Faz sen­ti­do que para o lan­ça­men­to des­ta rubri­ca de entre­vis­tas tenha esco­lhi­do um astró­no­mo.

«Lançamento» é uma pala­vra cara a todos aque­les que se inte­res­sam pelos mis­té­ri­os do Cosmos: das mis­sões Apollo ao Hubble, das son­das Viking aos robôs que explo­ram a super­fí­cie mar­ci­a­na, as suas his­tó­ri­as mediá­ti­cas come­ça­ram sem­pre com a notí­cia de um lan­ça­men­to bem suce­di­do em direc­ção ao Espaço.

Também o astro­bió­lo­go e edu­ca­dor cien­tí­fi­co Carlos Oliveira, 37 anos, teve o seu cru­ci­al momen­to de lan­ça­men­to, quan­do em 2001 (outra data mar­can­te do cine­ma de fic­ção cien­tí­fi­ca) voou sobre o Oceano Atlântico para ir tra­ba­lhar nos Estados Unidos, no Maryland Science Center, em Baltimore, duran­te 5 meses. Em 2003, já esta­va na Universidade do Texas, em Austin.

Diz ter saí­do de Portugal por que­rer ir para um país onde fos­se dada a «opor­tu­ni­da­de de mudar as coi­sas e fazer­mos o que que­re­mos, evo­luir­mos, tra­zer­mos ori­gi­na­li­da­de à área que gos­ta­mos.»

Não escon­de o orgu­lho em rela­ção aos seus fei­tos aca­dé­mi­cos. Na pági­na de per­fil dos cola­bo­ra­do­res do blo­gue de Astronomia Astro.PT, o por­tu­guês Carlos Oliveira reve­la ser o cri­a­dor e pro­fes­sor de um «ino­va­dor» cur­so de Astrobiologia na Universidade ame­ri­ca­na. A pági­na pode ser con­sul­ta­da aqui. É o pri­mei­ro da lis­ta.

Quis ir para «um sítio onde se ava­li­as­sem objec­ti­va­men­te as pes­so­as, pelo seu méri­to – em vez da medi­o­cri­da­de do fac­tor cunha.» Saiu, enfim, por uma ques­tão de men­ta­li­da­de: «Não me revia na men­ta­li­da­de fecha­da, nega­ti­va, de cons­tan­tes quei­xas, que exis­te em Portugal».

A expe­ri­ên­cia está a cor­rer mui­to bem. Carlos Oliveira não se tor­nou «um estra­nho numa ter­ra estra­nha», como o mar­ci­a­no da nove­la de fic­ção cien­tí­fi­ca de Robert H. Heinlein. Os acor­des do fado-​saudade tam­bém não lhe cau­sam espe­ci­al res­so­nân­cia no cére­bro: é um emi­gran­te por­tu­guês, mas a sua casa é o Cosmos – não pen­sa sequer vol­tar para Portugal.

Tenciona sair dos EUA no pró­xi­mo ano, «ter uma expe­ri­ên­cia dife­ren­te nou­tro país». Quando che­gar o momen­to de regres­sar, o des­ti­no será nova­men­te os Estados Unidos. Porque a vida pes­so­al «não tem sido tra­di­ci­o­nal», con­ti­nua sol­tei­ro. «Talvez daqui a cin­co anos as coi­sas sejam total­men­te dife­ren­tes».

Nesta entre­vis­ta, Carlos Oliveira dis­cu­te as fron­tei­ras do Universo, a teo­ria dos Multiversos, Matéria Negra, Energia Negra, os limi­tes da velo­ci­da­de da luz, os gra­vi­tões, o Big Bang, as des­co­ber­tas da Física Quântica, a bus­ca por vida extra­ter­res­tre, a Ficção Científica, os OVNI, a Astrologia e Deus.

Oliveira é um homem direc­to e asser­ti­vo – nas suas res­pos­tas não há espa­ço para flo­re­a­dos diplo­má­ti­cos. As opi­niões inco­mo­dam, isto é, desa­fi­am.

«Eu não gosto de diversas teorias científicas»

Georges Lemaître

Georges Lemaître – padre cató­li­co, pro­fes­sor de Física e Astronomia, cri­a­dor da Teoria do Big Bang – com Albert Einstein.

O Telescópio Espacial Hubble des­co­briu o objec­to mais dis­tan­te jamais vis­to, uma galá­xia for­ma­da quan­do o Universo era um jovem com ape­nas 480 milhões de anos. Em 2014, o Telescópio Espacial James Webb, suces­sor do Hubble, con­se­gui­rá cap­tar a ima­gem das pri­mei­ras galá­xi­as que se for­ma­ram. Até quan­do pode­re­mos recu­ar no tem­po? Qual o limi­te abso­lu­to a par­tir do qual já não pode­re­mos obser­var mais nada?

Carlos Oliveira – Supostamente seria o Tempo de Planck: 10^-43 segun­dos após o Big Bang.

No entan­to, o Universo foi «opa­co» duran­te mui­to tem­po, cheio de plas­ma ioni­za­do. Só depois dis­so ficou «trans­pa­ren­te», ou seja, pas­sí­vel de ser vis­to. Podemos pen­sar num limi­te tal­vez de cer­ca de 380 mil anos após o Big Bang. No entan­to, o Universo nes­ta altu­ra seria «negro»… Ainda lhe fal­ta a luz que é dada pelas estre­las.

As galá­xi­as tal­vez se tenham for­ma­do 200 milhões de anos após o Big Bang. O Telescópio Espacial James Webb, se con­se­guir che­gar a estas, já será exce­len­te.

A teo­ria do Multiverso segun­do a qual o Espaço-​Tempo abar­ca não ape­nas o nos­so Universo, mas uma série deles, era vis­ta como um con­cei­to de Ficção Científica. As des­co­ber­tas quân­ti­cas e a Teoria da Relatividade pare­cem demons­trar que, afi­nal, é mes­mo pos­sí­vel que exis­tam múl­ti­plos uni­ver­sos. Qual é a sua opi­nião sobre o assun­to?

C. O. – Eu não gos­to de diver­sas teo­ri­as cien­tí­fi­cas. Sigo o Princípio da Mediocridade, segun­do o qual somos insig­ni­fi­can­tes no Universo. Não somos o cen­tro, nem sequer somos espe­ci­ais.

