Invoco tan­tas vezes o famo­so tex­to de Carl Sagan nes­te blo­gue por o con­si­de­rar tão belo e ins­pi­ra­dor. Estou con­ven­ci­do de que deve­ria fazer par­te da maté­ria de qual­quer esco­la do mun­do.

Estas pala­vras - tão sim­ples e cer­tei­ras na sua sen­sa­tez, sen­si­bi­li­da­de e huma­nis­mo - fari­am melhor à men­ta­li­da­de das cri­an­ças do que o ensi­no da reli­gião, que divi­de mais do que une.

Neste tex­to tão fácil de enten­der e ain­da mais fácil de sen­tir, as fron­tei­ras entre Arte, Ciência e Filosofia são esti­lha­ça­das, con­ver­gin­do num úni­co sen­ti­do: a visão cós­mi­ca da exis­tên­cia huma­na.

O mag­ní­fi­co vídeo que se segue, assi­na­do por David Fu, é cons­truí­do prin­ci­pal­men­te a par­tir de frag­men­tos de fil­mes, excer­tos do audi­o­bo­ok de Sagan, «Pale Blue Dot», e um tema dos Mogwai como ban­da sono­ra.

As pala­vras de Sagan foram tra­du­zi­das por mim de ouvi­do e de for­ma mui­to livre, pau­sa, play, pau­sa, play, pelo que pode­rão exis­tir falhas e impre­ci­sões – fica­rei mui­to agra­de­ci­do se as topa­rem e cor­ri­gi­rem. Sei que exis­tem víde­os já legen­da­dos em por­tu­guês do Brasil, mas ignorei-​os; apeteceu-​me antes o pra­zer de tra­du­zir para o por­tu­guês de Portugal – o tex­to é sim­ples, o que tam­bém aju­dou.

Uma nota final: a ima­gem que sur­ge no player em pau­sa não é do pon­to azul cla­ro de Sagan; trata-​se de uma foto­gra­fia da Nebulosa do Haltere, a pri­mei­ra nebu­lo­sa pla­ne­tá­ria a ser des­co­ber­ta. A foto foi reti­ra­da des­te blo­gue e o seu autor chamou-​lhe, pre­ci­sa­men­te, Pale Blue Dot – por isso a des­co­bri!

Pálido ponto azul

«A nave espa­ci­al esta­va mui­to lon­ge de casa.

Pensei que seria uma boa ideia, logo depois de Saturno, fazê-​la olhar para casa uma últi­ma vez. De Saturno, a Terra sur­gi­ria dema­si­a­do peque­na para que a Voyager pudes­se cap­tar qual­quer deta­lhe. O nos­so pla­ne­ta seria ape­nas um pon­to de luz, um pixel soli­tá­rio, difi­cil­men­te dis­tin­guí­vel de mui­tos outros pon­tos de luz que a Voyager podia cap­tar: pla­ne­tas vizi­nhos, sóis dis­tan­tes.

Mas pre­ci­sa­men­te devi­do à obs­cu­ri­da­de do nos­so mun­do assim reve­la­da, pode­ria valer a pena ter uma foto des­sas. Fora bem enten­di­do pelos cien­tis­tas e filó­so­fos da Antiguidade Clássica que a Terra era um mero pon­to num vas­to e abran­gen­te Cosmos, mas ain­da nin­guém a vira assim. Era a nos­sa pri­mei­ra opor­tu­ni­da­de – e tal­vez a úni­ca, nas déca­das que se segui­ri­am.

Portanto… Aqui está: um mosai­co qua­dri­cu­la­do esten­di­do sobre os pla­ne­tas e um fun­do sal­pi­ca­do de estre­las dis­tan­tes. Por cau­sa do refle­xo da luz do Sol na nave, a Terra pare­ce repou­sar num raio de luz, como se exis­tis­se um sig­ni­fi­ca­do espe­ci­al nes­te peque­no mun­do… Mas é ape­nas um aci­den­te de geo­me­tria e óti­ca.

