Nestes pro­ces­sos de con­de­na­ção públi­ca nas redes soci­ais de idi­o­tas que dizem idi­o­ti­ces não é cos­tu­me ter em con­ta que se está a lidar com uma pes­soa sem ima­gi­na­ção. Jorge Máximo, o taxis­ta que na tele­vi­são afir­mou que «as leis são como as meni­nas vir­gens, são para ser vio­la­das», é uma des­sas pes­so­as. Um idi­o­ta sem ima­gi­na­ção.

Não é pre­ci­so tirar um cur­so de jus­ti­cei­ro soci­al para per­ce­ber o quão gro­tes­ca e insen­sí­vel é a expres­são. E é pena  que o repór­ter não tenha tido pre­sen­ça de espí­ri­to para pegar na dei­xa e puxar por ele, fazer-​lhe mais umas per­gun­tas.

O escri­tor e paci­fis­ta isra­e­li­ta Amos Oz con­ta uma his­tó­ria que ilus­tra exa­ta­men­te o que eu que­ro dizer quan­do digo «puxar por ele». Não, não é puxar-​lhe pelos cola­ri­nhos.

Uma história numa bandeirada

Um ami­go e cole­ga pas­sou uma vez pela expe­ri­ên­cia de andar de táxi com um con­du­tor que lhe ia dan­do «a típi­ca pales­tra» sobre como é impor­tan­te para os judeus matar todos os Árabes.

O ami­go de Amoz ouvia-​o e, em vez de lhe gri­tar «Que homem hor­rí­vel você é», deci­diu antes perguntar-​lhe: «E quem acha que deve­ria matar todos os Árabes?» O taxis­ta res­pon­deu: «O que quer dizer com isso? Nós! Os Judeus Israelitas! Temos de o fazer! Não há esco­lha. Veja só o que nos fazem todos os dias!»

«Mas quem deve­ria fazer o tra­ba­lho? A polí­cia? O Exército, tal­vez? O cor­po dos bom­bei­ros ou as equi­pas médi­cas? Quem deve­ria fazer o tra­ba­lho?»

O taxis­ta coçou a cabe­ça e suge­riu: «Penso que deve­ría­mos dividi-​lo em par­tes iguais entre cada um de nós, cada um de nós devia matar alguns.»

O ami­go de Amoz Oz, ain­da no mes­mo jogo, dis­se: «Pois bem, supo­nha que a si lhe toca um deter­mi­na­do blo­co resi­den­ci­al da sua cida­de natal, Haifa, e que bate às por­tas ou toca às cam­pai­nhas, e per­gun­ta: «Desculpe, senhor, ou des­cul­pe, senho­ra. Por aca­so é Árabe?» E se a res­pos­ta for afir­ma­ti­va, você dis­pa­ra.»

«Quando aca­ba o seu blo­co, dispõe-​se a regres­sar a casa mas, ao fazê-​lo, escu­ta, algu­res no quar­to andar do blo­co, o cho­ro de um bebé. Voltaria para matar o bebé? Sim ou não?»

Houve um momen­to de silên­cio e, então, o taxis­ta dis­se: «Sabe, o senhor é um homem mui­to cru­el.»

O pro­ble­ma de Jorge Máximo é igual ao do taxis­ta isra­e­li­ta que que­ria matar ára­bes: é flu­en­te na retó­ri­ca dos gru­nhos, mas não tem ima­gi­na­ção para visu­a­li­zar as con­sequên­ci­as prá­ti­cas das bar­ba­ri­da­des que diz.

Se em vez de lhe ofe­re­cer por­ra­da, alguém se pres­tas­se à mes­ma ati­tu­de daque­le ami­go do escri­tor isra­e­li­ta e per­gun­tas­se onde acha­va que as meni­nas devi­am ser vio­la­das, no ban­co de trás do táxi ou num sítio mais escon­di­do, ou o que fazer se a meni­na resis­tis­se, tal­vez fos­se capaz de final­men­te com­pre­en­der as impli­ca­ções reais do que aca­ba­ra de dizer e viras­se as cos­tas, já enjo­a­do com a con­ver­sa.

O pro­ble­ma tan­to se mani­fes­ta no taxis­ta como em quem, nas redes soci­ais, o con­de­nou com o dese­jo de que fos­se pre­so e vio­la­do por «uma pila daque­las bem gros­sas» ou «era bem-​feito que acon­te­ces­se igual a uma filha dele», para citar ape­nas algu­mas das «solu­ções» pro­pos­tas.

Nem o réu nem os juí­zes do Facebook con­se­guem ima­gi­nar as impli­ca­ções reais do que dizem ou con­de­nam.

Jorge Máximo

Foto: Paulo Spranger/​Global Imagens

Jorge Máximo, pelo que eu per­ce­bi e para meu gran­de emba­ra­ço, é um doen­te pelo Benfica. Até cos­tu­ma andar nes­ses pro­gra­mas des­por­ti­vos onde gru­nhos com diplo­ma e gru­nhos sem diplo­ma se jun­tam para man­dar per­di­go­tos clu­bís­ti­cos à cara uns aos outros. Pois na lin­gua­gem do fute­bol, pre­do­mi­nan­te­men­te mas­cu­li­na, é habi­tu­al a expres­são «vio­lou as redes à guar­da de joga­dor x».

Empregar esta pala­vra numa cir­cuns­tân­cia tão cor­ri­quei­ra como um jogo da bola mos­tra que mui­tos homens sabem que vio­la­ção é uma coi­sa má, pelo menos tão má como sofrer um golo, mas não sabem ou não que­rem saber mui­to mais. Reconhecem a cono­ta­ção nega­ti­va da pala­vra, mas não car­re­gam o peso do seu sig­ni­fi­ca­do às cos­tas.

O taxis­ta mere­ce ser aper­ta­do e enver­go­nha­do na pra­ça públi­ca, a ver se per­ce­be de uma vez por todas que as suas ana­lo­gi­as têm um sig­ni­fi­ca­do real, mas não é sen­sa­to condená-​lo como um inci­ta­dor, mui­to menos vio­la­dor, pedó­fi­lo ou pre­da­dor sexu­al.

Quem é Jorge Máximo, afi­nal — um cri­mi­no­so? Não, é ape­nas um tipo cri­mi­no­sa­men­te estú­pi­do. Tão estú­pi­do que deve ter acha­do que esta­va a ser espi­ri­tu­o­so. Um gru­nho de bigo­de à tuga do sécu­lo pas­sa­do sem sen­si­bi­li­da­de, inte­li­gên­cia e, lá está, ima­gi­na­ção, para enten­der a gra­vi­da­de de um cri­me de que a mulher é nor­mal­men­te víti­ma. E este não é o pro­ble­ma de um indi­ví­duo, é um pro­ble­ma cole­ti­vo.

Marco Santos

­Marco Santos

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