Devido a isso, há vári­as idei­as e teo­ri­as de que não gos­to.

Exemplos:

SETI – ape­sar de reco­nhe­cer o papel que o SETI teve no desen­vol­vi­men­to de com­pu­ta­do­res e rádio-​telescópios, não gos­to da sua filo­so­fia. Tanto o SETI como outras áre­as da astro­bi­o­lo­gia sofrem da fal­ta de ima­gi­na­ção de esta­rem à pro­cu­ra de huma­nos no espa­ço! Não pro­cu­ram extra­ter­res­tres, mas sim huma­nos, com o mes­mo tipo de raci­o­cí­nio, a mes­ma mate­má­ti­ca, o mes­mo desen­vol­vi­men­to, a mes­ma tec­no­lo­gia, etc.

Quântica – tenho a ideia de Einstein, de que exis­te algo «mais abai­xo» (mais pro­fun­do) que expli­ca­rá as apa­ren­tes pro­ba­bi­li­da­des da Quântica. Por outro lado, não gos­to da for­ma como as obser­va­ções depen­dem do obser­va­dor (de nós), por­que, nova­men­te, é pôr-​nos no cen­tro do Universo, ser­mos mui­tos espe­ci­ais.

Big Bang – reco­nhe­ço as evi­dên­ci­as cien­tí­fi­cas para esta teo­ria, mas não gos­to dela, sobre­tu­do por­que foi pen­sa­da por um padre que que­ria encon­trar o momen­to em que Deus cri­ou o Universo. Como não gos­to de moti­vos reli­gi­o­sos (por­que nos põem no cen­tro da aten­ção de «alguém», assu­min­do que somos espe­ci­ais e mui­to impor­tan­tes no Universo), então toda a teo­ria, para mim, sofre des­sa falha.

Multiverso – a ideia do Multiverso nas­ceu da fal­sa noção de que se só exis­te este Universo, então ele está fei­to para nós: as suas pro­pri­e­da­des físi­cas estão fei­tas para a nos­sa exis­tên­cia. Ou seja, sofre do mes­mo pro­ble­ma dos exem­plos aci­ma.

Carlos OliveiraO Universo não quer saber do que eu pen­so e das minhas filo­so­fi­as. Os resul­ta­dos cien­tí­fi­cos nem sem­pre são aque­les que eu gos­to

Se o Universo fos­se dife­ren­te, pode­ria haver vida total­men­te dife­ren­te da nos­sa, e se calhar essa vida esta­ria a pen­sar que o Universo foi fei­to para ela, e que o seu mun­do esta­va no cen­tro do Universo. No entan­to, isto é algo que nem sequer é ima­gi­na­do por quem pen­sa que o Universo está fei­to para nós. Ora, para con­tra­ba­lan­çar esta ideia ini­ci­al de que o Universo está fei­to para nós, então imaginou-​se que este seria só um de mui­tos uni­ver­sos, e daí que não havia nada de espe­ci­al nele. O que eu pen­so é que a ideia ini­ci­al está erra­da, logo não é pre­ci­so con­tra­ba­lan­çar nada.

Sempre que pen­so nes­tas coi­sas lembro-​me das pala­vras de Xenophanes. Este filó­so­fo gre­go, que viveu cer­ca de 100 anos, dizia há mais de 2500 anos que se as vacas e os cava­los con­se­guis­sem dese­nhar, ima­gi­na­ri­am deu­ses à sua ima­gem. Hoje, ele diria o mes­mo dos extra­ter­res­tres da fic­ção cien­tí­fi­ca, por exem­plo. Ou seja, temos sem­pre a incrí­vel mania de ima­gi­nar que os outros são como nós. E porquê? Porque nos acha­mos o que de mais impor­tan­te exis­te, por isso os outros têm que ser como nós. O mes­mo se pas­sa nes­tes exem­plos que colo­quei em cima, incluin­do na ideia ini­ci­al para o Multiverso.

Finalizo dizen­do algo que me pare­ce que é bas­tan­te impor­tan­te para aqui: isto são somen­te opi­niões minhas. É somen­te a minha filo­so­fia para a vida e para o uni­ver­so.

E uma das coi­sas que já apren­di nes­tes 37 anos, é que o Universo não quer saber do que eu pen­so e das minhas filo­so­fi­as. Os resul­ta­dos cien­tí­fi­cos nem sem­pre são aque­les que eu gos­to. E são esses resul­ta­dos que con­tam, e não o que eu pen­so.

Estamos sós?

Alien Thinker, Lele1988

Alien Thinker, Lele1988

Admitindo que a tota­li­da­de do Espaço-​Tempo é cons­ti­tuí­da por múl­ti­plos uni­ver­sos, isso dei­xa o Homem numa posi­ção ain­da mais insig­ni­fi­can­te no Cosmos. Até ver, somos a úni­ca espé­cie inte­li­gen­te no Universo, a úni­ca que desen­vol­veu cons­ci­ên­cia; não o per­tur­ba veri­fi­car quão irre­le­van­tes somos ver­da­dei­ra­men­te?

C. O. – Pelo con­trá­rio.

Acho ver­da­dei­ra­men­te feno­me­nal ser­mos insig­ni­fi­can­tes, irre­le­van­tes, no Universo.

A mai­or par­te das pes­so­as no mun­do pen­sa que é tão impor­tan­te no Universo que tem alguém sem­pre mui­to aten­to a ela (seja Deus, ou ET’s que pilo­tam OVNIs). A cren­ça em OVNI’s não é mais do que uma reli­gião (como pro­vou George Adamski).

Parece-​me um pro­ble­ma de ego que leva à estag­na­ção, por­que todas as res­pos­tas podem ser dadas por quem está «aci­ma de nós» (seja Deus ou ET’s avan­ça­dos). Alguém dis­se: «Give a man a fish, and you’ll feed him for a day; give him a reli­gi­on, and he’ll star­ve to death whi­le praying for a fish.»

(«Dê um pei­xe a um homem e você alimentá-​lo-​á por um dia; dê-​lhe uma reli­gião e ele mor­re­rá de fome enquan­to reza por um pei­xe»)

Arthur C. Clarke, no seu livro Profiles of the Future, abor­dou o mes­mo tema dizen­do que os huma­nos deve­ri­am pro­gre­dir, arris­car, avan­çar: «A bil­li­on mil­li­on years ago the more con­ser­va­ti­ve fishes said exac­tly the same to their amphi­bi­an rela­ti­ons: ‘Existence on dry land bears not the remo­test resem­blan­ce to fishy like under water. We shall stay whe­re we are’. And that is what they did. This is why they are still fishes».

