Proxima b foi notí­cia por ter sido apre­sen­ta­do como uma segun­da Terra. Ninguém sabia nada sobre o pla­ne­ta a não ser que tinha 1,3 mas­sas ter­res­tres e orbi­ta­va a estre­la Proxima Centauri a cada 11,2 dias, a uma dis­tân­cia de 7 milhões de qui­ló­me­tros.

Agora as notí­ci­as são outras: aná­li­ses mate­má­ti­cas fei­tas pelo Laboratório de Astrofísica de Marselha, em França, suge­rem que o pla­ne­ta está cober­to por um oce­a­no de água líqui­da. Os inves­ti­ga­do­res não uti­li­za­ram a pala­vra «pro­va» para des­cre­ver os resul­ta­dos, opta­ram por usar uma mais cui­da­do­sa: «evi­dên­cia».

A razão daque­la esco­lha de pala­vras torna-​se cla­ra (como água) quan­do fica­mos a saber como che­ga­ram eles a estes resul­ta­dos.

Pode ser, mas ainda não é

Proxima b

Uma ilus­tra­ção de como pode­ria apa­re­cer Proxima b se uma son­da o foto­gra­fas­se de per­to.

Primeiro alguns fac­tos para con­tex­tu­a­li­zar: o pla­ne­ta Proxima b está a uma dis­tân­cia média de 7 milhões de qui­ló­me­tros da sua estre­la — em ter­mos cós­mi­cos, é como se esti­ves­se cola­do. Mercúrio, o pla­ne­ta mais pró­xi­mo do Sol, orbita-​o a uma dis­tân­cia mui­to supe­ri­or, cer­ca de 59 milhões de qui­ló­me­tros.

O que acon­te­ce nes­te caso é que a estre­la em ques­tão, Proxima Centauri, é uma anã ver­me­lha, mui­to mais peque­na e menos lumi­no­sa do que o Sol. A órbi­ta do pla­ne­ta calha numa zona tem­pe­ra­da onde teo­ri­ca­men­te é pos­sí­vel encon­trar con­di­ções de tem­pe­ra­tu­ra para a for­ma­ção de água líqui­da à super­fí­cie.

Existe outro pro­ble­ma para este cená­rio idí­li­co de uma segun­da Terra: Proxima b pode­rá estar gra­vi­ta­ci­o­nal­men­te amar­ra­do a Proxima Centauri devi­do à pro­xi­mi­da­de a que está daque­la estre­la, o que impli­ca apresentar-​lhe sem­pre a mes­ma face e ter meta­de do pla­ne­ta a mor­rer de frio e a outra a mor­rer de calor.

E mes­mo que não este­ja, a tem­pe­ra­tu­ra à super­fí­cie pode­rá ser dema­si­a­do quen­te para per­mi­tir a for­ma­ção de água líqui­da.

Tão perto e tão longe

O pla­ne­ta cap­ta a nos­sa aten­ção por estar tão per­to, a uns míse­ros 4.25 anos-​luz. O pla­ne­ta poten­ci­al­men­te ter­res­tre mais per­to de nós que tínha­mos encon­tra­do é Wolf 1061c, a 14 anos-​luz de dis­tân­cia. Agora temos um vizi­nho dig­no des­se nome.

Para inves­ti­gar todos estes pro­ble­mas, a equi­pa fran­ce­sa cri­ou simu­la­ções da com­po­si­ção do pla­ne­ta baseando-​se no seu tama­nho apa­ren­te. A esti­ma­ti­va é a de que Proxima b tem um raio entre 0.94 e 1.4 vezes o da Terra.

Tomando em con­ta o limi­te infe­ri­or — 0.94 —, Proxima b teria um raio de apro­xi­ma­da­men­te 5.990 qui­ló­me­tros. As simu­la­ções da equi­pa suge­rem que nes­te cená­rio o pla­ne­ta será bas­tan­te den­so e con­te­rá um núcleo metá­li­co que per­faz dois ter­ços da sua mas­sa total. O núcleo esta­rá rode­a­do por um man­to rocho­so.

«Se exis­tir água à super­fí­cie, não deve con­tri­buir mais do que 0,05 por cen­to para a mas­sa total do pla­ne­ta», afir­mou a equi­pa, cita­da pela AFP. Isto não é uma quan­ti­da­de tão peque­na como isso, dado que a per­cen­ta­gem de água em rela­ção à mas­sa total da Terra é ain­da menor: 0,02 por cen­to.

Ao usar o limi­te supe­ri­or pre­vis­to nas simu­la­ções — 1.4 vezes o raio da Terra — então tería­mos um pla­ne­ta com 8.920 qui­ló­me­tros, meta­de rocha, meta­de água à vol­ta. «Neste caso» — pros­se­guem os inves­ti­ga­do­res, cita­dos ain­da pela AFP —, «Proxima b esta­rá cober­ta por um úni­co oce­a­no com duzen­tos qui­ló­me­tros de pro­fun­di­da­de.»

Ambas as simu­la­ções suge­ri­ram tam­bém que o pla­ne­ta pode­rá ter uma fina atmos­fe­ra gaso­sa, essen­ci­al para sus­ten­tar a vida tal como a conhe­ce­mos. As tem­pe­ra­tu­ras não subi­ri­am para além do que seria razoá­vel, ou seja, per­mi­ti­ram a exis­tên­cia de água à super­fí­cie ape­sar da pro­xi­mi­da­de da estre­la.

