Os OVNI são Objetos Voadores Não Identificados – algu­ma coi­sa que vemos no céu e não con­se­gui­mos iden­ti­fi­car ime­di­a­ta­men­te em alguns segun­dos ou minu­tos de obser­va­ção. (Neste arti­go fala­rei ape­nas de obser­va­ções ver­da­dei­ras, cla­ro, por­que os pou­cos casos em que as pes­so­as men­tem não pre­ci­sam de cla­ri­fi­ca­ção.)

Os OVNI são reais, pois quem obser­va o céu tem algu­ma pro­ba­bi­li­da­de de ver obje­tos duran­te um bre­ve momen­to que não con­se­gue iden­ti­fi­car ime­di­a­ta­men­te. Essa pro­ba­bi­li­da­de de ver um OVNI é supe­ri­or em pes­so­as que sejam obser­va­do­ras oca­si­o­nais do céu, já que terão mai­or difi­cul­da­de em iden­ti­fi­car saté­li­tes, iri­dium fla­res ou pla­ne­tas, por exem­plo. Mesmo obser­va­do­res expe­ri­en­tes, con­tu­do, podem ver algo momen­ta­ne­a­men­te que não são capa­zes de iden­ti­fi­car na hora.

Como dis­tin­guir algo que não con­se­gui­mos iden­ti­fi­car (OVNI), de algo que rotu­la­mos de nave extra­ter­res­tre (NE)?

Bem, se não sabe­mos o que é o obje­to, então não pode­mos rotulá-​lo como se sou­bés­se­mos o que é. É Não-​Identificado ou então está Identificado como NE. São duas coi­sas dife­ren­tes.

Por outro lado, afir­mar que é uma nave extra­ter­res­tre, o tre­nó do Pai Natal, um uni­cór­nio voa­dor ou um anjo, é apre­sen­tar o mes­mo tipo de res­pos­ta: uma expli­ca­ção reli­gi­o­sa, base­a­da numa cren­ça. É só um rótu­lo.

Mas se não sabe­mos o que é – e por isso não pode­mos cri­ar um rótu­lo – então como pode­mos dizer o que não é? A ver­da­de é que não só pode­mos, como uti­li­za­mos esta estra­té­gia inú­me­ras vezes ao dia sem nos aper­ce­ber­mos.

Neste post, eu apre­sen­tei este exem­plo:

Quanto é 45990567193478038362 vezes 85873201875659024?

Vamos supor que eu não pos­so usar cal­cu­la­do­ras e tenho que fazer a con­ta de cabe­ça em dois minu­tos. Eu não sei qual é a res­pos­ta cer­ta: não sei tudo! Mas sei quais são as res­pos­tas erra­das. Sei que a res­pos­ta não é 1 ou 2 ou 3 ou 4 ou 5 ou 6 ou 7, e por aí adi­an­te. Sei o sufi­ci­en­te: sei pra­ti­ca­men­te uma infi­ni­da­de de res­pos­tas que são erra­das.

Assim, ape­sar de não poder­mos dizer o que é, pode­mos dizer o que não é.

Neste caso dos OVNI há 3 tru­ques que se uti­li­zam para afe­rir a situ­a­ção e poder colo­car de lado a hipó­te­se nave extra­ter­res­tre.

1  Se o relato da observação refere um disco voador

Quando alguém rela­ta a obser­va­ção de um dis­co voa­dor, o mais pro­vá­vel é que este­ja a incu­tir um pon­to ao con­to, mes­mo que incons­ci­en­te­men­te.

Disco voador

Flying Saucer, de Daniele Gay @DeviantArt

A ideia de dis­co voa­dor faz par­te da nos­sa cul­tu­ra moder­na e da nos­sa psi­que, mas teve ori­gem no erro de um jor­na­lis­ta.

A ideia de dis­co voa­dor nas­ceu com Kenneth Arnold em 1947, mas ele não viu dis­cos voa­do­res. O jor­na­lis­ta, a rela­tar a obser­va­ção, enganou-​se e refe­riu a expres­são dis­co voa­dor. A par­tir des­se momen­to, essa ima­gem que as naves extra­ter­res­tres têm que ser dis­cos voa­do­res pas­sou a entrar nas nos­sas casas e nas nos­sas cabe­ças em pra­ti­ca­men­te tudo que vemos, des­de cai­xas de cere­ais (com ima­gens de visi­tan­tes extra­ter­res­tres) até aos fil­mes de Hollywood. Essa ideia erra­da de nave extra­ter­res­tre entrou-​nos na psi­que, e pas­sou a estar assumida/​encravada na nos­sa men­te.

