Vamos todos mor­rer, e a cul­pa deve ser das moder­ni­ces.

Não estou aqui para con­tes­tar os resul­ta­dos des­ta revi­são sis­te­má­ti­ca, mas para meter o dedo na retó­ri­ca alar­mis­ta do autor, Hagai Levine. Levine che­gou a afir­mar em entre­vis­ta à BBC que, caso a ten­dên­cia se man­te­nha, arris­ca­mos a extin­ção da espé­cie.

Os resul­ta­dos só são con­clu­si­vos para paí­ses desen­vol­vi­dos — América do Norte, Europa, Austrália e Nova Zelândia— e não per­mi­tem rela­ci­o­nar com pos­sí­veis cau­sas. A ten­dên­cia para paí­ses em desen­vol­vi­men­to — con­ti­nen­te sul-​americano, Ásia e África — é menor, mas não tem sig­ni­fi­cân­cia esta­tís­ti­ca, por fal­ta de estu­dos e por­que a revi­são não inclui estu­dos publi­ca­dos em lín­guas que não o inglês.

Peça do Público

Como vem na peça do Público, em 38 anos a con­cen­tra­ção de esper­ma­to­zoi­des bai­xou 52,4% para os 47,1 milhões por mili­li­tro. E a con­ta­gem de esper­ma­to­zoi­des por eja­cu­la­ção bai­xou 59,3% para os 137,5 milhões.

No entan­to, os limi­tes da OMS para defi­nir casos de infer­ti­li­da­de estão em con­cen­tra­ções de 20 milhões de esper­ma­to­zoi­des por mili­li­tro e 40 milhões de esper­ma­to­zoi­des por eja­cu­la­ção, bem lon­ge ain­da dos parâ­me­tros atu­ais. Para mais, o estu­do não ava­lia a qua­li­da­de dos esper­ma­to­zoi­des.

Com cer­te­za é um pro­ble­ma mere­ce­dor de aten­ção, e até pos­so con­cor­dar rela­ti­va­men­te à urgên­cia de des­co­brir as cau­sas des­te fenó­me­no.

Mas acho curi­o­sa a for­ma qua­se des­lei­xa­da com que se apon­ta um punha­do de cau­sas hipo­té­ti­cas entre uma ampla esco­lha de cau­sas pos­sí­veis deri­va­das da extre­ma com­ple­xi­da­de das vidas huma­nas nas soci­e­da­des moder­nas.

Como exem­plo, refe­rem o taba­co, que efe­ti­va­men­te reduz o núme­ro e a qua­li­da­de dos esper­ma­to­zoi­des (o estu­do cita­do encon­tra uma redu­ção de 9.72 milhões/​ml na con­cen­tra­ção de esper­ma­to­zoi­des entre fuma­do­res).

Segundo a OMS, porém, o con­su­mo de taba­co vem decain­do nos paí­ses desen­vol­vi­dos e subin­do nos paí­ses em desen­vol­vi­men­to, ten­do bai­xa­do para meta­de em 30 anos nos EUA. Ou seja, as ten­dên­ci­as não pare­cem conjugar-​se.

Mas o que mais me espan­tou foi a ale­ga­ção do pos­sí­vel efei­to de pes­ti­ci­das nos ali­men­tos, sus­ten­ta­da num arti­go ridí­cu­lo que não dis­tin­gue a tipo­lo­gia dos ali­men­tos da pre­sen­ça de resí­du­os de pes­ti­ci­das, para não falar de outros fac­to­res con­co­mi­tan­tes não con­si­de­ra­dos, como o esti­lo de vida ou o esta­do de saú­de, tão comum­men­te rela­ci­o­na­dos à die­ta segui­da.

A amos­tra nem teria dimen­sões para um apu­ra­men­to des­sa natu­re­za. E isto num con­tex­to em que a segu­ran­ça ali­men­tar melho­rou subs­tan­ci­al­men­te nas últi­mas déca­das nos paí­ses desen­vol­vi­dos, devi­do aos pro­gres­sos na legis­la­ção, na fis­ca­li­za­ção e na evo­lu­ção do per­fil toxi­co­ló­gi­co dos pes­ti­ci­das.

Volto a subli­nhar que não con­tes­to os resul­ta­dos da revi­são, mas jul­go que os inves­ti­ga­do­res devi­am ter mais cui­da­do com as hipó­te­ses (e os estu­dos que citam para as sus­ten­tar) lan­ça­dos aos media, que ado­ram bodes expi­a­tó­ri­os velhos conhe­ci­dos.

Alguém da área que se pro­nun­cie, que isto pode ser o che­que da Monsanto e da indús­tria taba­quei­ra já a fala­rem por mim…

Carlos Daniel Abrunheiro

­Carlos Daniel Abrunheiro

Músico autodidata, Físico não praticante.