Kyra Buschor e Constantin Päplow ima­gi­na­ram um dia que a vida sel­va­gem seria mui­to mais com­pli­ca­da se todos os ani­mais fos­sem redon­dos. E cri­a­ram uma série de víde­os hila­ri­an­tes.

A Evolução caracteriza-​se por uma série de ten­ta­ti­vas e erros, de gera­ção em gera­ção, até even­tu­al­men­te um «erro» se tor­nar numa solu­ção. E assim se adap­tam as cri­a­tu­ras ao seu meio ambi­en­te. São mudan­ças e trans­for­ma­ções que vão ocor­ren­do ao lon­go de milhões de anos.

Rollin France

Há boas razões para que esse lon­go pro­ces­so nun­ca tenha resul­ta­do no apa­re­ci­men­to de um mamí­fe­ro esfé­ri­co. Os pobres ani­mais deparar-​se-​iam com imen­sas difi­cul­da­des para resol­ver pro­ble­mas cor­ri­quei­ros do dia-​a-​dia. Os víde­os que se seguem mos­tram algu­mas: vejam este e este. Vale a pena.

A Natureza tem a mes­ma rela­ção com as suas cri­a­tu­ras que eu tenho com a cana­li­za­ção: a solu­ção nun­ca é per­fei­ta ou ide­al, mas olha, que­ri­da, é o que se pode arran­jar. Ao menos já não está a pin­gar.

Mas nem esta natu­re­za seria capaz de ser tão cru­el a pon­to de cri­ar mamí­fe­ros redon­dos só por mero diver­ti­men­to. Isso somos nós que faze­mos.

Os tipos da Terra plana estão cheios de razão

E é por isso que enten­do o dile­ma dos tipos que acre­di­tam pia­men­te que a Terra é pla­na e não redon­da. Eles são mais nume­ro­sos do que a gen­te pen­sa — ou, como diz a pia­da, têm cren­tes espa­lha­dos por todo o glo­bo. E têm razão em estar cha­te­a­dos con­nos­co.

Nós somos cruéis com eles. Rimo-​nos des­res­pei­to­sa­men­te das suas idei­as. Rimo-​nos como se a sua visão do mun­do fos­se tão ridí­cu­la como um mamí­fe­ro redon­do de qua­tro patas a fazer uma mija na árvo­re.

Dizemos que os defen­so­res da ter­ra pla­na exis­tem só para que as pes­so­as que não acre­di­tam que o homem foi à Lua pos­sam rir tam­bém. Eles asse­gu­ram que a ter­ra não é redon­da, nós insis­ti­mos que as bes­tas são qua­dra­das. Eles que­rem pôr-​nos nos eixos, nós falamos-​lhes de eixos de rota­ção.

Uma ter­ra redon­da é uma cru­el­da­de por­que a boa gen­te da ter­ra pla­na não acre­di­ta na exis­tên­cia da gra­vi­da­de, tal como Newton a pos­tu­lou. Newton não des­co­briu a gra­vi­da­de quan­do a maçã lhe caiu na tola.

Newton não des­co­briu nada, só endoi­de­ceu. E a maçã deve ter sido lan­ça­da pela mulher, far­ta de o ver pre­gui­çar no jar­dim. Não foi a gra­vi­da­de, foi a mulher. As mulhe­res exis­tem. As maçãs tam­bém. A gra­vi­da­de não.

É incrí­vel como não con­se­gui­mos ver a ver­da­de, pen­sam eles, ilu­mi­na­dos pelo farol do sen­so comum. Os habi­tan­tes de um pla­ne­ta esfé­ri­co pas­sa­ri­am toda a sua mise­rá­vel exis­tên­cia de cabe­ça para bai­xo. Se acham que acre­di­tar na ter­ra pla­na é ridí­cu­lo, ima­gi­nem pas­sar uma vida intei­ra a fazer o pino com os pés e nem sequer repa­rar. Não faz sen­ti­do nenhum.

Um pobre cren­te da Terra pla­na vai lá para fora fumar um cigar­ro pen­sa­ti­vo enquan­to obser­va a linha ine­qui­vo­ca­men­te reta do hori­zon­te.