Quando alguém rela­ta a obser­va­ção de um dis­co voa­dor, o mais pro­vá­vel é que este­ja a incu­tir um pon­to ao con­to, mes­mo que incons­ci­en­te­men­te. Ou seja, a pró­pria pes­soa “jun­ta os pon­tos”, pen­san­do ter vis­to um dis­co voa­dor por­que é isso que é “espe­ra­do”.

Uma obser­va­ção com “dis­cos voa­do­res” mos­tra evi­dên­ci­as de “acul­tu­ra­ção”, mas não de naves extra­ter­res­tres.

2 Se o relato inclui OVNI com luzes

Civilizações extra­ter­res­tres que habi­tem pla­ne­tas que orbi­tem anãs ver­me­lhas mui­to pro­va­vel­men­te uti­li­za­rão com­pri­men­tos de onda dife­ren­tes da luz visí­vel

Encontros Imediatos de 3º Grau

A lumi­no­sa nave extra­ter­res­tre de «Encontros Imediatos de 3º Grau»

Ter um veí­cu­lo com luz para andar no espa­ço é per­fei­ta­men­te des­ne­ces­sá­rio. Pior do que isso, é um des­per­dí­cio de ener­gia. A luz no veí­cu­lo não ser­ve para nada para quem via­ja entre estre­las. Mas ser­vi­rá para quan­do se che­ga a um pla­ne­ta? Também não.

Nós, que não con­se­gui­mos via­jar entre estre­las, já per­ce­be­mos que a luz visí­vel é um ínfi­ma par­te do espec­tro ele­tro­mag­né­ti­co, e que nos dá infor­ma­ção redu­zi­da. Daí que nós pró­pri­os temos teles­có­pi­os espa­ci­ais que veem nou­tros com­pri­men­tos de onda (ex: luz infra­ver­me­lha), pre­ci­sa­men­te por­que reti­ram mui­to mais infor­ma­ção daqui­lo que obser­vam.

Daí que, assu­mir que os extra­ter­res­tres são tão avan­ça­dos para via­jar entre estre­las, mas são tão estú­pi­dos para uti­li­za­rem faróis que não lhes ser­vem para nada, é uma imbe­ci­li­da­de. Nenhuma civi­li­za­ção extra­ter­res­tre uti­li­za­rá luz visí­vel como “faróis”.

O inter­va­lo de radi­a­ção de luz visí­vel é bas­tan­te limi­ta­do e nós pró­pri­os, mes­mo sem ser cien­tis­tas, per­ce­be­mos isso: por exem­plo, não con­se­gui­mos ver de noi­te nem sequer con­se­gui­mos ver atra­vés de pare­des. Mas exis­tem com­pri­men­tos de onda no espec­tro ele­tro­mag­né­ti­co que nos per­mi­tem fazer isso. Existem mes­mo ani­mais na Terra que uti­li­zam outros com­pri­men­tos de onda, por­que é mui­to mais van­ta­jo­so do que uti­li­zar a limi­ta­da luz visí­vel usa­da pelos olhos huma­nos.

Na ver­da­de, seres extra­ter­res­tres pro­va­vel­men­te nem usam a luz visí­vel. A gran­de mai­o­ria das estre­las no Universo são anãs ver­me­lhas, e estas tam­bém são as que “vivem” mais tem­po (logo, dão mais tem­po para a evo­lu­ção); sen­do assim, é mais pro­vá­vel que seres cons­ci­en­tes se desen­vol­vam pre­fe­ren­ci­al­men­te ao redor des­sas estre­las; civi­li­za­ções extra­ter­res­tres que habi­tem pla­ne­tas que orbi­tem anãs ver­me­lhas mui­to pro­va­vel­men­te uti­li­za­rão com­pri­men­tos de onda dife­ren­tes da luz visí­vel (por­que a sua estre­la emi­te mai­or radi­a­ção nes­ses com­pri­men­tos de onda). Se a bio­lo­gia os favo­re­ce com outros com­pri­men­tos de onda (ex: luz infra­ver­me­lha ou luz ultra­vi­o­le­ta) e sen­do esses com­pri­men­tos de onda menos limi­ta­ti­vos que a luz visí­vel, seria uma imbe­ci­li­da­de usa­rem nas suas naves “faróis” de luz visí­vel que lhes dá menos infor­ma­ção do que os com­pri­men­tos de onda a que esta­rão mais habi­tu­a­dos.

