O ecrã para onde estás a olhar. A cadei­ra em que te sen­tas. A bar­ri­ga onde arma­ze­nas a cer­ve­ja. A pró­pria cer­ve­ja. O rabo que a pre­o­cu­pa por estar a ficar tão gran­de. O rabo de que ele gos­ta pre­ci­sa­men­te por ser tão gran­de. Os lábi­os que que­res bei­jar. Os livros que não lês. A tele­vi­são que te ador­me­ce.

Tudo à tua vol­ta e den­tro de ti é qua­se espa­ço vazio. Sim, 99,99 por cen­to.

Sabemos estas coi­sas por cau­sa da Mecânica Quântica — um ramo da Física que se diz ter nas­ci­do para expli­car os cons­ti­tuin­tes mais bási­cos da maté­ria, mas que sur­giu ape­nas com o pro­pó­si­to de nos enlou­que­cer a todos, a come­çar por aque­les que a estu­dam.

Para enten­der como é pos­sí­vel ser­mos for­ma­dos por tan­to espa­ço vazio basta-​nos per­ce­ber um boca­di­nho a natu­re­za do áto­mo. Devemos este con­cei­to a um filó­so­fo gre­go mui­to inte­li­gen­te e pers­pi­caz que nas­ceu há qua­se 2500 anos, Demócrito de Abdera.

Demócrito defen­deu que toda a maté­ria era com­pos­ta por par­tí­cu­las mui­to, mui­to peque­ni­nas, sóli­das e indes­tru­tí­veis, às quais cha­mou de áto­mos, uma pala­vra que resul­tou da jun­ção do gre­go «a», um ter­mo de nega­ção, e «tomo», que sig­ni­fi­ca divi­sí­vel. Com este neo­lo­gis­mo, Demócrito que­ria dizer que o áto­mo não podia ser divi­di­do.

Os áto­mos exis­ti­am em diver­sas for­mas e tama­nhos, expli­ca­va, unindo-​se entre si para for­mar os mais diver­sos obje­tos. A dife­ren­ça entre uma flor e uma mon­ta­nha ou entre Donald Trump e o res­to da Humanidade, por exem­plo, explicar-​se-​ia pela com­po­si­ção ató­mi­ca dife­ren­te.

Demócrito não era só um homem inte­li­gen­te e pers­pi­caz, tam­bém gos­ta­va de se rir. Era o tipo de pes­soa que esta­va sem­pre a arre­ga­nhar a tacha por tudo e por nada, o que cau­sa­va algu­ma estra­nhe­za e incó­mo­do em con­tem­po­râ­ne­os mais sisu­dos. Ele jus­ti­fi­ca­va o com­por­ta­men­to dizen­do que o riso nos tor­na sábi­os.

Espaço vazio. Espaço vazio em todo o lado

Woody e Buzz

O riso de Demócrito eco­a­ria atra­vés dos sécu­los e reben­ta­ria numa gar­ga­lha­da quan­do a des­co­ber­ta da radi­o­a­ti­vi­da­de e do ele­trão, em finais do sécu­lo XIX, levou a comu­ni­da­de cien­tí­fi­ca a fazer o que nin­guém tinha fei­to duran­te o perío­do em que o filó­so­fo foi vivo: dar-​lhe razão.

Sim, Demócrito esta­va enga­na­do quan­do dizia que os áto­mos eram cor­pos sóli­dos, impe­ne­trá­veis, indi­vi­sí­veis e indes­tru­tí­veis, mas tinha razão quan­do afir­ma­va que a maté­ria é for­ma­da por par­tí­cu­las mui­to, mui­to peque­ni­nas.

Os áto­mos do teu cor­po — de todos os cor­pos, de todos os mate­ri­ais — são sis­te­mas com­pos­tos por mui­tas par­tí­cu­las. Cada áto­mo é for­ma­do por um núcleo de pro­tões e neu­trões, rode­a­dos por ele­trões. Cada núcleo é cer­ca de 100 mil vezes mais peque­no que o áto­mo em si. E o ele­trão é ain­da mais peque­no: mil vezes menor do que o núcleo. É qua­se a dife­ren­ça entre uma pul­ga modes­ta e o Brad Pitt.

No mun­do macros­có­pi­co é a mes­ma coi­sa. Quando ima­gi­na­mos as enor­mes dis­tân­ci­as que sepa­ram as galá­xi­as umas das outras e as estre­las umas das outras, sabe­mos que o que não fal­ta no Universo é espa­ço vazio para des­bra­var. Mas os limi­tes da nos­sa capa­ci­da­de sen­so­ri­al conduzem-​nos ao enga­no: se obser­var­mos uma galá­xia a olho nu, só nos aper­ce­be­mos de um enor­me aglo­me­ra­do de luz. E um cober­tor de estre­las cobre os céus mais lím­pi­dos, como se o espa­ço entre aque­las qua­se não exis­tis­se.

Espaço vazio. Tanto espaço para preencher, querida

Angelina Jolie e Brad Pitt.

O espa­ço vazio está pre­sen­te no nos­so quo­ti­di­a­no, de for­ma lite­ral ou ale­gó­ri­ca, e a neces­si­da­de de o pre­en­cher é mui­to real. Assim se com­pre­en­de por que razão os jor­na­lis­tas têm anda­do tão ata­re­fa­dos a contar-​nos tudo o que podem sobre outro tipo de estre­las, Angelina Jolie e Brad Pitt.