(«Há mil milhões de anos, os pei­xes mais con­ser­va­do­res dis­se­ram exac­ta­men­te o mes­mo aos seus paren­tes anfí­bi­os: ‘A exis­tên­cia nas ter­ras secas não terá a mais remo­ta seme­lhan­ça com a da vida aquá­ti­ca. Fiquemos onde esta­mos’ E foi o que fize­ram. Por isso ain­da hoje são pei­xes»)

Ou seja, podem ser insig­ni­fi­can­tes pei­xes, mas se arris­ca­rem, se avan­ça­rem, pode­rão evo­luir imen­so e che­gar lon­ge. A outra hipó­te­se será con­ti­nu­a­rem no mes­mo sítio, estag­na­dos, à espe­ra que «alguém faça algo acon­te­cer», sem eles pró­pri­os faze­rem nada por isso.

Eu sigo a ideia do «sonho ame­ri­ca­no»: alguém insig­ni­fi­can­te con­se­guir che­gar lon­ge. Como acon­te­ceu com os men­to­res do Google, Microsoft, Facebook ou Twitter.

O mes­mo espe­ro para o futu­ro da huma­ni­da­de: alguém total­men­te insig­ni­fi­can­te no Universo con­se­guir não só des­co­brir os segre­dos des­se Universo, mas até se espa­lhar por ele.

Há muito, muito tempo, numa galáxia muito, muito distante

Lado Negro da Energia

Não subes­ti­mes o Lado Negro da Energia, Luke

O físi­co dina­marquês Niels Bohr afir­mou o seguin­te: só quem não com­pre­en­de as impli­ca­ções das des­co­ber­tas quân­ti­cas não fica cho­ca­do com elas. O que o cho­ca mais na Física Quântica?

C. O. – Ia para dizer tudo… mas se quer só uma carac­te­rís­ti­ca, então será o «entan­gle­ment». Como é que uma par­tí­cu­la pode «saber» ins­tan­ta­ne­a­men­te as carac­te­rís­ti­cas de outra par­tí­cu­la no outro lado do Universo, é algo que pare­ce uma ideia «pseu­do». Mesmo Einstein chamou-​lhe: «spo­oky acti­on at a dis­tan­ce» [acção fan­tas­ma­gó­ri­ca à dis­tân­cia]

É algo que me cho­ca pro­fun­da­men­te! E daí que, para mim, seja algo sim­ples­men­te fan­tás­ti­co e geni­al!

Quando con­se­guir­mos per­ce­ber com­ple­ta­men­te essa carac­te­rís­ti­ca, o Universo nun­ca mais será o mes­mo. Tenho a impres­são de que mui­to do que sabe­mos hoje será dei­ta­do ao cai­xo­te do lixo…

Será que você vai ser a pes­soa a con­se­guir fazer-​nos enten­der a nós, lei­gos, o que raio é a Matéria Negra e por que razão é tão impor­tan­te?

C. O. – A maté­ria negra é algo nor­mal. É maté­ria nor­mal, mas que não con­se­gui­mos ver (detec­tar). Só detec­ta­mos os seus efei­tos gra­vi­ta­ci­o­nais na maté­ria a que cha­ma­mos de nor­mal.

Parece-​me que a des­co­ber­ta das par­tí­cu­las que for­mam a maté­ria negra será um anti-​clímax, por­que na rea­li­da­de é sim­ples­men­te algo que para já não con­se­gui­mos detec­tar mas que é “nor­mal”.

Dou-​lhe um exem­plo: o Sol, como qual­quer estre­la, emi­te radi­a­ção. Essa radi­a­ção pode, por exem­plo, ser em for­ma de luz visí­vel, e vemos o Sol. Não vemos a radi­a­ção infra­ver­me­lha, mas sabe­mos que ela exis­te por­que vemos os seus efei­tos (calor). Não vemos a radi­a­ção ultra­vi­o­le­ta, mas sabe­mos que ela exis­te por­que vemos os seus efei­tos (can­cro da pele).

Ou seja, não vemos diver­sos tipos de radi­a­ção, mas sabe­mos que eles exis­tem por­que vemos os seus efei­tos. Mas a radi­a­ção, em dife­ren­tes com­pri­men­tos de onda, é algo nor­mal e que faz par­te do espec­tro elec­tro­mag­né­ti­co.

É impor­tan­te para con­se­guir­mos com­pre­en­der o todo.

Existe mais maté­ria negra que maté­ria «visí­vel», por isso é impor­tan­te com­pre­en­der­mos a mai­or par­te da maté­ria do Universo.
Da mes­ma for­ma que se só com­pre­en­de­mos a luz visí­vel, esta­ría­mos limi­ta­dos a um peque­no espa­ço do espec­tro elec­tro­mag­né­ti­co sem con­se­guir­mos com­pre­en­der o res­to, e o todo.

Se a per­gun­ta fos­se sobre Energia Negra, aí já seria mais com­pli­ca­do…

Considere esta per­gun­ta uma for­ma de lhe com­pli­car a vida! Pode falar-​nos um pou­co sobre essa mis­te­ri­o­sa Energia Negra?

C. O. – Supostamente, a ener­gia negra é uma ener­gia que fun­ci­o­na de modo con­trá­rio à gra­vi­da­de: é repul­si­va, e está a expan­dir o Universo.

Como está a expan­dir o Universo no seu todo, então não tem que seguir as regras «den­tro do Universo». Exemplo: den­tro do Universo temos o limi­te de velo­ci­da­de que é a velo­ci­da­de da luz no vácuo (actu­al­men­te pensa-​se em C como uma bar­rei­ra e não como um limi­te, mas essa é outra his­tó­ria). Ora, para o todo do Universo esse limi­te não exis­te, por isso o Universo pode per­fei­ta­men­te expandir-​se a velo­ci­da­des supe­ri­o­res à da luz, como pelos vis­tos faz.

O pro­ble­ma da Energia Negra é que não sabe­mos o que é.

Na ver­da­de, não sabe­mos nada!

Ideias e teo­ri­as não fal­tam. Possíveis solu­ções abun­dam.