Não há nenhum sinal de huma­nos nes­ta foto – das nos­sas modi­fi­ca­ções na super­fí­cie do pla­ne­ta, das nos­sas máqui­nas, de nós pró­pri­os. Deste pon­to de vis­ta, a nos­sa obses­são com o naci­o­na­lis­mo não apa­re­ce evi­den­ci­a­da em lado nenhum. Somos dema­si­a­do peque­nos. Na esca­la dos mun­dos, os huma­nos são incon­se­quen­tes – uma fina pelí­cu­la de luz num obs­cu­ro e soli­tá­rio peda­ço de rocha e metal.

A Terra vista da Lua

A Terra vis­ta da Lua duran­te a mis­são Apollo 15

Vista des­te dis­tan­te pon­to de obser­va­ção, a Terra tal­vez não tenha nenhum inte­res­se espe­ci­al. Mas, para nós, é dife­ren­te.

Considerem nova­men­te aque­le pon­to. É aqui. É a nos­sa casa. Somos nós. Nele, todos aque­les que ama­mos, todos os que conhe­ce­mos ou de quem ouvi­mos falar, todos os seres huma­nos que já exis­ti­ram, vivem ou vive­ram as suas vidas.

Toda a nos­sa mis­tu­ra de ale­gria e sofri­men­to, as inú­me­ras reli­giões, ide­o­lo­gi­as e dou­tri­nas eco­nó­mi­cas, todos os caça­do­res e saque­a­do­res, heróis e covar­des, cri­a­do­res e des­trui­do­res de civi­li­za­ções, reis e cam­po­ne­ses, jovens casais apai­xo­na­dos, pais e mães, cri­an­ças espe­ran­ço­sas, todos os inven­to­res e explo­ra­do­res, pro­fes­so­res de moral, polí­ti­cos cor­rup­tos, «super-​estrelas», líde­res supre­mos, todos os san­tos e peca­do­res na his­tó­ria da nos­sa espé­cie vive­ram ali, num grão de poei­ra sus­pen­so num raio de sol.

A Terra é um pal­co mui­to peque­no numa vas­ta are­na cós­mi­ca. Pensem nos rios de san­gue der­ra­ma­dos por todos os gene­rais e impe­ra­do­res para que, em gló­ria e triun­fo, pudes­sem ser os momen­tâ­ne­os senho­res de uma fra­ção de um pon­to.

Pensem nas infi­ni­tas cru­el­da­des come­ti­das pelos habi­tan­tes de um can­to des­te pixel sobre os qua­se indis­tin­guí­veis habi­tan­tes de outro can­to qual­quer; quão fre­quen­tes são os seus desen­ten­di­men­tos; quão deter­mi­na­dos estão em matar-​se uns aos outros; quão infla­ma­do é o seu ódio.

A nos­sa ati­tu­de, a nos­sa ima­gi­na­da auto-​importância, a ilu­são de que temos uma posi­ção pri­vi­le­gi­a­da no Universo, são desa­fi­a­das por este pon­to de luz páli­da. O nos­so pla­ne­ta é um pon­ti­nho soli­tá­rio na gran­de escu­ri­dão cós­mi­ca cir­cun­dan­te. Na nos­sa obs­cu­ri­da­de, em toda esta imen­si­dão, não há nenhum indí­cio de que a aju­da venha de outro lugar para nos sal­var de nós mes­mos.

A Terra é, até ago­ra, o úni­co mun­do conhe­ci­do que alber­ga a vida. Não há nenhum outro lugar, pelo menos num futu­ro pró­xi­mo, para onde a nos­sa espé­cie pos­sa migrar. Visitar, sim; estabelecer-​se, ain­da não. Goste-​se ou não, de momen­to a Terra é o nos­so úni­co pos­to.

Tem sido dito que a Astronomia é uma expe­ri­ên­cia de humil­da­de e for­ma­do­ra de carác­ter. Talvez não exis­ta melhor demons­tra­ção das lou­cu­ras da vai­da­de huma­na do que esta dis­tan­te ima­gem do nos­so minús­cu­lo mun­do. Para mim, subli­nha a res­pon­sa­bi­li­da­de de nos rela­ci­o­nar­mos mais gen­til­men­te uns com os outros e de pre­ser­var­mos e aca­ri­nhar­mos o úni­co lar que conhe­ce­mos: o páli­do pon­to azul.»

Marco Santos

­Marco Santos

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