Estamos todos aqui sen­ta­dos na espla­na­da do res­tau­ran­te de Douglas Adams e o assun­to é a des­co­ber­ta de três super-​Terras na zona habi­tá­vel do sis­te­ma de Gliese 667.

O melhor é come­çar pri­mei­ro pelas cer­ve­ji­nhas e os tre­mo­ços.

«A cer­ve­ja pode não ser cer­ve­ja, pode ser um líqui­do que enga­ne os sen­ti­dos», avi­sa o enge­nhei­ro Pedro Cotrim, autor de vári­os livros de divul­ga­ção cien­tí­fi­ca. Bebe um goli­nho à cau­te­la, mas pare­ce ficar satis­fei­to com os resul­ta­dos da expe­ri­ên­cia. «No que diz res­pei­to à cer­ve­ja, sou um tipo difí­cil de enga­nar.»

A cer­ve­ja é autên­ti­ca e três sóis erguem-​se dian­te de nós nos céus do pla­ne­ta Gliese 667Cc, um dos sete do sis­te­ma (fal­ta con­fir­mar a exis­tên­cia do séti­mo, mas é mui­to pro­vá­vel que exis­ta) e uma das três super-​Terras que os astró­no­mos des­co­bri­ram – não sei o que vocês pen­sam sobre o assun­to, mas con­tem­plar um sis­te­ma tri­plo numa pai­sa­gem semi­de­sér­ti­ca extra­ter­res­tre é um pre­tex­to tão bom como qual­quer outro para molhar a gar­gan­ta.

planeta 667Cd

O sis­te­ma tri­plo de Gliese 667 vis­to a par­tir do pla­ne­ta 667Cd (Ilustração: ESO/​M. Kornmesser)

Neste sítio tão lon­gín­quo todo o cui­da­do é pou­co — pode haver gen­te esqui­si­ta de outras galá­xi­as a comer no res­tau­ran­te. Abstenho-​me de pedir o car­dá­pio por­que tenho um estô­ma­go impres­si­o­ná­vel e estou pron­to a jurar a pé jun­tos que o car­bo­no é pre­ju­di­ci­al ao coles­te­rol ali­e­ní­ge­na. Alguns ET’s pode­rão estar enfras­ca­dos. Já os ima­gi­no a apon­tar para nós, dizen­do «George Lucas» em voz alta e desa­tan­do a rir.

Somos «estra­nhos numa ter­ra estra­nha», como diria Robert Heinlein, e não conhe­ce­mos a cli­en­te­la da espla­na­da em Gliese 667Cc. Podemos até apa­nhar uma bebe­dei­ra como eles, mas nada de excla­mar triun­fal­men­te «a noi­te ain­da é uma cri­an­ça» por­que os hipo­té­ti­cos cli­en­tes que vivem no hemis­fé­rio per­pe­tu­a­men­te notur­no do pla­ne­ta podem pen­sar que esta­mos a gozar com eles.

Cheers! A ima­gi­na­ção é o com­bus­tí­vel mais pode­ro­so que exis­te e os luga­res aon­de nos con­duz podem ser aco­lhe­do­res como ber­ços ou inqui­e­tan­tes como bura­cos negros. O res­tau­ran­te não fica no fim do Universo, como o do geni­al Douglas Adams, mas ain­da assim é bas­tan­te dis­tan­te: 22 anos-​luz da Terra.

Vinte e dois anos-​luz é uma coi­sa irri­só­ria no gran­de esque­ma cós­mi­co das dis­tân­ci­as, mas não dei­xa de ser um núme­ro tra­ma­do.

Se erguer a minha cane­ca de cer­ve­ja para brin­dar com o astro­bió­lo­go Carlos Oliveira à saú­de das ama­zo­nas sue­cas de Aldebaran-​4, o meu ges­to e a cane­ca serão obser­va­dos ao mes­mo tem­po pelos outros obser­va­do­res na mesa – é assim a tre­men­da velo­ci­da­de da luz, real e ilu­só­ria, capaz de pren­der ao pre­sen­te ges­tos que já per­ten­cem ao pas­sa­do.