Respostas é que nem vê-​las.

Não se sabe o que é, nem sequer se sabe se é uma for­ça (curi­o­sa­men­te, eu tam­bém digo que a gra­vi­da­de não é uma for­ça, mas essa é outra his­tó­ria), nem sequer se é negra, nem sequer se é ener­gia! Este é um assun­to em que a nos­sa igno­rân­cia é mui­to supe­ri­or ao nos­so conhe­ci­men­to.

Para a Energia Negra assume-​se que o Universo se está a expan­dir… mas há quem ache que não está! Por exem­plo, há cien­tis­tas que pen­sam que é o Tempo que está a abran­dar. O pró­prio Hubble, que des­co­briu que os gru­pos de galá­xi­as «fugi­am» de nós, não enve­re­dou por dizer que isso era fru­to de que o Universo se esta­va a expan­dir.

Claramente esta­mos num ter­re­no em que não sabe­mos o que pen­sar…

Até por­que esta­mos a falar do Universo Observável… e não real­men­te no Universo no seu todo, e nin­guém sabe o que have­rá para lá do Universo Observável…

E a pró­pria divul­ga­ção des­ta ideia, incluin­do com os dia­gra­mas da NASA, não aju­da nada, por­que reflec­tem con­cep­ções erra­das. É caso des­ta famo­sa ima­gem fei­ta pela NASA, como expli­quei aqui.

Olhando para uma pers­pec­ti­va his­tó­ri­ca sobre «coi­sas que não sabía­mos», vemos isto (alguns exem­plos):

percebeu-​se dis­cre­pân­ci­as na órbi­ta de Úrano. Em 1 ano, descobriu-​se Neptuno, ou seja, algo (pla­ne­ta) que já conhe­cía­mos em síti­os que sabe­mos exis­tir. Ou seja, em 1 ano descobriu-​se mais daqui­lo que já sabía­mos (pla­ne­tas) – «more stuff»;

percebeu-​se dis­cre­pân­ci­as na estre­la Sirius. Em 20 anos descobriu-​se a sua com­pa­nhei­ra anã. Não se sabia o que eram anãs bran­cas, mas é algo que vem de algo que já conhe­ce­mos (estre­las). Ou seja, demorou-​se 20 anos para se des­co­brir novas coi­sas, algo dife­ren­te, mas base­a­do em algo que já conhe­cía­mos – «dif­fe­rent stuff»;

percebeu-​se dis­cre­pân­ci­as na órbi­ta de Mercúrio. Pensou-​se, como em cima, que seria um pla­ne­ta mais per­to do Sol a pro­vo­car isso, e chamou-​se Vulcan a esse pla­ne­ta. No entan­to, essa expli­ca­ção esta­va erra­da por­que nun­ca se encon­trou esse pla­ne­ta. Mas em 70 anos, Einstein expli­cou o porquê des­sas dis­cre­pân­ci­as na órbi­ta de Mercúrio, com uma nova teo­ria da gra­vi­da­de. Ou seja, demo­rou 70 anos para se expli­car essas dis­cre­pân­ci­as e teve que se cri­ar uma nova físi­ca (Relatividade) para isso – «new phy­sics».

Ora, a ideia de que o Universo está a expan­dir e que exis­te uma for­ça repul­si­va res­pon­sá­vel por essa expan­são já tem mui­tas déca­das. Olhando para essa lição his­tó­ri­ca, então pen­so que a res­pos­ta para o que é a Energia Negra está numa Nova Física, algo com­ple­ta­men­te dife­ren­te daqui­lo que pen­sa­mos actu­al­men­te.

Carlos OliveiraPode-​se espe­rar que por todo o Universo, e nas con­di­ções mais adver­sas, pos­sa exis­tir vida sim­ples. Mas vida com­ple­xa será rara, e vida inte­li­gen­te ain­da mais

No entan­to, ten­do em con­ta que se calhar tere­mos que saber o que se pas­sa na par­te do Universo que nem sabe­mos o que é, por­que não é Universo Observável, então a res­pos­ta para este mis­té­rio torna-​se pra­ti­ca­men­te «impos­sí­vel». A ver­da­de é que há imen­so Universo para lá daqui­lo que con­se­gui­mos observar/​detectar.

Concluindo, eu sou da opi­nião do cos­mó­lo­go Karl Gebhardt: não sabe­mos.

«Actualmente pensa-​se na velo­ci­da­de da Luz como uma bar­rei­ra e não como um limi­te, mas essa é outra his­tó­ria». «A gra­vi­da­de não é uma for­ça, mas essa é outra his­tó­ria». Pelas minhas con­tas, já são duas his­tó­ri­as por con­tar.

C. O. – Taquiões. Pensa-​se que pode­rão exis­tir par­tí­cu­las que via­jam mais rápi­do que a luz. Ou seja, é pos­sí­vel via­jar abai­xo de C, mas não ultra­pas­sar essa bar­rei­ra. E pode­rá ser pos­sí­vel via­jar aci­ma de C, mas não abran­dar ao pon­to de pas­sar «para bai­xo» des­sa bar­rei­ra. C não será um limi­te, mas sim uma bar­rei­ra.

Einstein dis­se que a Gravidade é uma pro­pri­e­da­de do espaço-​tempo… ou seja, será sim­ples­men­te uma pro­pri­e­da­de no teci­do do espaço-​tempo. Não me pare­ce que será uma for­ça no sen­ti­do con­ven­ci­o­nal do ter­mo. Logo, para mim, não exis­ti­rão os famo­sos gra­vi­tões que tan­ta gen­te anda à pro­cu­ra…

Kevin Spacey

Kevin Spacey no fil­me de cul­to K-​Pax

Se pudes­se embar­car na «nave da ima­gi­na­ção» de Carl Sagan, qual o local do Universo que gos­ta­ria de visi­tar em pri­mei­ro lugar, e porquê?

C. O. – Todo o pla­ne­ta Terra.

Acho estra­nho quan­do as pes­so­as vão ver museus ou outros locais impor­tan­tes nou­tras cida­des, mas nun­ca os viram na sua pró­pria cida­de. Daí que acho que antes de ver outras coi­sas nou­tros lados, gos­ta­ria de ver o nos­so pró­prio pla­ne­ta.

