus cel­sius). Também é mais dinâ­mi­ca e exó­ti­ca do que a de Júpiter, com ven­tos glo­bais de milha­res de qui­ló­me­tros por hora e nuvens de rocha vapo­ri­za­da.

Luís Lopes

­Luís Lopes

Professor na Universidade do Porto e astrónomo amador há mais de 30 anos.