A SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) publi­cou um docu­men­to inti­tu­la­do «Dez coi­sas que deve­ria saber sobre a Lei da Cópia Privada». O PDF pode ser lido aqui, se qui­se­rem.

O tex­to está divi­di­do em dez pon­tos, dez per­gun­tas com as res­pe­ti­vas res­pos­tas. As per­gun­tas foram ela­bo­ra­das pela pró­pria SPA, obe­de­cen­do ao velho para­dig­ma se que­res dar as melho­res res­pos­tas pos­sí­veis, certifica-​te de que és tu a fazer as per­gun­tas.

O docu­men­to tam­bém faz um uso mui­to pecu­li­ar das aspas. E é ape­nas sobre as aspas que que­ro falar. Porque as aspas da SPA dão-​me tan­ta infor­ma­ção como o docu­men­to intei­ro, ela­bo­ra­do com base em coi­sas, coi­si­nhas e petas. (*)

Aspas entre aspas

As aspas apa­re­cem logo a seguir à per­gun­ta núme­ro 1:

Qual é o moti­vo pelo qual a tari­fa tem que ser apli­ca­da aos equi­pa­men­tos e supor­tes se os mes­mos tam­bém podem ser usa­dos ape­nas para fins pes­so­ais?

Resposta:

Os casos par­ti­cu­la­res de equi­pa­men­tos exclu­si­va­men­te uti­li­za­dos para a repro­du­ção e arma­ze­na­gem de “con­teú­dos” pró­pri­os não são um “comportamento-​padrão”

Não per­ce­bo as aspas à vol­ta da pala­vra con­teú­dos. Teria a SPA a gen­ti­le­za de expli­car a dife­ren­ça entre con­teú­dos e “con­teú­dos”, entre comportamento-​padrão e “comportamento-​padrão”?

Talvez não sejam aspas, mas pin­ças.

Os con­teú­dos inde­pen­den­tes pro­du­zi­dos pelos cida­dãos que não estão sob a alça­da da SPA são dis­fun­ções nojen­tas no sis­te­ma naci­o­nal de reco­lha de fun­dos a que cha­ma­ram pro­je­to lei 118.

Deve-​se por­tan­to pegar nes­sa pala­vra com pin­ças este­ri­li­za­das, tal como se deve fazer o mes­mo com os extra­ter­res­tres manho­sos que pro­du­zem tais con­teú­dos: fotó­gra­fos, cine­as­tas, músi­cos, estu­dan­tes, desig­ners, ilus­tra­do­res, essa cam­ba­da toda que anda a poluir a net com licen­ças infec­ci­o­sas da Creative Commons.

Também pode dar-​se o caso de as aspas não serem pin­ças, mas brin­cos ou pier­cings.

Se for assim, então é óbvio que “con­teú­do” sig­ni­fi­ca que a SPA acha que é tudo tan­ga, a mal­ta anda toda a arma­ze­nar con­teú­do pira­ta; e que o “comportamento-​padrão” des­ses pro­du­to­res inde­pen­den­tes é o dos mar­gi­nais que andam na má vida do down­lo­ad ile­gal. É uma visão pre­con­cei­tu­o­sa da soci­e­da­de, um boca­di­nho bota de elás­ti­co, mas é tam­bém uma estra­té­gia de Relações Públicas.

Menções mais ou menos vela­das à pira­ta­ria têm sido fei­tas e con­ti­nu­a­rão a ser fei­tas pelos defen­so­res des­te acor­do, mes­mo que o assun­to nada tenha a ver com a cópia pri­va­da: é uma for­ma fácil de a SPA se ele­var moral­men­te numa dis­cus­são dian­te de cida­dãos menos infor­ma­dos.

Se a SPA é capaz de tipi­fi­car e iso­lar com­por­ta­men­tos soci­ais usan­do ape­nas umas sim­ples aspas, o que pode­rá fazer com pala­vras e fra­ses intei­ras?

Resposta:

Os casos par­ti­cu­la­res de equi­pa­men­tos exclu­si­va­men­te uti­li­za­dos para a repro­du­ção e arma­ze­na­gem de “con­teú­dos” pró­pri­os não são um “comportamento-​padrão”. Os novos supor­tes e equi­pa­men­tos são hoje uti­li­za­dos, mai­o­ri­ta­ri­a­men­te e em lar­ga esca­la, para arma­ze­nar e repro­du­zir obras e pres­ta­ções pro­te­gi­das.

Estão a ver? Com as aspas, iso­la com­por­ta­men­tos indi­vi­du­ais; com uma fra­se, a SPA já é capaz de defi­nir o com­por­ta­men­to de uma soci­e­da­de intei­ra.

Sim, é extorsão

Estamos todos sob o jugo do prin­cí­pio da cul­pa­bi­li­da­de, embo­ra por ausên­cia de estu­dos cre­dí­veis seja pre­fe­rí­vel chamar-​lhe prin­cí­pio do ovo no cu da gali­nha. E gali­nhas sere­mos nós, se os dei­xar­mos levar por dian­te este ela­bo­ra­do esque­ma de extor­são.

A Internet dá a milhões de pes­so­as a opor­tu­ni­da­de de par­ti­lhar e dis­tri­buir os seus pró­pri­os con­teú­dos: as pes­so­as fazem-​no em blo­gues, no YouTube, no SoundCloud, nas redes soci­ais. Este pro­ces­so care­ce de medi­a­do­res e estes artis­tas não pre­ci­sam de repre­sen­ta­ção.

Como não é pos­sí­vel fechar a Internet ou obri­gar as pes­so­as a pres­cin­dir das suas livres esco­lhas, então res­ta à SPA mini­mi­zar publi­ca­men­te a sua impor­tân­cia e núme­ro, e trans­for­mar os dis­po­si­ti­vos de arma­ze­na­men­to numa nova joia de ins­cri­ção: mes­mo que tenhas deci­di­do não registar-​te na SPA, tens de pagar para gra­var o que é teu.

Se fize­res par­te dos ami­gui­nhos da SPA então já pode­rás ser reco­nhe­ci­do como legí­ti­mo pro­du­tor audi­o­vi­su­al ou artis­ta (sem enfren­tar um infer­no buro­crá­ti­co) e ficar isen­to de taxa. É uma ofer­ta que nin­guém pode recu­sar.

(*) Para uma aná­li­se mais acu­ti­lan­te e asser­ti­va a todo o docu­men­to, pre­fi­ro encaminhá-​los para o post da Maria João Nogueira: é assim a Net, uma dinâ­mi­ca de par­ti­lha imparável.Também não fui o úni­co – nem o pri­mei­ro – a estra­nhar as aspas da SPA. Leiam este exce­len­te post n’A Loja do Mestre João: «10 coi­sas que a SPA não sabe sobre a lei da Cópia Privada».
Marco Santos

­Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?