Depois dis­so, gos­ta­ria de via­jar com o prot, de K-​Pax, com os cons­tru­to­res dos bura­cos de ver­me, de Contacto, ou com os Q, de Star Trek. Eles, melhor que eu, sabe­ri­am quais os melho­res síti­os a visi­tar segui­da­men­te. Eu con­fi­a­ria nes­ses «gui­as turís­ti­cos».

Interessa-​se tam­bém pela nos­sa bus­ca por sinais de vida extra­ter­res­tre, inte­li­gen­te ou não. No entan­to, é visí­vel em mui­tos dos arti­gos que escre­ve uma enor­me irri­ta­ção em rela­ção ao fenó­me­no OVNI. A Ovnilogia é uma área legí­ti­ma de inves­ti­ga­ção ou con­si­de­ra que é com­pos­ta ape­nas por char­la­tães?

C. O. – Há mui­tos inves­ti­ga­do­res do fenó­me­no OVNI que não são char­la­tães.

Dou-​lhe, por exem­plo, o caso da PUFOI, uma soci­e­da­de por­tu­gue­sa que inves­ti­ga esses fenó­me­nos. O lema deles é que pas­sa tudo pelo cére­bro huma­no. Esses são séri­os.

O que me «irri­ta» é o geo­cen­tris­mo psi­co­ló­gi­co evi­den­ci­a­do pelos outros.

Como expli­quei, sigo o Princípio da Mediocridade.

Carlos OliveiraVida «huma­na­men­te inte­li­gen­te» parece-​me extre­ma­men­te impro­vá­vel, senão mes­mo impos­sí­vel

Irrita-​me que as pes­so­as sejam tão pou­co ima­gi­na­ti­vas, que pre­fe­rem seguir a visão reli­gi­o­sa segun­do a qual as naves ETs são como as nos­sas no sécu­lo XX, os ETs estão a «vigi­ar», nós somos tão espe­ci­ais que somos o cen­tro da aten­ção de ETs, os ETs são como nós, os ETs pen­sam da mes­ma for­ma que nós, os ETs têm tec­no­lo­gia seme­lhan­te à nos­sa, etc.

É tudo sobre nós.

É uma for­ma de nos sen­tir­mos espe­ci­ais, de nos sen­tir­mos inte­res­san­tes.

É o ego huma­no a fun­ci­o­nar, ali­a­do a uma tre­men­da fal­ta de ima­gi­na­ção para pen­sar em vida total­men­te dife­ren­te da nos­sa.

Vida Extraterrestre

Esquecendo a par­te dos OVNI, quais são as suas expec­ta­ti­vas em rela­ção à pos­si­bi­li­da­de de vida extra­ter­res­tre inte­li­gen­te?

C. O. – O que é vida inte­li­gen­te? Como se defi­ne inte­li­gên­cia?

Serão os huma­nos inte­li­gen­tes?

Quando me falam em inte­li­gên­cia, pen­so sem­pre no Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, do Douglas Adams, e no Solaris do Stanislaw Lem. Parece-​me, nova­men­te, um con­cei­to huma­no e antro­po­cên­tri­co.

No entan­to… vamos assu­mir, «for the sake of the argu­ment», que até somos inte­li­gen­tes, e somos a úni­ca espé­cie ter­res­tre inte­li­gen­te.

Então, é isto que pen­so: a vida que para já conhe­ce­mos exis­te na Terra.

A evo­lu­ção da vida na Terra diz-​nos que pra­ti­ca­men­te sem­pre exis­tiu vida (des­de que exis­te Terra), que duran­te 4 mil milhões de anos essa vida foi sim­ples, que a vida com­ple­xa é recen­te, e que a vida inte­li­gen­te é ain­da mais recen­te. O calen­dá­rio cós­mi­co de Sagan demons­trou isto na per­fei­ção.

É pre­ci­so per­ce­ber tam­bém que a vida sim­ples con­ti­nua a exis­tir em todo o lado. Mesmo haven­do vida inte­li­gen­te (nós), essa vida inte­li­gen­te é fei­ta de milhões de bac­té­ri­as. Nós não con­se­gui­ría­mos sobre­vi­ver sem bac­té­ri­as. Já as bac­té­ri­as sobre­vi­vem bem sem nós.

Assim, pode-​se espe­rar que a vida este­ja espa­lha­da por todo o Universo (já que foi fácil ela apa­re­cer na Terra), e que a gran­de mai­o­ria des­sa vida seja sim­ples. Vida com­ple­xa pode haver, mas é rara. Vida inte­li­gen­te pode ser sim­ples­men­te uma «sor­te».

Vida «huma­na­men­te inte­li­gen­te» parece-​me extre­ma­men­te impro­vá­vel, senão impos­sí­vel. Da mes­ma for­ma que não há outro Carlos Oliveira com as mes­mas carac­te­rís­ti­cas das minhas no mun­do. Será que se for­mos ao tem­po de Cristo, con­si­de­ra­re­mos os huma­nos inte­li­gen­tes? Duvido. Será que se for­mos ao tem­po dos Neandertais, os con­si­de­ra­re­mos inte­li­gen­tes? Duvido. No entan­to, esta­mos a pen­sar em perío­dos de tem­po mui­to cur­tos: 2000 anos e 100.000 anos, res­pec­ti­va­men­te. Da mes­ma for­ma que huma­nos no ano 100.000 nos con­si­de­ra­rão extre­ma­men­te atra­sa­dos. E 100.000 anos não é nada, em 13 mil milhões de anos. Daí que espe­rar que extra­ter­res­tres este­jam no nos­so nível de desen­vol­vi­men­to inte­lec­tu­al e tec­no­ló­gi­co, é não ter qual­quer noção de tem­po.

Em ter­mos de dis­tri­bui­ção de vida na Terra, vemos que a vida sim­ples se encon­tra em todo o lado, mes­mo em síti­os «impos­sí­veis». Extremófilos encontram-​se em pra­ti­ca­men­te todos os can­tos da Terra, des­de os síti­os mais quen­tes até aos mais gela­dos, des­de o cimo das nuvens até três qui­ló­me­tros den­tro de pedras. Vida com­ple­xa pre­ci­sa de con­di­ções mui­to mais mode­ra­das para sobre­vi­ver. Vida inte­li­gen­te pre­ci­sa de con­di­ções ain­da mais mode­ra­das, além de con­di­ções que se man­te­nham as mes­mas duran­te milhões de anos.