Um pouco de depressão cósmica só para dar mais ambiente

Delphifilm

Cosmic Loneliness 4 | Delphifilm @DeviantArt

Enquanto Carlos Oliveira vai pen­san­do na melhor manei­ra de apa­nhar um auto­car­ro espa­ci­al para Aldebaran-​4, outro cien­tis­ta con­si­de­ra a velo­ci­da­de da nave mais rápi­da cons­truí­da pelo homem – a Voyager 1 – e faz as con­tas: «18 qui­ló­me­tros por segun­do. A essa velo­ci­da­de, para per­cor­rer 22 anos-​luz, seri­am neces­sá­ri­os mais de 366 mil anos», expli­ca Ricardo Cardoso Reis, do núcleo de divul­ga­ção do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto.

«Se usar­mos a velo­ci­da­de de 50 km por segun­do do motor ióni­co que apre­goa a mai­or velo­ci­da­de, o VASIMR», pros­se­gue Ricardo, «ain­da assim demo­ra­ria (sem con­tar com o tem­po de ace­le­ra­ção e desa­ce­le­ra­ção), pou­co menos de 132 mil anos a fazer 22 anos-​luz. Ah, e que­ro cara­cóis a acom­pa­nhar a impe­ri­al.»

Caracóis? Com cer­te­za. Cento e trin­ta e dois mil anos? Estes já cus­tam a engo­lir. Mesmo na espla­na­da de Douglas Adams é um núme­ro impres­si­o­nan­te. Há 132 mil anos a Humanidade ain­da anda­va entu­si­as­ma­da a gozar o últi­mo gri­to da tec­no­lo­gia: a foguei­ra. Coisa de hips­ters fri­o­ren­tos.

Se o teles­có­pio de uma civi­li­za­ção extra­ter­res­tre a 150 mil anos-​luz de dis­tân­cia cap­tar a luz de um homi­ní­deo algu­res em Zhoukoudian, uma aldeia chi­ne­sa 50 qui­ló­me­tros a sudes­te do que é hoje Pequim, pode­rá tes­te­mu­nhar a des­co­ber­ta do fogo – mas nada sabe­rá sobre as nos­sas naves mara­vi­lho­sa­men­te pri­mi­ti­vas e o que já con­se­gui­mos obser­var com as nos­sas lune­tas cós­mi­cas.

Bem sei que a com­pa­nhia é boa, as pai­sa­gens des­lum­bran­tes e a cer­ve­ja por con­ta da casa, mas estes cál­cu­los deixam-​me depri­mi­do: não me falem em oce­a­nos cós­mi­cos e dispensem-​me as ana­lo­gi­as com os gran­des des­co­bri­do­res do pas­sa­do, por favor.

Aqueles aven­tu­rei­ros não cami­nha­ram na dire­ção dos seus navi­os em câmara-​lenta. Quanto tem­po demo­ra­ria Fernão Magalhães a circum-​navegar o glo­bo se ele e as suas naus fos­sem milha­res de vezes mais len­tos?

«A velo­ci­da­de veto­ri­al da Voyager é de cer­ca de 0.006% da velo­ci­da­de da luz. E seria para um fly-​by, pas­sar por aqui duran­te uns três dias e zar­par dis­pa­ra­da em fren­te, e mui­to mais depres­sa» – refor­ça o físi­co Manuel Rosa Martins, sem qual­quer pre­o­cu­pa­ção com a for­ma como a cer­ve­ja me cai mal quan­do pen­so na nos­sa insig­ni­fi­cân­cia cós­mi­ca. – «Para tra­var e fazer um voo orbi­tal do sis­te­ma demo­ra­ria mais do que o dobro do tem­po».

«Fui con­fir­mar à pági­na da Voyager Interstellar Mission», con­ti­nua Ricardo Cardoso Reis, cien­te de que na espla­na­da de Douglas Adams as liga­ções sem rede não só têm bom sinal como são inte­res­te­la­res. «Segundo o que lá está, a Voyager está a ‘esca­par’ do Sistema Solar a 3,6 uni­da­des astro­nó­mi­cas por ano, ou seja, cer­ca de 538,5 milhões de km por ano. Portanto, para fazer 22 anos-​luz (cer­ca de 2×10^14 km) pre­ci­sa de mais de 386 mil anos».