Por tudo isto, um rela­to que inclua luz nos tais OVNI é uma evi­dên­cia de acul­tu­ra­ção (algo que se vê nos fil­mes e pensa-​se que será assim) ou de tec­no­lo­gia huma­na (aviões ou heli­cóp­te­ros ou balões LED, por exem­plo) ou então de obje­tos natu­rais (como estre­las ou pla­ne­tas). Não é cer­ta­men­te uma nave de uma civi­li­za­ção avan­ça­da extra­ter­res­tre.

3 Se existe uma observação de um OVNI, então não é nave extraterrestre

Se vêm cá para se escon­de­rem, então terão cer­ta­men­te tec­no­lo­gia que lhes per­mi­ta ficar invi­sí­veis: é fácil, só tem a ver com mani­pu­la­ção da luz/​radiação

Centro da nossa galáxia

Visão pano­râ­mi­ca em infra­ver­me­lho do cen­tro da nos­sa galá­xia | NASA/ESA/Q.D. Wang

Estamos a cer­ca de 10 anos de ter aqui­lo que se cha­ma de man­to de invi­si­bi­li­da­de. Qualquer civi­li­za­ção extra­ter­res­tre que via­je entre estre­las esta­rá cen­te­nas ou milha­res de anos à nos­sa fren­te. É impos­sí­vel saber qual será a sua tec­no­lo­gia, mas garan­to que se vêm cá para se escon­de­rem, então terão cer­ta­men­te tec­no­lo­gia que lhes per­mi­ta ficar invi­sí­veis: é fácil, só tem a ver com mani­pu­la­ção da luz/​radiação. Se nós pró­pri­os já vamos ter invi­si­bi­li­da­de daqui por alguns anos, quais­quer civi­li­za­ções que desen­vol­ve­ram naves inte­res­te­la­res (que nós ain­da não temos) tam­bém terão essa tec­no­lo­gia.

Supondo que civi­li­za­ções avan­ça­das extra­ter­res­tres nos visi­tam e não que­rem que sai­ba­mos delas, então garan­to que não ire­mos saber delas – serão invi­sí­veis para nós, tal como em Star Trek. Poderão exis­tir milha­res delas a rode­ar o nos­so pla­ne­ta nes­te momen­to e nós não as con­se­gui­mos ver com os nos­sos olhos.
Assim, qual­quer obser­va­ção visu­al de um OVNI é, logo à par­ti­da, uma evi­dên­cia de que não esta­mos na pre­sen­ça de uma nave extra­ter­res­tre (a não ser, cla­ro, que assu­ma­mos que eles são tão inte­li­gen­tes e avan­ça­dos para via­ja­rem entre estre­las, e ao mes­mo tem­po são tão estú­pi­dos e igno­ran­tes que nem se sabem escon­der de nós).

Como não deve­mos ser xenó­fo­bos em rela­ção a civi­li­za­ções avan­ça­das extra­ter­res­tres e como deve­mos ser raci­o­nais e lógi­cos a ana­li­sar as diver­sas situ­a­ções que se nos depa­ram, então temos que con­cluir que obser­var um OVNI é evi­dên­cia de um obje­to que não per­ten­ce a qual­quer civi­li­za­ção extra­ter­res­tre avan­ça­da.

Com estes três tru­ques, evi­ta­mos cair ime­di­a­ta­men­te nas cren­ças habi­tu­ais que pulu­lam o uni­ver­so dos OVNI.

Carlos Oliveira

­ Carlos Oliveira

Doutorado em Educação Científica. Criou e lecionou uma disciplina de Astrobiologia na Universidade do Texas. Coordenador do AstroPT.