Em 1973, a par­tir da ideia que o jor­na­lis­ta Eric Burgess trans­mi­tiu a Carl Sagan, a mis­são Pioneer envi­ou nas son­das núme­ros 10 e 11 uma pla­ca gra­va­da com sím­bo­los com­pre­en­sí­veis para uma civi­li­za­ção extra­ter­res­tre, indi­can­do a posi­ção da Terra no Sistema Solar.

Em 1977, as son­das Voyager leva­ram um LP para mos­trar aos hipo­té­ti­cos ali­e­ní­ge­nas — um dis­co de cobre reves­ti­do a ouro com 115 ima­gens, 35 sons natu­rais, sau­da­ções em 55 lín­guas, excer­tos de músi­ca étni­ca, obras de Beethoven, Mozart e suces­sos da his­tó­ria da músi­ca pop/​rock.

A ideia era mos­trar a melhor ver­são de nós pró­pri­os e dei­xar de fora deta­lhes mais desa­gra­dá­veis da nos­sa civi­li­za­ção como, por exem­plo, a ten­dên­cia para matar-​nos uns aos outros em nome de tra­ços geo­gra­fi­ca­men­te invi­sí­veis na Terra ou de seres igual­men­te invi­sí­veis no Céu.

Alto e para o baile!

Mas e se os ET forem tão hos­tis como nós? Andamos há tan­to tem­po a envi­ar pro­pa­gan­da anti-​extraterrestre para o Espaço — bas­ta pen­sar nos fil­mes da série «Aliens» — que uma civi­li­za­ção ali­e­ní­ge­na mais pre­vi­den­te pode considerar-​nos uma pra­ga e pla­ne­ar aniquilar-​nos enquan­to ain­da anda­mos a gati­nhar pelo Universo.

Impedir extra­ter­res­tres hos­tis de inva­dir o nos­so frá­gil pon­to azul não é uma tare­fa fácil, mas exis­tem ele­men­tos dis­su­a­so­res que pode­mos uti­li­zar de for­ma a desencorajá-​los. Uma das men­sa­gens mais efe­ti­vas é incluir o tele­dis­co onde o rabo da Kim Kardashian can­ta o tema «Jam (Turn It Up)».

Kim Kardashian, Jam (Turn It Up)

É duvi­do­so que mes­mo uma civi­li­za­ção extra­ter­res­tre avan­ça­da fos­se capaz de reco­nhe­cer a Kardashian como uma ver­são em auto-​tune do olho do cu falan­te do William Burroughs, mas fica­ri­am inde­ci­sos quan­to à clas­si­fi­ca­ção a dar ao que esti­ves­sem a ver: rabo ou pla­ne­ta? Nádegas ou hemis­fé­ri­os?

Classificar aque­le rabo como um pla­ne­ta não é assim tão cien­ti­fi­ca­men­te absur­do, ten­do em con­ta a óbvia dimen­são cós­mi­ca da músi­ca. Os lin­guis­tas extra­ter­res­tres cedo deci­fra­ri­am a letra e tira­ri­am as mes­mas con­clu­sões.

A Miss Selfie, não sei se con­se­gui­ram apa­nhar tudo à pri­mei­ra, can­ta repe­ti­da­men­te

Turn me up, Turn me up, Turn me, Turn me, Turn me up, Turn me up, Turn me up, Turn me, Turn me, Turn me up Yeah Yeah Yeah Yeah, qual­quer coi­sa como Vira-​me para cima, vira-​me para cima, vira-​me, vira-​me, vira-​me para cima, vira-​me para cima, vira-​me, vira-​me, vira-​me para cima Sim Sim Sim Sim, ou seja,

tal como um pla­ne­ta gra­vi­ta­ci­o­nal­men­te amar­ra­do à sua estre­la, a Kardashian não dese­ja ter movi­men­tos de rota­ção, quer ser agar­ra­da, puxa­da pela for­ça da gra­vi­da­de para que, des­sa for­ma, pos­sa ter sem­pre o mes­mo lado vira­do para nós.

Por outro lado, os astró­no­mos ali­e­ní­ge­nas pode­ri­am tam­bém con­cluir que a pei­da da Kardashian é um bura­co negro devi­do aos efei­tos que pro­vo­ca nos obje­tos apa­nha­dos pela sua for­ça de gra­vi­da­de. Assim se expli­ca­ria por que razão nada con­se­gue esca­par à sua imen­sa atra­ção gra­vi­ta­ci­o­nal, nem mes­mo a inte­li­gên­cia.

O pla­ne­ta Terra — con­clui­ri­am então os extra­ter­res­tres, já chei­os de cagu­fa — seria um lugar dema­si­a­do peri­go­so para visi­tar, quan­to mais inva­dir.

Little Big, From Russia With Love

As más-​línguas dizem que os rus­sos inven­ta­ram um novo tipo de ioga, que con­sis­te em beber vod­ka até fica­rem em coma alcoó­li­co. Provavelmente é uma pia­da folei­ra dos tem­pos da Guerra Fria, mas a ver­da­de é que des­de que o fer­ro da cor­ti­na enfer­ru­jou, eles andam dife­ren­tes.