Como dis­se Darwin, tudo depen­de da adap­ta­ção ao ambi­en­te da altu­ra. A vida sim­ples é exce­len­te nis­so. A vida com­ple­xa mor­re rapi­da­men­te com mudan­ças brus­cas no seu ambi­en­te. Podemos ver isso não só em ter­mos de ambi­en­te numa cer­ta altu­ra, mas até ao lon­go dos anos. Por exem­plo, as cia­no­bac­té­ri­as muda­ram a atmos­fe­ra com­ple­ta­men­te: de 0% de oxi­gé­nio para 21% de oxi­gé­nio, sen­do que já hou­ve perío­dos com 31% de oxi­gé­nio. Os Humanos não sobre­vi­ve­ri­am sem o oxi­gé­nio essen­ci­al na atmos­fe­ra. A vida sim­ples sobre­vi­ve, mes­mo sem isso.

Assim, pode-​se espe­rar que por todo o Universo, e nas con­di­ções mais adver­sas, pos­sa exis­tir vida sim­ples. No entan­to, vida com­ple­xa será rara, e vida inte­li­gen­te ain­da mais difí­cil.

Repare-​se num por­me­nor: duas for­mas inde­pen­den­tes de ver a vida na Terra dão exac­ta­men­te o mes­mo resul­ta­do do que se pode espe­rar no exte­ri­or.

A haver vida com­ple­xa nou­tros pla­ne­tas, eu apos­ta­ria em algo seme­lhan­te a insec­tos (já que na Terra são uma for­ma de vida extre­ma­men­te bem suce­di­da) que voe à-​vontade (a melhor for­ma de loco­mo­ção), ou então algo seme­lhan­te a pol­vos (ani­mal bas­tan­te inte­li­gen­te) em ambi­en­tes aquá­ti­cos nou­tros pla­ne­tas. Ou então, a jun­ção dos dois: «pol­vos voa­do­res», pare­ci­dos com os Eosapien do fan­tás­ti­co docu­men­tá­rio Alien Planet.

No entan­to, se tives­se que apos­tar em algo mes­mo, apos­ta­ria em algo que não con­si­go sequer ima­gi­nar!

Os dados de Schrödinger

Deus não joga aos dados

Fotomontagem evo­can­do a céle­bre fra­se de Einstein: «Deus não joga aos dados»

É céle­bre o comen­tá­rio de Einstein às con­clu­sões da Física Quântica: «Deus não joga aos dados». Mesmo para um físi­co como Einstein, Deus era vis­to como o Criador. E você, acre­di­ta em Deus? Perguntando de outra for­ma: sen­te a imen­si­da­de do Cosmos ape­nas numa dimen­são cien­tí­fi­ca ou sente-​a tam­bém como uma espé­cie de expe­ri­ên­cia reli­gi­o­sa?

C. O. – Qual é a defi­ni­ção de Deus?

Um homem de bar­bas sen­ta­do num tro­no aci­ma das nuvens, que não tem mais nada o que fazer senão con­ta­bi­li­zar as vezes que digo asnei­ras, para se vin­gar de mim, como juíz, quan­do eu mor­rer?

Nesse Deus não acre­di­to. Acho, nova­men­te, uma for­ma de pen­sar dema­si­a­do antro­po­cên­tri­ca. É um Deus cri­a­do pelos huma­nos que sofrem de geo­cen­tris­mo psi­co­ló­gi­co.

O que é uma «expe­ri­ên­cia reli­gi­o­sa»? Existem cien­tis­tas que dizem que têm algo seme­lhan­te a expe­ri­ên­ci­as reli­gi­o­sas quan­do têm os momen­tos «eure­ka» nas expe­ri­ên­ci­as que fazem em labo­ra­tó­ri­os.

Eu pre­fi­ro acre­di­tar nes­ses huma­nos. Prefiro saber que foi um médi­co que sal­vou a vida de uma cri­an­ça, por exem­plo, após um ter­ra­mo­to (pre­fi­ro dizer que foi Graças ao Médico), do que me pôr a gri­tar Graças a Deus que foi sal­va essa cri­an­ça (o que leva à con­sequên­cia que esse mes­mo Deus dei­xou que todas as outras cri­an­ças mor­res­sem).

Quem gri­ta «Graças a Deus» não me pare­ce que está a ter uma expe­ri­ên­cia reli­gi­o­sa. Está, sim, a acu­sar Deus de ter mor­to todas as outras cri­an­ças, o que niti­da­men­te é um peca­do capi­tal. Mas sobre­tu­do está a ser mui­to mal-​agradecido ao médi­co que sal­vou a cri­an­ça, ou seja, é típi­co de alguém que não sabe dar méri­to a quem real­men­te o tem.

Eu pre­fi­ro dar valor aos huma­nos, e não a ami­gos ima­gi­ná­ri­os que tive em cri­an­ça.

Infelizmente, vive­mos numa demo­cra­cia em que a mai­or par­te das pes­so­as sofre de ili­te­ra­cia fun­ci­o­nal. Se vives­se­mos num sis­te­ma de meri­to­cra­cia, estas ques­tões de «agra­de­cer ao Pai Natal» nem se punham.

Por outro lado, mes­mo alguns astró­no­mos dizem que têm o que pare­ce ser uma «expe­ri­ên­cia reli­gi­o­sa» ao verem nebu­lo­sas pla­ne­tá­ri­as, ao estu­da­rem o iní­cio do Universo, etc. Neil deGrasse Tyson farta-​se de dizer isso.

Einstein dizia que o seu «Deus» eram as leis da natu­re­za. Tal como Spinoza dizia. Einstein che­gou mes­mo a dizer: «The further the spi­ri­tu­al evo­lu­ti­on of man­kind advan­ces, the more cer­tain it seems to me that the path to genui­ne reli­gi­o­sity does not lie through the fear of life, the fear of death and blind faith but through stri­ving after rati­o­nal kno­wled­ge».