Parece que eles se divor­ci­a­ram, ou seja, cri­a­ram um espa­ço 99,99 por cen­to vazio entre um e outro. Vocês estão a par do acon­te­ci­men­to por­que, tal como eu, não devem ter con­se­gui­do esca­par ao flu­xo piro­clás­ti­co das novi­da­des.

E foi uma azá­fa­ma nas reda­ções. A Jolie cor­reu com o Pitt por­que o Pitt fuma­va gan­zas a mais, a Jolie cor­reu com o Pitt por­que o Pitt é mais con­ser­va­dor e a Jolie mais deixa-​andar na edu­ca­ção dos filhos, a Jolie cor­reu com o Pitt por­que o Pitt engra­vi­dou uma cole­ga de tra­ba­lho (a cole­ga de tra­ba­lho não gos­tou da notí­cia, bem como o ver­da­dei­ro pai), a Jolie cor­reu com o Pitt por­que o Pitt anda­va a abu­sar da pin­ga, por aí fora e não neces­sa­ri­a­men­te por esta ordem.

Neste tipo de jor­na­lis­mo, notí­ci­as fal­sas e os des­men­ti­dos a que dão ori­gem, misturam-​se para for­mar uma maté­ria vis­co­sa e amo­ral à qual se con­ven­ci­o­nou cha­mar de «noti­ci­o­sa».

Mas come­cei este arti­go por um ecrã, uma cadei­ra e um rabo, e por boas razões. Se a maté­ria está 99,99 por cen­to vazia, por que razão nos pare­ce tão sóli­da? Como é que não somos tão fan­tas­ma­gó­ri­cos como os neu­tri­nos, par­tí­cu­las suba­tó­mi­cas capa­zes de atra­ves­sar um pla­ne­ta de um lado ao outro como se este não esti­ves­se lá?

Por que razão sen­ti­mos o toque em obje­tos sóli­dos que são 99,9 por cen­to vazi­os? Por exem­plo, se um idi­o­ta apal­par o rabo de uma rapa­ri­ga sem o con­sen­ti­men­to des­ta, não só irá sen­tir o con­tac­to com as pre­ci­o­sas náde­gas como tam­bém o impac­to de uma galhe­ta nas trom­bas bem mere­ci­da.

Por que razão não nos mis­tu­ra­mos uns nos outros quan­do nos toca­mos? Somos gen­te que gos­ta de soci­a­li­zar, mas nada de exa­ge­ros. E mes­mo que tal pos­si­bi­li­da­de pudes­se dar um novo e ines­pe­ra­do sig­ni­fi­ca­do à pala­vra baca­nal, a médio e lon­go pra­zo não daria mui­to jei­to em ter­mos prá­ti­cos, já para não falar que leva­ria os psi­qui­a­tras à lou­cu­ra.

A res­pos­ta — tal como tudo na Física Quântica — é tão sim­ples de dizer como com­pli­ca­da de per­ce­ber: é devi­do ao Princípio de Exclusão de Pauli.

É este prin­cí­pio — um dos mais impor­tan­tes da Física — que garan­te a rigi­dez ou resis­tên­cia da maté­ria, ao «proi­bir» que os fer­miões – par­tí­cu­las de spin semi-​inteiro — pos­sam ser «espre­mi­dos» uns con­tra os outros. Os ele­trões e pro­tões que cons­ti­tu­em os áto­mos de que somos fei­tos são pre­ci­sa­men­te par­tí­cu­las do tipo fer­mião.

E esta é a expli­ca­ção mais incom­ple­ta que algu­ma vez irás ler hoje.

Difícil de per­ce­ber? Bem-​vindo ao clu­be «A Física Quântica deixa-​me mais ton­to que uma gar­ra­fa de uís­que», caro ami­go. Fenómenos micros­có­pi­cos bizar­ros, apa­ren­te­men­te caó­ti­cos, impos­sí­veis de repro­du­zir ao nos­so nível, impos­sí­veis de apre­en­der usan­do ape­nas os nos­sos pobres sen­ti­dos, deter­mi­nam fenó­me­nos cor­ri­quei­ros asso­ci­a­dos a obje­tos do nos­so mun­do sobre os quais não per­des um segun­do a pen­sar.

Sim, o teu rabo não está sen­ta­do ape­nas numa cadei­ra, está sen­ta­do em cima de um mis­té­rio.

Caramba, até o teu rabo espal­ma­do é um mis­té­rio. Rói-​te de inve­ja, Kim Kardashian!

Ó Europa, ó Europa, águas à vista

A NASA tem tan­to jei­to para gerir expec­ta­ti­vas do públi­co como eu para fazer tricô. Pela caga­gé­si­ma vez na sua his­tó­ria, pro­me­teu reve­la­ções impor­tan­tes em ter­mos tão vagos que dei­xou mui­ta gen­te a pen­sar que se tinha des­co­ber­to vida em Europa, uma lua de Júpiter.

Não, o que a NASA des­co­briu — e isto é mui­to impor­tan­te, dado acre­di­tar­mos que há ali um oce­a­no sub­ter­râ­neo a nível glo­bal — foram indí­ci­os mui­to for­tes da exis­tên­cia de colu­nas de vapor de água subin­do, à laia de gei­sers, até 200 qui­ló­me­tros aci­ma da super­fí­cie de Europa. Se exis­ti­rem seres naque­le oce­a­no, alguns deles irão para o céu quan­do mor­re­rem, isso é garan­ti­do.

Vejam este peque­no vídeo, até me dei ao tra­ba­lho de o legen­dar e tudo:

Colunas de vapor de água em Europa

Marco Santos

­Marco Santos

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