O cora­ção enche-​se de com­pai­xão pelas pobres cri­a­tu­ras que acre­di­tam que um obje­to é arre­don­da­do pela for­ça da gra­vi­da­de por ser a manei­ra mais efi­ci­en­te que o Universo arran­jou para agru­par gran­des mas­sas. Mas afi­nal a Terra é um pla­ne­ta ou uma bola de Berlim?

Os bons velhos tempos em que não caíamos para o Céu

Terra

O Sol e a lua são redon­dos não por cau­sa des­sa hipo­té­ti­ca gra­vi­da­de. São-​no por­que isso faz do nos­so pla­ne­ta um sítio ain­da mais espe­ci­al e úni­co.

A mal­ta da Terra pla­na só quer regres­sar aos bons velhos tem­pos em que o Sol, a lua, as estre­las e todo o Universo gira­vam à nos­sa vol­ta.

Aos bons velhos tem­pos em que o nos­so enten­di­men­to do mun­do era medi­do pelo grau de des­co­nhe­ci­men­to do que se pas­sa­va à nos­sa vol­ta. Aos tem­pos em que o Universo não con­tra­ri­a­va o nos­so sen­so comum. Aos tem­pos em que a nos­sa fé, inte­li­gên­cia e per­se­ve­ran­ça mere­ci­am o res­pei­to dos deu­ses.

Esses eram os tem­pos em que o mun­do fazia mais sen­ti­do. Em que podía­mos estar de pé e não de cabe­ça para bai­xo. Em que está­va­mos no cen­tro e não na peri­fe­ria. Os tem­pos em que até a nos­sa mor­te era uma pro­mes­sa inque­brá­vel de renas­ci­men­to. Agora até a rea­li­da­de é uma cons­pi­ra­ção.

Por isso, sim, os pre­ga­do­res da ter­ra ple­na têm a minha com­pre­en­são. Não con­si­go acre­di­tar que sejam todos bur­ros, deso­nes­tos, ali­e­na­dos ou que já exis­tam redes Wi-​Fi nos hos­pí­ci­os. Acho que todos — ou qua­se todos — são víti­mas da for­ma como ensi­na­mos Ciência nas esco­las.

Eu lembro-​me das minhas aulas. Despejavam-​me a maté­ria pela gar­gan­ta com um funil e o meu conhe­ci­men­to era ava­li­a­do pela quan­ti­da­de que eu con­se­guia regur­gi­tar nos exa­mes.

As esco­las não ensi­nam Ciência, ensi­nam os putos a ter boas notas em Ciência. Esta é a minha expe­ri­ên­cia. Acredito que será a expe­ri­ên­cia de mui­tos. É natu­ral por isso que este tipo de ensi­no mais vira­do para os resul­ta­dos do que para a com­pre­en­são tenha cri­a­do tan­tas gera­ções de gen­te des­con­fi­a­da.

Desconfiam do conhe­ci­men­to por­que o conhe­ci­men­to é-​lhes impos­to de for­ma exaus­ti­va, não ins­pi­ra­do. Falta poe­sia no ensi­no da Ciência. Falta ide­a­lis­mo. Só quem tem voca­ção para a Ciência está dis­pos­to a compreendê-​la. E devía­mos compreendê-​la todos.

Pedir-​lhes que con­fi­em no conhe­ci­men­to cien­tí­fi­co é, do pon­to de vis­ta deles, um regres­so ao cas­ti­go. É outra vez um funil enfi­a­do pela gar­gan­ta — um funil de fac­tos a entupir-​lhes uma visão do mun­do mais con­for­tá­vel.

Essa visão é que os faz sen­tir espe­ci­ais outra vez, no sen­ti­do Donald Trump da expres­são. A que dá sen­ti­do às fal­si­da­des que a per­ce­ção huma­na garan­te como ver­da­dei­ras, como um sol a girar à nos­sa vol­ta. Porque a esco­la ensi­na o que diz a Ciência, mas falha em ensi­nar como ela pen­sa. E é assim que a Terra vol­ta a ser pla­na.

Marco Santos

­Marco Santos

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