(«Quanto mais avan­ça a evo­lu­ção espi­ri­tu­al da Humanidade, mais cor­rec­to me pare­ce que o cami­nho para uma genuí­na reli­gi­o­si­da­de não resi­de no medo da vida, da mor­te ou na fé cega, mas no esfor­ço de alcan­çar­mos o conhe­ci­men­to raci­o­nal»)

No livro Contacto, de Carl Sagan, a per­so­na­gem Eda, físi­co, diz que teve mui­tas expe­ri­ên­ci­as reli­gi­o­sas, como por exem­plo quan­do com­pre­en­deu as leis da Gravidade de Newton, quan­do com­pre­en­deu a Relatividade de Einstein, etc. Tinha tido imen­sas expe­ri­ên­ci­as reli­gi­o­sas, sem­pre den­tro da ciên­cia, e nun­ca fora da ciên­cia. Como me pare­ce cla­ro, sigo a espi­ri­tu­a­li­da­de de Carl Sagan.

Carlos OliveiraA rea­li­da­de não se com­pa­de­ce com his­tó­ri­as infan­tis com o objec­ti­vo de ame­dron­tar as pes­so­as, fazendo-​as crer que no futu­ro irão ser jul­ga­das por ‘alguém’

Entre a espec­ta­cu­la­ri­da­de que exis­te no mun­do natu­ral ou o con­for­to de uma falá­cia inven­ta­da para con­tro­lar cri­an­ças (assume-​se as pes­so­as como cri­an­ças sem res­pon­sa­bi­li­da­de indi­vi­du­al), como o Pai Natal, ou Deus, pre­fi­ro obvi­a­men­te a bele­za da ver­da­de que exis­te no mun­do natu­ral.

Daí que pre­fi­ro saber (que é o con­trá­rio de acre­di­tar) que os áto­mos no meu cor­po são basi­ca­men­te iguais aos áto­mos que exis­tem na mesa onde está o com­pu­ta­dor em que estou a escre­ver. Prefiro saber que todos esses áto­mos, incluin­do todos os do meu cor­po, já foram par­te de estre­las, já fize­ram par­te da cons­ti­tui­ção do pla­ne­ta, já fize­ram par­te de aste­rói­des, já exis­ti­ram em nebu­lo­sas…

E quan­do eu mor­rer, estes meus áto­mos, cons­ti­tuin­tes do meu cor­po, irão vol­tar às estre­las, irão espalhar-​se pela Lua, por nebu­lo­sas pla­ne­tá­ri­as, por galá­xi­as dis­tan­tes.

Dizendo por outras pala­vras, pre­fi­ro saber (ter conhe­ci­men­to, que é con­trá­rio de «acre­di­tar») que já fui par­te de vári­as estre­las, que os áto­mos que me cons­ti­tu­em já fize­ram par­te de estre­las e pla­ne­tas, e que, quan­do mor­rer, esse meu ser irá nova­men­te fazer par­te de estre­las, pla­ne­tas, nebu­lo­sas, e do Universo no seu todo.

Gattaca

O Vincent do fil­me «Gattaca»

Ou seja, tudo o que exis­te em mim já este­ve espa­lha­do pelo Universo, e para o Universo irá vol­tar assim que eu mor­rer (como refe­re o Vincent no final do fil­me Gattaca: «For some­o­ne who was never meant for this world, I must con­fess I’m sud­denly having a hard time lea­ving it. Of cour­se, they say every atom in our bodi­es was once part of a star. Maybe I’m not lea­ving… may­be I’m going home»)

(«Para alguém que nun­ca foi fei­to para este mun­do, devo con­fes­sar que estou a ter séri­as difi­cul­da­des em deixá-​lo. Claro, eles dizem que cada áto­mo dos nos­sos cor­pos fez, outro­ra, par­te de uma estre­la. Talvez não este­ja a par­tir… tal­vez este­ja a vol­tar para casa»)

Eu faço par­te do Universo, e o Universo faz par­te de mim. Sempre foi assim, con­ti­nua a ser assim, e assim con­ti­nu­a­rá para toda a eter­ni­da­de.

Isto não são cren­ças; isto é a rea­li­da­de do Universo.

E a rea­li­da­de é mui­to mais fan­tás­ti­ca do que uma his­tó­ria para cri­an­ças.

A rea­li­da­de não mete medo: é dema­si­a­do mara­vi­lho­sa para meter medo. A rea­li­da­de não se com­pa­de­ce com his­tó­ri­as infan­tis com o objec­ti­vo de ame­dron­tar as pes­so­as, fazendo-​as crer que no futu­ro irão ser jul­ga­das por alguém que está obce­ca­do por essas mes­mas pes­so­as.

Pode-​se clas­si­fi­car isto como uma espi­ri­tu­a­li­da­de num con­tex­to universal/​cósmico.

A rea­li­da­de dos conhe­ci­men­tos astro­nó­mi­cos (faze­mos par­te do Universo, e o Universo faz par­te de nós) traz uma espi­ri­tu­a­li­da­de mui­to mais abran­gen­te, pací­fi­ca, sem medos, e ima­gi­na­ti­va, que qual­quer reli­gião huma­na (nenhu­ma reli­gião, nem nenhu­ma cren­ça pseu­do, algu­ma vez lhe che­gou aos cal­ca­nha­res).

É nes­te conhe­ci­men­to que me baseio. Não é uma ques­tão de acre­di­tar, mas sim de saber. E é nes­te «Deus» que acre­di­to: no ser huma­no que atra­vés da sua inte­li­gên­cia, raci­o­na­li­da­de, e pen­sa­men­to crí­ti­co, irá evo­luir para com­pre­en­der cada vez melhor o Universo que o rodeia.

Há quem cha­me a isto huma­nis­mo secu­lar. Mas eu não gos­to do fac­to de o Humanismo colo­car os huma­nos como o que de mais impor­tan­te exis­te no Universo. Como dis­se ante­ri­or­men­te, sigo o Principio da Mediocridade. Essa é a úni­ca gave­ta com que me iden­ti­fi­co. De res­to, a com­ple­xi­da­de e a diver­si­da­de são a ordem do dia… e ain­da bem!

Daí que lhe pre­fi­ro cha­mar: «a filo­so­fia do Carlos», uma filo­so­fia base­a­da nos conhe­ci­men­tos de Carl Sagan, que vê a imen­si­dão do Universo por aqui­lo que é, e que per­ce­be que os huma­nos são acto­res insig­ni­fi­can­tes e tem­po­rá­ri­os no gran­de esque­ma das coi­sas ape­sar tam­bém de com­pre­en­der que, ao evo­lui­rem, os huma­nos irão com­pre­en­der cada vez mais esse pal­co cós­mi­co.

