Pela pri­mei­ra vez con­se­gui­mos dete­tar a com­po­si­ção atmos­fé­ri­ca de um exo­pla­ne­ta. É um cor­po pla­ne­tá­rio do tipo Super-​Terra, assim desig­na­do por ser rocho­so como o nos­so mas mui­to mai­or — no caso des­te pla­ne­ta, com uma mas­sa qua­se oito vezes mai­or.

O pla­ne­ta 55 Cancri-​e — o mais inte­ri­or de um sis­te­ma de cin­co pla­ne­tas — orbi­ta a 55 Cancri A, uma anã ama­re­la seme­lhan­te à nos­sa, situ­a­da a 41 anos-​luz na dire­ção da cons­te­la­ção de Caranguejo. 55 Cancri-​e até pode­ria ser um local apra­zí­vel para futu­ras mis­sões tri­pu­la­das não fos­se dar-​se a infe­li­ci­da­de de se encon­trar mais encos­ta­do à sua estre­la do que eu a um pos­ter da Eva Green.

55 Cancri-​e está 26 vezes mais per­to da sua estre­la do que Mercúrio do nos­so Sol e um ano lá tem a dura­ção de 18 horas. Se colo­cás­se­mos a Terra nes­sa posi­ção do Espaço, o ter­re­no que pisa­mos teria uma tem­pe­ra­tu­ra de 1760 graus Celsius e fica­ría­mos todos com sau­da­des dos tem­pos em que andá­va­mos aos sal­ti­nhos na areia por esta estar a escal­dar.

55 Cancri-e

O escal­dan­te 55 Cancri-​e. | Ilustração: ESA/​Hubble, M. Kornmesser

Como as aven­tu­ras de Ícaro e as suas asas quei­ma­das nos ensi­na­ram, estar dema­si­a­do pró­xi­mo de uma estre­la tem alguns incon­ve­ni­en­tes como, por exem­plo, sofrer-​se uma mor­te hor­rí­vel por inci­ne­ra­ção: a tem­pe­ra­tu­ra à super­fí­cie é ain­da mai­or que a da ana­lo­gia ante­ri­or, qua­se 2000 graus Celsius. Imaginem o que seria estar lá: um sol gigan­tes­co e medo­nho a ocu­par mais de meta­de do céu e rocha liqui­di­fi­ca­da sob os nos­sos pés. O ambi­en­te den­tro de um fogão de cozi­nha, por com­pa­ra­ção, seria como um fim de tar­de pri­ma­ve­ril.

A atmos­fe­ra tam­bém não é mui­to ami­gá­vel à pos­si­bi­li­da­de de vida. As aná­li­ses fei­tas a par­tir de obser­va­ções com a Câmera de Campo Largo 3 (WFC-​3, na sigla em inglês) do teles­có­pio Hubble per­mi­ti­ram infe­rir a sua com­po­si­ção: hidro­gé­nio e hélio, prin­ci­pal­men­te, gases mais leves pro­va­vel­men­te cap­tu­ra­dos pelo colos­sal pla­ne­ta à nuvem pro­to­pla­ne­tá­ria onde se for­mou.

Não exis­te qual­quer indí­cio de vapor de água. A ati­vi­da­de vul­câ­ni­ca deve atin­gir níveis estra­tos­fé­ri­cos, no sen­ti­do mais Krakatoa do ter­mo. Os astró­no­mos dete­ta­ram tam­bém a pre­sen­ça de cia­ne­to de hidro­gé­nio, o que pro­vo­ca­ria uma mor­te hor­rí­fi­ca por asfi­xi­a­men­to caso o res­pi­rás­se­mos, mas indi­cia tam­bém uma atmos­fe­ra com uma ele­va­da pro­por­ção de car­bo­no.

55 Cancri-​e não é uma designação adequada

Marilyn fotografada por Douglas Kirkland em 1961.

Marilyn foto­gra­fa­da por Douglas Kirkland em 1961.

Ter uma com­po­si­ção tão rica em car­bo­no impli­ca a pos­si­bi­li­da­de de os mate­ri­ais que o com­põem serem tam­bém ricos em car­bo­no e não em oxi­gé­nio, como acon­te­ce nos pla­ne­tas do tipo ter­res­tre do nos­so Sistema Solar e às suas rochas ricas em sili­ca­tos e óxi­dos de silí­cio. O que tor­na 55 Cancri-​e mais espe­ci­al e deli­ci­o­sa­men­te exó­ti­co é a pos­si­bi­li­da­de — devi­do às altas tem­pe­ra­tu­ras e pres­sões no inte­ri­or do pró­prio pla­ne­ta — de cer­ca de um ter­ço da sua super­fí­cie ser cons­ti­tuí­da por dia­man­tes.

Caso estas sus­pei­tas sejam cien­ti­fi­ca­men­te con­fir­ma­das por futu­ras obser­va­ções, sugi­ro mudar-​se o nome de 55 Cancri-​e para pla­ne­ta Marilyn Monroe. Não devi­do às altas tem­pe­ra­tu­ras que ela pro­vo­cou ou aos cora­ções que der­re­teu na déca­da de 50, mas por­que, vocês sabem, «Diamonds Are a Girl's Best Friend.»

Marco Santos

­Marco Santos

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