Quando per­de o seu pos­to de tra­ba­lho, o cida­dão paga­dor de impos­tos apresenta-​se no Centro de Emprego para mos­trar toda a pape­la­da neces­sá­ria e candidatar-​se ao sub­sí­dio de desem­pre­go.

Há mui­tas his­tó­ri­as de hor­ror sobre tem­pos de espe­ra em cen­tros de empre­go, pelo que levei uns livros para não enlou­que­cer.

Escolhi só dois: sou um opti­mis­ta, ape­sar de tudo. Um de fic­ção cien­tí­fi­ca da Ursula K. Le Guin e um outro, A Segunda Guerra Mundial, de Gerhard Schreiber, um livri­nho de 130 pági­nas que nos con­ta a his­tó­ria de for­ma con­ci­sa e rigo­ro­sa.

Considerando que estou desem­pre­ga­do e um pou­co de espí­ri­to guer­rei­ro seria ade­qua­do, esco­lhi A Segunda Guerra Mundial.

Iniciara a lei­tu­ra a cami­nho do Centro, pelo que quan­do tirei a senha já Hitler tinha ane­xa­do a Áustria e preparava-​se para fazer o mes­mo à Checoslováquia.

Quando entrei numa sala baça e api­nha­da de gen­te e suor, o primeiro-​ministro da Grã-​Bretanha, Arthur Neville Chamberlain, esta­va em vés­pe­ras de via­jar para a Alemanha para ten­tar apa­zi­guar Hitler e, entre sus­pi­ros de can­sa­ço, evi­tar a guer­ra.

Ao pas­sar os olhos pelas pes­so­as pareceu-​me notar um boca­di­nho de Chamberlain em mui­tos ros­tos: resig­na­ção, paci­ên­cia, esgo­ta­men­to, mas tam­bém a espe­ran­ça de con­se­guir inver­ter o flu­xo nega­ti­vo das suas his­tó­ri­as de vida.

Havia tam­bém uma senho­ra gor­da com um ar mais exas­pe­ra­do. O pei­to subia e descia-​lhe mui­to depres­sa na cami­so­la, como se as mamas fos­sem balões sopra­dos por um demó­nio invi­sí­vel e sem fôle­go.

Como não tinha lugar para me sen­tar, fiquei por ali de pé a ler o livri­nho e a ouvir os sus­pi­ros da mulher-​balão.

Com a inva­são da Polónia, a 1 de Setembro de 1939, come­ça­va a guer­ra. França e Grã-​Bretanha apre­sen­ta­ram um ulti­ma­to à Alemanha Nazi: dois dias para res­pon­der posi­ti­va­men­te à exi­gên­cia de reti­rar as tro­pas inva­so­ras e ces­sar os com­ba­tes, senão…

Hitler não res­pon­deu. Quando ouvi o pri­mei­ro toque de cha­ma­da do visor de senhas, Londres e Paris tinham aca­ba­do de decla­rar guer­ra a Berlim. Às dez da manhã, numa sala escu­ra e dema­si­a­do peque­na de um Centro de Emprego, tinham come­ça­do as hos­ti­li­da­des: 1,5 milhões de sol­da­dos ale­mães con­tra 1,3 milhões de pola­cos, e cem pes­so­as à minha fren­te.

Quando a França assi­nou a ren­di­ção incon­di­ci­o­nal na mes­ma car­ru­a­gem onde a Alemanha fora for­ça­da a assi­nar o humi­lhan­te acor­do de Versailles, após o fim da I Guerra Mundial, já tinham sido aten­di­das vin­te pes­so­as. Só fal­ta­vam oiten­ta núme­ros.

Mal os aviões da Luftwaffe come­ça­ram a bom­bar­de­ar a Inglaterra, arran­jei um lugar­zi­nho mes­mo dian­te da senho­ra gor­da exas­pe­ra­da. A mulher esta­va ago­ra semi-​adormecida, a res­pi­ra­ção tão len­ta como um pon­tei­ro dos minu­tos, e eu pen­sei mal­do­sa­men­te que com menos cabe­lo e um cha­ru­to na boca podia fazer de Churchill naque­las ses­sões mais monó­to­nas do Parlamento Inglês.

Quando Hitler ini­ci­ou os últi­mos pre­pa­ra­ti­vos da Operação Barbarossa, o blitz­kri­eg, a guerra-​relâmpago con­tra a União Soviética, apeteceu-​me comer um che­e­se­bur­guer.