Carlos Oliveira resu­me a pro­ble­má­ti­ca numa úni­ca fra­se: «É bué da lon­ge».

Eis uma visão da Humanidade, con­tem­plan­do as estre­las como uma cri­an­ça inca­paz de alcan­çar uma gulo­sei­ma na pra­te­lei­ra de cima. Acabámos de des­co­brir três super-​Terras, acha­mos que pode­rão ter con­di­ções pro­pí­ci­as ao sur­gi­men­to da vida mas não pode­mos con­fir­mar pes­so­al­men­te as nos­sas sus­pei­tas – a não ser que este­ja­mos a beber umas cer­ve­jo­las à saú­de do Douglas Adams.

Super-​Terras, já ago­ra, são pla­ne­tas enor­mes – não têm mais mas­sa do que Úrano ou Neptuno, por exem­plo, mas pos­su­em mais do que a Terra.

Estarem na cha­ma­da zona habi­tá­vel da estre­la – onde a água pode exis­tir em esta­do líqui­do à super­fí­cie – é uma cir­cuns­tân­cia pro­mis­so­ra, mas não sig­ni­fi­ca que exis­ta vida. No nos­so sis­te­ma solar, Vénus está no limi­te mais infe­ri­or des­sa zona e Marte no limi­te exte­ri­or, e todos sabem que o pri­mei­ro é uma espé­cie de pan­que­ca vul­câ­ni­ca ina­bi­tá­vel e o segun­do um deser­to seco e frio – ame­no para um esqui­mó, mas pou­co hos­pi­ta­lei­ro para uma esco­la de sam­ba.

Quando a noite desaba sobre as nossas cabeças

Rowena Morrill

Isaac Asimov pin­ta­do por Rowena Morrill

Uma carac­te­rís­ti­ca comum aos três pla­ne­tas fez-​me lem­brar um livro de fic­ção cien­tí­fi­ca escri­to a mei­as por Isaac Asimov e Robert Silverberg, Anoitecer, base­a­do num con­to do pri­mei­ro publi­ca­do em 1941.

A carac­te­rís­ti­ca a que me refi­ro é o fac­to de qual­quer um des­ses três pla­ne­tas apre­sen­tar sem­pre a mes­ma face vol­ta­da para a estre­la, o que sig­ni­fi­ca que os seus dias e os seus anos têm a mes­ma dura­ção e num lado do pla­ne­ta é sem­pre dia e no outro sem­pre noi­te.

Que melhor oca­sião para ima­gi­nar­mos vida extra­ter­res­tre do que estar­mos numa espla­na­da mon­ta­da num des­ses bizar­ros cor­pos cós­mi­cos?

A bió­lo­ga Diana Barbosa come­ça por dei­tar água na fer­vu­ra espe­cu­la­ti­va: «É qua­se impos­sí­vel con­je­tu­rar como será a vida nou­tro pla­ne­ta. Na Terra temos o que se desig­na por ‘vida base­a­da em car­bo­no’. Noutro pla­ne­ta pode ser dife­ren­te. Ainda que pudes­se ser ‘vida como a da Terra’, as con­di­ções ambi­en­tais seri­am tão dife­ren­tes que a evo­lu­ção teria um rumo tam­bém com­ple­ta­men­te dife­ren­te».

Na nove­la Anoitecer, o pla­ne­ta fic­tí­cio tem seis sóis e a civi­li­za­ção que o habi­ta nun­ca conhe­ceu o cre­pús­cu­lo, quan­to mais a noi­te cer­ra­da. Nunca pre­ci­sou de inven­tar lâm­pa­das ou qual­quer outro sis­te­ma de ilu­mi­na­ção, por­que sem­pre obte­ve toda a luz de que neces­si­ta.

Asimov lembrou-​se de escre­ver o con­to quan­do o edi­tor da Astounding Science Fiction lhe mos­trou uma ques­tão lan­ça­da pelo filó­so­fo Ralph Waldo Emerson: «Que acon­te­ce­ria se tivés­se­mos 2050 anos de dia e só então noi­te?»