Ficção Científica e Universos sexy

Battlestar Galactica, Cylon número 6

Battlestar Galactica, Cylon núme­ro 6

No seu per­fil do AstroPT está escri­to que você se licen­ci­ou em Ficção Científica. Explique aos lei­to­res do Bitaites o que é ser licen­ci­a­do em Ficção Científica. Parece-​me uma licen­ci­a­tu­ra fas­ci­nan­te.

C. O. – A minha licen­ci­a­tu­ra é em Astronomia, Ficção Científica, e Comunicação Científica. Ou seja, a Ficção Científica foi par­te dela, mas é uma par­te menor, sen­do que a Astronomia foi o «bolo» prin­ci­pal das dis­ci­pli­nas, com a com­po­nen­te de comu­ni­ca­ção.

Sempre ado­rei Ficção Científica, e pen­so que é um com­ple­men­to pre­ci­o­so para não só enten­der a huma­ni­da­de, mas tam­bém para esti­car os limi­tes da ima­gi­na­ção cien­tí­fi­ca.

Star Trek, por exem­plo, era uma série sobre­tu­do sobre os pro­ble­mas huma­nos da altu­ra: racis­mo, sexis­mo, guer­ra fria, gays ou direi­tos huma­nos. No entan­to, tam­bém foi a série Star Trek que ins­pi­rou jovens para anos mais tar­de inven­ta­rem por­tas que se abrem auto­ma­ti­ca­men­te, com­pu­ta­do­res pes­so­ais, tele­mó­veis, moto­res a iões, etc. Gosto bas­tan­te do Contacto, de Carl Sagan, Black Cloud, de Fred Hoyle, Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, de Douglas Adams, e de vári­os livros do Stanislaw Lem.

A Astrobiologia é tão sexy como se diz?

C. O.– Sim, cla­ro. A vida é sexy. Por isso, a vida no Universo é sexy por todo o lado!

Uma vez que o Homem nun­ca foi à Lua e a Lua pro­va­vel­men­te ain­da é fei­ta de quei­jo, acha que os Observatórios devem des­pe­dir os Astrónomos e substitui-​los por cozi­nhei­ros?

C. O. – Não. Porque senão os extra­ter­res­tres na Lua, mor­ri­am.

Passo a expli­car: o Observatório da minha Universidade é um dos pou­cos no mun­do que envia fei­xes de laser para a Lua de modo a cons­tan­te­men­te se saber a que dis­tân­cia está a Lua. Pode-​se fazer isso, por­que as seis mis­sões à Lua dei­xa­ram lá ins­tru­men­tos, como por exem­plo, reflec­to­res. Se o Homem não foi à Lua, então não exis­tem reflec­to­res, e o que faze­mos no nos­so Observatório será então ali­men­tar os ETs por­que toda a gen­te sabe que os ETs na Lua se ali­men­tam de fei­xes de luz. Os cozi­nhei­ros cri­am a comi­da, fei­xes de luz, e os astró­no­mos enviam-​os para a Lua.

Qual é o seu sig­no? Identifica-​se com as carac­te­rís­ti­cas de per­so­na­li­da­de que lhe são atri­buí­das?

C. O. – Leão. Sim, identifico-​me com­ple­ta­men­te com as carac­te­rís­ti­cas de Leão, sobre­tu­do com as carac­te­rís­ti­cas nega­ti­vas. Curiosamente, como a Astrologia não quer saber da Precessão, quan­do eu nas­ci na ver­da­de a cons­te­la­ção era Caranguejo. Ou seja, na rea­li­da­de, eu nas­ci sob o sig­no Caranguejo. E por incrí­vel que pare­ça, tam­bém tenho carac­te­rís­ti­cas des­se sig­no. E ain­da mais estra­nho, tam­bém tenho carac­te­rís­ti­cas de Touro e de outros sig­nos que esta­vam bas­tan­te dis­tan­tes da posi­ção do Sol na altu­ra do meu nas­ci­men­to.

Claro que isto não tem nada de estra­nho. Todos temos carac­te­rís­ti­cas de todos os sig­nos, por­que na rea­li­da­de os sig­nos não nos dizem nada sobre nós.

A astro­lo­gia con­ti­nua para­da no tem­po, no (des)conhecimento de há 2000 anos atrás. Continua a pen­sar que é o cen­tro do Universo. Como expli­quei ante­ri­or­men­te para outros casos, a astro­lo­gia sofre tam­bém de geo­cen­tris­mo psi­co­ló­gi­co.

Trocar um dia de guerra por um mês em Marte

Água em Marte, oce­a­nos sub­ter­râ­ne­os em Europa e Enceladus, lagos de meta­no em Titã, vida base­a­da em arsé­nio – dir-​se-​ia que esta­mos qua­se, qua­se, a fazer a gran­de des­co­ber­ta da Astrobiologia. É opti­mis­ta quan­to a esta pos­si­bi­li­da­de?

C. O. – Uma das minhas carac­te­rís­ti­cas pes­so­ais é ser bas­tan­te opti­mis­ta… para tudo. Por isso, sou opti­mis­ta tam­bém em rela­ção à astro­bi­o­lo­gia. No entan­to, sou rea­lis­ta em rela­ção à polí­ti­ca e à eco­no­mia. Nós ain­da não des­co­bri­mos mui­to mais sobre esses luga­res de que falou por moti­vos eco­nó­mi­cos (não há mai­or inves­ti­men­to nes­se sen­ti­do) e por moti­vos polí­ti­cos (não há von­ta­de polí­ti­ca para apos­tar nes­se sec­tor).

E, con­tu­do, os gas­tos eco­nó­mi­cos de um só dia de guer­ra no Iraque, por exem­plo, dari­am per­fei­ta­men­te para uma mis­são a Marte…

Existem mui­tos moti­vos para se apos­tar na explo­ra­ção espa­ci­al, mas cer­ta­men­te que os mai­o­res serão para a sobre­vi­vên­cia da huma­ni­da­de, e para um mai­or con­for­to, um melhor nível de vida. Entre um mai­or conhe­ci­men­to do Universo, um melhor nível de vida e a sobre­vi­vên­cia da huma­ni­da­de, ou andar às guer­ri­nhas por uma peque­nís­si­ma par­te num minús­cu­lo espa­ço de pó no Universo, o poder polí­ti­co pre­fe­re andar a matar outros huma­nos…

Marco Santos

­ Marco Santos

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