O res­tau­ran­te da McDonalds é per­to do Centro de Emprego, pelo que dei­xei o dita­dor nazi a sonhar em des­truir bol­che­vi­ques, esla­vos e judeus, e fui almo­çar.

A ope­ra­ção Barriga Cheia naque­le momen­to era desa­con­se­lhá­vel mas, ao con­trá­rio do Hitler, cor­ri um ris­co mui­to bem cal­cu­la­do. Como havia umas 50 pes­so­as à minha fren­te e dado que o rit­mo de cha­ma­da no visor das senhas equi­va­lia ao tem­po que demo­ro a comer um ham­búr­guer, cal­cu­lei que só cor­ria o ris­co de per­der a minha vez se comes­se uns cin­quen­ta che­e­se­bur­guers. Cinquenta? Este post pode indi­car o con­trá­rio, mas na ver­da­de não sou assim tão doi­do. Dois, no máxi­mo.

Mais ani­ma­do com estes cál­cu­los e satis­fei­to com a minha visão estra­té­gi­ca, fui devo­ran­do um che­e­se­bur­guer e beben­do uma des­pre­o­cu­pa­da Coca-​Cola enquan­to os rus­sos resis­ti­am estoi­ca­men­te ao cer­co de Leninegrado. Quando saí do McDonalds, os ale­mães já esta­vam a ser escor­ra­ça­dos das peri­fe­ri­as de Moscovo, depois Leninegrado, der­ro­ta­dos pelo frio, pela doen­ça, pela mise­rá­vel logís­ti­ca da inven­cí­vel e ultra-​moderna Wehrmacht, a tei­mo­sa e assas­si­na imbe­ci­li­da­de do Führer e pelos tan­ques e sol­da­dos do Exército Vermelho.

40 pes­so­as, um livro e meio para ler, um sub­sí­dio para pedir e nenhum sítio para me sen­tar. O visor emi­tiu aque­le bip elec­tró­ni­co de mudan­ça de senha e, por algu­ma razão, ima­gi­nei um bata­lhão de desem­pre­ga­dos fazen­do a con­ti­nên­cia nazi ao mes­mo rit­mo do visor. Ao invés de gri­ta­rem, em unís­so­no, Heil Hitler!, o som que lhes saía da boca lem­bra­va o do visor elec­tró­ni­co das senhas. Assim que escu­ta­vam aque­la voz metá­li­ca debi­tan­do um núme­ro, 654 para a sala 8B, 654 para a sala 8B, esti­ca­vam os bra­ços e dizi­am bip!

Eu sei, é esqui­si­to, e garanto-​vos que ape­sar de ser­vir uma refei­ção cha­ma­da Happy Meals, a McDonalds não colo­ca haxi­xe nos ham­búr­gue­res. Não nos ima­gi­no naque­la sala tris­te como uma tru­pe de fas­cis­tas, mas um gru­po cujo des­ti­no foi, mais cedo do que qual­quer um espe­ra­va, o de expe­ri­men­tar uma pro­fun­da desi­lu­são e, por vezes, dolo­ro­sa ver­go­nha.

Todos nas­ce­mos com um talen­to. Uma exce­len­te qua­li­da­de. Vários. Várias. Se temos o azar de o nos­so talen­to não ser sufi­ci­en­te­men­te lucra­ti­vo, pode­mos estar con­de­na­dos à pobre­za ou ao quo­ti­di­a­no dos reme­di­a­dos. Digam-​me, por favor, se a impor­tân­cia de um talen­to em rela­ção a outro é deter­mi­na­da por qual­quer outro cri­té­rio.

Para todos os efei­tos, a senho­ra semi-​adormecida dian­te de mim até podia ser um Cristiano Ronaldo do cro­ché, aque­le tipo de cal­ças gan­gas dema­si­a­do coça­das pode ser um Tom Cruise dos pedrei­ros, mas não con­se­gui­rá enqua­drar o seu talen­to numa soci­e­da­de que valo­ri­ze, em pri­mei­ro lugar, a sua capa­ci­da­de em gerar dinhei­ro. Tudo o res­to, incluin­do a Cultura, é secun­dá­rio.

Ainda bem que não me dis­traí, por­que por altu­ra do ata­que japo­nês a Pearl Harbor veri­fi­co que fal­ta um núme­ro para che­gar a minha vez. Deixo-​me ficar de olhar fixo para o céu da sala, como um ame­ri­ca­no a obser­var um ata­que de caças Zero. Os meus sen­ti­dos estão aler­ta, não que­ro saber da ter­rí­vel guer­ra que os EUA vão tra­var no Pacífico con­tra o impe­ri­a­lis­mo mili­ta­ris­ta japo­nês. Fecho o livro. Dois minu­tos. Três. Quatro. Cinco. Está qua­se.