Finalmente, após tan­tas déca­das de iso­la­men­to, os rus­sos são livres de assi­mi­lar e dis­fru­tar toda a por­ca­ria que o mun­do oci­den­tal tem para ofe­re­cer.

Um exem­plo per­fei­to des­sa acul­tu­ra­ção é o gru­po Little Big, que faz um punk-​rave ele­tró­ni­co — ou seja lá o que for aque­la mer­da — como se tives­sem pas­sa­do a ado­les­cên­cia a ouvir os sul-​africanos Die Antwoord enquan­to esva­zi­a­vam gar­ra­fões de vod­ka e fazi­am o pino, às vezes em simul­tâ­neo.

Os tele­dis­cos, tal como de res­to os do duo Die Antwoord, que pare­cem ter saí­do de uma ses­são foto­grá­fi­ca da Diane Arbus, são estron­do­sa­men­te vici­an­tes — é como pas­sar dian­te de um aci­den­te na estra­da e o nos­so pé come­çar a tra­var o car­ro para ver melhor antes de o cére­bro ter tem­po de dizer que é feio esprei­tar.

Os Little Big sabem mui­to bem o que estão a fazer à visão mais tra­di­ci­o­nal e pito­res­ca que nós temos da Rússia, como naque­le tele­dis­co ali em cima do tema «From Russia with Love».

O dis­pa­ro de uma kalash­ni­kov mar­ca o iní­cio das fes­ti­vi­da­des: dança-​se a bala­lai­ka com os fatos-​de-​treino dos hoo­li­gans da bola, ouve-​se o gar­mosh­ka, acor­deão rus­so, finge-​se ouvir os con­se­lhos da babush­ka, que sig­ni­fi­ca avó, e bebe-​se vod­ka naque­le típi­co espí­ri­to fes­ti­vo e des­pre­o­cu­pa­do que asso­ci­a­mos aos rus­sos.

Os Little Big são os «reis da gran­de con­fu­são» e do «vai-​te foder, eu que­ro é dan­çar a noi­te toda» — é pro­vá­vel que um lin­guis­ta extra­ter­res­tre, ten­do já apren­di­do o sig­ni­fi­ca­do da pala­vra «love», reco­men­de que uma visi­ta a um pla­ne­ta cujos habi­tan­tes dis­tri­bu­em amor com tan­ta vee­mên­cia seja, no míni­mo, con­si­de­ra­da impru­den­te.

Around the World, Daft Punk

«Around the World», um suces­so anti­go do duo fran­cês Daft Punk, mostra-​lhes que somos um pla­ne­ta rode­a­do por múl­ti­plos sóis e povo­a­do por robôs, múmi­as e ano­ré­xi­cos. A espé­cie é gene­ti­ca­men­te diver­si­fi­ca­da, é com­pe­ten­te em nata­ção sin­cro­ni­za­da, no jog­ging e a subir e des­cer esca­das, mas isso não é caso para se per­der tan­to tem­po numa via­gem de milha­res de anos-​luz.

Os ET nun­ca irão saber o que sig­ni­fi­ca o tele­dis­co e ten­de­rão a pen­sar no pior.

Os atle­tas em fato de trei­no não sim­bo­li­zam a nos­sa deter­mi­na­ção e resis­tên­cia, mas as linhas des­cen­tes e ascen­den­tes do bai­xo. As rapa­ri­gas da nata­ção sin­cro­ni­za­da não sim­bo­li­zam uma soci­e­da­de igua­li­tá­ria, mas o som agu­do dos tecla­dos.

Os esque­le­tos não são uma lição sobre a nos­sa ana­to­mia, rea­gem ape­nas ao som do que pare­ce ser uma gui­tar­ra (mas não tenho a cer­te­za). As múmi­as não são um avi­so ao que lhes vai acon­te­cer se ten­ta­rem inva­dir, ape­nas uma repre­sen­ta­ção da cai­xa de rit­mos.

Os robôs não repre­sen­tam o nos­so avan­ço tec­no­ló­gi­co, como eles inge­nu­a­men­te pen­sa­rão, rea­gem ape­nas à voz mono­cór­di­ca que repe­te, até cair­mos todos para o lado com uma apo­ple­xia audi­ti­va, «Around the World».

E dado que o tele­dis­co já come­çou a ser vis­to por algu­mas civi­li­za­ções, mes­mo os ET hos­tis terão por esta altu­ra ouvi­do falar das coi­sas ter­rí­veis que acon­te­ce­ram às espé­ci­es que o ouvi­ram dema­si­a­das vezes: consta-​se que os pobres fica­ram con­ta­mi­na­dos por algum vírus des­co­nhe­ci­do, come­çan­do a bater com os cor­nos ali­e­ní­ge­nas nas pare­des e a repe­tir «Around the World» até os cére­bros explo­di­rem, como de res­to acon­te­ceu com os sim­pá­ti­cos mar­ci­a­nos do fil­me do Tim Burton.

Não, a Terra, os gro­tes­cos seres que a habi­tam e as suas temí­veis tec­no­lo­gi­as bio­ló­gi­cas de lon­ga dis­tân­cia são de evi­tar nos pró­xi­mos milha­res de anos, mes­mo que tal impli­que não poder sal­var as pobres gali­nhas.

Marco Santos

­Marco Santos

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