A natu­re­za é o úni­co livro que ofe­re­ce um con­teú­do vali­o­so em todas as suas folhas, escre­veu Goethe. É uma fra­se boni­ta, mas apos­to que esse talen­to­so rapaz ale­mão nun­ca teve dian­te do nariz uma mel­ga com meta­de do tama­nho da mão de um homem adul­to.

Aposto que nun­ca se sen­tou dian­te de um moni­tor para escre­ver um post para o blo­gue e se depa­rou com um mons­tro a pou­sar inde­co­ro­sa­men­te as pator­ras sobre um pará­gra­fo.

Aposto que nun­ca deu um pulo da cadei­ra como se tives­se outra vez 15 anos e sal­tas­se ao tram­po­lim na aula de ginás­ti­ca. Garanto que nun­ca foi for­ça­do a gas­tar qua­se toda a tes­tos­te­ro­na do cor­po só para não gri­tar como uma pré-​adolescente assus­ta­da.

E tenho a cer­te­za de que nun­ca teve de se armar em cam­peão dos exter­mi­na­do­res só para não assus­tar ain­da mais os putos, aca­ba­di­nhos de entrar de rom­pan­te na sala, a pen­sar que eu tinha desa­ba­do da cadei­ra e que saí­ram a cor­rer como se tivés­se­mos sido inva­di­dos por zom­bi­es.

Mostrem-​me o livro da Natureza do Goethe, digam-​me onde está a pági­na da mel­ga e seus deri­va­dos, e eu arranco-​a já.

Desfaço a por­ca­ria da folha em mil peda­ci­nhos e quei­mo cada um des­ses mil peda­ci­nhos até ter a cer­te­za de que nem uma des­sas cri­a­tu­ras irá renas­cer das cin­zas. Tanta gen­te reza a Deus por coi­sas supér­flu­as como suces­so ou dinhei­ro, não per­ce­bo por que razão não se implo­ra ao Pai Nosso que estais no Céu que nos pro­te­ja a todos e decre­te o geno­cí­dio à chi­ne­la­da des­sas dan­ça­ri­nas de caba­ré demo­nía­co.

Que capri­cho cós­mi­co foi este que deter­mi­nou a extin­ção de um bicha­ro­co tão ado­rá­vel como o dinos­sau­ro e per­mi­tiu que san­gues­su­gas sobre­vo­an­do as nos­sas cabe­ças como aviões stu­kas da II Guerra Mundial infes­tem este pobre pla­ne­ta nos últi­mos 225 milhões de anos?

E ago­ra? Como me livro do bicho papão com um míni­mo de dig­ni­da­de mas­cu­li­na?

Quando a mel­ga tem o azar de poi­sar na pare­de, dou-​lhe uma chi­ne­la­da com tama­nha for­ça que os vizi­nhos pen­sam que estou a pre­gar um qua­dro na pare­de. A his­tó­ria da minha vida está reple­ta des­sas obras-​primas do esma­ga­men­to. Hoje a situ­a­ção é dife­ren­te: não pos­so cor­rer o ris­co de espa­ti­far um moni­tor que me cus­tou os olhos da cara.

Isto requer uma ação mais deli­ca­da. Talvez pos­sa pri­mei­ro tirar uma foto­gra­fia para ilus­trar o post que ine­vi­ta­vel­men­te aca­ba­rei por escre­ver? Não vale a pena. Estou de tal manei­ra ner­vo­so que a foto vai sair toda tre­mi­da. Os meus filhos acham que eu tam­bém estou com medo e esprei­tam do cor­re­dor, duvi­dan­do da minha capa­ci­da­de de res­tau­rar a paz pater­na.