Asimov deci­diu res­pon­der com uma das melho­res his­tó­ri­as de FC algu­ma vez escri­tas. Quando pela pri­mei­ra vez em 2000 anos se dá um ali­nha­men­to que mer­gu­lha o pla­ne­ta na mais cer­ra­da escu­ri­dão, sem sóis no céu e com as estre­las visí­veis pela pri­mei­ra vez, a civi­li­za­ção fica à bei­ra do caos e da lou­cu­ra, divi­di­da entre o fana­tis­mo reli­gi­o­so e o raci­o­na­lis­mo dos cien­tis­tas.

Que tipo de civi­li­za­ção extra­ter­res­tre pode­ria emer­gir numa super-​Terra per­pe­tu­a­men­te divi­di­da entre a noi­te e o dia? A vida seria, sequer, pos­sí­vel?

O pri­mei­ro a filo­so­far é Paulo Palma Ramos, enge­nhei­ro de soft­ware: «Não será a vida ape­nas uma desig­na­ção para fenó­me­nos quí­mi­cos com­ple­xos? A inte­li­gên­cia huma­na sur­giu quan­do pri­ma­tas frá­geis aumen­ta­ram a capa­ci­da­de de ino­var para resol­ver pro­ble­mas de sobre­vi­vên­cia e pro­ble­mas gera­dos pela pró­pria fan­ta­sia.»

«Gostamos de cri­ar pro­ble­mas para os resol­ver» – con­clui Paulo Ramos, não sen­do cla­ro des­ta vez se esta­va a referir-​se a vida extra­ter­res­tre, sis­te­mas Windows ou se Ecrã Azul da Morte e pro­ble­mas de sobre­vi­vên­cia têm, para ele, o mes­mo sig­ni­fi­ca­do.

Um bilhete para Aldebaran-​4 a quem especular mais

«Por que não exis­ti­rem civi­li­za­ções dis­tin­tas, uma diur­na e outra notur­na?» – Pergunta a jor­na­lis­ta Maria João Pratt enquan­to bebe um copi­nho de vinho bran­co fres­qui­nho para espan­tar o tri­plo calor nos céus. – «Com carac­te­rís­ti­cas quí­mi­cas seme­lhan­tes (com base em car­bo­no, silí­cio, arsé­nio, o que qui­se­rem) e até mes­mo físi­cas. Apresentariam dife­ren­ças adap­ta­ti­vas, por cau­sa do ambi­en­te em que vivem: os que vivem na lumi­no­si­da­de, depen­dem da visão; os que vivem na escu­ri­dão, terão outros sen­ti­dos apu­ra­dos.»

«A exis­tir vida fora da Terra é mais pro­vá­vel que seja base­a­da em car­bo­no do que nou­tra coi­sa qual­quer, pelo sim­ples fac­to de o car­bo­no ter sido cri­a­do pri­mei­ro do que outros ele­men­tos com pro­pri­e­da­des seme­lhan­tes, como o silí­cio» – inter­vém Marco Filipe, Mestrado em Biotecnologia para as Ciências da Saúde. «A vida base­a­da em car­bo­no já teve mui­to mais tem­po para evo­luir do que a hipo­té­ti­ca vida base­a­da em silí­cio.»

O astro­bió­lo­go Carlos Oliveira saco­de a pala­vra civi­li­za­ções como se fos­se uma daque­las mos­cas que nos azu­cri­na os pique­ni­ques na dis­tan­te Terra. «Mas por que raio se pen­sa logo em civi­li­za­ções? É um con­cei­to bas­tan­te antro­po­cên­tri­co».

«Mas não me cho­ca­ria exis­tir vida nes­sas con­di­ções, tal como exis­te aqui na Terra em ambi­en­tes sem luz nenhu­ma e vida em ambi­en­te onde exis­te 24 horas de Sol. E por­que não um tipo de vida e inte­li­gên­cia que não con­se­gui­ría­mos sequer clas­si­fi­car ou reco­nhe­cer como inte­li­gen­te ou mes­mo como vida, à seme­lhan­ça do que suce­de no roman­ce Solaris, do Stanislaw Lem?»

Carlos Oliveira refere-​se ao oce­a­no inte­li­gen­te do pla­ne­ta Solaris – aca­bou de asso­bi­ar uma can­ção de fic­ção cien­tí­fi­ca mui­to agra­dá­vel aos meus ouvi­dos.