Bip! Heil Bürokratie! E pron­to, final­men­te estou dian­te da fun­ci­o­ná­ria do Centro de Emprego. É mais jovem que eu, e é sim­pá­ti­ca. Diz-​me que enten­de per­fei­ta­men­te a minha posi­ção. «Eu já esti­ve sen­ta­da no lugar onde você está ago­ra», assegura-​me em tom pie­do­so. Penso que o lugar ain­da está quen­te e não deve ser do rabo dela, mas calo-​me sen­sa­ta­men­te. Olha-​me com tal inten­si­da­de que eu receio que a seguir me pegue na mão e con­vi­de para ir a uma ses­são espi­ri­tu­al da Igreja Universal do Reino dos Desempregados.

Saí do Centro de Emprego mais ilu­mi­na­do que a lâm­pa­da do can­de­ei­ro da minha secre­tá­ria, pois fora bea­ti­fi­ca­do pelo pró­prio Papa da Burocracia.

Ao entrar no com­boio, sentei-​me e pros­se­gui a lei­tu­ra. Alemanha a levar por­ra­da dos rus­sos. Os Aliados desem­bar­cam na Normandia. França reergue-​se e come pas­ti­lhas elás­ti­cas enquan­to des­fi­la em Paris. Rommel expul­so de África. Mediterrâneo sob con­tro­le. Itália, a car­ni­fi­ci­na em Monte Cassino. Finalmente, qua­se qua­se a che­gar a casa, os ame­ri­ca­nos tomam a deci­são de arra­sar duas cida­des japo­ne­sas com a bom­ba ató­mi­ca, aca­bam com a guer­ra no Pacífico. Hitler já tinha dado um tiro nos cor­nos. A União Soviética divi­de a Europa com a América. Considerações finais.

Acabou o livro? Ainda não. Falta o Epílogo, e esse agora é comigo

Infelizmente, a fun­ci­o­ná­ria que me aten­deu é tão sim­pá­ti­ca como dis­traí­da. Enquanto me ani­ma e ata­ca o tecla­do como uma Diana Krall das repar­ti­ções, envi­a­rá os meus dados para a Segurança Social, Centro Distrital de Lisboa, em vez de os envi­ar para a Caixa de Previdência dos Jornalistas, onde per­ten­ço.

Em con­sequên­cia dis­to, rece­be­rei pou­cos dias depois uma noti­fi­ca­ção informando-​me de que o meu «reque­ri­men­to de pres­ta­ções de desem­pre­go» foi «inde­fe­ri­do» por «não estar vin­cu­la­do por con­tra­to de tra­ba­lho» e, por con­se­guin­te, «não estar enqua­dra­do no regi­me que con­fi­ra direi­to a pro­tec­ção no desem­pre­go, arti­go 19º do Decreto-​Lei nº 220/​2006».

Este enga­no obrigar-​me-​á a rumar à Caixa dos Jornalistas, pegar em mais dois livros, tal­vez, entre­gar toda a pape­la­da nova­men­te e ficar à espe­ra – até hoje.

Tanto em rela­ção ao talen­to natu­ral das pes­so­as como em rela­ção ao direi­to de um cida­dão paga­dor de impos­tos, a palavra-​mágica é sem­pre «enqua­dra­men­to».

É mais fácil encontrarmo-​nos a nós pró­pri­os e dizer: é isto que eu que­ro fazer na vida, e desa­fio qual­quer filho da puta a dizer-​me na cara que escre­ver um blo­gue, por exem­plo, não é tra­ba­lhar. Não é, porquê? Só por­que não dá dinhei­ro? Uma for­mu­la­ção cor­rec­ta na apa­rên­cia, mas tre­men­da­men­te enga­na­do­ra em ter­mos huma­nos.

O que é difí­cil de con­se­guir, real­men­te, é enquadrarmo-​nos. Ou seja, fazer par­te de um pro­ces­so que con­sis­te em trans­for­mar tudo que de bom temos para dar em dinhei­ro vivo; em segui­da, somos enco­ra­ja­dos a for­ma­tar os nos­sos níveis de satis­fa­ção pes­so­al qua­se exclu­si­va­men­te pelo dinhei­ro con­se­gui­do (ou que damos a ganhar a outros). Trata-​se de uma cons­pi­ra­ção, no fun­do, mas é tão óbvia que nin­guém pare­ce que­rer reconhecê-​la como tal.

Marco Santos

­Marco Santos

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