Que ideia! Nós, os adul­tos, nun­ca temos medo, só sen­ti­mos algum receio. E se a pala­vra receio não for apro­pri­a­da por estar­mos com suo­res fri­os na pal­ma da mão, dize­mos que é por ter­mos nojo – na ver­da­de sig­ni­fi­ca que esta­mos chei­os de cagu­fa, mas garan­to que tam­bém não é hoje que lhes vou expli­car o sig­ni­fi­ca­do da pala­vra eufe­mis­mo.

E ago­ra? Posso enxotá-​la, mas não vou apro­xi­mar a minha mão daqui­lo.

Esperem! Já sei! Vou ali à cozi­nha (res­pi­rar fun­do, beber água) pro­cu­rar um pano. Depois agito-​o dian­te daqui­lo como se fos­se um estan­dar­te real e tives­se um exér­ci­to de cava­la­ria pres­tes a ata­car. Pode ser que o mons­tro patu­do se assus­te e voe dali para fora, pou­san­do na pare­de e aca­ban­do os seus mise­rá­veis dias pre­ga­do à sola do meu chi­ne­lo.

A estra­té­gia deu resul­ta­do: o boi-​melga levan­tou voo, con­fu­so, andou às mar­ra­das pela pare­de até sos­se­gar no teto.

«Vai bus­car um ban­co, pai» – gri­tou a minha cla­que­zi­nha, cheia de espe­ran­ça.

Percebo a ideia. Já não tenho cor­po para sal­tos de bas­que­te­bo­lis­ta, pelo que subin­do ao ban­co pos­so ficar cara-​a-​cara com o bicho e esmagá-​lo.

Excelente estra­té­gia, mas nem pen­sar. Sentir-​me-​ia como se tives­se sido colo­ca­do em cima de um ara­me a milha­res de metros de altu­ra: se falhas­se o alvo e o bicho voas­se em dire­ção à minha cara, o mais cer­to seria desequilibrar-​me e par­tir as cos­te­las no chão.

Não, isto requer uma arma mais sofis­ti­ca­da como, por exem­plo, um mís­sil. «Vão bus­car a vas­sou­ra, depres­sa!»

Eles obedeceram-​me com tan­ta pron­ti­dão que por bre­ves segun­dos ain­da con­si­de­rei o poten­ci­al valor peda­gó­gi­co da mel­ga. «Se não fores já para a cama, vou dizer ali à mel­ga» – estão a ver, coi­sas par­vas des­te géne­ro.

E foi assim que nos livrá­mos do inva­sor, à vas­sou­ra­da. Devo ter mano­bra­do a vas­sou­ra como um joga­dor de bilhar pres­tes a expe­ri­men­tar a pri­mei­ra taca­da, por­que acer­tei à pri­mei­ra e ela caiu, ino­fen­si­va como um fio de lã. Vitória! Poderei ter regres­sa­do à cozi­nha mon­ta­do na vas­sou­ra como um Dom Quixote, com dois peque­nos Sanchos sal­ti­tan­do de alí­vio à minha fren­te, mas sou capaz de estar a exa­ge­rar.

A fobia, con­tu­do, não é exa­ge­ra­da. É caso para o divã do senhor Jung. Ou ses­são de hip­no­tis­mo. Aranhas? Mantenho uma cor­di­al dis­tân­cia: elas tecem as suas tei­as, eu teço as minhas. Osgas? Beijinho nelas. Ratos? Até lhes dou de comer à mão, se pro­me­te­rem não me mor­der um dedo. Tigres? Gatinhos gran­des, uns fofos. Elefantes? São os mai­o­res. Melgas-​boi? Um lamen­tá­vel erro que a Natureza deve­ria cor­ri­gir o mais depres­sa pos­sí­vel. Que receio, per­dão, que nojo!

Esta his­tó­ria tem um lado posi­ti­vo: depois de ter um mons­tri­nho daque­les dian­te do nariz, todo e qual­quer mos­qui­to­zi­nho que se apre­sen­te nes­ta casa será rece­bi­do com toda a cor­di­a­li­da­de.

Marco Santos

­Marco Santos

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