São simu­la­ções fei­tas a par­tir de esti­ma­ti­vas cujas extra­po­la­ções mate­má­ti­cas pro­du­zem resul­ta­dos viá­veis, mas bas­ta que tais esti­ma­ti­vas este­jam erra­das para que tudo isto se des­mo­ro­ne como um cas­te­lo de car­tas. Como saber se as esti­ma­ti­vas estão cer­tas? Enviando uma son­da para lá. Como? Impossível nas pró­xi­mas déca­das.

Ou tal­vez não, se aten­tar­mos à pro­pos­ta do mili­o­ná­rio rus­so Yuri Milner.

Um iPhone para o Espaço

Yuri Milner

Yuri Milner apre­sen­ta a mis­são «Breakthrough Starshot» com o astro­fí­si­co Stephen Hawking

Milner tem o gos­to, a moti­va­ção e, sobre­tu­do, o dinhei­ro, para avan­çar com uma pro­pos­ta des­tas: envi­ar lan­ças son­das minús­cu­las, tão peque­nas como um iPhone, que seri­am ace­le­ra­das até 20 por cen­to da velo­ci­da­de da luz por um sis­te­ma de lasers pode­ro­sís­si­mos.

A mis­são chama-​se «Breakthrough Starshot» e tem um gran­de apoi­an­te: a supe­res­tre­la da Astrofísica Stephen Hawking.

Tendo em con­ta a des­co­ber­ta de um poten­ci­al pla­ne­ta do tipo ter­res­tre à vol­ta de Proxima Centauri, uma mis­são des­tas vinha mes­mo a calhar. A son­da esta­ria equi­pa­da com com uma câma­ra e vári­os fil­tros para poder cap­tar ima­gens das cores do pla­ne­ta, de modo a saber­mos se tinha ver­des (vida?), azuis (oce­a­nos) ou sim­ples­men­te cas­ta­nhos (pff, rochas secas).

A equi­pa espe­ra poder fazer um lan­ça­men­to em duas ou três déca­das e atin­gir Proxima Centauri em 20 anos. As fotos, obvi­a­men­te, demo­ra­ri­am 4.24 anos a che­gar à Terra — o tem­po que a luz demo­ra a per­cor­rer a dis­tân­cia entre os dois sis­te­mas sola­res. Feitas as con­tas, tería­mos um belo car­tão pos­tal do pla­ne­ta Proxima b em 2060.

Poderíamos então veri­fi­car se as esti­ma­ti­vas da equi­pa fran­ce­sa esta­vam cor­re­tas ou não.

Conjunto de lasers

Representação do con­jun­to de lasers que impul­si­o­na­ria a minús­cu­la son­da até Proxima Centauri.

Até lá, fica a con­so­la­ção à mal­ta da gera­ção do Kevin Costner — dema­si­a­do velha para espe­rar sobre­vi­ver até 2060 — de que não have­rá um mun­do de água abor­re­ci­do e pre­vi­sí­vel como o que nos mos­trou em «Waterworld», fil­me que tro­cou as arei­as de «Mad Max» pelas águas de um oce­a­no pla­ne­tá­rio.

Talvez encon­tre­mos um oce­a­no mui­to melhor do que o de Kostner: o de Stanislaw Lem.

Lem, um génio da lite­ra­tu­ra de Ficção Científica, ima­gi­nou um pla­ne­ta com um oce­a­no a cobrir total­men­te a sua super­fí­cie. Este não era um oce­a­no de água líqui­da, mas de um tipo de plas­ma ain­da des­co­nhe­ci­do. Além dis­so — como tive­ram de reco­nhe­cer os espan­ta­dos cien­tis­tas depois de anos de inves­ti­ga­ção —, tratava-​se de um oce­a­no inte­li­gen­te.

A manei­ra como esse oce­a­no esco­lheu comu­ni­car com os cien­tis­tas seria mate­ri­al para outro arti­go, mas se qui­se­rem ler um dos melho­res livros de fic­ção cien­tí­fi­ca de todos os tem­pos, eis a refe­rên­cia: o títu­lo é «Solaris e foram fei­tos dois fil­mes base­a­dos no livro: um, razoá­vel, em 1972, de Andrei Tarkovski; outro, sem gran­de inte­res­se, em 2002, de Steven Soderbergh, cujo úni­co foco de aten­ção na impren­sa foi um pla­no onde pela pri­mei­ra vez na his­tó­ria do Cinema todas as mulhe­res pude­ram ver o George Clooney a mos­trar o rabo.

Mas se che­gar­mos a des­co­brir um pla­ne­ta oceâ­ni­co em Proxima Centauri, deve­ría­mos chamá-​lo pre­ci­sa­men­te de Solaris — seria uma home­na­gem jus­ta e apro­pri­a­da ao mes­tre Stanislaw Lem, que tan­tas mag­ní­fi­cas horas de lei­tu­ra deu aos aman­tes da fic­ção cien­tí­fi­ca, incluin­do mui­tos cien­tis­tas.

Marco Santos

­Marco Santos

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