Quando o Nápoles mar­cou o quar­to golo ao Benfica, per­dão, ao Glorioso, quan­do no 4-​0 o Júlio César se fez ao cru­za­men­to como se tives­se sido acor­da­do pelos ami­gos para ser lan­ça­do à pis­ci­na que até esta­va gela­da como tudo, pô isso não se faz cara tava dor­min­do tão bem

quan­do já esta­va a ver que ia ser impi­e­do­sa­men­te goza­do por spor­tin­guis­tas e por­tis­tas e lagar­tos e andra­des e o raio que os par­ta a todos, fiz o que qual­quer adep­to de fute­bol adul­to, pai de famí­lia, res­pon­sá­vel e sen­sa­to cos­tu­ma fazer

soli­ci­tei a joga­do­res, equi­pa téc­ni­ca, médi­cos, rou­pei­ros, o tipo que rega a rel­va, os locu­to­res que rela­tam o jogo, a vizi­nha que esta­va a esten­der a rou­pa, o vizi­nho que pas­se­a­va o cão, o pró­prio cão, as pul­gas do cão e as pul­gas das pul­gas do cão que fos­sem todos, todos para o cara­lho, os gran­des cabrões, mas que palha­ça­da vem a ser esta e onde está o coman­do da TV que eu vou já des­li­gar esta mer­da.

Ufa! Estava mes­mo a pre­ci­sar, des­cul­pem. Lamento estas asnei­ras todas. Não sou pes­soa de man­dar cara­lha­das volun­tá­ri­as em públi­co, mas o fute­bol é assim, que pode um sim­ples mor­tal fazer?

A minha reli­gião é o Benfica, embo­ra seja um ben­fi­quis­ta não-​praticante: nun­ca vou à cate­dral rezar o Eusébio Nosso que estais no Céu, mas faço as minhas ora­ções à dis­tân­cia, sem­pre cren­te na vitó­ria e no Vitória.

O fute­bol é assim, desculpem-​me os exa­ge­ros na retó­ri­ca, obriga-​nos a cami­nhar cur­va­dos como pon­tos de inter­ro­ga­ção, faz com que cada vír­gu­la pare­ça um per­di­go­to, trans­for­ma pon­tos de excla­ma­ção em dedos do meio espe­ta­dos no ar.

E per­der provoca-​me uma dupla irri­ta­ção: fico irri­ta­do por per­der e depois fico irri­ta­do por ficar irri­ta­do. Não há nada a fazer, é uma der­ro­ta com­ple­ta da razão.

Claro que nes­tas oca­siões o nos­so sen­ti­do de equi­lí­brio aca­ba por pre­va­le­cer e impo­mos umas quan­tas regras a nós pró­pri­os: não ver notí­ci­as, não con­sul­tar os blo­gues da bola, sobre­tu­do os dos adver­sá­ri­os, fugir das redes soci­ais, não ligar aos chicos-​espertos que apa­re­cem sem­pre nes­tas oca­siões, fechar as pes­ta­nas aos memes e não ler abso­lu­ta­men­te nenhum comen­tá­rio, seja de quem for, onde for.

Depois é fazer uma lim­pe­za com­ple­ta ao espí­ri­to, rela­ti­vi­zan­do estes acon­te­ci­men­tos ridí­cu­los pelo pou­co valor que de fac­to têm. Começa-​se a pen­sar que na nos­sa vida já acon­te­ce­ram coi­sas mui­to pio­res, ou seja, varrem-​se estas recor­da­ções par­vas da der­ro­ta para debai­xo do tape­te e já está — no meu caso até tenho um tape­te mui­to giro e fel­pu­do, é anti­go mas resis­ten­te, gos­to de o pisar todos os dias e acre­di­to que ele gos­ta que eu o pise, diz Made in Celta de Vigo e foi fabri­ca­do a 25 de novem­bro de 1999.

Marco Santos

­Marco Santos

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