O ali­e­ní­ge­na inte­ra­ge de for­ma indi­re­ta com os cien­tis­tas que o ten­tam estu­dar. A um deles faz sur­gir um amor per­di­do: a mulher fale­ci­da há mui­to, ago­ra uma répli­ca per­fei­ta cri­a­da pelo oce­a­no, espe­lho da sua pró­pria memó­ria mas imor­tal e auto-​consciente, dota­da de uma for­ça e resis­tên­cia sobre-​humanas.

Essas répli­cas têm um pro­pó­si­to benig­no ou malig­no? Essa ques­tão faz sequer sen­ti­do? Qual a sua fina­li­da­de? A res­pos­ta não se encon­tra ao alcan­ce da moral huma­na — e é essa ausên­cia de res­pos­ta com sen­ti­do éti­co que, pou­co a pou­co, vai enlou­que­cen­do toda a tri­pu­la­ção.

Vá lá que nes­te pla­ne­ta diur­no pode­mos diva­gar e per­der tem­po à von­ta­de que não há receio que se faça tar­de – ou noi­te, nes­te caso.

Marco Filipe faz sinal para eu esque­cer os admi­rá­veis mun­dos fic­tí­ci­os de Stanislaw Lem por­que ain­da há umas quan­tas decla­ra­ções rele­van­tes que se podem acres­cen­tar. «A vida notur­na, isto é, sem luz solar, é pos­sí­vel, atra­vés de outras for­mas alter­na­ti­vas de obten­ção de ener­gia: a vida teria de basear-​se em qui­mi­os­sín­te­se e não em fotos­sín­te­se– sen­do a pri­mei­ra mui­to menos efi­ci­en­te do que a últi­ma. Acho duvi­do­so que dê ori­gem a civi­li­za­ções», con­si­de­ra.

«Contudo, pode dar-​se o caso de espé­ci­es mais com­ple­xas que evo­luí­ram no lado expos­to ao Sol migra­rem mais tar­de para o lado notur­no, adaptando-​se e viven­do de orga­nis­mos mais sim­ples que pra­ti­cam qui­mi­os­sín­te­se, da mes­ma for­ma que ver­mes e caran­gue­jos migra­ram para as fon­tes hidro­ter­mais para se ali­men­ta­rem de bac­té­ri­as.»

Flutuações quânticas, pois já bebemos muito

Flutuações quânticas

«E limi­ta­mos a vida à bioquí­mi­ca», pare­ce queixar-​se Paulo Palma Ramos. «Não pode­rá exis­tir vida em pro­ces­sos quân­ti­cos ou em plas­ma super­quen­te?»

«E por­que não seres minús­cu­los e inte­li­gen­tes a viver den­tro de um ser vivo?» – per­gun­ta o físi­co José Gonçalves, que este­ve todo este tem­po entre­ti­do com ama­zo­nas ima­gi­ná­ri­as e só ago­ra se lem­brou da ter­tú­lia.

«Tu tens seres minús­cu­los a viver den­tro de ti. Imensos até», expli­ca Carlos Oliveira, com o copo cheio de ceva­da peda­gó­gi­ca. «E há defi­ni­ções de inte­li­gên­cia que entram den­tro daqui­lo que podes con­si­de­rar como inte­li­gen­tes.»

«E se o vírus for um uni­ver­so den­tro de um orga­nis­mo?» – desa­fia Cláudio Tereso, outro infor­má­ti­co que vai ganhan­do cabe­los bran­cos à con­ta de tan­to mexer em lin­gua­gens de pro­gra­ma­ção como o SQL e em fra­meworks como o ASP.NET. – «Melhor! E se o orga­nis­mo for um uni­ver­so den­tro de um vírus?»

«E se o Universo for um vírus den­tro de um orga­nis­mo…» – con­tra­põe José Gonçalves. – «Os bura­cos negros seri­am os anti­cor­pos.»

«Eu sou gaja» – escla­re­ce Maria João Pratt enquan­to sabo­reia umas gam­bas ao alhi­nho, mui­to raras nes­ta região da galá­xia. «Vou mais para uma ver­são galác­ti­ca do Romeu e Julieta. Um tipo da escu­ri­dão apaixona-​se por uma tipa da cla­ri­da­de.»

Estão a ver o que pode acon­te­cer quan­do a cer­ve­ja cir­cu­la livre­men­te em Gliese 667Cc – vinho bran­co, no caso da Maria João? Adivinharam, flu­tu­a­ções quân­ti­cas: tan­to se pode con­ver­sar como des­con­ver­sar e nin­guém con­se­gue pre­ver qual dos esta­dos pre­va­le­ce­rá. Felizmente temos aqui um cava­lhei­ro na mesa que colo­ca esta mal­ta toda na ordem:

«Falta abor­dar um pon­to impor­tan­te», recor­da Pedro Cotrim. «A vida pre­ci­sa de um supor­te líqui­do. Os supor­tes sóli­dos não per­mi­tem movi­men­to às molé­cu­las – às gran­des molé­cu­las, então, nem se fala. Os flui­dos gaso­sos tam­bém não ser­vem como ambi­en­te de géne­se de vida: vola­ti­li­da­de e fal­ta de supor­te. Para mim, a vida tem sem­pre que apa­re­cer num meio aquo­so e nin­guém me con­se­gue con­ven­cer do con­trá­rio.»

Com ou sem ver­mes extra­ter­res­tres num meio ambi­en­te aquo­so, este pla­ne­ta é um mun­do espan­to­so: três sóis bri­lham no céu, mas só o mais fra­co – uma estre­la de clas­se M, uma anã ver­me­lha com pou­co mais de 1,4 por cen­to da lumi­no­si­da­de do nos­so sol – está sufi­ci­en­te­men­te per­to para fazer a dife­ren­ça. As res­tan­tes duas, estre­las de clas­se K, duas anãs laran­ja, são mai­o­res mas encontram-​se mais lon­ge: vis­tas daqui, pare­cem dois sal­pi­cos exce­ci­o­nal­men­te bri­lhan­tes, intru­sas da noi­te que bri­lha­ri­am na Terra com a mag­ni­tu­de de duas luas chei­as.

«O séti­mo exo­pla­ne­ta foi con­fir­ma­do por­que tinha que estar ali para o sis­te­ma ter esta­bi­li­da­de orbi­tal de lon­go pra­zo», expli­ca Manuel Rosa Martins. «Isso e ser uma M-​anã de bai­xa mas­sa indi­ca que o sis­te­ma pode ser velhi­nho, ter cer­ca de 10 mil milhões de anos».

É a pri­mei­ra vez que des­co­bri­mos três pla­ne­tas na zona habi­tá­vel, o que sig­ni­fi­ca que dora­van­te os astró­no­mos pode­rão pro­cu­rar pla­ne­tas habi­tá­veis numa úni­ca estre­la na espe­ran­ça de des­co­brir vári­os, como acon­te­ce aqui, em vez de ras­tre­ar dez estre­las à pro­cu­ra de um úni­co.

Independentemente do que pos­sa­mos vir a des­co­brir em Marte, no pro­vá­vel oce­a­no sub­ter­râ­neo da lua Europa ou nos exo­pla­ne­tas con­si­de­ra­dos habi­tá­veis, a vida emer­ge à míni­ma opor­tu­ni­da­de e nem pre­ci­sa­mos de per­cor­rer impos­si­bi­liões de qui­ló­me­tros para des­co­brir as mais bizar­ras:

«Os extre­mó­fi­los, seres vivos aqui mes­mo no nos­so pon­to azul cla­ro, vivem em con­di­ções há uns anos con­si­de­ra­das com­ple­ta­men­te impos­sí­veis para a exis­tên­cia de vida», lem­bra Ricardo Cardoso Reis. «Por exem­plo, ao lar­go da cos­ta dos Açores exis­te uma fau­na extre­ma­men­te rica à vol­ta das fon­tes hidro­ter­mais, ou seja, seres vivos que pros­pe­ram a tem­pe­ra­tu­ras de 400 graus num meio cheio de enxo­fre».

Um brin­de à vida, então – que flo­res­ça em paz, aqui e em todos os pla­ne­tas do Universo.

Marco Santos

­Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?